terça-feira, 27 de março de 2018

A ILUSTRE SENHORA DA RUA DE SÃO BENEDITO


(Para Etelvina Cabral)

Maria Raquel da Conceição. Era este seu nome. O nome de uma das mulheres mais fortes que já conheci. E quando digo forte não digo apenas por sua imponente estatura e fortaleza do corpo, que eram características notáveis, mas por ela ser uma mulher que suportou muitas dores na vida.
Estou vendo-a agora, sentada à cabeceira direita da mesa, sempre impetuosa e capaz de impor a quem quer que fosse aquele seu modo de ser. Impressionava que uma mulher que não estudou soubesse tanto. Era capaz de dizer com educação as mais duras palavras, mas sabia dizer a verdade também sem poupar o ouvido daquele que merecesse uma boa exortação.
Lembro-me sempre dela e, quando a trago à memória, é como se ela ainda estivesse na velha casa da Rua de São Benedito na qual ela viveu a maior parte da vida.  
Os netos e bisnetos chamavam-na de Mãezinha. Ela era cheia de manias: tinha a xícara em que costumava tomar os fortes cafés que muito estimava; o cachimbo que fumava apertando bem o fumo com uma brasa; a colher que ela dizia que era sua e com a qual sempre comia; os longos vestidos pregueados; a trança – meu Deus, a protegida trança de palha que ela produzia pacientemente para fazer chapéu e que se alguém molhasse poderia ser punido ferozmente –; o anel de ouro que tinha a letra inicial do seu filho Ivo, que morreu em Goiás; as sandálias da marca Samello, pretas e de rosto; as mãos compridas e cheias de veias sobre a mesa; o olhar atento que dava com a porta da entrada que vivia sempre aberta para quem quer que fosse – mesmo sob protesto da filha que não casou e que se sentia invadida com a muita visitação da casa – e o cabelo muito crespo e grisalho que prendia em nó centralizado sobre a cabeça com auxílio de vaselina e de um pente preto. 
Na casa da Rua de São Benedito havia algo que muito lembra Dona Maria Raquel: a imagem de uma Nossa Senhora das Dores que ela conservava há anos num zelo sem tamanho. A santa tinha um manto azul com detalhes dourados e o rosto de tristeza pelo filho na cruz. Eu sempre contemplei àquela imagem e só me vinha à mente a ideia de que se um dia alguém a quebrasse Dona Maria Raquel, além de ficar muito triste, poderia matar o desastrado.
O Coração de Jesus, muito antigo, ficava logo acima da mesa do santo. A moldura deveria ter sido produzida no começo do século XX. Havia outros santos muitos: na porta da entrada estava o Padre Cícero, e na outra porta, que tinha sido fechada há séculos, estava São João segurando o carneirinho tranquilamente. A renovação da casa acontecia no dia de São Pedro. Neste dia, Dona Maria Raquel ficava pensativa e, às vezes, chorosa.
Nascida em Barbalha, no dia 15 de abril de 1917, veio para o Juazeiro do Norte ainda menina. Com certeza, como muitos nordestinos que fizeram a vida nesta terra, veio por estar certa de que poderia contar com a proteção do Padre Cícero. E assim foi. Ela mesma disse-me várias vezes que na terrível seca de 1932, quando seu pai precisou sair da cidade à procura de trabalho, ela ficou com a mãe e o irmão mais novo em situação de muita privação. Ao contar suas histórias do “outro tempo” – era assim que ela se referia a seu passado – costumava fazer inúmeras pausas.  
Ela, certa vez, num dia de domingo, ao contar esse episódio de sua vasta vida começou a chorar lembrando-se certamente da mãe e do irmão naquele tempo de sofrimento. Sua mãe estava fraca e o irmão estava de “beiço branco” de fome – era neste trecho que ela costumava chorar –, aí aproveitou que uma madrinha ia à casa do Padre Cícero pedir ajuda e a acompanhou. Como a menina Maria Raquel sabia que no Buriti, caminho do Crato, o povo ia buscar mantimento mandado pelo governo, para os flagelados da seca, ela decidiu que deveria pedir consentimento ao padre e ir com sua mãe para tentar conseguir algum auxílio.
Ao chegar no casarão da Rua São José, local em que o padre morava, ela teve que pedir três vezes até escutar a enérgica pergunta do padre tido como santo: “Você quer que sua mãe morra?” Ao que ela respondeu: “Quero não, meu Padim!” E ele disse mais uma vez: “Pois se sua mãe for ela vai morrer, já viu?” E chamando uma das beatas que o auxiliava, ordenou que entregasse à menina alguns “tões” e alguns “vinténs”, e ordenou que a menina fosse buscar o dinheiro todo dia. Ela recebeu a quantia por quase três meses. Ao receber a quantia pela primeira vez, ela foi para a feira e comprou alguns mantimentos e uma pequena quantidade de fumo que sua mãe, quando a recebeu em plena felicidade, começou a chorar. E Dona Maria Raquel, lembrando-se da mãe, chorava também.
Além desta história que eu escutei várias vezes, sem que ela nunca se contradissesse, lembro-me de suas recordações sobre um gato. Ela dizia que só tinha sorte se criasse gata, porque gato dava problema.
Certa vez ganhou um “gato macho”, quando meninota, e um dos irmãos chutou o bendito gato não se sabe o porquê. Segundo ela, houve uma briga tão dos diabos que eles derrubaram uma parede. Ela dizia rindo que o irmão disse a seguinte desfeita: “Vou olhar se essa nega é homem, ou mulher!” Foi briga feia e intriga por toda uma vida.
Além de ter convivido com o Padre Cícero e ter brigado em defesa de seu animal de estimação, ela também colocou vela na mão de muitos que estavam agonizando e foi parteira. Muitas crianças nascidas na Rua de São Benedito, daquela época, foram colocadas no mundo com sua ajuda – ela tinha equilíbrio emocional invejável.  
E agora me vieram lembranças engraçadas sobre ela. Ela dizia “chacolate” ao invés de chocolate, gostava de dizer: “Abra do olho!” – dizia isto para que seu interlocutor se orientasse de alguma coisa errada que estivesse fazendo. Hilários eram os seus embates com a comadre Missia, sua cunhada que sempre foi muito ranzinza, embora fosse boa pessoa. Ela era bem magra e Dona Maria Raquel vivia rindo das magrezas dela. Missia dizia que só andava naquela casa porque tinha Maria lá. De fato, Missia deixou muito de visitá-la depois que Dona Maria se foi.
Dona Maria dizia que, um dia feliz, iria comprar um rádio para escutar só a Rádio Progresso AM de Juazeiro do Norte. Após o almoço, era comum alguém entrar na casa e vê-la deitada no canto da parede, com a cabeça sobre a “forma” de chapéu forrada com um pano, cochilando enquanto a Rádio Progresso falava. Rádio Progresso, eis a marca maior de Dona Maria Raquel. Ouvinte assídua desta rádio, ai de quem mudasse a sintonia! Em certo domingo, antes do almoço, ela ouviu Altemar Dutra cantar a Música O Troco, e chorou muito. Eu observava sem entender e sem saber o que dizer. O que lembrava ou de quem se lembrava naquele momento?
Um retrato triste me vem quando reencontro a casa em minha memória. Abre-se a porta da sala e há um corredor, no corredor há duas portas que dão para dois quartos e, no meio do corredor, sempre de pé, está uma máquina de costura. Logo à frente, na sala de jantar, está ela, sentada na ponta da mesa numa cadeira forrada com um tipo de couro que não sei quem lhe deu. A rádio progresso, a televisão ou a trança de chapéu de carnaúba a distraem.
Eu não queria falar sobre a ida de Dona Maria Raquel, mas a viagem que ela fez é algo inevitável para todos nós. Eu queria, em verdade, falar só sobre o quanto aquela senhora, de presença tanta, representou para mim. Nos últimos dias que a encontrei, eu comemorava a aprovação no vestibular – eu tinha passado para o Curso de Letras, que mudou minha vida. Ela, já doente, olhou para mim, na calçada da casa da Rua de São Benedito, e disse, chorando, que estava muito feliz por mim e que eu ia ser uma coisa grande. Eu ia ser uma coisa grande! Na simplicidade das palavras, ela disse algo que eu nunca soube se serei, no entanto que eu luto sempre para ser.
Dona Maria Raquel foi o porto seguro de muita gente. Foi rigorosa quando achou que deveria ser. Para alguns, pode ter sido injusta, mas também foi um ser humano sofrido, que lutou sempre para sobreviver, que teve muito motivo para desistir da vida, no entanto não o fez. Corajosa, tornou-se mais que uma simples mulher de fortaleza incalculável, foi, antes de tudo, grande. E foi grande para ser porto seguro de tantas pessoas que, como eu, precisariam ao menos de sua presença reconfortante e que assegurava tanta força para todos.
Entrar na casa da Rua de São Benedito e não ver Dona Maria Raquel, aquela que foi nossa maior, é muito doloroso. Então gravo, para sempre, neste texto tão simples, a lembrança dessa figura de personalidade ímpar. Como sei que um dia nos reencontraremos, ficarei apenas esperando o grande dia do nosso reencontro, aí vou dizer o quanto foi difícil perder, por toda uma vida, a nossa figura tão grandiosa.                                                                                                                                                                                              
                                                                                                                                                 Émerson Cardoso
15/04/09

