
Lygia
Fagundes Telles publicou seus primeiros contos no fim da década de 30: Porão e sobrado, de 1938, Praia viva, de 1944, e Cacto vermelho, de 1949, obras das quais
ela só reedita alguns textos por dizê-las superadas. A primeira obra de grande
repercussão foi o romance Ciranda de
pedras, de 1954, e depois desta obra seguiu por uma carreira que legou às
letras brasileiras obras de profundidade tanto pela temática abordada, quanto
pela técnica narrativa. Sua obra apresenta personagens delineadas a partir de
sólida análise psicológica e, neste elenco, surgem mulheres construídas à luz
de lembranças deploráveis, frustrações afetivas, solidão e impulsos que, por
vezes, resultam em desespero e dor; estas mulheres podem ser senhoras de
terceira idade, adolescentes no auge da puberdade, mulheres inescrupulosas,
apaixonadas, suicidas, à beira da loucura, senhoras casadas ou mulheres
dicotomizadas entre a satisfação dos seus desejos e a incompatibilidade da
realidade em que estão inseridas, e trata, também, da homossexualidade feminina.
Ou seja, a versatilidade dos tipos que ela cria torna sua obra rica pela
construção de personagens que no espaço da narrativa assumem posturas as mais
diversas. É por meio delas que Lygia Fagundes Telles intensifica o conhecimento
do mundo interior do ser humano, pois realiza impecáveis investigações
psicológicas.
Para
colocar em pauta a discussão sobre o fazer literário desta autora, e
exemplificarmos o grau de densidade que ora atribuímos à sua prosa, apresento abaixo, como proposta de leitura, o conto “Papoulas em feltro
negro”, um dos contos da obra "A noite escura e mais eu", publicado em 1995, que
traz, em seu enredo, a não sutileza das relações com os seus “não ditos” e os
seus “por dizer”. O enredo apresenta um acontecimento simples e, de certa
forma, pouco original. Colegas de turma se reúnem, depois de anos, para
homenagearem uma velha professora que, para o narrador autodiegético, era uma
megera pouco merecedora de comemorações. O conto inicia por meio de um diálogo,
via telefone, entre a narradora e sua antiga colega de turma, que se chama Natividade.
O telefonema a conduz, sem dificuldades, mas não sem mal-estar, para um retorno
ao passado. Nele, se depara, sem muita alegria, com o desprazer de ter
conhecido a professora D. Elzira – alvo de sua mais severa aversão. No entanto, a verdade nem sempre pode ser auferida se considerada por apenas um ângulo de visão. Quem de fato é algoz ou vítima nesta história?
Se quiser descobrir, leia:
PAPOULAS EM FELTRO NEGRO
—
Aqui é a Natividade, você ainda se lembra de mim? — ela perguntou. — Fomos
colegas de escola, a magrela de cachos!
Afastei
um pouco o fone do ouvido, Natividade falava alto e a voz era metálica, Ainda
se lembra de mim? Revi a menininha comprida, de cachos úmidos enrolados na
vela. No cheiro da memória, uma vaga aragem de urina, ela urinava na cama.
—
Eu era a sessenta e sete e você a sessenta e oito. A gente vivia levantando a
mão para ir à casinha — eu disse e Natividade começou a rir o antigo riso de
anãozinho de floresta.
—
Hi, hi, hi!... E tinha outro jeito de fugir da aula?
Não
tinha não. A fuga era para a latrina que a gente chamava de casinha, um
cubículo com chão de cimento, os quadrados de papel de jornal enfiados num arame
preso a um prego e o vaso com o assento de madeira rachado. Ao lado, pendendo
da caixa da descarga, a corrente que ninguém puxava. O cheiro era tão forte que
eu prendia a respiração até o limite da tosse, tossia tanto que ficava sem ar e
então abria a porta e saía espavorida.
—
Inventamos uma homenagem à Dona Elzira, lembra dela? — perguntou Natividade. —
A nossa professora de aritmética está tão doente, vai morrer logo! Daí essa ideia
de reunir as meninas num chá na Confeitaria Vienense, que vai fechar, saiu da
moda. Mas lá tem piano, tem violino, já pensou? Fica mais alegre.
Apanhei
o cigarro que tombou no tapete, tomei um gole de conhaque e voltei ao telefone
pedindo desculpas, tive que fechar a janela. A Dona Elzira?
