domingo, 13 de agosto de 2017

CONTO: "RESSURREIÇÃO NA CHUVA"


“As rãs virão sobre ti, sobre teu povo”. (Êxodo 8: 4)

Nuvens de chumbo ocultam o crepúsculo. Obscurecida praça. Quantas almas podem perecer com o dilúvio que se forma?

Nas sombras da praça tomou forma um vulto que procurou um banco e sentou-se. Era um homem de longa barba, sórdido aspecto. Na ignorância de ser, ele trazia nas mãos um saco tão encardido quanto sua roupa. O muito perambular pelas ruas da cidade rendera-lhe pouco dinheiro naquele dia. Cansado, e com previsão de chuva, passeou a mão no rosto, deixou-a cair. O braço esquerdo estava enrolado em amarelecido pano que purpúrea ferida, de purulentas bordas, ocultava. Era partícipe do clã dos mendigos aos milhões que, em nação desumana, sequer são percebidos como seres capazes de alguma humanidade. Trazia embrulhada em sua mendicância o desejo de ser um grande homem – com que ineficácia movia-se pela existência. O homem-mendigo-fatigado-impotente encostou o encardido corpo no banco da praça e tentou descansar. Quem o discriminaria por tentar repousar seu lúgubre mundo naquela obscura praça? Com olhos que desciam ao chão suspirou.

Surgiu nas sombras outro vulto que aos poucos tomou forma. Procurou um banco, sentou-se. Era uma mulher em corpo de homem, ou era um homem em corpo de mulher? Vestido vermelho, salto alto, bolsa na mão, imensos seios que loiros cabelos cobriam. Tinha cílios postiços, forte maquiagem, anéis e cordões prateados. Tinha unhas avermelhadas e longas. Ao sentar-se, respirou profundamente. Por vezes foi, aquele ser artificialmente construído, objeto de uso de vários homens. De tanto lutar contra a suposta natureza que lhe determinara o sexo, fatigadx estava. Não escolhera. Agora, sentadx em praça obscurecida, não suportava mais o peso que a solidão pode proporcionar aos transgressores da terra. Olhava para si mesmx e sentia-se num cárcere. Era uma mulher, desde sempre, mas estava presx por indevassáveis grades. Segurando com força as grades, gritando com veemência, percebia-se mulher, mas quem teria compaixão de tirá-lx daquele corpo que não lhe pertencia? Até quando carregaria sua letra escarlate? A voz paterna. De tempos em tempos, irrompia a voz paterna e o flagrante: o amigo da escola estava despido em seu quarto quando o pai entrou. Retirou o sexo do amigo da boca e balbuciou pedidos de desculpa. O pai arrastou-x pelos cabelos, esbofeteou seu rosto, tirou sangue de suas costas, em seu pescoço pisou, em seu corpo frágil de meninx desnorteadx cuspiu. E a dor maior: “Em minha casa aberração não quero!” Frias podem ser as avenidas. Naquele instante, no entanto, queria ter querido outro querer. Não arrependimento, porém queria ter podido optar. A cabeça baixou. Mãos cruzadas. Permaneceu na praça com sua desenhada face.

Outro vulto surgiu. Procurou hesitante um banco e sentou-se. Uma moça de saia longa e preta, óculos, cabelos presos, nas mãos um livro, pés em baixa sandália. Gorda. Sentada, contra o peito apertou o livro. Queria, num aperto, morrer – para sempre morrer. Queria nunca mais para casa retornar (engástulo, jaula, cárcere, gaiola, cela, cadeia, masmorra, calabouço, prisão, túmulo). Libertar-se de si mesma queria: morrer seria pleno. Sentia-se feia, pelo mundo rejeitada. Detestava os olhares alheios. Quis, na penumbra, chorar. Lispector nas mãos – o marcador na página em que constava A fuga. E se dieta fizesse? Uma professora de trinta anos e feia e pobre e gorda e míope ainda poderia encontrar o amor? Deus cria os bonitos para que os feios sofram e assim paguem, com a sensação de inferioridade, seus muitos pecados? Sentia o mundo como uma pancada ocular sobre seu muito corpo. Melancolia intermitente invadiu-a. Tateou em si a culpa por sentir-se a mais feia do mundo e permaneceu, arfante, com seu pesar morando ao lado.