sexta-feira, 23 de março de 2018

NOTAS SOBRE LÍNGUA PORTUGUESA

  •       Formada por um conjunto de signos linguísticos, a língua dispõe de regras específicas para organização e combinação das palavras, que se alteram ao longo do tempo, conforme mudam os aspectos culturais e históricos da comunidade linguística; 
  •          Entre os falantes, existem diferenças que podem ter impacto na língua. Uma das variações mais perceptíveis está relacionada às diferenças no uso da língua portuguesa nas diversas regiões do mundo. Particularidades lexicais e diferentes pronúncias são alguns dos aspectos que distinguem as variedades do português; 
  •          A propósito da língua portuguesa, devemos dizer que ela é oficial nos seguintes países: Portugal, Brasil, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Além disso, Macau, na China, e Goa, na Índia, também têm comunidades falantes do português. Em 2014, a Guiné Equatorial também incluiu a língua portuguesa como língua oficial.
  •         Sobre o ensino da língua, Marcuschi (2008, p. 51) sugere que “deva dar-se através de textos”. Ele enfatiza, ainda, o fato de que esta postura é consenso tanto entre linguistas teóricos como aplicados. Essa proposta é uma prática comum na escola e orientação central dos PCNs, e a questão, para o autor, não reside no consenso ou na aceitação deste postulado, mas no modo como isto é posto em prática, já que muitas são as formas de se trabalhar textos;
  •      E, em se tratando de Língua Portuguesa, trago dois textos que são extraordinários na abordagem que realizam sobre o assunto:      

                                               Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
és, a um mesmo tempo, esplendor e sepultura:
ouro nativo, que na ganga impura
a bruta mina entre os cascalhos vela...

amo-te assim, desconhecida e obscura,
tuba de alto clangor, lira singela,
que tens o trom e o silvo da procela,
e o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
de virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

em que da voz materna ouvi: “meu filho”!
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
o gênio sem ventura e o amor sem brilho!

(Olavo Bilac)


A FORÇA DO DESTINO

Língua portuguesa, que é [...] um feudo forte e lírico ao mesmo tempo. Um barco que até hoje singra generoso o Atlântico, ora consolando Portugal, ora perturbando o Brasil. E porque esta língua tem vocação marítima, entende bem os impróprios do vento, mais que qualquer outra se deixa levar pelos sentimentos. Os ais e os prantos a seduzem tanto, que esta língua busca as estradas das mágoas que só ganharão o corpo e expressão através de seus recursos. E porque se orgulha, de rosto e sexo ardentes, é capaz de saber, apenas pelo apito do trem, se quarta-feira é dia dos amantes usarem-na quando se querem perder para sempre.