—
Lembro muito bem. Ela me detestava.
Natividade
deu uma risadinha e de repente ficou séria. Mas não era possível, ela falara em
mim com tanta simpatia, será que eu não estava fazendo confusão com aquela
outra professora
de geografia?
—
Dona Elzira é inesquecível — eu disse e tapei o bocal do telefone enquanto
tossia. Foi há tanto tempo e com que nitidez me lembrava dela. — Então está
doente? Me parecia eterna.
Nem
gorda nem magra. Nem alta nem baixa, a trança escura dando uma volta no alto da
cabeça com a altivez de uma coroa. A voz forte, pesada. A cara redonda, branca
de talco. Saia
preta e blusa branca com babadinhos. Meias grossas cor de carne, sapatões
fechados, de amarrar. Impressionantes eram aqueles olhos que podiam diminuir e de
repente aumentar, nunca eu tinha visto olhos iguais. Na sala atochada de
meninas que eram chamadas pelo número de inscrição, era a mim que ela
procurava. A sessenta e sete não veio hoje? Estou aqui, eu gemia nesse fundo da
sala com a frouxa fieira das atrasadas, das repetentes, enfim, a escória. Vamos,
pega o giz e resolva aí esse problema. O giz eu pegava, o toco de giz que
ficava rodando entre os dedos suados, o olhar perdido nos números do
quadro-negro da minha negra humilhação. Certa manhã a classe inteira se torceu
de rir diante da dementada avalanche dos meus cálculos mas Dona Elzira
continuou impassível, acompanhando com o olho diminuído o meu miserável
raciocínio.
—
A pobrezinha mora no inferno velho lá onde Judas perdeu as botas, as botas e as
meias! — disse Natividade. — Mas essa nossa pianista eu encontrei fácil.
—
Não toco mais, só leciono.
Natividade
ficou pensando. Quando desatou a falar, lembrou que já tinha escutado um disco
onde eu tocava um clássico mas apareceu um gato e tchum! arranhou o disco. Se a
agulha caía nessa valeta, acrescentou e riu, Hi, hi! A pergunta veio
inesperada, por acaso eu sofria de asma? É que a irmã caçula tinha uma tosse
igual.
Minha cara se fechou, mas como ela me ouviu
tossir? Pois ouviu.
—
Tive bronquite quando criança — eu disse e de repente descobri uma coisa
curiosa, a simples lembrança infantil me fazia tossir novamente. A tosse da
memória. — Mas sarei, esta tosse agora é nervosa, coisa da velhice.
—
Mas quem está velha? — protestou Natividade. — Você deve andar pelos cinquenta
e poucos, acho que regulamos de idade. Ou não? Somos jovens, meu anjo!
Animada
com essa ideia, ela começou um monólogo sobre seus dois casamentos, no primeiro
foi felicíssima, um esplendor de marido que morreu jovem, a sorte é que ficaram
quatro filhos. Mas na segunda vez, Cristo Rei! Que desastre. Começou a entrar
nos detalhes do casamento que chamou de burrada, mas sua voz e seus cachos
foram ficando distantes. Próxima estava eu mesma com o uniforme cor de café com
leite, escondendo entre os cadernos da escola um rolo de gaze e uma echarpe de
seda que minha mãe jogou no lixo e eu recolhi. A ideia me veio em meio de uma
aula e foi amadurecendo, alguém já tivera uma ideia igual? Um quarteirão antes
de chegar à escola, enrolava a gaze para atadura no pulso direito e depois
enfiava o braço na tipoia da echarpe. Antes, olhava em redor, nenhuma
testemunha? Carregava a mala na mão esquerda e fazia aquela cara dolorida,
Torci o braço num tombo de patins, não posso nem pegar no lápis. Nem no lápis
nem no giz. Até chegar a tarde em que arranquei a tipoia e entrei num jogo de
bola. Em meio da paixão da partida, o pressentimento, Dona Elzira estava me
vendo de alguma das janelas do casarão pardacento. Levantei a cabeça. O sol
incendiava os vidros e ainda assim adivinhei em meio do fogaréu da vidraça a sombra
cravada em mim.
Agora
Natividade falava dos netos. Passei o fone para o outro ouvido, mudei de
posição na cadeira e consegui interrompê-la.