Mas vai chover. Árvores dançam sob o vento. Das águas vêm punhais prateados que almejam perfurar desamparados olhos. Quanto à chuva, ela cai torrencialmente.     

O mendigo poderia erguer-se e ir-se embora. Decidiu, no entanto, permanecer. O corpo, gradativamente, ensopava-se de uma chuva tão fria quanto cortante. Era, o mendigo, na ânsia de limpar-se das sujeiras do corpo, um homem em busca de apenas ser. Era fênix ressurgida da poeira das ruas e calçadas. A chuva, austera e barulhenta e intensa, carregava cansaços e angústias. E ele, por alguns segundos, não se sentia mais homem das ruas. Não, o que poderia haver de mendicância em si acabava de descer nas águas. Curada a ferida, vermelhidão e pus não mais.

Ela-ele poderia ter fugido da chuva, ter protegido a maquiagem. Poderia cobrir com as mãos o rosto e proteger sua bolsa. Não quis fugir, dessa vez toleraria as pancadas. Ela-ele, fênix maquiada, tiresiana das avenidas, poderia ressurgir das cores do esmalte, do vermelho do batom, da circunferência dos seios apertados no vestido curto? Poderia ser, dali para sempre, a mulher que sempre quis? Poderia livrar-se, definitivamente, da artificialidade da aparência, dos hormônios em cápsulas? Queria nunca ter sentido do pai o ódio. Se mulher fosse, desde sempre, mas... Ela-ele decidiu, portanto: deixaria o paterno olhar descer nas águas e seria, eternamente, mulher. Sem culpa sem medo sem remorso sem dor: mulher seria. Ela permaneceu sentada, vitoriosa, felicíssima, imersa em profundas águas de uma chuva que eriçava a pele. Não teria mais avenidas a percorrer com sonolência e medo.

A moça que se achava a mais feia e gorda e míope do mundo deixou o livro molhar-se. Abriu as páginas com desprendimento e contemplou, estática, as personagens de Lispector descerem nas águas. Ocorreu-lhe que, se naquele dilúvio não estivesse, estaria deitada, muito limpa, pensando nas discriminações vividas durante o dia. A cama seria aconchegante, porém o frio da chuva, naquele instante, era-lhe um oásis. Olhou-se nas gotículas de chuva que se aglomeravam em suas lentes, depois a chuva levou-as. Sem óculos, sentiu-se livre. A partir dali não precisaria enxergar o mundo. A necessidade de lecionar, a angústia de ser sozinha, o anseio de morrer, tudo estava água abaixo descendo. Agora, era uma ave fênix ressurgida das letras de uma página que poderia ser reescrita, pois, num súbito, nova mulher se fazia. O dilúvio retirava seus medos aos pares e ordenava-os numa arca que não se abriria jamais. Permaneceu sentada enquanto a chuva tateava-a com orgia e frivolidade.

Eu já posso chorar, pois na chuva as lágrimas ficam imperceptíveis. Sem julgamentos, meus olhos podem finalmente deslizar em águas. Eu já posso chorar, eu já posso nascer! – Foi o que disseram para si mesmos.

Quando cessar o dilúvio – será necessário repovoar o mundo. Todos esperarão um ramo que lhes absolva e redistribua vida.  

