quinta-feira, 11 de agosto de 2016

ENCONTRO À MARGEM DO RIO ESTIGE (ou romance do amor desencontrado)


Entrai, triste alma,
Eu vou te levar...

Não posso, Caronte,
Que viver me agrada.

O amor descobri
Nos olhos de alguém!

Alguém, triste alma?
Quem é este alguém? 

Que amo sozinho
É tudo o que sei.

E quero voltar,
Lutar pelo amor...

Adeus, triste alma,
Findou-se o teu tempo.

Não posso, Caronte,
Tenha compaixão!

Vivi tão perdido
E o amor encontrei...

Deixai-me voltar,
Por Deus! Por favor!

Nunca, triste alma,
Teu tempo acabou!

Entrai em silêncio,
É longa a jornada...

Por favor, Caronte,
Preciso da vida!

O amor renasceu
Salvando-me as horas!

Os dias são claros,
O céu mais florido...

Suspiros sedentos
Renovam meu corpo...

Caronte, eu imploro!
Preciso voltar!

Lamento, alma triste,
Mas vou te levar!

Não vês minhas lágrimas?
Não vês minha dor?

Preciso voltar,
Encontrei o amor!

Émerson Cardoso
14/09/2016


BREVE COMENTÁRIO SOBRE "AUTO DA BARCA DO INFERNO", DE GIL VICENTE, E "O AUTO DA COMPADECIDA", DE ARIANO SUASSUNA


O Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, foi publicado em 1517 e tem como cenário fixo duas embarcações, numa espécie de porto imaginário para onde as almas vão após a morte. Uma barca é representada por um Anjo, que simboliza o paraíso, e a outra é representada pelo Diabo que, como se pode supor, simboliza o inferno. Os acontecimentos se dão a partir do momento que as almas chegam ao porto – estas passam a ser julgadas pelas ações que realizaram durante a vida – e deparam-se com os dois barcos e seus condutores.
Uma característica importante na obra é o fato de que o autor apresenta tipos sociais representativos da Nobreza, do Clero e do Povo. Várias antíteses são explanadas: Anjo/Diabo, Céu/Inferno, Bem/Mal, Vida/Morte, Pecado/Santidade, dentre outras. Com relação aos aspectos formais, e a utilização de montagens e cenários, o teatro de Gil Vicente é simples, não segue as três unidades do teatro clássico: ação, lugar e tempo.
            O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, foi publicado em 1957, e reúne características da literatura de caráter medieval associada à literatura de cordel, manifestação literária muito difundida no Nordeste brasileiro. Ela apresenta as ações do herói espertalhão João Grilo e de seu fiel escudeiro Chicó, numa cidade repleta de tipos representativos, assim como na obra de Gil Vicente, da Nobreza, do Clero e do Povo.
Após um ataque de cangaceiros à cidade de Taperoá, o Padre, o Bispo, o Padeiro e sua Esposa, o cangaceiro Severino e João Grilo são mortos e vão para o céu, ocasião em que deparam-se com Jesus Cristo – Manuel – e com o Diabo – o Encourado. As personagens, por terem realizado ações pecaminosas durante a vida, passam a ser julgadas, tendo como acusador o Encourado. No auge do desespero, e da possível punição pelos pecados que realizaram, elas contam com a esperteza de João Grilo, que pede a Manuel para ser defendido por Maria – a Compadecida –, ao que é atendido.
            Após esta síntese, percebemos o quanto as obras em pauta dialogam entre si por apresentarem, nos seus respectivos enredos, situações muito próximas. Como exemplo, temos o fato de que as personagens de ambas as obras se deparam, após a morte, com um julgamento em que, pelas ações realizadas em vida, podem ou não serem salvas tendo como punição os castigos do inferno por toda eternidade. Nos trechos seguintes, de modo sucinto, podemos perceber traços formais que apontam para um diálogo entre os autores – consideremos, neste caso, que Ariano Suassuna era admirador confesso da obra de Gil Vicente.
A linguagem utilizada por Gil Vicente na obra é rica em arcaísmos, e os diálogos foram produzidos com rimas e redondilhas maiores; Ariano Suassuna, por sua vez, reproduziu traços linguísticos típicos de certos locais do Nordeste, e teve preocupação em apresentar diálogos rápidos, concisos, fortemente marcados pelo humor e pela ironia que lhe são peculiares. Para exemplificar, leiamos os trechos das respectivas obras. O primeiro trecho é do Auto da Barca do Inferno (VICENTE apud TAKAZAKI, 2009, p. 33):

FIDALGO:

Ao inferno, todavia!
Inferno há i pêra mi?
Oh triste! Enquanto vivi
Não cuidei que o i havia:
Tive que era fantesia!
Folgava ser adorado,
Confiei em meu estado
E não vi que me perdia.

