sábado, 31 de janeiro de 2026

BREVES APONTAMENTOS SOBRE A LITERATURA PRODUZIDA NO CARIRI


Lançamento da antologia:
Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia:
manifesto poético
(2024).


Da criação de textos dramáticos à criação de textos líricos e narrativos, o Cariri tem se caracterizado como um espaço de ampla produção literária. A tradição oral em nossa região é de uma riqueza inconteste (a lapinha, o reisado, a contação de histórias, os benditos, as lendas, dentre outras manifestações que trazem os valores do povo, comprovam minha assertiva). Desde que a escrita se manifestou no Cariri, em suas origens, a produção literária encontrou espaços possíveis de realização. Hoje, ainda temos construtos literários envoltos nas tradições orais, na tradição da literatura de cordel (ou de folhetos) e nas experiências literárias que se aprofundam esteticamente por não excluírem os valores da tradição ao desenvolverem obras modernas (e contemporâneas). Nesse mundo de potencialidades criativas imensas, existe, sim, uma diversidade de artistas. A seguir, mencionarei alguns nomes em uma lista, mas o farei certo de que ela não dará conta da vasta quantidade da produção literária caririense:

 

1. Inventário de seus abraços, de Jorge Nogueira

2. Chá da tarde e Valados de Giz, de Anchieta Mendes

3. Matozinho vai à guerra, de José Flávio Vieira

4. 72, de Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro

5. Auto do Caldeirão, de Mazé Sales

6. One Love, de Estrela do Sul

7. Dança das juremas, de Roberto Ferreira

8. Contra Banzo, de Karla Jaqueline Vieira Alves

9. Eu tenho medo de Gorki & outros contos, de Ângela Calou

10. Benjamim e Açucena, de Germá Martins

11. No mar de silêncio gritei poesia, de Natália Pinheiro

12. Nomes de terra, de Gilles Diniz

13. Rosário das aves e Conta, cordão e medalha, de Tiago Nascimento

14. As cartas de Maria, de Zulmira Correia

15. Memórias de Lince, de Janir Ribeiro

16. Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes

17. No útero não existe gravidade e Boca do mundo, de Dia Bárbara Nobre

18. Flashes e O melhor dos mundos, de Sidney Rocha

19. O Padre e o Romeiro, de Geraldo Menezes Barbosa

20. O inferno da guerra étnica de Kosovo, de Wilma Maciel

21. Extremos, de Maria Ferreira

22. A Pedra da Batateira e A cidade que veio das águas, de Fátima Teles

23. Flagrantes do tempo, de Maria Eurenice Coelho

24. Os interiores, de João Matias

25. Poemas embriagados, de Lívio Pereira

26. Canções para Abraxas, de Siddha Abraxas

27. Nacos d’alma, de Geraldo José de Oliveira

28. Objeto urgente, de Auricélio Ferreira

29. Cartas de um demônio, de Adílio Junior de Souza

30. Minhas 4 futuras ex-namoradas, de Thiago Mariano

31. Olhos celeiros, de Sheyla Xenofonte

32. No luar do sertão, de Cícera Mamede

33. Rastejos, de Weverton da Silva

34. Mais dia, menos dia, de Jana Cruz

35. Ruídos de artilharia, de Thiago Carneiro

36. É domingo, de Emerson Monteiro

37. Juazeiro anedótico, de Raimundo Araújo

38. O silêncio laminado no casulo, de Cleilson Pereira Ribeiro

39. O vento das minhas velas, de Luciana Coelho

40. Fuga pela claraboia, de Francisco de Freitas Leite 

41. O martelo mágico e Centelhas de magia, de Newton de Castro 

42. O baile das assimetrias e Romanceiros, de Émerson Cardoso

Juazeiro do Norte, que é a maior cidade do Cariri em termos demográficos, e o Crato dispõem de editoras (como fiquei sabendo há pouco tempo), porém elas ainda se mostram tímidas (por diversos fatores) com relação à democratização do acesso. Se publicar nessas editoras locais tem sido algo desafiador, imagina nas grandes editoras que, em sua maioria, estão localizadas nas capitais. Essas editoras não se abrem fácil sequer para quem está no eixo Rio/São Paulo, imagina para quem está no extremo Sul do Ceará. Seja porque, na atualidade, têm exigido temáticas específicas para as produções que financiam, seja porque optam por artistas integrantes de alguns nichos em alta no mundo editorial, publicar em grandes editoras é um desafio, embora algumas pessoas consigam furar a bolha (Jarid Arraes, Dia Bárbara Nobre e Sidney Rocha são exemplos de artistas que conseguiram fazê-lo).  