(Nélida Piñon)

RESENHAS CRÍTICAS DA "REVISTA" PRODUZIDA NO CURSO: "CINEMA: UMA EXPERIÊNCIA CULTURAL NO ÂMBITO ESCOLAR"

 

Esta Revista, publicada em agosto de 2017, é resultado do curso Cinema: uma Experiência Cultural no Âmbito Escolar realizado como disciplina eletiva na EEMTI Presidente Geisel. O curso se pautou na realização de um estudo teórico-crítico acerca do cinema e dispôs-se a refletir a arte cinematográfica a partir de seus aspectos históricos, estéticos e socioculturais.

Neste sentido, discorremos sobre o cinema como manifestação artística capaz de possibilitar, no âmbito escolar, a ampliação da aprendizagem do aluno a partir de experiências de fruição artística, incentivo à reflexão e fomento à análise crítica. O curso foi desenvolvido, do ponto de vista metodológico, em duas partes: 1) aulas expositivas através das quais o conteúdo cinematográfico foi apresentado em suas particularidades e 2) realização de atividades que compreenderam: estudo e produção de resenhas críticas, debates e exibição de filmes de longa metragem.             
 (Émerson Cardoso)

 RESENHA CRÍTICA SOBRE O FILME
 LARANJA MECÂNICA, DE STANLEY KUBRICK
  
Alguns meses atrás eu decidi fazer uma maratona de filmes clássicos famosos e, nesta maratona, eu acabei assistindo ao consagrado thriller Laranja Mecânica, do renomado diretor e roteirista Stanley Kubrick, lançado em 1971.
O filme Laranja Mecânica (Clockwork Orange) é baseado no romance escrito em 1962, por Anthony Burgess, obra em que ele retrata um grupo de rua distópico baseado nos Teddy Boys, Mods e Rockers, que lutavam nas praias da Inglaterra no final da década de 1950 e início de 1960. O romance escrito por Burgess trata-se de jovens entre 10 e 23 anos que se entregam aos desejos de sexo, violência, roubo, drogas e outros vícios. O livro foi publicado com notoriedade em 1959, mas durante muito tempo acreditou-se que era impossível filmá-lo.
O enredo do filme coloca Malcom Mcdowell como o delinquente, porém muito inteligente Alex DeLarge, o líder do bando os “Droogs” – formado por Patrick Magee e Warren Clarke que estão sempre vestidos com macacões brancos e usando chapéus-coco pretos. O filme começa com o sorriso malévolo de Alex que, com os “Droogs” bebem moloko, uma bebida que, segundo Alex, te deixaria pronto para a velha “ultraviolência”. Após esse ritual, os mesmos espancam um bêbado, lutam com um bando rival, roubam um carro, conduzem como loucos e, quando chegam a casa futurista do escritor Frank Alexander, Alex o engana dizendo ter sofrido um grave acidente para conseguir entrar na casa, e obriga Frank a olhá-lo enquanto ele viola sua esposa. Além disso, Alex prende Frank e o espanca enquanto canta aos berros a música Singing In The Rain. Nesta cena, em que Kubrick pede a Malcom Mcdowell para que ele improvisasse, o ator canta essa música porque, no momento, foi a única que ele lembrou da letra. É interessante ressaltar que a cena do estupro é bastante sórdida, o que marca um dos grandes pontos do filme, que é chocar o espectador.
Quando Alex volta para casa, escuta a gloriosa Nona Sinfonia de Beethoven enquanto imagina guerras, explosões, vampiros, enforcamentos, morte e destruição. Na noite seguinte, Alex utiliza uma estrutura fálica para matar uma mulher e é abandonado pelos seus “Droogs”, sendo apanhado, em seguida, pela polícia.
Após isso, o filme segue repleto de Plot Twists, o que faz dele um dos marcos do cinema mundial, aclamadíssimo pela crítica e estudado até hoje nas escolas de cinema ao redor do globo. Em contrapartida, esse filme foi um dos mais polêmicos de Kubrick, de modo que foi retirado de circulação no mesmo ano pelo próprio diretor, o que perdurou por quase 30 anos na Inglaterra, por ter sido considerado apologia aos diversos crimes retratados no filme.
Com uma trilha sonora marcante dos renomados Wendy Carlos e Rachel Elkind, e enquadramentos tão perfeitos e diferentes que são características e marcas do diretor de fotografia John Alcott, que utilizou técnicas de fast e slow motion nas cenas de sexo e de violência. Vale dizer, ainda, que o uso apenas de luz natural, que valorizou e trouxe um ar de distopia para as cenas, tornou o filme uma verdadeira obra de arte.
(Gyslaine Costa)

A MENTIRA

Olive é estimulada pela melhor amiga a revelar detalhes de seu fim de semana entediante. Olive, uma adolescente muito certinha, decide apimentar um pouco os detalhes contando uma pequena mentira sobre a perda de sua virgindade. Uma das meninas religiosas do colégio fica em choque com a conversa, ela conta o que ouviu a todo o campus, dando a Olive uma reputação repugnante.
A mentira é mais um dos filmes americanos que trata sobre o colegial e sobre adolescentes, e mostra a hierarquia do Ensino Médio: meninas bonitas, atletas, nerds, meninas promíscuas, feias e entre outras classificações. O filme conta a história de uma garota que acaba, sem querer, criando uma mentira, o que a faz sofrer as consequências do que fala.
A comédia mostra que as pessoas não querem saber se algo que é dito é verdade ou não, só querem fofocar sem sequer se preocupar se o que é dito pode causar danos irreparáveis às pessoas envolvidas. O filme nos faz refletir principalmente sobre o seguinte: é difícil ser julgado sem ser ouvido.
A sequência narrativa apresenta Olive (Emma Stone) fazendo um vlog (vídeos do Youtube tipo o que o autor John Green faz) para explicar qual era realmente a verdade por trás de todas as mentiras. Assim, volta e meia, surge a cena do quarto, em que ela fala diretamente com quem assiste e, em outras partes, surge a cena que conta a história propriamente dita.
            Por fim, Olive explica a todos em seu vlog que tudo não passou de um mal entendido, que ela ainda é virgem. Ela fala, ainda, que a partir daquele momento ninguém deve se importar com a vida de ninguém, que isso não vai levá-los a lugar algum.
(Letícia Guerreiro)