Venha essa prancha!
Veremos esta barca de tristura.

DIABO:

Embarque vossa doçura,
Que cá nos entenderemos...
Tomarês um par de remos
Veremos como remais [...]

            Neste trecho, o autor expõe a falta de fé de um fidalgo que, ao se deparar com a ideia da punição divina após a morte, repensa suas ações e lamenta a certeza de que não pode mais mudar os fatos. No trecho que apresenta a fala do Diabo, percebemos a ironia com que este fala, o tom inquisidor e cruel é forte, e o desespero do fidalgo é inegável mediante a acusação.
            A seguir, temos um trecho da obra Auto da Compadecida (SUASSUNA, 2005, p. 121):

SEVERINO

Ai meu Deus, vou pagar minhas mortes no inferno!

BISPO

Senhor demônio, tenha compaixão de um pobre bispo!

ENCOURADO

Ah, compaixão... Como pilhéria é boa! Vamos todos para dentro. Para dentro, já disse. Todos para o fogo eterno, pra padecer comigo. [...] Arrogância e falta de humildade no desempenho de suas funções: esse bispo, falando com um pequeno, tinha um orgulho só comparável à subserviência que usava para tratar com os grandes. Isto sem se falar no fato de que vivia com um santo homem, tratando-o com o maior desprezo.
                                                                                                                                                                                                 
Nestes trechos da obra de Suassuna, a linguagem apresenta traços modernistas na simplicidade dos termos empregados, além de diálogos rápidos, curtos, o que dá certo dinamismo ao texto.
No trecho de ambos os autores, temos a fala dos possíveis condenados ao inferno e o julgamento do Diabo. No primeiro, o Diabo é irônico, lida com crueldade diante do desespero do fidalgo; no segundo, o Diabo mantém a mesma característica de ironia, crueldade e assume o papel de acusador das faltas do indivíduo como se este fosse conhecedor contumaz das ações realizadas pelos homens que julga. Ambos se pautam na ideia de condenação pelo comportamento maledicente do homem, e ambos apresentam o aspecto religioso como pano de fundo da análise do comportamento do homem na sociedade em que este está inserido.
A hipocrisia social, o materialismo, o desprezo aos valores espirituais e a crueldade das relações humanas são temas comuns às obras em discussão, o que as torna, sem dúvidas, próximas apesar da distância temporal de séculos, e de certas diferenciações formais apresentadas.

REFERÊNCIAS

SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 35. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2005.


TAKAZAKI, Heloisa Harue. Língua Portuguesa: ensino médio – volume único. São Paulo: IBEP, 2004. (Coleção Vitória Régia). 


ALGUMAS DAS CENAS MAIS COMOVENTES DO CINEMA (PARTE I)


Algumas cenas cinematográficas permanecem tão profundamente em nossa memória que assustam. Elas tendem a nos comover por quantas vezes a elas acorrermos. Um exercício interessante – pensei – seria retomá-las com fins de compartilhamento. Eis, portanto, algumas das tais cenas que mais me comovem no cinema:

DUMBO: A mãe de Dumbo, que está presa, o embala ao som da canção Baby Mine. Aparecem, enquanto ela canta, demais animais com os seus filhotes. O ratinho, que proporcionou o encontro entre eles, enxuga uma lágrima e, ao fim da canção, Dumbo vai embora deixando sua mãe na prisão...

PECADOS ÍNTIMOS: Ronnie (Jackie Earle Haley) é encontrado sozinho no parque e lamenta a morte da mãe. Ele, sentado num balanço, e chorando como uma criança abandonada, diz a Sarah (Kate Winslet) que a mãe dele foi embora. Ele, que era pedófilo, se automutila.

TITANIC: Quando Rose (Kate Winslet) vai descendo no bote salva-vidas, enquanto Jack (Leonardo DiCaprio) a observa, e ela, num gesto tresloucado, resolve voltar para o Titanic que está prestes a afundar – eles correm e encontram-se num abraço compungido. 

A FESTA DE BABETTE: A cena do jantar que Babette (Stéphane Audran) oferece ao vilarejo que a acolhe por ocasião da fuga que ela empreende – ela tenta fugir da França durante a repressão à Comuna de Paris.

CONTA COMIGO: Quando os meninos se despedem após vivenciarem as aventuras que constituem a enredística do filme.

CENTRAL DO BRASIL: Dora (Fernanda Montenegro) vê, por uma janela, César (Othon Bastos) ir-se embora. Ela havia passado batom, antes disto, para parecer mais bonita.