—
Não, francamente, não tenho nada a ver com esse chá, Dona Elzira me detestava.
—
Cristo Rei! mas como você pode ser assim dura, a pobrezinha está com aquela
doença na fase final, tem os dias contados, um pé continua aqui e o outro já
está no Vale da Morte, não é impressionante? Meu pai, que era crente, dizia uma
coisa que nunca esqueci, quando alguém passa de um certo ponto da doença,
começa a fazer parte desse outro lado como se já tivesse morrido. O que é uma
vantagem, agora ela está mais fortalecida porque vê o que não via antes nas
pessoas, nas coisas.
Esfreguei
a sola do sapato na marca que o cigarro deixou no tapete. Até na hora da morte
essa Dona Elzira se amarrava no poder, ficou uma viva-morta invadindo os
outros, todos transparentes, Cristo Rei! era a minha vez de dizer. Tranquilizei
Natividade, podia enrolar os cachos, eu iria ao chá. Ela desatou a rir, cortara
o cabelo quando mocinha.
—
Dê então um lustre nessas ondas. E que o tal violinista toque a “Valsa das
Patinadores”.
Quando
me estendi no sofá, gemi de puro cansaço, fora o mais arrastado dos
telefonemas, uma carga. Tive vontade de cantar com a voz da infância a cantiga
de roda do recreio, No alto daquele morro passa o boi, passa a boiada
e também passa a moreninha da cabeça encacheada. A encacheada era a
Natividade remexendo com uma varinha o fundo lodoso da memória. Mas não sabia que
essa lembrança era para mim sofrimento? As quatro operações. As quatro
estações. Eu quis tanto ser a Primavera com aquele corpete de papel crepom
verde e saiote desabrochado em pétalas, cheguei a ensaiar os primeiros passos
no bailado das flores, Dona Elzira foi espiar o ensaio. No dia seguinte fui
avisada, outra menina ia entrar no meu lugar. Na Festa das Aves me entusiasmei de
novo, a Dona Elzira me pediu para decorar a poesia do pássaro cativo, vou
recitar! E quem contou a história do passarinho nas grades foi a Bernadete. Nas
vésperas da Festa da Árvore ela quis saber se eu tinha decorado alguma coisa
que falasse do verde. Vibrei, sabia de cor a poesia do pinheirinho de Natal,
podia começar? Juntei os pés, entrelacei no peito as mãos suadas para não ficar
com elas abanando no ar e contei a história do pequeno pinheiro que brilhou tanto
naquela noite de festa e depois... Ela tomava sua xícara de café. Ouviu, fez um
gesto de aprovação e chegou a sorrir, estava satisfeita. No dia da festa, fui
com minha mãe e sentamos na primeira fila porque assim ficaria mais fácil quando
eu fosse chamada ao palco. Depois que a Bernadete recitou a poesia das velhas
árvores, quando todos se levantaram e a cortininha se fechou, minha mãe me
puxou pela mão, Vamos. Na rua, continuou em silêncio e eu também muda, piscando
com fúria para segurar as lágrimas que já corriam livremente. Em casa ela me
segurou pelos ombros, Mas Dona Elzira disse que você ia recitar? Ela disse
isso? Vamos, filha, responda! Desabei no chão, quis falar e minha boca se
travou, estava certa do convite mas com minha mãe perguntando eu já não sabia
responder.
—
Atenção, meninas! — assim ela abria a aula. A gente então parava de conversar e
se voltava para vê-la com sua trança e seu talco no alto do estrado. — Atenção!
Eu
estava atenta quando entrei na antiga confeitaria com espelhos, toalhas de
linho e violinista de cabelos grisalhos, smoking, a se torcer todo
enlevado no compasso rodopiante da valsa. Parei atrás de uma coluna e fiquei
espiando, lá estava a mesa com um exuberante arranjo de flores. E Dona Elzira
na cabeceira. Estava de escuro, a cara meio escondida sob o enorme chapéu
preto, mas o que aconteceu? Tinha diminuído tanto assim? Não era uma mulher
grande? Deixei-a, queria ver antes as meninas no auge da excitação, juvenis nos
seus melhores vestidos. Reconheci Natividade, que ficou loura e gorda, os
cabelos curtos formando uma auréola em redor da cara redonda. Reconheci
Bernadete, a das poesias. Continuava ossuda e ruiva, mais frequente o tique
nervoso que lhe repuxava a face fazendo tremer um pouco a pálpebra direita. Ou
a esquerda? Ainda assim me parecia melhor agora, madura e contente com suas
pulseiras e casaco brilhoso. Não reconheci as outras duas matronas e nem me
interessei em saber, era a vez de Dona Elzira.