Cílios, maquiagem, unhas postiças, batom, molhados cabelos. Ela, na penumbra, para o mendigo olhou e refletiu: “Mais um cliente que quer me usar por dinheiro pouco, mas hoje não sou de ninguém mais!” Ao mesmo tempo, olhou para a mulher que estava sentada a certa distância – não a tinha percebido ali. Aquela sim era satisfeita com a vida, ganhou um corpo que sua alma conseguia comportar. Já a moça gorda viu uma mulher jovem e de seios extravagantes num dos bancos à frente e pensou: “Aquela moça a felicidade é: com tão perfeito corpo, que sofrimentos enfrentaria?” O mendigo olhou para as moças e sentiu vergonha de que elas percebessem sua ferida. Era intenso o silêncio que os engolia. Gritos aos arroubos, íntimos, denunciavam a miséria existencial que os aprisionava. Tentaram fugir uns dos outros – talvez não suportassem o fato de que a água da chuva os tinha exposto demais. Tentaram, de repente, fugir como quem sente medo de ser, por impiedosos predadores, devorado. 

Os três, molhados e sob uma chuva que recomeçava, ergueram-se de súbito. Estavam vivos, embora encharcados. Estavam vivos, embora incertos. Saíram ao mesmo tempo de seus respectivos bancos, porém ficaram estupefatos: as gotículas de água da chuva transformavam-se em rãs e sapos que, com barulho, caíam no chão. Imensos, sangrando, abertos olhos, bocas abertas, rãs e sapos. Vísceras expostas, e corpos alquebrados na queda, eles interditaram todas as saídas. 

A tríade marchou enfrentando bilhões de anfíbios agonizantes na obscurecida praça. O mendigo apertou o passo intimidado pela mulher que se equilibrava no salto, e mulher que sentia inveja da mulher gorda que tentava andar sem óculos e que, com destreza, pulava os animais empoçados. A chuva na praça caía sem cessar – contra o chão, novos anuros. Depois, cessou a chuva e a estiagem, para sempre, carregou os três seres ressurgidos das águas. 

E o mundo nunca mais foi o mesmo.

REFERÊNCIA

CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. Ressurreição na chuva. In: Breve estudo sobre corações endurecidos. Maricá - RJ: Ponto da Cultura, 2011.


CRÔNICA "O CHÁ", DE CLARICE LISPECTOR

 


 As imaginações que assustam. Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar. Até as cadeiras alugadas e trazidas para um terceiro andar vazio da Rua da Alfândega, este seria um bom lugar. Para essa festa eu convidaria todos os amigos e amigas que tive e não tenho mais. Só eles, sem nem sequer os entre-amigos mútuos. Pessoas que vivi, pessoas que me viveram. Mas como é que se volta da Rua da Alfândega ao anoitecer? As calçadas estariam secas e duras, eu sei.
Preferi outra imaginação. Começou misturando carinho, gratidão, raiva; só depois é que se desdobraram duas asas de morcego, como o que vem de longe e vai chegando muito perto; mas também brilhavam as asas. Seria um chá – domingo, Rua do Lavradio – que eu ofereceria a todas as empregadas que já tive na vida. As que esqueci marcariam a ausência com uma cadeira vazia, assim como estão dentro de mim. As outras sentadas, de mãos cruzadas no colo. Mudas – até o momento em que cada uma abrisse a boca e, rediviva, morta-viva, recitasse o que eu me lembro. Quase um chá de senhoras, só que nesse não se falaria de criadas.
– Pois te desejo muita felicidade – levanta-se uma – desejo que você obtenha tudo o que ninguém pode te dar.
– Quando peço uma coisa – ergue-se outra – só sei falar rindo muito e pensam que não estou precisando.
– Gosto de filme de caçada. (E foi tudo o que me ficou de uma pessoa inteira.)
– Trivial, não, senhora. Só sei fazer comida de pobre.
– Quando eu morrer, umas pessoas vão ter saudade de mim. Mas só isso.
– Fico com os olhos cheios de lágrimas quando falo com a senhora, deve ser espiritismo.
– Era um miúdo tão bonito que até me vinha vontade de fazer-lhe mal.
– Pois hoje de madrugada – me diz a italiana – quando eu vinha para cá, as folhas começaram a cair, e a primeira neve também. Um homem na rua disse assim: “É a chuva de ouro e prata”. Fingi que não ouvi, porque, se não tomo cuidado, os homens fazem de mim o que querem.
– Lá vem a lordeza – levanta-se a mais antiga de todas, aquela que só conseguia dar ternura amarga e nos ensinou tão cedo a perdoar crueldade de amor. – A lordeza dormiu bem? A lordeza é de luxo, é cheia de vontades, ela quer isso, ela quer aquilo. A lordeza é branca.
– Eu queria folga nos três dias de carnaval, madame, porque chega de donzelice.
– Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Comida é questão de sal. Lá vem a lordeza: te desejo que obtenhas tudo o que ninguém pode te dar, só isso quando eu morrer. Foi então que o homem disse que a chuva era de ouro, o que ninguém pode te dar. A menos que tenhas medo de ficar toda de pé no escuro, banhada de ouro, só na escuridão, mas só na escuridão. A lordeza é de luxo pobre: folhas ou a primeira neve. Ter o sal do que se come, não fazer mal ao que é bonito, não rir na hora de pedir e nunca fingir que não se ouviu quando alguém disser: esta, mulher, esta é a chuva de ouro e prata. Sim.