INDOMÁVEL SONHADORA: Hushpuppy (Quvenzhané Wallis) chora, mesmo tendo assimilado o conselho do pai de que nunca deveria chorar.

LAÇOS DE TERNURA: Aurora (Shirley MacLaine) se enfurece no hospital em que a filha está internada.

O SENHOR DOS ANÉIS: Samwise Gamgee (Sean Astin) atira-se na água para cumprir sua promessa de que jamais abandonaria Frodo (Elijah Wood) em sua jornada.

CINEMA PARADISO: Salvatore (Jacques Perrin) retorna à sua cidade após ter permanecido, por ordem de Alfredo (Philippe Noiret), longe dela durante anos.

RÉQUIEM PARA UM SONHO: As personagens, numa sequência, aparecem deitadas como se estivessem em posição de feto.

O RESGATE DO SOLDADO RYAN: A morte do soldado médico do grupo, Irwin Wade (Giovanni Ribisi).

A COR PÚRPURA: Quando Celie (Desreta Jackson) é separada de sua irmã Nettie (Akosua Busia).

DANÇANDO NO ESCURO: Selma (Björk) caminha para o cumprimento de sua sentença.

ANJOS DO SOL: Inês (Bianca Comparato) é punida porque tentou fugir da prostituição em um garimpo.

O GAROTO: Tentam levar o garoto (Jackie Coogan) que Carlitos (Charles Chaplin) adotara e este corre ao seu encontro, para impedir que o levem.

A CORRENTE DO BEM: Pessoas de vários lugares vão em peregrinação à casa de Trevor (Haley Joel Osment), ao som de Calling all angels, interpretada por Jane Siberry.

O AUTO DA COMPADECIDA: O discurso da Compadecida (Fernanda Montenegro) ao remeter-se ao sertanejo nordestino.

MARY AND MAX: UMA AMIZADE DIFERENTE: Quando Mary, carregando seu bebê, entra no apartamento de Max.







