quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

TRECHO DO CONTO: "A LEGENDA DE SÃO JULIÃO, O HOSPITALEIRO", DE GUSTAVE FLAUBERT


Uma mesinha, um banco, uma cama de folhas secas e três copos de barro, eis toda a sua mobília. Dois buracos nas paredes serviam de janelas. De um lado, estendiam-se a se perderem de vista planícies estéreis tendo à superfície pálidos laguinhos por toda parte; e o grande rio, à sua frente, rolava suas ondas esverdeadas. Na primavera, a terra úmida tinha um cheiro pútrido. Depois, um vento desordenado levantava turbilhões de poeira. Entrava em toda a parte, turvava a água, fendia as gengivas. Um pouco mais tarde, eram nuvens de mosquitos, cujo sussurro e as picadas não paravam dia e noite. Em seguida, sobrevinham geadas tão terríveis que davam às coisas a rigidez da pedra, e inspiravam um desejo delirante de comer carne.
Passarem-se meses sem que Julião visse alguém. Por vezes, ele fechava os olhos, tentando, pela memória, voltar à sua juventude; – e o pátio de um castelo aparecia com galgos no patamar, criados na sala de armas, e numa caramanchão de pâmpanos, um adolescente de cabelos louros entre um ancião coberto de peles e uma dama com grande toucado; de repente, os dois [cadáveres] estavam lá. Ele atirava-se de bruços na cama, e repetia chorando:
 – Ah! pobre pai! pobre mãe! pobre mãe!
E caía numa sonolência onde as visões fúnebres prosseguiam.

Uma noite, quando dormia, cuidou de ouvir alguém chamá-lo. Apurou o ouvido e distinguiu apenas o rugido das ondas.
Mas a mesma voz voltou:
– Julião!
A voz vinha da outra margem, o que lhe pareceu extraordinário, dada a largura do rio.
Chamaram uma terceira vez:
– Julião!
E esta voz aguda tinha a entonação de um sino de igreja.
Depois de acender a lanterna, saiu da cabana. Um tufão furioso enchia a noite. As trevas eram profundas, e aqui e ali rasgadas pela brancura das vagas que saltavam.
Após um minuto de hesitação, Julião soltou a amarra. A água, subitamente, ficou tranquila, o barco deslizou nela e tocou a outra margem, onde um homem esperava.
Estava envolto numa túnica em farrapos, o rosto semelhante a uma máscara de gesso e os olhos mais vermelhos do que brasas. Alumiando-o com a lanterna, Julião notou que uma lepra horrenda o cobria completamente; no entanto, havia em sua atitude uma majestade de rei.
Assim que ele entrou no barco, este afundou extraordinariamente, esmagado por seu peso; uma sacudidela o fez subir; e Julião começou a remar.
A cada remada, a ressaca das ondas levantava-o de proa. A água, mais negra do que piche, corria furiosa pelos dois lados da bordagem. Abria precipícios, fazia montanhas, e a chalupa saltava por cima, depois voltava a descer nas profundezas onde redemoinhava, sacudida pelo vento.
Julião debruçava o corpo, esticava os braços, e, retesando-se, fincando os pés, revirava-se com uma flexão do tronco, para ter mais força. O granizo fustigava suas mãos, a chuva escorria pelas suas costas, a violência do ar sufocava-o; ele parou. Então o barco foi á deriva. Mas, compreendendo que se tratava de uma coisa considerável, de uma ordem, à qual não devia desobedecer, retomou os remos; e o ranger [das borlas] cortava o clamor da tempestade.
A pequena lanterna consumia-se à sua frente. Pássaros esvoaçando, escondiam-na a intervalos. Mas continuava reparando nos olhos do leproso que se mantinha de pé, na popa, imóvel como uma coluna.
E isto durou muito tempo, muitíssimo tempo!
Quando chegaram à cabana, Julião fechou a porta; e ele viu-o sentar-se no banco. A espécie de sudário que o cobria tinha-lhe caído até os quadris; e suas costas, seu peito, seus braços magros desapareciam sob as placas de pústulas escamosas. Rugas enormes sulcavam sua fronte. Como um esqueleto, ele tinha um buraco no lugar do nariz; e seus lábios azulados soltavam um bafo espesso como um nevoeiro, e nauseabundo.
– Tenho fome! – disse ele.
Julião deu-lhe tudo o que possuía, um pedaço de toucinho e côdeas de pão escuro.
Depois que devorou tudo, a mesa, o prato e o cabo da faca apresentavam as mesmas manchas de que se viam em seu corpo.
Depois, ele disse:
– Tenho sede!
Julião foi buscar o seu cântaro; e, quando o pegou, ele exalou um aroma que dilatou seu coração e suas narinas. Era vinho; que achado! mas o leproso esticou o braço, e de uma tragada esvaziou todo o cântaro.
Em seguida, disse:
– Tenho frio!
Julião, com sua vela, ateou fogo a um molho de fetos [samambaias], no meio da cabana.
O leproso ali se aqueceu, e, agachado sobre os calcanhares, tremia com todos os seus membros, debilitava-se; seus olhos já não brilhavam, suas chagas escorriam, e, com uma voz quase apagada, murmurou:
– Tua cama!
Julião ajudou-o serenamente a se arrastar até lá, e até estendeu sobre ele, a tela do seu barco.
O leproso gemia. Os cantos de sua boca descobriam seus dentes, um estertor acelerado sacudia-lhe o peito, e o ventre, em cada uma das aspirações, escavava-se até as vértebras.
Depois cerrou as pálpebras.
– É como se tivesse gelo nos ossos! Fica junto de mim!
E Julião, levantando a tela, deitou-se nas folhas secas, junto dele, lado a lado.
O leproso virou a cabeça.
– Tira tua roupa, para eu ter o calor do teu corpo!
Julião despiu-se; depois, nu como no dia do seu nascimento, deitou-se outra vez na cama; e sentia contra a sua coxa a pele do leproso, mais fria que uma serpente e áspera como uma lima.
Julião procurava animá-lo; e o outro respondia, ofegante:
– Ah! eu vou morrer!... Aproxima-te, aquece-me! Não com as mãos! não! com todo o seu corpo.
Julião estendeu-se completamente em cima dele, boca com boca, peito com peito.
Então o leproso estreitou-o; e seus olhos, de repente, tiveram uma claridade de estrelas; seus cabelos alongaram-se como raios de sol; o bafo de suas narinas tinha a suavidade das rosas; uma nuvem de incenso elevou-se da lareira, as ondas cantavam.
No entanto uma abundância de delícias, uma alegria sobre-humana descia como uma inundação na alma de Julião desfalecido; e aquele cujo braço o continuava apertando, crescia, crescia, tocando com a cabeça e os pés, as duas paredes da cabana. O telhado voou, o firmamento se desenrolava; – e Julião subiu nos espaços azuis, face a face com Nosso Senhor Jesus, que o levava para o céu.