LISPECTOR, Clarice. O chá. In: ANDRADE, Carlos Drummond de [et al]. Elenco de cronistas modernos. 21. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. 

RESENHA: "UM SOPRO DE VIDA (PULSAÇÕES)", DE CLARICE LISPECTOR




Escrito ao mesmo tempo em que o livro A hora da estrela, que foi publicado em 1977 – ano em Clarice Lispector faleceu –, Um sopro de vida (Pulsações) está dividido em três partes: 1) O sonho acordado é que é a realidade, 2) Como tornar tudo um sonho acordado? e 3) Livro de Ângela.

Um sopro de vida foi apresentado ao público em 1978, em publicação póstuma, e traz à tona, assim como em A hora da estrela, a relação entre um autor – desta feita, não nomeado – e sua personagem – esta cujo nome já havia aparecido no conto A partida de trem.

Na epígrafe do livro, dispomos de citações do Antigo Testamento, no caso o livro de Gênesis. Também deparamo-nos com citações de Nietzsche, de Andréa Azulay e da própria Clarice Lispector.

Em seu primeiro parágrafo, o autor (p. 13)[1] – instância narrativa criada por Clarice Lispector – elabora uma espécie de prefácio em que aponta as direções a que acorrerá ao longo de sua escrita: “ISTO NÃO É UM LAMENTO, é um grito de ave de rapina. Irisada e intranquila. O beijo no rosto do morto”. Em seguida, em sua explanação sobre o ato de escrever, que nos remete ao tom metalinguístico recorrente na obra de Clarice Lispector, e também de intensa perscrutação, o autor (p. 15) afirma:

Tenho medo de escrever. É tão perigoso. Quem tentou, sabe. Perigo de mexer no que está oculto – e o mundo não está à tona, está oculto em suas raízes submersas em profundidades do mar. Para escrever tenho que me colocar no vazio. Neste vazio é que existo intuitivamente. Mas é um vazio terrivelmente perigoso: dele arranco sangue.


Já Ângela Pralini é apresentada nesse suposto prefácio. O autor (p. 19) diz: “Escolhi a mim e ao meu personagem – Ângela Pralini – e para que talvez através de nós eu possa entender essa falta de definição da vida”.

A propósito, surgem intensas especulações existenciais tão ao estilo clariciano. Palavras como vida, morte, liberdade, felicidade, verdade, mentira, realidade vêm à tona e tomam maior proporção à medida que o autor passa a discorrer sobre sua escrita e sobre a criação de sua personagem.

Neste sentido, na primeira parte é possível observar que o autor, bem aos moldes do texto teatral, coloca o nome Ângela em destaque e elabora algumas informações sobre ela – o que é atípico é que, embora tratando-se da descrição de uma personagem ficcional, o autor a apresenta a partir de seu comprimento, largura, profundidade sempre relacionando-a consigo mesmo.  Em seguida, ele (p. 27) explica como a concebeu: “TIVE UM SONHO NÍTIDO inexplicável: sonhei que brincava com o meu reflexo. Mas meu reflexo não estava num espelho, mas refletia uma outra pessoa que não eu”.