RESENHA CRÍTICA: "MOTO-CONTÍNUO", DE TIAGO NASCIMENTO SILVA


Ao concluir a leitura do livro Moto-contínuo, do professor, músico, contista e poeta Tiago Nascimento Silva, veio-me a ideia de que eu poderia, a princípio, procurar uma palavra que o resumisse. E a palavra encontrada foi: desencanto. Desencanto, porém, não numa perspectiva pejorativa, mas no mais estético sentido do termo.  
Tiago Nascimento Silva atira sobre seus textos a necessidade, mais que pertinente neste século em que nos arrastamos pelos escombros da barbárie, de observar o mundo com vieses realistas. Já no primeiro poema, por exemplo, deparamo-nos com um eu lírico que vislumbra a realidade com olhares pesarosos e angustiados, como é o caso de Transbordamento: “Percebi que estava doente / meus dias ficando sem cor / só via flores morrendo / tudo era choro, era dor”. Isto, no entanto, não o impede de encontrar um lenitivo para alma, ou seja, a poesia, como possibilidade de expurgação de seus males interiores, é o seu subterfúgio: “Mas hoje minha vida está calma / consumi quem me consumia / o que faltava em minh’alma / era um pouco de poesia”.
Parece uma luz no fim do túnel o encontro do eu lírico com a poesia – esta figura como uma quase “entidade” que surge no irremediável do cotidiano e é capaz de sufragar o desânimo, a angústia e a dor que ele rumina.
O fazer poético, neste sentido, torna-se um meio catártico e, consequentemente, “salvacionista”. Não devemos, contudo, nos deixar enganar por esse tom “otimista” presente no primeiro texto. O que se segue, e isto podemos confirmar ao ler a maior parte dos poemas, é uma visão pessimista, desencantada e derrotista da existência.
Exemplificamos nossa assertiva com, pelo menos, três poemas: 1) A dança das engrenagens do universo, 2) Conferência internacional da decadência humana e 3) Catarse.
A dança das engrenagens do universo é um poema filosófico. Do ponto de vista formal, o uso de anáforas, a repetição de palavras do campo semântico da negação e períodos curtos remetem ao tom provocativo e autoafirmativo do eu lírico. Nele, percebemos o tom contraditório do discurso de um eu lírico que, por um lado, expressa revolta e afirma, inconformado, sua insatisfação ante o esvaziamento do ser e ante o nada, que pode camuflar-se em discursos construídos socialmente e tendem à imposição de “regras”, de “teorias” e até da “felicidade”. Ele não aceita tais imposições e brada: “Não me venham com regras, / Não me tragam teorias, / Não existe felicidade”.
Por outro lado, ao dizer, incisivamente, que tudo “se resume a nada”, e repetir que os dias, as noites e as vidas são “todas iguais”, e que “nada é o que existe”, percebemos mais uma nuance do eu lírico: o ser inconformado dá vazão ao ser estático, paralisado e incapaz de assimilar o mundo em que está inserido como passível de mudança a partir de suas próprias ações. Se nada mais “há”, qualquer esforço para alterar o rumo das coisas seria um esforço vão. Sua luta consiste, apenas, na tentativa de expurgação, de insatisfação e insolência. Tão hiperbólico quanto desiludido, o eu lírico está enredado na teia perigosa de um cotidiano percebido como algo inalterável. Ele está fechado em sua visão de que há uma verdade “paradoxal” e “inexorável”, assim qualquer esforço seria inútil – ele restringe-se a sentir o nada no que há de mais patético e irremediável. O eu lírico tenta justificar, neurótico, sua reação agressiva: “Não é mau humor, nem melancolia, / nem tristeza, nem pessimismo. / Não é nada”.
O título Conferência internacional da decadência humana nos remete, de certo modo, ao texto de Carlos Drummond de Andrade: Congresso internacional do medo. Em mais de um texto, ressaltemos, percebemos a influência de Drummond sobre a escrita de Tiago Nascimento Silva. No poema deste, o eu lírico apresenta, na primeira estrofe, quatro indagações. Dentre elas, merece destaque: “Quem fez dos meus olhos estes poços secos de paisagem estática?”
Em resposta, o eu lírico afirma algo que nos lembra do teor do poema Retrato, de Cecília Meireles: “Olho para os meus braços / vejo carne morta, pele engelhada, veias à mostra, / o padecimento de uma glória que não tive”. A sensação de deterioração do seu corpo reflete, inequivocamente, a sensação de sua alma, que é reforçada pela visão pessimista que, por não suportar o mundo, espaço em que “tudo é dor”, e em que o indivíduo está fadado, schopenhauerianamente, “a arrastar um corpo até a escuridão eterna”, e o impele à morte.
Assim, ele expõe: “Quero morrer. / Espero morrer. / Preciso morrer. / Sinto-me tão decrépito e inútil que nem morrer eu consigo”.  No desfecho, cujo efeito é muito bem delineado, mais uma vez percebemos a influência de Drummond, desta feita na linha do que ele apresenta no poema Cidadezinha qualquer. O eu lírico conclui: “Enquanto a foice não me decepa os dias, / sento-me a espreitar o céu, / introjeto o universo em meus olhos / e percebo o quanto a vide é besta.
Em Catarse, um dos poemas mais longos do livro, o eu lírico inicia seu discurso com a tese: “A vida foi feita pra ser sofrida”. A dor, para ele, surge personificada e, sádica, “procura um peito em que habitar”. Contra as amarras da dor, segundo o eu lírico: “Não há como fugir”. A dor, no entanto, após ser descrita como a mais atroz das figuras para a condição humana, paradoxalmente é vislumbrada como possibilidade de crescimento e “evolução” existencial – e por que não dizer espiritual!