E eis a história de São Julião, o Hospitaleiro, tal como mais ou menos a encontramos nos vitrais de uma igreja de minha terra.

(FLAUBERT, 1974, p. 99 – 102)

REFERÊNCIAS:

FLAUBERT, Gustave. Trois contes. Paris: Louis Conard, Librarie-Éditeur, 1910.

__________. Três contos. Tradução de Luís Lima. Rio de Janeiro: Editora Três, 1974.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

MEU "APÓLOGO DA MESA"


Era um dia de festa. As pessoas corriam de um lado para o outro arrumando os últimos detalhes da grandiosa recepção. Em todos os cômodos da mansão havia móveis que, sob vigilância da anfitriã, eram limpos cuidadosamente. Todos foram polidos, enfeitados, mudados de lugar.
Houve, porém, um problema impossível de passar sem dar nas vistas. Enquanto todos os móveis riam no auge da felicidade pela nova roupagem que apresentavam, a mesa, mais reflexiva que o natural, no centro da sala, com olhares de estranhamento e aspecto descontente, permanecia intocada.
Todos os móveis receberam nova coloração, espargiam perfume, alguns receberam toalhas e enfeites novos. Apenas ela, a mesa, permanecia com seu aspecto de sempre: a mesma cor desbotada, desperfumada, sem conserto. O riso e a felicidade dos outros passaram, aos poucos, a incomodá-la. Desse modo, no auge da sensação de inferioridade, no auge da solidão, sentindo-se uma “qualquer”, começou a reclamar-se da vida triste e lamentável a que aqueles seres a submetiam. 
Quem aqueles móveis felizes pensavam que eram? E onde estava a dona da casa que não valorizava a sua presença inestimável? Como poderia ficar calada diante de situação tão adversa a seu ego? Ela tinha direito de reclamar... Ela há anos servia à família que ali residia. Era esse o pagamento recebido por tantos anos de benevolência e solicitude? Imundos todos! Mereciam alimentar-se no chão como animais, e não em sua reconfortante planície. Queria que todos morressem, que um incêndio destruísse a felicidade daqueles móveis exibidos, que uma enchente destruísse os risos daqueles seres frívolos. O ódio invadiu-a e, se ela pudesse, faria de tudo para desfazer aquela alegria insuportável e sem graça. 
Foi neste instante que gritou contra todos os móveis, e seus enfeites, as mais absurdas injúrias. Expôs o defeitos, as fragilidades, os insucessos dos companheiros com a intenção de fazê-los se sentirem por baixo, assim como ela se sentia. “Se eu não mereço ser bem tratada, ninguém mais merece!”, pensou. Disse tudo o que pensava e, sem se importar com a tristeza que poderia causar aos seus, rebaixou-os com os piores xingamentos. 
Não se deu por vencida e passou a lamentar-se das vezes em que foi bondosa. Atirou sobre os que estavam ao seu redor o quanto lhes havia ajudado. Queria fazê-los perceber, com palavras contundentes, o quanto era vítima de injustiça naquele momento. Ódio! Raiva! Rancor! Quanto teria de esperar para morrer e não ver mais tanta maldade e ingratidão?
Depois que cansou de, desequilibrada, criticar a todos, atirando sua raiva contra os mais próximos, aconteceu algo que fez com que ela se calasse. De repente, com muita delicadeza, alguém a limpou, a lustrou e colocou sobre ela uma toalha de rendas. Prepararam-lhe o melhor enfeite. Fizeram dela o centro da festa e todos os convidados, ao longo da recepção, transformaram-na num ponto de referência atrativíssimo – afinal de contas sobre ela estavam as mais perfeitas guloseimas. A mesa, que antes falava com leviandade, ódio, amargor, que havia magoado todos os demais companheiros com seu azedume e despeito, agora estava calada, parecia constrangida pelo mal-estar que havia proporcionado. 
A festa, no entanto, havia acabado para os demais móveis e enfeites da casa. E ela finalmente se deu conta de que fora uma estúpida, invejosa, grosseira e, pedindo desculpas, baixou a vista. Era tarde. Nunca mais conseguiu reconstruir as amizades que, com palavras ferinas e desnecessárias, destruiu.
Um velho relógio, muito sábio, a olhou condescendentemente e disse: “A paciência é uma grande virtude, porém é um dom tão raro! Estar com raiva é possível, mas ninguém tem o direito de atirar contra os outros as suas próprias frustrações”.