Que
estivesse velha, isso eu esperava, mas assim tão diminuída? Encolheu demais ou
eu a imaginara bem maior lá na sala de aula? E o chapéu, mas que chapéu era
aquele? A copa de feltro negro até que era pequena, grande era a aba com um
ramo de papoulas de seda postas de lado, umas papoulas desmaiadas, as pontas
das hastes tombando para fora.
Guardei
os óculos na bolsa e fui indo em direção à mesa, minha movimentação diante dela
ainda era em câmera lenta, a fuga começava quando ficava fora do seu alcance.
—
Perdão pelo atraso, mas o trânsito — comecei. E de repente me vi repartida em
duas, eu e a menina antiga com ar de sonâmbula, estendendo a mão para pegar o
giz.
Quando
me viu, endireitou os ombros e a cara foi se abrindo numa expressão de
surpresa, Ahn, você veio! Natividade levantou-se radiante e indicou-me a
cadeira ao lado da homenageada, A nossa pianista! Respondi logo às primeiras
perguntas, não estava mais tocando, não tinha marido e não tinha filhos mas de
vez em quando até que
passava o meu
batom, gracejei. Ninguém ouviu, todas falavam ao mesmo tempo numa aguda vontade
de afirmação, Vejam como estamos realizadas e felizes! Riam, trocavam confidências
na maior intimidade mas ficavam cerimoniosas quando se dirigiam à Dona Elzira,
tão próxima e tão distante com o seu empoeirado chapéu. Esse chapéu devia ter vindo
de uma caixa que se abria em dias de casamento, foi madrinha de um deles e
desde então ficou sendo o chapéu das festas com a aba ondulada de tão larga, o
ramo frouxo de papoulas quase escorregando para o chão. Inclinou-se e tocou na
minha mão. Senti seu perfume de violetas.
—
Minha aluna predileta.
Encarei-a.
Seus olhos pareciam agora mais claros sob uma certa névoa esbranquiçada, mas
poderia ser simples efeito de luz.
—
Aluna predileta, Dona Elzira? Mas a senhora nunca me aceitou — provoquei num
tom divertido.
Ela
tomou um gole de chá. Mordiscou um biscoito. Deixou-o na borda do prato e
acompanhou com interesse o garçom que me servia uísque. Esperou que eu bebesse
e então pousou a mão no meu pulso. Senti uma frialdade diferente nessa pele.
Aproximei-me para ouvi-la e de mistura com o perfume me veio dela um outro
cheiro obscuro e mais profundo.
Recuei.
Seus dentes pareciam ocos como cascas de amêndoas velhas sob o esmalte com
manchas esverdeadas.
Levou
a mão vacilante até os escassos cabelos brancos cortados na altura da orelha.
Teve um ligeiro movimento de faceirice para ajeitá-los melhor sob a aba do
chapéu. Tocou com as pontas dos dedos na minha blusa e como se fosse fazer um
comentário sobre o tecido, começou a falar, o fato é que eu era uma menina
muito complicada. Muito difícil.
—
Difícil?
Ela
moveu lentamente a cabeça. O chapéu teve um meneio de barco. Dificílima, minha
filha. Tomou fôlego e prosseguiu em voz baixa, eu não podia mesmo imaginar o quanto
se preocupara comigo, pensou até em falar com minha mãe, será que eu não tinha
sérios problemas em casa?
Sem
esperar pela resposta, acrescentou rapidamente que o mais estranho em tudo isso
é que eu passava de repente da maior apatia para a agressão, chegava a ficar
violenta quando apanhada em flagrante.
Fiquei
muda. Seus olhos que tinham aquele fulgor do aço me pareciam agora os olhos de
um cego.
—
Flagrante? Flagrante do quê, Dona Elzira?
—
Da mentira, filha — sussurrou e aceitou a fatia de bolo que o garçom deixou no
seu prato. Com a ponta do garfo ficou divagando pensativa pela fatia que não
provou. — Você mentia demais, filha. Mentia até sem motivo, o que era mais grave.