 A CULPA É DAS ESTRELAS 

Diagnosticada com câncer de pulmão aos 13 anos, Hazel Grace Lancaster (16 anos) vive graças ao tratamento e, como vive há anos lutando contra o câncer, é obrigada a participar de um grupo de apoio em que conhece Augustus Waters, com que constrói uma relação inicialmente de amizade e, em seguida, afetivo-amorosa.
O filme foi uma adaptação do livro de John Green – eu li o livro e assisti ao filme e, para mim, foi um dos melhores filmes que eu já assisti. Ele discorre sobre um relacionamento intenso e emocionante! No começo do filme, Hazel vai para um grupo de apoio e conhece Augustus ou Gus e, desde a primeira vez em que se viram, trocaram olhares e, daí, ficaram emocionalmente ligados.
Dentre outras peripécias, Hazel consegue uma viagem para Amsterdam, ocasião em que deseja conhecer o autor de seu livro preferido. Lá eles vivem momentos inesquecíveis – em meio ao sonho que vivem, Hazel descobre que falta pouco para ele morrer. Ao voltar para casa, Hazel e o melhor amigo de Augustus vão à igreja e leem cartas de despedida para Gus. Para mim, essa foi a parte mais emocionante do filme! Ao passar alguns dias, Hazel recebe a notícia de que Augustus morreu e o filme termina com a leitura de uma carta que ele escrevera para ela. 
Assim, do meu ponto de vista, penso que o filme nos mostra que temos que aproveitar os momentos como se fossem únicos e que o verdadeiro amor nasce mesmo em tempos difíceis.
(Lívia Maria)

LOGAN

Dirigido por James Mangolg, em 2017, Logan tem no elenco Boyd Holbrook, Dave Davis, Dafne Keen Doris Morgado, Elise Neal, Elizabeth Rodriguez, Eriq La Salle, Hugh Jackman, Jaden Francis, Juan Gaspard, Julia Holt, dentre outros.
O filme se passa em um futuro distante em que Logan (Hugh Jackman) luta pela sobrevivência do seu amigo Charles (Patrick Stewart), que já está bem velho, e de Laura (Dafne Keen), que é uma garota parecida com o Logan, com poderes que ainda estão sendo gerenciados. Ela é uma aprendiz, mas em cena mostra a que veio – são momentos de cair o queixo, literalmente. A garota deve ter dado trabalho para os dublês. Por causa do grande espaço para violência em estado puro (nada estilizado – quase um documento de cenas para revirar o estômago, no bom sentido, se é que existe), e alguns xingamentos mais fortes, a classificação indicativa americana ficou para maior de 18 anos, com razão, pois é um filme de “herói” com crianças, mas não é um filme pra criança.
A interpretação dos atores é impecável – eles são dignos de Óscar. A fotografia do filme é simplesmente perfeita, com o diretor de fotografia que grava cenas muito lindas e emocionantes com cores bem vivas. A trilha sonora é de Marco Beltrami e com a inconfundível voz de Johnny Cash. O filme realmente estava perfeito e, em minha opinião, digno de Óscar em vários aspectos.
(Pedro Guilherme Siqueira)

NO CORAÇÃO DO MAR

O filme nos traz o escritor Herman Melville em busca dos fatos reais do navio Essex para a criação da sua maior obra: Moby Dyck. Para isso, ele entra em contato com um senhor sobrevivente e, a partir da narração dos fatos, temos uma viagem no tempo.
            O que ele descobre é o seguinte: em 1820 um navio baleeiro, liderado pelo capitão George Pollard, parte em uma gananciosa busca de 2000 barris de óleo de baleia. Para isso, o capitão Pollard, que não é nada experiente, conta com a ajuda do seu primeiro oficial Owen Chase que, podemos dizer, é um veterano no assunto e sonha em ser capitão, inclusive deveria ser o capitão de tal missão.
Owen e Pollard não demoram muito para entrar em conflito e, como são obrigados a conviver juntos, a única coisa que podem fazer para se livrarem um do outro é atingir logo a meta a que foram destinados. Com isso, eles navegam até a costa do Sul da América onde as baleias não são escassas e acabam se surpreendendo com uma baleia branca gigante, que irá lutar por sua sobrevivência e acabará atacando o navio deixando os tripulantes largados no mar à própria sorte.
            O filme é uma daquelas produções que deixam a gente com um friozinho na barriga em vários trechos. Ele conta com bons efeitos visuais e cenários incríveis. Isso sem falar no elenco, que traz dois conhecidos da Marvel – Hemsworth e Tom Holland. Eu, particularmente, gostei muito desse filme e, por influência do filme, lerei o livro em breve.
(Fernando Victor Lacerda)

 MARY POPPINS REVISITADA 

Dirigido por Robert Stevenson, em 1964, Mary Poppins é um dos filmes indispensáveis para quem gosta de animação e de musicais.
Um dos filmes mais queridos do público de cinema, Mary Poppins ocupa a sexta colocação na Lista dos 25 maiores musicais americanos de todos os tempos. Esse filme traz roteiro baseado no livro de mesmo nome de P. L. Travers, escritora australiana. Depois de 26 anos de planejamento foi que o filme estreou, porque Walt Disney não conseguiu convencer a autora a vender os direitos de adaptação do livro com facilidade – a autora só concordou em vender os direitos autorais do livro no final da década de 1950.
O filme conta a historia do banqueiro Mr. Banks (David Tomlinson), um homem que trata com rigidez seus dois filhos sapecas: Jane (Karen Dotrice) e Michael (Matthew Gaber). Ele não consegue contratar uma babá, pois elas desistem facilmente do emprego. Numa noite, enquanto ele e sua esposa redigem um anúncio de jornal procurando uma babá, seus filhos aparecem com uma carta mostrando como seria uma babá perfeita. Esta carta acaba chegando nas mãos de Mary Poppins, que é tudo aquilo que está descrito na carta.
Devemos considerar dois fatos interessantes na obra: é atemporal e não é destinada apenas para o público infantil, é um filme para todas as idades. O filme faz os pais refletirem sobre como devem passar mais tempo com seus filhos. Tem uma trilha sonora impecável, com canções lindas.
Assim, esse filme é divertido, muito bem feito e vencedor de vários prêmios, incluindo Óscar e Globo de Ouro. Mary Poppins, que vimos em uma das aulas da disciplina eletiva de Cinema, no primeiro semestre de 2017, nos convida a embarcar em uma fantástica aventura repleta de humor e fantasia.
(Maria Glaucia Araújo e Silva e Maria Eduarda Batista Rolim)