Daí em diante, o autor elabora suas explanações até que resolve dar voz à Ângela que, mais uma vez, como percebemos nos textos teatrais, tem seu discurso enunciado a partir da indicação de seu nome que surge, concomitantemente ao nome do autor, em caixa alta.

Este recurso, que também nos remete ao estilo dos textos filosóficos de Platão, em que suas ideias são apresentadas a partir de diálogos, faz com que percebamos a personagem se descortinar de modo gradativo até que, libertando-se das limitações impostas pela visão do autor, ela ganha voz e, consequentemente, seu próprio livro. Temos, com isto, uma reflexão sobre a condição da personagem que chega a tão alto grau de intensidade interior que ultrapassa os limites da visão do autor que a engendra.

Segue-se, na segunda parte, que é a mais curta do livro, e sempre com ênfase na especulação metalinguística, uma reflexão do autor sobre o quanto poderia ser grandioso, para seu livro, se ele fosse capaz de criar acontecimentos que representassem um “estrondo” ou, como subentendemos, um clímax que desse ao texto status de narrativa aos moldes tradicionais. O autor discorre sobre a necessidade de tais acontecimentos, no entanto não faz concessões às exigências que estabelece para si mesmo: sua criação segue transgredindo os ditames estipulados, provavelmente, por concepções mais tradicionais sobre a narrativa e seus componentes.

Na terceira parte, intitulada O Livro de Ângela, deparamo-nos com a ‘criação da criação’, uma vez que o autor perde o controle sobre sua personagem e ela passa a construir sua narrativa ou, como ela denomina: seu “romance das coisas”. De fato, ela desenvolve uma espécie de catalogação de coisas, de objetos que a instigam, que a desafiam – ocasião em que ela, numa curiosa retomada de textos anteriores, menciona textos como O ovo e a galinha e Sveglia. Ressalte-se, neste jogo catalográfico, a explanação sobre joias, que vai desde a observação liricamente construída sobre pedras preciosas até a elevação do caco de vidro, que ganha status e é colocado ao lado das joias. Poltrona, relógio, vitrola, casa, borboleta, carro, lata de lixo, dentre outros, são algumas das “coisas” sobre as quais ela discorre para, mais adiante, fazer emergir temas universais que tornam sua reflexão uma incursão filosófica de amplas proporções.

Ao fim, Ângela traz à tona, dentre outros temas, dois dos mais intensos: a morte e Deus. Sobre a morte, dentre outras especulações neste sentido, ela afirma (p. 128): “Às vezes, só para me sentir vivendo, penso na morte”. E ela elabora questionamentos metafísicos quando se indaga (p. 128): “Será que depois da morte começa a abstração?” Quanto a Deus, ela diz em dois momentos, na tentativa de defini-lo, que (p. 128): “Deus não é o princípio e não é o fim. É sempre o meio” e “Deus é como ouvir música: repleta o ser”. Inúmeras reflexões sobre Deus se seguem a esta, a ponto de Ângela realizar, em momento de intenso lirismo na obra, uma oração com a qual encerro este texto:

Meu Deus, me dê coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.
(p. 151 – 152)

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de vida. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.




[1] A partir daqui, mencionaremos apenas o número da página. 

segunda-feira, 26 de junho de 2017

REFLEXÕES SOBRE MEMÓRIA: RELATOS DE EXPERIÊNCIA


A memória, já me advertira Lygia Fagundes Telles no conto Papoulas em feltro negro, um dos meus favoritos, superdimensiona demais as coisas. Nem sempre o que ela insiste em mostrar corresponde, de fato, à realidade.