REFERÊNCIAS:

CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. Apólogo da mesa. In: Revista de Literatura e Artes Boca Escancarada, n. 5, p. 21 – 22, mai. / ago. de 2014.

RESUMO: "POR QUE (NÃO) ENSINAR GRAMÁTICA NA ESCOLA?" (SÍRIO POSSENTI)


CONSIDERAÇÕES INICIAIS:

Este livro está dividido em duas partes: 1) na primeira parte, o autor elabora dez teses sobre o ensino de gramática e 2) na segunda, estão expostos conceitos de gramática e reflexões que apontam para seu ensino no espaço escolar.

OBJETIVOS DO AUTOR:


  • *   Discorrer sobre um conjunto de princípios destinado a provocar reflexão sobre o ensino de gramática da língua portuguesa;


  • *     Propor teses sobre o ensino da língua materna sem, com isto, cair no plano das experiências que transformam, por vezes, o aluno em objeto de experimentos;


  • *     Refletir sobre a concepção de língua e de ensino de língua na escola.

PRIMEIRA PARTE

“Em que consistiria o domínio do português padrão? Do ponto de vista da escola, trata-se em especial (embora não só) da aquisição de determinado grau de domínio da escrita e da leitura”. (p. 19)

“Uma das medidas para que esse grau de utilização efetiva da língua escrita possa ser atingido é escrever e ler constantemente, inclusive nas próprias aulas de português”. (p. 20)

TESES
TESE 01

O objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido.

TESE 02

Damos aula de que a quem? Para que um projeto de ensino de língua seja bem sucedido, uma condição deve necessariamente ser preenchida, e com urgência que haja uma concepção clara do que seja uma língua e do que seja uma criança (na verdade, um ser humano, de maneira geral).

TESE 03

Não há línguas fáceis ou difíceis. Todas as línguas são estruturas de igual complexidade. Não existem línguas simples e línguas complexas, primitivas e desenvolvidas. O que há são línguas diferentes.

TESE 04

Todos os que falam sabem falar. Saber falar uma língua significa saber uma gramática. Saber gramática não significa saber de cor algumas regras que se aprendem na escola, ou saber fazer análises morfológicas e sintáticas. Saber uma gramática é saber dizer e saber entender frases.

TESE 05

Não existem línguas uniformes. Neste sentido: a) todas as línguas variam, isto é, não existe sociedade ou comunidade na qual todos falem da mesma forma; b) a variedade linguística é o reflexo da variedade social e, como em todas as sociedades existe alguma diferença de status ou de papel entre indivíduo ou grupos, estas diferenças se refletem na língua c) os principais fatores de diferenciação são: geográficos, de classe, de idade, de sexo, de etnia, de profissão, etc.

TESE 06

Não existem línguas imutáveis. Nenhuma língua permanece uniforme. 

TESE 07

Falamos mais corretamente do que pensamos. É relativamente pequena a diferença entre o que um aluno (ou outro cidadão qualquer) já sabe de sua língua e o que lhe falta saber para dominar a língua padrão.