Talvez isso nos remeta a uma visão masoquista expressa pelo eu lírico, que se compraz em sofrer porque disto resulta a capacidade de compreender “o que é a vida”. É certo dizer, neste caso, que a dor, antes personificada como algo terrífico a que fatalmente o ser estaria submetido, passa a ser pensada como um mal necessário, pois conduziria o indivíduo à consciência de si mesmo, do outro e do mundo.  
Doer torna, por este ângulo de visão, o indivíduo mais apto a evoluir, a tornar-se coerente em suas posturas, a sufragar suas culpas – numa perspectiva judaico-cristão bem possível à leitura desse poema. No mundo líquido, termo utilizado por Bauman, a dor é percebida como canal por meio do qual o indivíduo seria capaz de, pelo que apreendemos do eu lírico, perceber suas fragilidades e as dos outros. O eu lírico afirma, neste sentido: “Não há roupa bonita / aparelho eletrônico / posição social / conta bancária / carro”, pois “a vida não tem sentido”.
Como solução, para a dor cruel e fatal, embora benéfica para o ser, e para a falta de sentido da vida, o eu lírico aconselha: “Senta contigo mesmo / no silêncio sepulcral da noite / puxa pra dentro de si todo o ar que pode (enquanto pode) / [...] Não se desespera / não se desengana (apesar de a vida ser essa farsa circense)”. Ele completa, ainda, que “só a dor é positiva / na mesma inexorabilidade ora descrita, / pois é através dela, / e só dela, / que abandonamos a carcaça das preocupações individuais / e nos dilatamos na sobriedade líquida da alteridade”.
Além disso, precisamos mencionar poemas que causaram surpresa e despertaram a mais sincera simpatia: 1) O gume da faca (espécie de poema concreto que faz um trocadilho criativo com a palavra “obrigado”), 2) Poema dadaísta (que é o vazio, o oco, o nada ou, no dizer de Parmênides, o não-ser), 3) A chave da poesia (texto metalinguístico que discorre sobre a beleza do fazer poético, e que o defende contra visões pouco afeitas à sua grandeza), 4) O gari (poema contundente que mostra, em tom cinematográfico, o anonimato de um gari capaz de cantar, apesar do pouco reconhecimento de sua função e de seus males da alma), 5) Tristeza suturada na carne (uma confissão da tristeza que se apodera da alma sem que se possa dela fugir, pois ela seria fruto de uma condição fatalista impossível de ser alterada), 6) Cântico da última esperança (o eu lírico afirma arrastar-se pela vida em busca de sentido e sente a esperança ir-se, para sempre, embora) e 7) O ciclo fechado dos dias (poema concreto realizado em formato esférico que sugere o ad infinitum da existência humana envolta no cotidiano e seus tédios inevitáveis).
Podemos dizer, para nos situarmos quanto à produção do autor, que Moto-contínuo é seu segundo livro[1], de modo que ele ainda está em busca de seu estilo e de seu leitmotiv. O que observamos, porém, é que os poemas estão repletos de vozes líricas perdidas em atmosfera de irrealização, sofrimento e desilusão – e isto os enriquece consideravelmente. A maior parte deles traz temas instigantes, alguns são bem delineados e dispõem de uma linguagem prosaica adequada à ideia de Mário de Andrade, que via na criação literária moderna a reivindicação pelo “direito à pesquisa estética”.
É certo que, em busca de consolidar seu estilo, um poeta tende a experimentar formas diversas de expressão e, desse modo, ainda hesita entre um ou outro modo de expressar-se demonstrando, aqui e ali, alguns excessos, inadequações linguísticas e descuido quanto ao conteúdo e à forma. Com Tiago Nascimento Silva não é diferente, no entanto sejamos coerentes e façamos justiça: pouco falta para que sua produção poética alcance o espaço da segurança, da originalidade temática e da expressividade linguística.
Com relação a isto, por exemplo, vejamos o soneto Luta vã. Neste caso, seria mais pertinente que ele tivesse produzido um soneto sem preocupações com a métrica, um soneto de versos livres, sem apuro ou rigor formal. Ele tentou, no entanto, produzir um poema com os ditames do gênero e terminou não conseguindo um bom resultado, tendo em vista o problema com as rimas – que parecem forçadas –, com a métrica – ora contamos 10 sílabas poéticas, ora contamos 11 e 12 – e com uma inadequação na palavra “guerrear” – provavelmente problema de digitalização. O tema, porém, está bem concatenado com os demais textos do livro, também algumas imagens são criativas, mas o texto em si não está bem acabado.
Para além desses pontos, há em seu livro crítica social, perspectivas políticas, percepções filosóficas, um bom trabalho com a linguagem, títulos altamente criativos, imagens e desfechos bem delineados. Em nenhum momento os poemas de Tiago Nascimento Silva são vulgares, obscuros, frágeis em suas temáticas e em seus aspectos formais. Assim como os contos que ele produziu em seu Teoria do sofrimento, metafísica da dor ou filosofia de um triste, publicado em 2014, seus poemas são contundentes, angustiantes e densos – o que os tornam dignos de leitura e análise e admiração –, ao mesmo tempo em que são reflexivos, provocativos e realistas. O mundo, para as vozes líricas de Tiago Nascimento Silva, aparentemente está vazio, sem norte, sem possibilidades de melhores dias, mas, no fundo de tudo, há, sim, um resquício de esperança – e esta contradição é o que de melhor localizamos em Moto-contínuo.
Se alguém perguntar a Tiago Nascimento Silva o que ele faz da vida, ele pode responder, como o faz o eu lírico do poema Sobre conversas e voos: “Poesia”. E, com isto, ele falará a mais pura verdade!