CENTRAL DO BRASIL
  
Centra do Brasil é dirigido por Walter Salles e é considerado uma verdadeira obra-prima do cinema nacional. O sucesso do filme se deu tanto nacional quanto internacionalmente – não podemos esquecer que foi indicado para o Globo de Ouro e para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de receber indicação de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro.
            A história começa na estação de trem do Rio de Janeiro em que Dora (Fernanda Montenegro), professora aposentada, escreve cartas para pessoas não alfabetizadas. Uma das clientes, Ana Fontenele (Soia Lira), que estava ao lado do filho Josué (Vinícius de Oliveira), queria comunicar-se com Jesus, seu ex-marido que morava em Bom Jesus do Norte.
            Quando chegava em casa, Dora e sua vizinha Irene (Marília Pêra) liam as cartas das pessoas e as jogavam fora. Certo dia, Ana reaparece na estação e pede a Dora para rasgar a antiga carta e mandar outra. Na volta para casa, Ana sofre um acidente.
            O enredo se desenrola a partir daí, pois com a morte da mãe, Josué fica abandonado na estação e Dora, comovida com a situação do menino, termina por querer ajudá-lo a encontrar seu pai.
            O drama bem elaborado, com interpretações de um elenco magnífico, traz mais interesse para o espectador, tanto o jovem quanto adulto. As cores em destaque no filme são mortas, apagadas, o que representa uma tentativa de aproximar o visual da crueza do espaço social em que as personagens transitam.
(Maria Eduarda Mendes)

TEORIAS DO AMOR EM
“500 DIAS COM ELA”

“500 days of Summer”, em inglês, é uma comédia romântica/drama dirigido por Marc Webb, em 2009. O enredo desse filme lhe conferiu a 10ª posição entre os melhores filmes do ano pela National Board of Review Awards, além de outras indicações a prêmios importantes, dos quais foi vencedor inclusive na categoria: “Melhor Roteiro Original”, pela Southeastern Film Critics Association.
O filme é construído a partir de uma narrativa não-linear que apresenta, através do ponto de vista de seu protagonista Tom Hansen, interpretado por Joseph Gordon Levitt, os 500 dias de seu relacionamento com Summer (Zooey Deschanel). Seu roteiro criativo e inteligente é,  até hoje, alvo de diferentes interpretações entre fãs, críticos e admiradores da sétima arte.
Tom, protagonista da trama, cresceu acreditando que não seria feliz até que conhecesse “a garota certa’’. Summer, por sua vez, não compartilhava desta crença, afirmando desde o início sua preferência por viver sozinha, e a repulsa pela ideia de pertencer a alguém de alguma forma.
O clímax do filme acontece durante os tristes vislumbres de Tom a respeito da inesperada atitude de Summer de pôr um fim no relacionamento não rotulado que mantinham até então. A realidade com que são retratadas as desilusões na trama e a fuga da romantização, incomum nesse tipo de gênero cinematográfico, podem ser destacadas como pontos positivos desta produção.
O competente trabalho de fotografia, enfatizando as cenas mais dramáticas do filme com cores frias e a iluminação mais baixa, aliado à interpretação entregue de Joseph (Tom) e Zooey (Summer), rendeu o resultado incrível que transporta o espectador para mais próximo das emoções vividas pelos personagens.
Por fim, a trilha sonora produz a harmonia perfeita da narrativa, sendo um importante elemento de composição da trama considerada um dos mais bem sucedidos “hits” do ano em 2009.
(Pietra Pinheiro)

DONNIE DARKO
E O COELHO GIGANTE


Donnie Darko é um filme com roteiro criativo e imprevisível que, apesar de fictício, remete a conceitos da Física e Psicologia. Produzido em 2001, com roteiro e direção de Richard Kelly, e direção de fotografia de Steven Poster, conta com uma incrível trilha sonora composta por clássicos dos anos 80.
A trama se passa nos anos 1980 e acompanha a vida de um garoto esquizofrênico chamado Donnie Darko (Jake Gyllenhaal). Certa noite, Donnie é atraído por um homem que diz se chamar Frank (James Duval) usando uma fantasia de coelho amedrontadora. Frank diz a Donnie que o mundo irá acabar em exatamente 28 dias, 06 horas, 42 minutos e 12 segundos. Após esse encontro, Donnie acorda em meio a um campo de golfe sem saber como foi parar ali (o que é bem comum para o garoto que sofre de sonambulismo). Ao chegar em casa, ele se depara com uma grande movimentação, pois uma turbina de avião caíra em cima do seu quarto – Frank havia salvado sua vida.
A partir daí, a trama ganha fôlego. Frank induz Donnie a cometer alguns crimes, mas não sem razão, todos com relevância e acabam mudando o rumo da história. Isto se dá até que um dia Donnie ganha, de seu professor de Física (Noah Wyle), o livro: “A filosofia da viagem no tempo”, escrito por Roberta Sparrow/Vovó Morte (Patience Cleveland). Donnie começa a questionar-se e estudar sobre esses conceitos, tendo algumas alucinações. Tendo lido esse livro, Donnie se sente que tem algo de grande responsabilidade nas mãos. 
Donnie Darko é um dos primeiros Cult Movies do século XXI. Sem o apoio de grandes estúdios, o filme alcançou sucesso por mérito próprio. Mas, mesmo sendo um filme complexo e difícil de entender, Donnie Darko agrada a maioria de seu público alvo, talvez seja justamente por essa dificuldade em entendê-lo que o filme chama tanta atenção.
(Victória Vieira)
O PEQUENO PRÍNCIPE