Depois de dez anos, eu precisei entrar na casa de minha bisavó – eu já não era mais aquele cujo coturno fez ressoar passos de juventude redescoberta aos dezoito anos – e fiquei perplexo. Eu sempre me referia àquela casa como o casarão, meu Deus! Mas não, não era um casarão: era uma casa até bem pequena, de paredes simples e portas contíguas. Aquela casa era de tal modo imensa para mim, de tal modo representava grandezas físicas e emocionais que, ao reencontrá-la, já sem minha bisavó em seus recantos, fiquei em silêncio estranho.

Não era um reencontro decepcionado o que se dava, não era isto. Estava mais para uma constatação amedrontada: se fui capaz de me iludir por tanto tempo sobre aquele espaço, eu poderia estar me iludindo em relação a tantas outras cenas e cenários vividos com intensidade por minha memória que guarda demais...

Não, Deus, não estou me reclamando da minha memória – ela é tudo o que tenho, ela é tudo o que sou. Mas descobri assustado, não sem tristeza e solidão, que a memória é campo denso, capaz de forjar cômodos inexistentes, de redefinir caminhos com acenos em dias escuros. 
             
 *

Hoje, por acaso, encontrei uma canção que eu escutava em 1998, quando eu tinha catorze anos. Esta canção eu ouvia antes de ir para a escola, num canal de televisão, toda manhã. Depois de um tempo, a emissora não mais a exibiu e eu, impedido pela vida e seus reveses, nunca mais a encontrei, ou a escutei. Eu repetia sua melodia na memória sem saber nada sobre sua letra ou título – a letra é escrita em língua inglesa e a emissora não exibia seu título.

Quase vinte anos depois, eu a encontrei. A canção que minha memória resguardou por tanto tempo me veio, finalmente, em tarde fria de junho. Eu fazia pesquisa sobre o tema do amor, para uma palestra, e, na tentativa de ouvir canções agradáveis durante a organização do material a ser explanado, a encontrei – a internet tem seus pontos positivos. Eu a escutei à exaustão. Não sou mais o menino de catorze anos que a contemplava sem qualquer consciência de si mesmo e tão cheio de medos. Agora, tenho algum relance de vida, já sei me defender, ainda que pouco. Não sofro tanto, não vivo de sombras, não desejo que me venha o fim capaz de me salvar de mim mesmo.          


sexta-feira, 16 de junho de 2017

COMO FAZER UMA RESENHA CRÍTICA II (MODELO)


PARTES DE UMA
RESENHA
MODELO DE
RESENHA CRÍTICA

Título da resenha


Da tevê para as telas de cinema

Autor da resenha


Celso Sabadin

Apresentação da obra: informações básicas sobre o filme: título, produção, direção, gênero...


Assim como já havia acontecido com Os normais, agora é a vez de a Globo Filmes produzir A grande família – O filme, baseado no seriado de sucesso, visando principalmente levar para o cinema o público acostumado com a televisão.


Resumo: apenas fatos essenciais, sem apresentar o “final da história”. Os nomes dos atores que interpretam as personagens aparecem entre parênteses.


A comédia mostra como Lineu (Marco Nanini) e Nenê (Marieta Severo) se apaixonaram num baile. Muitos anos depois, já casados, Lineu descobre que deve prestar atenção ao seu estilo de vida por causa de um problema de saúde. No entanto, suas novas atitudes causam confusões gerais. Para piorar, Carlinhos (Paulo Betti), com quem Lineu disputava o amor de Nenê na juventude, está de volta.


A que tipo de público o filme vai agradar ou não. Observe que a opinião do autor transparece no uso de adjetivos, advérbios e outras expressões que expressam juízos de valor.



O humor rápido, rasteiro e bem interpretado por um elenco experiente faz do filme uma opção sem muitos riscos para as plateias que seguem o seriado na telinha. O mesmo não se pode dizer em relação ao público de gosto mais cinematográfico, que não verá na tela grande nada muito diferente do que já foi explorado pela TV.


Aspectos positivos e negativos, justificados com que foi observado no filme.