E se crescer assim? eu me perguntava e sofria com isso, tinha receio de algum
desvio do seu caráter no futuro.
Sei
como as crianças gostam de inventar, fantasiar mas no seu caso havia alguma
coisa mais que me preocupava... — Fez uma pausa. E baixou até o prato o olhar
sem esperança.
—
Sabe o que eu queria? Queria apenas que você fosse sincera, simples, queria
tanto que fosse verdadeira.
—
Prova! — ordenou Natividade deixando em minha mão um pãozinho de queijo.
Apontou excitadamente para os músicos. — Está ouvindo? A “Valsa dos
Patinadores” que encomendou.
Agradeci
muito, devolvi disfarçadamente o pãozinho à cesta e voltei-me depressa para
Dona Elzira, o encontro estava chegando ao fim e eu não podia perder tempo, ela
estava se distanciando, me escapava. Mas que me devolvesse antes essa imagem
que guardara de mim mesma e que eu desconhecia. Ou não?
—
Mas Dona Elzira, ninguém é assim nítido, a senhora sabe. Eu era meio tonta e
tão medrosa, como eu tinha medo!
—
Tonta, não, filha, você não era tonta. Medrosa, sim, eu via o seu medo e era
por causa desse medo que dissimulava.E eu querendo tanto que fosse corajosa,
que parasse de fingir antes que fosse adulta, todo fingimento é infame.
Alguém
deixou no seu prato um doce com cobertura de chocolate e que ela espetava com a
ponta do garfo, abrindo furos pelos quais um creme licoroso começou a escorrer.
Limpou com o guardanapo os cantos limpos da boca.
—
Mas por que ficar lembrando essas coisas? Você cresceu tão bem, filha. Meu avô
historiador costumava dizer que o que passou já virou história, não há mais
nada a fazer, nada. É virar a página. Hoje você é uma pianista importante...
—
Professora de piano.
Ela
quis dizer qualquer coisa. Sorriu. Pedi licença para fumar.
—
Claro, filha, fume o quanto quiser, nesta altura pode haver alguma fumaça que
me prejudique?
Voltou-se
para Natividade que lhe mostrava o retratinho da neta. Esvaziei o meu copo de
uísque. E de novo a tosse antiga ameaçando explodir. Fiz um esforço e
apertei-lhe delicadamente o braço.
—
Um momento, Dona Elzira, é que ainda não terminei, queria apenas lembrar uma
coisa, a senhora me rejeitou demais, lembra? Cheguei a pensar em perseguição, o
que eu mais queria no mundo era fazer parte daquelas festinhas na escola, eu
não sabia fazer contas, não sabia desenhar mas sabia tão bem todas aquelas
poesias das Páginas Floridas, decorei tudo, quis tanto subir ao menos
uma vez naquele palco! A senhora que me conhecia tão bem sabia dessa minha vontade
de vestir aquelas fantasias de papel crepom, o que custava? Por que me recusou
isso?
—
Mas você gaguejava demais, filha. E não se dava conta da gagueira, insistia. Eu
queria apenas protegê-la de alguma caçoada, de algum vexame, você sabe como as
crianças podem ser cruéis.
—
Minha neta, não é linda? — perguntou Natividade e me deixou na mão o
retratinho.
—
Linda.
E
não via o retrato, via a mim mesma dissimulada e astuta, infernizando a vida da
professora de trança. Então eu gaguejava tanto assim? Invertiam-se os papéis, o
executado virava o executor — era isso? Dobrei o cheque dentro do guardanapo e
fiz um sinal para Natividade, a minha parte. Despedi-me, tinha um compromisso.
Dona Elzira voltou-se e me encarou com uma expressão que não consegui decifrar,
o que quis me dizer? Quando tentei beijá-la, esbarrei na vasta aba do chapéu.
Beijei-lhe a mão e saí apressadamente. Parei atrás da mesma coluna e fiquei
olhando como fiz ao chegar. Tirei da bolsa os óculos de varar distâncias, precisava
pegá-la desprevenida. Mas ela baixou a cabeça e só ficou visível o chapéu com
as papoulas.
TELLES, Lygia Fagundes. Papoulas em feltro negro. In: A Noite Escura e Mais Eu. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.