Algumas pessoas têm resistência a filmes musicais – eu não. Eu gosto muito deles. Agora, imaginemos um musical adaptado de uma das mais populares obras literárias do mundo – não tenho como não gostar!
O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, foi adaptado por Stanley Donen em 1974. Com canções entre divertidas e líricas, como It’s a hat, Be happy e A snake in the grass, encontramos nele excelentes canções. Considero que as atuações merecem elogios, assim como alguns cenários e efeitos especiais. A adaptação também tem seus valores.
O Príncipe que veio do asteroide B-612, e encontrou-se no deserto do Saara com um piloto que sofrera um acidente aéreo, foi uma personagem que me marcou profundamente na infância. Eu me perdia em pensamentos, quando criança, na tentativa de entender o porquê de o Príncipe viver no asteroide sozinho, sem pai nem mãe, e andar naquela pequena morada sem, contudo, cair no espaço para sempre – eu não contava com a astúcia da gravidade, claro. Era tudo tão mágico para mim!
Eu assisti a essa versão de um dos livros que mais li na vida quando já era adulto, no entanto foi como se eu voltasse a viver os sentimentos que eu resguardava em mim quando eu era criança. Foi uma experiência triste, porém gratificante.
O Pequeno Príncipe, de Donen, é um clássico. Vale a pena assisti-lo e reassisti-lo, certamente. Claro que é necessário recorrer à sensibilidade que, por vezes, perdemos quando a vida adulta já nos impõe que o que era mágico agora é absurdo, ilógico e impossível. Nesta perspectiva, cabe retomar a já mil vezes citada frase do livro: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.
(Émerson Cardoso)

O MÁGICO DE OZ

Em 1939, Victor Fleming adaptou para o cinema a obra de L. Frank Baum The wizard of Oz (1900) – no Brasil, O mágico de OZ. A protagonista, Dorothy, é levada por um tornado para uma terra mágica e, na tentativa de voltar para seu lar, ela é informada de que precisa encontrar-se com o grande mágico de Oz na Cidade das Esmeraldas, pois somente assim ela poderia realizar seu desejo.   
Em sua jornada, Dorothy encontra-se com personagens que, assim como ela, também têm um desejo a realizar: o espantalho busca um cérebro, o homem de lata busca um coração e o leão covarde busca coragem. Nesta caminhada, somos apresentados à marcante trilha sonora do filme e a acontecimentos que nos instigam a refletir sobre temas diversos e que podem nos comover profundamente. 
Indicado a seis Óscar, esse filme venceu nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original. A canção Over the rainbow é considerada uma das mais belas do cinema, e tem sido amplamente revisitada em gravações as mais diversas. Os muitos problemas de produção não afetaram a qualidade desse filme considerado um dos maiores filmes de todos os tempos. De acordo com a Greatest Movie Musicals, do American Film Institute, que em 2006 apresentou uma lista dos 25 maiores filmes musicais, O mágico de Oz ocupa o terceiro lugar da lista.  
 Esse filme é grandioso esteticamente e, sobretudo, pelas reflexões que suscita. Dentre as frases de efeito marcantes, que localizamos em seus diálogos mais que criativos, destacamos a que é dita pelo mágico de Oz ao homem de lata, por ocasião da entrega do coração que este tanto queria: “Um coração não se julga por quanto você ama, mas por quanto você é amado pelos outros”.
(Émerson Cardoso)
DICAS DE FILME:

O JOGO DA IMITAÇÃO

É um filme de 2014, do gênero drama, dirigido por Morten Tyldum. Conta com um elenco que traz Benedict Cumberbatch, Keira Knigtley, Matthew Goode, Charles Dance, Mark Strong, Matteew Beard, Allen Leech, Rory Kinnear, dentre outros. O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando o matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch) e quatro especialistas foram convocados em uma missão secreta para decifrar o código de comunicação dos alemães: o ‘enigma’. Enquanto isto, Alan tem que esconder sua homossexualidade que, na Inglaterra da época, era um crime.
(Letícia Gonçalves)
MARY E MAX: UMA AMIZADE DIFERENTE

Direção de Adam Elliot. Intérpretes: Toni Collete, Philip Seiymour Hoffman, Eric Bana, Barry Humphries. Austrália: 2009. Gênero: Animação / Drama. Baseada numa história real, essa obra apresenta a história de amizade entre duas pessoas muito diferentes: Mary Daisye Dinkle (voz de Toni Collette), uma menina  solitária de oito anos, que vive nos subúrbios de Melbourne – Austrália – e Max Horowitz (voz de Philip Seymour Hoffman), um homem de 44 anos, que mora em Nova York – Estados Unidos. Alcançando 20 anos, e dois continentes, a amizade de Mary e Max sobrevive muito além dos conflitos da vida e dos limites impostos pela distância.
(Émerson Cardoso)

sexta-feira, 16 de março de 2018

BREVES NOTAS SOBRE A PEÇA TEATRAL "ABRAZO", DO GRUPO CLOWNS DE SHAKESPEARE

Foto: Pablo Pinheiro 

A sensação que tenho, depois de ver as duas apresentações da peça teatral Abrazo, dirigida por Marco França, é de encantamento. Lirismo, irreverência, densidade temática e sutileza são os ingredientes por excelência do texto. Atrelado a isto, a peça conta com um elenco que se reveza ao dar vida, com maestria, a diversas personagens. É um espetáculo digno de nota e reverência!

Nos dias 13 e 14 de março de 2018, no Teatro SESC Patativa do Assaré, de Juazeiro do Norte, um trio do Grupo Clowns de Shakespeare, de Natal – RN, apresentou a segunda parte da trilogia latino-americana Abrazo. Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz realizaram proezas cênicas dignas dos maiores elogios. A segurança no revezamento das personagens, o carisma, a preparação corporal, as expressões faciais e a entrega ao universo que tentam expressar com economia de palavras são aspectos que devem ser considerados. O trio consegue uma unidade na construção do ato cênico que salta aos olhos. Tudo é harmônico, bem articulado, construído com minúcias.