SILVA, Tiago Nascimento. Moto-contínuo: a mecânica do desespero. Pará de Minas, MG: VirtualBooks, 2016.

Cícero Émerson do Nascimento Cardoso
20/09/2016




[1] Em 2015, com o também poeta Jonas Jandson, Tiago Nascimento Silva publicou o livro Quarenta e dois

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

CRÔNICA: "O AMOR SEGUNDO QUEM-AMA-SEM-AMAR"


Rilke[1] aconselha a um jovem poeta: “Não escreva poesias de amor. Evite, de início, os temas demasiado comuns: são os mais difíceis”. Será que o conselho não deveria estender-se também aos que se aventuram a escrever prosa? Sim, certamente.
            Apesar de ter consciência disto, eu decidi escrever sobre o muito discutido amor. O amor, neste caso, na perspectiva apontada por Platão em sua obra O Banquete. O amor como busca, desejo, necessidade de consolidação.
Outro dia alguém me perguntou se já amei e eu disse que não escreveria se nunca tivesse amado, no entanto eu sequer sei responder pergunta tão séria. Se eu amei algum dia não foi, certamente, com base na visão propagada ardorosamente pelos canais que a este assunto se reporta.
Se amei ou amo, perguntou-me o alguém, a quem direciono tal amor? Isto não importa, pois dizer que amo alguém não trará este alguém para mim. E amar é totalmente contrário ao ato de exposição – ao menos no meu caso –, porque sou avesso a declarações mais explícitas. E costumo dizer, contrariando visões mais telenovelísticas, que a confissão de amor é uma falha sem precedentes numa relação afetiva. O amor deve ser expresso, mas não com palavras. Confessar a alguém o amor sentido é um risco desnecessário – o que é mistério instiga.
O contrário do amor é o ódio? Perguntaram-me. Fui incisivo: não. O contrário do amor é a indiferença, a inexistência de qualquer afeto direcionado a quem fora antes alvo de sentimentos profundos e verdadeiros. O ódio só reforça os desvelos do amante para com o ser amado.
Uma pessoa está perdida se amar? Sendo capaz de amar com sofreguidão sem que haja reciprocidade, sim, porque, se amor é busca e possibilidade de encontro, o ser que ama sem ser amado está perdido irremediavelmente. 
Dizem em músicas sobre amor uma série de coerências e incoerências. Ninguém disse, no entanto, sobre esse vocábulo o que eu preciso escutar. Talvez Djavan, na música Faltando um pedaço, aproximou-se sutilmente do que eu poderia supor como definição ou explanação ou expressão do que o amor poderia ser em sua beleza e essência. Em francês, foi Edith Piaf com seu L’hymne à l’amour.
Cansei: escrever sobre amor é piegas. O povo no Brasil e no mundo vende produto demais sobre amor. Lamento que amar seja explorado por jogatinas de marketing, porém discutir sobre o assunto também é piegas. Amar sempre será piegas? Algumas histórias exploram a pieguice do amor e tornam-se grandes clássicos.
Tenho a impressão de que se alguém descobre que a gente ama é possível que este utilize o nosso amor para demonstrar todo desamor de que é capaz. Dizem, ainda, que amor pode matar, pode destruir, pode ser feroz, pode até dilacerar a alma. Mas isto não é paixão? O amor é tão absorvente assim? Não sei. Talvez o amor não seja do tipo que se entrincheira, ou pelo menos não deveria, em insanidades ou vicissitudes tumultuárias. Em verdade, amar pode fazer-se com urgência sem que se entenda como aconteceu e deve preservar o mínimo possível uma ilusão de harmonia e coerência.
Amar é complicado: ter a sensação de que alguém é indispensável é deprimente demais: amar dói e pensar sobre isto também. Os frágeis da nação nunca saberão lidar com parcimônia quando estiverem enredados por ele. Amar exige cuidado, pois pode conduzir o amante para abismos – e ninguém se prepara para queda que não sabe que vai acontecer. Amar parece uma dor sem fronteiras para o mais-doer-a-cada-instante. Amar é doação exagerada quase devastação do um que se funde ao outro.
A pergunta novamente. Se amei ou amo? Tenho receio de dizer, ou tenho vergonha, ou tenho incerteza? Está bem, falarei a verdade: não. Ou sim? Digamos que não: então estou em paz por todo sempre. Digamos que sim: e, se não morri, foi porque aprendi a respirar em condição de afogamento.
            Carlos Drummond de Andrade pergunta, no poema Amar, presente no livro Claro Enigma[2]: “Que pode uma criatura, senão entre criaturas, / Amar?” Este extraordinário poema diz muito sobre o amor, porém me indago se não pode instigar demais o indivíduo a deixar-se seduzir pelas idealizações e conduzi-lo às amaríssimas sendas do amor e suas vicissitudes.
            A propósito, Rachel de Queiroz, em O Quinze[3], diz: “Ora o amor!... Esta história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforma as conveniências”. Internalizei de tal modo o realismo de Rachel de Queiroz que parece improvável que isto mude em mim...
O amor, no entanto, sou eu querendo chorar sem conseguir, porque choro é confissão e luta. É também a nublação que me vem em solitários dias. É sentir o peso de saber amar e não saber não ser amado. Dificilmente se é amado como se quer, ou se é amado por quem se quer. Eu preciso passar por esta vida tirana sem ter amor correspondido – tragédias particulares são valiosas para transformarem-se em escrita. Ou, sei lá, neste vale de contradições o que mais busco não é, senão, amar e ser amado? Talvez eu tenha nascido para problematizar o assunto, para vivê-lo jamais. Madame Bovary amou e sofreu as consequências, mas ela se defende: “Eu amei, e isto importa!”
A respeito do amor, não, ele ainda não me veio. Ainda estou isento de suas dilacerações. Eu me disponho, porém, humilde, apesar do orgulho corrosivo de que sou vítima, a pensar mais sobre e a não fugir quando, por ventura ou desventura, o amor aparecer e demonstrar que merece ser vivido, porque não estou disposto a amar a quem não descobriu dele seu valor e sobriedade.
Os amantes sofrem muito. Tendem a suportar pesos ingentes. Eu não estou disposto. Se o mundo pode ser paz sem que abismos ambicionem nossos pés, por que reverter isto e procurar sendas de dor e desengano? O amor riu de mim, depois explodiu minhas mãos sempre vazias. Dizem que amar pode ser gratificante, no entanto esta ação pode doer arroubos.
Clarice Lispector disse, em O ovo e a galinha[4]: “O amor é quando é concedido participar um pouco mais”. Disse, ainda: “Amor é a desilusão do que se pensava que era amor”. Talvez eu tivesse muito a dizer sobre o que poderiam representar, para mim, estas ideias loucas de Lispector, escritora de densidade ímpar, mas prefiro apenas compartilhar estes trechos sem explicação ou análise. Amar pode ser somente fruição. 
No mais, que eu prossiga meu caminho por sendas solitárias. Medo é roupa que muito aperta, no entanto devemos resguardá-lo com intentos de melhor nos proteger. Antes que o sol se ponha, talvez, me virá o amor que ainda não veio. Ou talvez nunca venha e eu o espere – judeu silente a velar a estrela d’alva após arrebóis de sangue. Quem sabe o amor já não tenha vindo – pobre do amor que passou sem ser reconhecido!
         O amor, sei lá, parece rir de minha incapacidade de vivenciá-lo. Melhor que seja assim, afinal prefiro ser motivo de riso a ser propensão ao choro. E, obviamente, o mundo continuará a girar se o amor não vier me ver. Portanto: "Vae solis".
Émerson Cardoso
27/07/2016