A literatura, aqui, tem circulado, felizmente, porque temos instituições e agremiações que fomentam a propagação dessa literatura (Universidade Regional do Cariri, Universidade Federal do Cariri, Centro Cultural Banco do Nordeste-Cariri, Centro Cultural do Cariri, Academias de Cordelistas do Crato e de Barbalha, Lira Nordestina, Academia de Letras Seccional Araripe, Clubes de Leituras, Coletivos etc.). Considero relevante demais que o Cariri produza arte, em todas as áreas, sobretudo a arte literária, mas gostaria de destacar o seguinte: não concordo com a ideia de que o Cariri tem que produzir uma literatura só para o Cariri. Temos que produzir, aqui, literatura para o mundo, sempre mantendo a liberdade de motivos a que acorremos em nossas experiências individuais. Assim, expandir experimentações estéticas, valorizar forma e conteúdo em construções originais e imaginativas, compartilhar experiências pelo uso efetivamente estético da palavra, sempre conscientes de que o nosso lugar de origem é o Cariri (com nossas cidades e seus valores inestimáveis para construção de pertencimento e de identidade), creio que são alguns dos caminhos possíveis. O Cariri está repleto de artistas que abraçam essas buscas e têm, desse modo, produzido obras, em sua maioria, significativas.  


Lançamento do livro de poemas Romanceiros
de Émerson Cardoso (2025).

Além disso, um fator importante de divulgação dessa produção são os Clubes de leitura. Acontecem em nossa região: o Clube do leitor do CCBNB-Cariri, o Círculo de leitura do Centro Cultural do Cariri, o Clube de leitura do Nordestinados a ler, dentre outros. Nesses espaços, temos a experiência da mediação que é indispensável para desenvolvimento do que Rildo Cosson, em Paradigmas do ensino de literatura, denomina letramento literário. Com eles, as pessoas podem ter acesso a leituras que, por vezes, ficam circunscritas ao espaço escolar ou universitário. Por isso, devem existir, serem propagados e valorizados.

Esses clubes e círculos são iniciativas que incentivam à leitura, certamente, e artistas caririenses também figuram com suas produções nesses espaços. Eu, por exemplo, mediei recentemente um Círculo de leitura proposto pelo Centro Cultural do Cariri (que foi realizado na sala de multimeios da escola em que trabalho). Nesse contexto, autoras do Cariri foram estudadas, dentre elas Neuma Xenofonte e Jarid Arraes. Em um dos encontros, a propósito, recebemos a visita  do escritor Sidney Rocha que, na ocasião, visitava a cidade e a escola em decorrência da Balada Literária Cariri. O Círculo de leitura envolveu professores do centro de multimeios, estudantes do curso de Letras da Universidade Regional do Cariri e estudantes da escola. Essa forma de mediação constrói incentivo à leitura e abre espaço para debates plurais, portanto merece toda atenção. 

Um exemplo notável de Biblioteca comunitária, dentre as muitas que existem no Cariri, é a Biblioteca Caminho do Conhecimento, localizada no Sítio Latão, em Santana do Cariri. Nesse espaço, impulsionado pela Professora Renata Lino, há o incentivo à leitura e o acesso democrático ao acervo disponível para consulta, pesquisa e leitura ao alcance da comunidade para a qual se destina.  

Na região, ainda sentimos falta de prêmios direcionados especialmente para nossas produções. Tínhamos, por aqui, o Prêmio de contos do SESC-Crato, no entanto, ao que parece, ele não tem mais acontecido (não tenho certeza se ele, de fato, foi extinto). Existem prêmios literários no Ceará, porém, que possibilitam o Cariri de apresentar suas obras. Dois deles são: o Prêmio Literário Demócrito (mais democrático e aberto aos valores cearenses) e o Ideal Clube de Literatura (que, embora aceite artistas do Ceará inteiro, realiza a cerimônia em datas inviáveis para quem vive longe da capital). Eu participei do I Prêmio Literário Demócrito Rocha e venci na categoria poesia. Isso foi importante, uma vez que abriu portas, me possibilitou a sonhada publicação em uma editora de renome (como é o caso das Edições Demócrito Rocha) e deu visibilidade ao meu trabalho. Existem outros prêmios, mas não os conheço com profundidade. Existem editais, com propostas de prêmios, que possibilitam a participação do Ceará como um todo, porém não os considero suficientes ou acessíveis, pois ainda são burocratizantes demais. 