Diante disto, não poderia ser diferente: o espetáculo foi um sucesso! Nos dois dias em que foi apresentado, o teatro esteve lotado, o público (constituído de adultos e crianças) aplaudiu de pé com visível entusiasmo. Foi, de fato, uma experiência enriquecedora ter visto, através do SESC, esse Grupo privilegiar o Cariri com seu talento e beleza.

Além da direção e do elenco serem magistrais, devo ressaltar aspectos técnicos que ampliam o encanto do espetáculo: a trilha sonora, o figurino, a cenografia, a cenotecnia e as animações também merecem elogios. A peça conta, ainda, com acessibilidade para pessoas com deficiência visual, uma vez que apresenta audiodescrição. O roteiro e argumento dramatúrgicos são de César Ferrario e o roteiro de audiodescrição é de Karol Nascimento. A produção da peça, no Cariri, ficou por conta da atriz Rita Cidade – uma das mais completas artistas que conheço.

Quanto à história contada, Abrazo é resultado de larga pesquisa histórico-cultural sobre a América Latina e traz reflexões sobre: ditadura, morte, amor, liberdade, desencontro amoroso, dentre outros pontos. Temas densos, como a tortura impetrada pela ditadura, irrompem com sutileza, mas com o grau de profundidade que o tema exige.

Do ponto de vista enredístico, as personagens apresentadas estão inseridas em um espaço em que preponderam, já no início da história, inúmeras proibições. O título evoca uma destas proibições: as pessoas não podem se abraçar. O General – que em determinados momentos termina por demonstrar que vive de reprimir até suas próprias pulsões – parece querer boicotar, com a interdição do abraço, a demonstração de afetividade entre as pessoas. Ele só não conta com o fato de que as pessoas podem se reunir e, desse modo, se fortalecer contra o despotismo de líderes políticos desalmados. Em meio a essa realidade conflitante, surge o amor entre um Rapaz e uma Florista. Eles encontram um no outro ternura e afetividade, mas são impossibilitados de vivenciar tais experiências porque o amor que sentem está perpassado por coerções advindas do cenário político que representa ausência completa de liberdade. Sequer eles podem demonstrar afeto por meio do abraço, pois lhes foi tirado este direito. 

Algumas cenas são emblemáticas, do meu ponto de vista: 1) o General atravessa o palco em marcha puxando um exército de patinhos amarelos (qualquer semelhança com a realidade política brasileira não é mera coincidência!), 2) o General, temporariamente livre de suas autorrepressões, dança com uma rosa na boca e ensaia passos de balé clássico, 3) a Florista e o Rapaz despedem-se na estação sem que possam se abraçar, 4) o General tortura a Florista, 5) o Rapaz procura a Florista e a espera enquanto as estações do ano passam e, ao final, seu coração se parte e ele segue sozinho (um pássaro metaforiza o caminho de solidão que ele percorre) e 6) o Menino e a Vovó abraçam-se após ficarem livres do jugo ditatorial.

Dentre as cenas que menciono, permaneceu com maior ênfase em minha memória a cena em que a Florista contraria o General e, por isto, é presa e torturada. A tortura a que o General a submete é construída por meio da simbologia de uma rosa que ele fustiga e atira numa espécie de varal em que repousam outras rosas que, como fica sugerido, também são vítimas do mesmo tipo de violência.

Essa cena confirma o que já apontei: temas densos são trabalhados em Abrazo com muita sutileza. Isto não quer dizer que a tortura, a morte e a tirania são apresentadas de modo superficial – superficialidade é algo que não ocorre em nenhum momento na peça. Em decorrência do público a que se direciona, se mostrou necessário um tratamento não explícito desses aspectos configuradores de violência e, desse modo, a peça ganhou em originalidade: tudo passa por um crivo da metaforização e exige que a plateia esteja atenta aos seus aspectos polissêmicos.

Em suma, Abrazo, que foi inspirada na obra O livro dos abraços, de Eduardo Galeano, é pertinente porque, além de proporcionar entretenimento de qualidade, nos instiga à reflexão sobre luta em tempos sombrios. E, mais do que isto, proporciona a fruição porque, como arte no melhor sentido do termo, amplia-nos a sensibilidade e abre-nos os olhos para concepções mais críticas acerca da realidade. Abrazo é, portanto, uma peça indispensável para quem pensa o mundo e deseja liberdade. Que privilégio ter visto esse espetáculo! 

Émerson Cardoso

15/03/2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

TRECHO DO CONTO: "A LEGENDA DE SÃO JULIÃO, O HOSPITALEIRO", DE GUSTAVE FLAUBERT


Uma mesinha, um banco, uma cama de folhas secas e três copos de barro, eis toda a sua mobília. Dois buracos nas paredes serviam de janelas. De um lado, estendiam-se a se perderem de vista planícies estéreis tendo à superfície pálidos laguinhos por toda parte; e o grande rio, à sua frente, rolava suas ondas esverdeadas. Na primavera, a terra úmida tinha um cheiro pútrido. Depois, um vento desordenado levantava turbilhões de poeira. Entrava em toda a parte, turvava a água, fendia as gengivas. Um pouco mais tarde, eram nuvens de mosquitos, cujo sussurro e as picadas não paravam dia e noite. Em seguida, sobrevinham geadas tão terríveis que davam às coisas a rigidez da pedra, e inspiravam um desejo delirante de comer carne.
Passarem-se meses sem que Julião visse alguém. Por vezes, ele fechava os olhos, tentando, pela memória, voltar à sua juventude; – e o pátio de um castelo aparecia com galgos no patamar, criados na sala de armas, e numa caramanchão de pâmpanos, um adolescente de cabelos louros entre um ancião coberto de peles e uma dama com grande toucado; de repente, os dois [cadáveres] estavam lá. Ele atirava-se de bruços na cama, e repetia chorando:
 – Ah! pobre pai! pobre mãe! pobre mãe!
E caía numa sonolência onde as visões fúnebres prosseguiam.