[1] RILKE, Rainer Maria. Poemas e cartas a um jovem poeta.  Tradução de Geir Campos e Fernando Jorge. Rio de Janeiro: Saraiva, 2013. p. 80.
[2] ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. 10. ed. Rio de Janeiro: Recordo, 1995.
[3] QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. 58. ed. São Paulo: Siciliano, 1993.
[4] LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. São Paulo: Ática, 1977. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ROMANCE INCONFORMADO (ANIVERSÁRIO DE JUAZEIRO DO NORTE -CE)


I
Ó cidade dos romeiros
Que à mercê da própria sorte
Debulha preces sentidas,
Quem te dará proteção
Contra facínoras, crápulas,
Que te roubam vorazmente
Eleição-pós-eleição?

Ó cidade atormentada
Pela falta de respeito
De monstruosos políticos,
Quem brigará por tuas lutas?
Quem te dará novos homens
Que resguardem teus valores
E que tenham gestos dignos?

Ó cidade sobranceira
De nordestinas sapiências
E de imponente memória,
Quem salvará do abandono
Teus recantos e riquezas?
Esqueceram-se de ti,
Desprezaram tua história?

Ó cidade inconformada,
De trânsito insustentável
E precária infraestrutura,
Quem te vê que não deseja
Novos rumos, novas eras,
Renovação dos teus bairros,
A segurança nas ruas?

II
Separamo-nos do Crato,
Vencemos Franco Rabelo,
Progredimos largamente,
Ó cidade dos romeiros!

Mas por que nós sucumbimos
Perante a ausência de escrúpulos
De políticos infames
Mil vezes incompetentes?

Padre Cícero fez tanto
Para construir Juazeiro!
Juazeiro é seu milagre:
Não carece de cuidado?

Ante a sânie de políticos
Que desprezam seus exemplos,
Que faremos, ó cidade,
Lar e abrigo de romeiros?