Existe um histórico de várias produções de antologias em nossa região, porém farei pontuação de algumas realizadas entre os anos de 1988 a 2026. Tenho um projeto de pesquisa que busca catalogar com maior apuro essas produções, mas o projeto ainda está em fase inicial. Sendo assim, apresentarei apenas algumas dessas obras com seus respectivos organizadores:

            1988 - Juazeiro Poético (Raimundo Araújo)

2013 - Laboratório do caos (Cláudio Ricardo Reis Eduardo)

2018 - VII Coletânea de Contos (Sesc-Crato)

2018 - Mostra de Poemas Beata Maria de Araújo: Poemas para Maria (Rosana Pereira Marinho, Luciana Dantas e Renato Fernandes Oliveira)

2019 - Antologia Poética: escritores do Cariri (Elizângela Sampaio Leite, Antonio Romero Dodou e Émerson Cardoso)

2021 - Poemates Rosarvm (Adílio Junior de Souza, Sebastiana Micaela e Émerson Cardoso)

2021 - Cordel em homenagem a Gilmar de Carvalho (João Pedro e Rosário Lustosa)

2021/2026 - Coletânea de Textos: Nordestinados a ler (Luciana Bessa)

2012/2025 - Mostra de Poesia: Abril para a Leitura (CCBNB-Cariri)

2024 - Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (Émerson Cardoso)

2025 - Haicai-Cariri: antologia de haicais (Émerson Cardoso) 

Para concluir, considero pertinente que tenhamos esse olhar sobre o que nossa região tem produzido, porquanto localizamos uma diversidade de vozes que mostra o quão forte se mantém nossa vocação para a criação de literaturas (e notem que sequer apontamos a vastidão da literatura de cordel, esse gênero poemático ainda vivo e amplamente produzido por aqui). 

           Émerson Cardoso




sábado, 24 de janeiro de 2026

FOLHEANDO MANUAIS DE LITERATURA


Um panorama da literatura

brinca de passeio em obituários:

nomes, títulos e fotos

sem aprofundamentos biográficos.


Palavras certas de eternidade,

pulando incautas quando escritas,

no hoje são títulos curiosos 

que de leitura não têm garantia.


Certo é que o tempo espera

que alguém saia da página do manual,

com esperança de encontro festivo

que não aceita o morrer que se deu.


Quem vivo ou morto redefiniu estilos

paira perdido em papel e tinta,

quando qualquer água que o molhasse 

de imediato lhe apagaria.


Um manual de literatura 

é túmulo de glória já vivida,

mas ainda sobrevive algum nome

na memória que se pretende amiga.


E não precisa de angústia,

que a nenhum livro salvaria,

pois escrever é processo de vida

que falha se eternidade revindica.


Émerson Cardoso

20/01/2026

13h31

CRÔNICA: UM DOMINGO EM JANEIRO


Domingo de janeiro. Rodoviária de Russas. Luciene chegou ao local de trabalho antes das 6h. Chegou de ressaca com o humor de taurina que não pôde descansar da noite traiçoeira vivida.

Nem o caldo quente restituiu-lhe adequadamente as forças. Quem toma todas em véspera de dia de trabalho enfrenta a vida com gosto azedo na boca e a carne trêmula (era o que tinha para o momento). 

Ela contou a Inês, Tainá e Micaele que foi beber com uma amiga cuja mãe, com raiva da esbórnea da filha, chamou-a de "rapariga" e, não satisfeita, xingou tmabém as pessoas com as quais a ofendida se confraternizava.

Luciene não engoliu o desaforo: "Eu não sou rapariga, minha filha, eu trabalho e tenho responsabilidade!" Diante da afronta da mulher ranzinza, foi isso o que Luciene pôde dizer. Diria mil coisas, se lhe fosse dado tempo para o confronto, porque taurinos são calmos, mas quando se espalham, viu? 

Assim, com o estômago ressacado e ciente de que o desaforo de ser chamada de "rapariga" foi grande, recorreu ao ditado: "Galinha que acompanha pato, morre afogada". O ditado foi muito bem utilizado por Luciene, que encontrou a expressão adequada à sua realidade de moça que também tem o direito de se divertir, mas que foi xingada, sem merecer, porque foi acompanhar pato beberrão e terminou afogada em xingamentos. Como se não bastasse, ainda tinha que trabalhar em pleno domingo sob o caos da ressaca (ninguém merece)!

Luciene é dessas figuras marcantes (tem presença, apesar da baixa estatura). Ela é intensa no modo de falar, ri de si mesma, enfrenta a vida com determinação, bom humor e tem sonhos. Sim, ela quer ser da área do Direito. O pouco de convívio mostrou que ela seria uma excelente profissional nesse campo de atuação. 

Luciene é uma moça cuja vida não foi fácil. Desafios familiares, amores traumatizantes e vinte e poucos anos vividos com intensidade. O que será da vida dela? Ela realizará o sonho de fazer o curso de Direito? Será feliz no amor? Viajará pelo mundo? Se um dia eu reencontrá-la, gostaria muito de saber que ela realizou os sonhos e que era feliz. 

Aliás, nunca esquecerei da rodoviária de Russas (espaço no qual existem mulheres dignas que enfrentam as batalhas cotidianas com humor, força e coragem). Em tão pouco tempo de convívio, quanta coisa podemos aprender quando estamos abertos a escutar.

Émerson Cardoso

18.01.2026