Uma noite, quando dormia, cuidou de ouvir alguém chamá-lo. Apurou o ouvido e distinguiu apenas o rugido das ondas.
Mas a mesma voz voltou:
– Julião!
A voz vinha da outra margem, o que lhe pareceu extraordinário, dada a largura do rio.
Chamaram uma terceira vez:
– Julião!
E esta voz aguda tinha a entonação de um sino de igreja.
Depois de acender a lanterna, saiu da cabana. Um tufão furioso enchia a noite. As trevas eram profundas, e aqui e ali rasgadas pela brancura das vagas que saltavam.
Após um minuto de hesitação, Julião soltou a amarra. A água, subitamente, ficou tranquila, o barco deslizou nela e tocou a outra margem, onde um homem esperava.
Estava envolto numa túnica em farrapos, o rosto semelhante a uma máscara de gesso e os olhos mais vermelhos do que brasas. Alumiando-o com a lanterna, Julião notou que uma lepra horrenda o cobria completamente; no entanto, havia em sua atitude uma majestade de rei.
Assim que ele entrou no barco, este afundou extraordinariamente, esmagado por seu peso; uma sacudidela o fez subir; e Julião começou a remar.
A cada remada, a ressaca das ondas levantava-o de proa. A água, mais negra do que piche, corria furiosa pelos dois lados da bordagem. Abria precipícios, fazia montanhas, e a chalupa saltava por cima, depois voltava a descer nas profundezas onde redemoinhava, sacudida pelo vento.
Julião debruçava o corpo, esticava os braços, e, retesando-se, fincando os pés, revirava-se com uma flexão do tronco, para ter mais força. O granizo fustigava suas mãos, a chuva escorria pelas suas costas, a violência do ar sufocava-o; ele parou. Então o barco foi á deriva. Mas, compreendendo que se tratava de uma coisa considerável, de uma ordem, à qual não devia desobedecer, retomou os remos; e o ranger [das borlas] cortava o clamor da tempestade.
A pequena lanterna consumia-se à sua frente. Pássaros esvoaçando, escondiam-na a intervalos. Mas continuava reparando nos olhos do leproso que se mantinha de pé, na popa, imóvel como uma coluna.
E isto durou muito tempo, muitíssimo tempo!
Quando chegaram à cabana, Julião fechou a porta; e ele viu-o sentar-se no banco. A espécie de sudário que o cobria tinha-lhe caído até os quadris; e suas costas, seu peito, seus braços magros desapareciam sob as placas de pústulas escamosas. Rugas enormes sulcavam sua fronte. Como um esqueleto, ele tinha um buraco no lugar do nariz; e seus lábios azulados soltavam um bafo espesso como um nevoeiro, e nauseabundo.
– Tenho fome! – disse ele.
Julião deu-lhe tudo o que possuía, um pedaço de toucinho e côdeas de pão escuro.
Depois que devorou tudo, a mesa, o prato e o cabo da faca apresentavam as mesmas manchas de que se viam em seu corpo.
Depois, ele disse:
– Tenho sede!
Julião foi buscar o seu cântaro; e, quando o pegou, ele exalou um aroma que dilatou seu coração e suas narinas. Era vinho; que achado! mas o leproso esticou o braço, e de uma tragada esvaziou todo o cântaro.
Em seguida, disse:
– Tenho frio!
Julião, com sua vela, ateou fogo a um molho de fetos [samambaias], no meio da cabana.
O leproso ali se aqueceu, e, agachado sobre os calcanhares, tremia com todos os seus membros, debilitava-se; seus olhos já não brilhavam, suas chagas escorriam, e, com uma voz quase apagada, murmurou:
– Tua cama!
Julião ajudou-o serenamente a se arrastar até lá, e até estendeu sobre ele, a tela do seu barco.
O leproso gemia. Os cantos de sua boca descobriam seus dentes, um estertor acelerado sacudia-lhe o peito, e o ventre, em cada uma das aspirações, escavava-se até as vértebras.
Depois cerrou as pálpebras.
– É como se tivesse gelo nos ossos! Fica junto de mim!
E Julião, levantando a tela, deitou-se nas folhas secas, junto dele, lado a lado.
O leproso virou a cabeça.
– Tira tua roupa, para eu ter o calor do teu corpo!
Julião despiu-se; depois, nu como no dia do seu nascimento, deitou-se outra vez na cama; e sentia contra a sua coxa a pele do leproso, mais fria que uma serpente e áspera como uma lima.
Julião procurava animá-lo; e o outro respondia, ofegante:
– Ah! eu vou morrer!... Aproxima-te, aquece-me! Não com as mãos! não! com todo o seu corpo.
Julião estendeu-se completamente em cima dele, boca com boca, peito com peito.
Então o leproso estreitou-o; e seus olhos, de repente, tiveram uma claridade de estrelas; seus cabelos alongaram-se como raios de sol; o bafo de suas narinas tinha a suavidade das rosas; uma nuvem de incenso elevou-se da lareira, as ondas cantavam.
No entanto uma abundância de delícias, uma alegria sobre-humana descia como uma inundação na alma de Julião desfalecido; e aquele cujo braço o continuava apertando, crescia, crescia, tocando com a cabeça e os pés, as duas paredes da cabana. O telhado voou, o firmamento se desenrolava; – e Julião subiu nos espaços azuis, face a face com Nosso Senhor Jesus, que o levava para o céu.

E eis a história de São Julião, o Hospitaleiro, tal como mais ou menos a encontramos nos vitrais de uma igreja de minha terra.

(FLAUBERT, 1974, p. 99 – 102)

REFERÊNCIAS:

FLAUBERT, Gustave. Trois contes. Paris: Louis Conard, Librarie-Éditeur, 1910.

__________. Três contos. Tradução de Luís Lima. Rio de Janeiro: Editora Três, 1974.