Queria limpar-te as feridas,
Lavar teus olhos chorosos.
Verter abraços queria
Sobre ti, cidade minha!

Queria salvar-te, Juazeiro,
Dar-te futuro honroso.
Abrir-te as mãos com preclaras
Aconchegar-te em meu peito.

Ó cidade resistente,
Tenho pouco para dar-te.
Meus versos inconformados
São um presente simplório.

Mas os entrego, humilde,
E espero ver-te, quem sabe,
Assistida e refulgente
A vestir novas roupagens!


CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. Romanceiro do Norte Juazeiro. Virtualbooks Editora: Pará de Minas, 2014.

CRÔNICA: "TRATADO SOBRE A DOR"

"Big Man", de Ron Mueck 
Tarefa difícil esta de escrever quando se está doendo. Creio que temos consciência de nossa humanidade por meio da dor, por isto nunca nos isentaremos de vivenciá-la em algum momento. Quem pode ser superior à possibilidade de doer?
Há quem sinta prazer na dor – os masoquistas que o digam –, há quem sinta prazer em fazer doer – prerrogativas dos sádicos. Não podemos ver só um lado da moeda: por acaso um ser humano pôde aprender algo sem doer um pouco que seja?
Alguém me disse que uma mãe dói a pior dor quando morre um filho. Outro dia a vida me possibilitou ver uma senhora de oitenta anos chorando a morte do filho que morreu de ataque fulminante do coração. E eu, que presenciei a cena, permaneci em silêncio. Que palavra vai retificar a cratera daquele dileto coração?
Ainda vi dor quando uma amiga de infância foi embora – mas esta dor eu prefiro fingir que não aconteceu. Foi comigo também a dor quando morreram familiares queridos. Dor por mim e por aqueles que não sabiam doer como eu.
O tempo apaga tudo para alguns, para mim não: basta uma lembrança que a dor volta inteira. Não é só isso que pode ser considerado: uma foto de um tempo distante, uma música de melodia nostálgica, palavras que são retomadas numa conversa oportuna...
No dia em que visitei a primeira escola em que estudei na vida, quantas surpresas me aguardava a dor! Eu sempre fui de lembrar, mas não contava que seria capaz de ver meus colegas de dor infantil correndo naquele pátio. Cada lado do pátio, cada sala, meu Deus, quantos momentos passados que talvez só eu, numa existência toda, seja capaz de sentir como se fosse agora.
            Para entender a dor temos que ter sensibilidade. Algo que me sensibiliza é ver, diante de mim, a humilhação dos outros. Não gosto que punam os outros na minha presença. Lembro-me de que no período do serviço militar sofria mais pelos outros do que por mim. Vou fazer uma confissão: eu transcrevia as conversas que eu tinha com os meus companheiros de farda. Ia colhendo informações sobre eles e, sem que eles soubessem, colecionava, em forma de escritos, suas dores.
          Outro dia alguém me disse que a pior dor que existe é ficar em solidão. Outro já disse que é ficar sem a mãe. Outro que é perder o grande amor da vida. Mas consenso geral é que a dor pode triturar corpo e alma. E disto tenho receio.  
Na obra Dora, Doralina, de Rachel de Queiroz, a personagem protagonista inicia sua narrativa dizendo que: “A vida toda é um doer”. Concordo e digo mais: a vida toda, a meu ver, corresponde a um confronto intermitente contra a dor. Doer não é fácil até para os mais fortes.
Tive um amigo que um dia me disse que o slogan da sua vida era: “Viver a vida de todos os modos possíveis sem considerar a dor”. Este amigo tentou suicídio duas vezes, na terceira quase morreu – a verdade é que ele doía por amor.
Por que discorro aqui sobre dor? Eu sentia uma espécie de dor e decidi escrever sobre o assunto, porém agora cesso este texto porque de tanto escrever sinto dor nos dedos. Doer, sobretudo ao frágeis, é exercício insuportável.
A dor, segundo Celso Pedro Luft, é: sofrimento físico proveniente de doença, ferimento; tormento moral; aflição; dó, pena; remorso, arrependimento. Se ele diz, quem sou eu para desdizer? Mas que fique bem claro: a dor dói em mim e doerá até que a dor total se instale em mim e leve-me à sepultura. E isto parece não doer, mas me ampliar. É como se a dor realizasse tarefa renovadora e representasse possibilidades de sabedoria e experiências que me serão valiosas por toda a vida.
Uma indagação de repente me atormenta de tal modo que chega a doer: se viver é sentir dor a conta-gotas, como será a dor que antecede a morte? 

                                                                                               Émerson Cardoso