O grande mérito do filme é o elenco afinado e o timing correto. O grande problema é o roteiro, que carrega a pretensão de contar três vezes a mesma história, sob três pontos de vista diferentes, o que acaba prejudicando o ritmo cômico.


Conclusão do texto. Potencial de sucesso do filme.





Bem produzido e com a divertida breguice romântica de Roberto Carlos na trilha sonora, A grande família – O filme tem bom potencial de sucesso popular.






COMO FAZER UMA RESENHA CRÍTICA I (CONCEITO)



Gênero textual publicado em jornais, revistas e sites, tem como principal objetivo apresentar a opinião do crítico sobre um filme. Algumas resenhas oferecem análise mais aprofundada. Outras apenas uma rápida análise sobre a obra.
Você deve ter notado que, embora a resenha apresente a opinião do crítico, o texto é escrito em terceira pessoa. A linguagem varia entre o formal e o semiformal.
     Para escrever uma resenha, é preciso assistir ao filme com atenção e registrar alguns dados sobre ele. Segue um roteiro para orientar sua observação e fazer registros.
·        
      Ficha técnica: título do filme, gênero, diretor, produtor, ano, país, atores etc.;
·         Trama / enredo;
·         Personagens principais: características;
·         Interpretação dos atores;
·         Cenários;
·         Figurino;
·         Trilha sonora;
·         Fotografia (observar como as cores e a iluminação são usadas no filme);
·         Outros itens que você considerar importantes, dependendo do filme escolhido.
         
          É interessante ler outras resenhas. Antes de escrever sua resenha, faça um plano de texto, no qual você vai decidir que informações serão apresentadas em cada parágrafo. Ao terminar, faça a revisão do texto. Confira se estão presentes as seguintes partes textuais:

·         Apresentação do filme;
·         Resumo;
·         Aspectos positivos e negativos;
·         Conclusão (fechamento).

REFERÊNCIA:

ALMEIDA, Neide Aparecida [et al.] . Linguagens e culturas: Linguagem e códigos: ensino médio. São Paulo: Global, 2013. p. 237 – 238.








segunda-feira, 5 de junho de 2017

CORA CORALINA


MUTAÇÕES

Muita rua da cidade
mudou de nome.
Ritintin - mudou de nome.
Chafariz - mudou de nome.
Rua Nova - mudou de nome.
Detraz da Abadia também.
Beco virou travessa.
Outras, nem nome têm.
Rua do Fogo se apagou,
nas vielas não se toca.
Beco da Morte é pecado.
Do Cotovelo é suspeito.
Rua Joaquim Rodrigues
virou 13 de maio,
passou pra Joaquim de Bastos.
Não sei onde vai parar
tanta mudança de nome.
Mudar nome de rua é fácil.
Mudar jeito de rua, não.
Dar calçamento e limpeza
é coisa muito impossível.
Só não mudou nome em Goiás
o Beco da Vila Rica.
Por ser muito pobre e sujo
contrário lhe assenta o nome.
Se há de ser beco do sujo pobre
seja mesmo da Vila Rica
com toda sua pobreza.

PEDRAS

Os morros cantam para meus sentidos
a música dos vegetais
que se movem ao vento.
As pedras imóveis me enviam
uma bênção ancestral.
Debaixo de minha janela
se estende a pedra-mãe.
Que mãos calejadas
e imensas mãos sofridas de escravos
a teriam posto ali,
para sempre?
Pedras sagradas da minha cidade,
nossa íntima comunicação.
Lavada pelas chuvas,
queimada pelo sol,
bela laje velhíssima e morena.
Eu a desejaria sobre meu túmulo
e no silêncio da morte,
você, uma pedra viva, e eu,
teríamos uma fala
do começo das eras.


MINHA CIDADE

Goiás, minha cidade...
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.
Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.
Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas
onde se debruça
um antigo jasmineiro,
cheiroso
na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas
cochichando umas com as outras,
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.
Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.
Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as vibrações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.
Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.

Eu sou Aninha.