TESE 08

Língua não se ensina, aprende-se. Não se sabe muito bem o que se passa na mente humana, o fato observável é que todos falam, e muito, e bem, a partir de três anos de idade. Não se aprende por exercícios, mas por práticas significativas. 

TESE 09

Sabemos o que os alunos ainda não sabem? Os programas anuais poderiam basear-se em levantamento do conhecimento prático de leitura e escrita que os alunos já atingiram e, por comparação com o projeto da escola, uma avaliação do que ainda lhes falta aprender. 

TESE 10

Ensinar língua ou gramática? O domínio efetivo e ativo de uma língua dispensa o domínio de uma metalinguagem técnica. É possível aprender uma língua sem conhecer as regras com as quais ela é analisada. 

SEGUNDA PARTE

ENSINO DE GRAMÁTICA:

Estudo de regras mais ou menos explícitas de construção de estruturas (palavras ou frases). Um exemplo dessa primeira atividade é o estudo das regras ortográficas, regras de concordância e de regência, regras de colocação dos pronomes oblíquos etc.

Análise mais ou menos explícita de determinadas construções. Exemplos são os critérios para a distinção entre vogais e consoantes, critérios de descoberta das partes da palavra (radical, tema, afixos), análise sintática da oração e do período, especialmente se isso se faz com a utilização de metalinguagem.

CONCEITO DE GRAMÁTICA:

A palavra gramática significa “conjunto de regras”:

1) conjunto de regras que devem ser seguidas (normativa ou prescritiva);
2) conjunto de regras que são seguidas (descritiva);
3) conjunto de regras que o falante da língua domina (internalizada).

CONCEPÇÃO DE LÍNGUA:

A cada uma das definições de gramática apresentadas acima corresponde uma concepção diferente e compatível de língua:

1) Para a normativa, a língua corresponde às formas de expressão observadas produzidas por essas pessoas cultas, de prestígio.
2) Para a descritiva, encara a língua falada ou escrita como sendo um dado variável (não uniforme), e seu esforço é o de encontrar as regularidades que condicionam essa variação.
3) Para a internalizada, a língua deve ser compreendida como conhecimento interiorizado.

REFERÊNCIAS:

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1996.




CRÔNICA: O QUE É SER MAU-CARÁTER?


O que uma pessoa quer exprimir quando diz que alguém tem caráter? Creio que se remete à índole, à integridade moral, à retidão, à firmeza e à honradez com que a pessoa age diante das mais diversas situações cotidianas.

Neste sentido, o que seria uma pessoa sem caráter, ou melhor, mau-caráter? Fiz pesquisa e constatei que a lista de sinônimos é longa, exige síntese. O mau-caráter é, portanto, tratante, covarde, mentiroso, desleixado, troçador, infame, desonroso, trapaceador, vigarista, traiçoeiro, fraudulento, velhaco, desleal, falso, utilitarista, improbo, interesseiro, duvidoso, impudico, cínico, sem-vergonha, descarado, cafajeste, calhorda, biltre, mal-educado, desrespeitoso, rude, grosseiro, provocador, violento, estourado e, o que é pior, do meu ponto de vista, vulgar.

Eu não quero ser assim, Deus, não quero. Eu estou ciente de que o ser humano, falível que é, pode trazer em si alguns ou todos esses adjetivos. Mas eu não quero, não aceito, não posso fiar-me na ideia de que também poderia agir assim apenas porque, irremediavelmente, sou humano. Ademais, a história mostra que muitos humanos conseguiram ter caráter irreprochável. Ninguém é perfeito, é certo, por isto é possível que um dia ou outro o espírito desande e aja de acordo com alguma das condutas que, em seu conjunto, formam o mau-caratismo. A imaturidade pode nos levar a isto, mas a imaturidade precisa passar. A proposito, triste do ser humano que não sente a necessidade de mudar, de repensar a conduta, de vislumbrar possibilidades de crescimento.

Dentre os termos que enumerei acima, parece-me que o pior do mau-caráter é ser desleal e, neste caso, acrescento o fato de que todo desleal é ingrato. Ingratidão é um aspecto terrível na conduta de alguém, devo dizer. Além disso, deslealdade, que vem certamente da ingratidão, torna o indivíduo falso porque, para conseguir o que queria de alguém, o desleal deve ser perito em falsidade – e a isto se acresce novo aspecto: visão utilitária das coisas e pessoas. O indivíduo deseja alcançar algo, cria traiçoeiramente uma estratégia, utiliza a falsidade para engabelar o outro e age cínica e sorrateiramente destruindo, sem qualquer reflexão sobre respeito, a vida de alguém. Uma pessoa mau-caráter, ao que parece, é um Atlas – o mundo pesa-lhe nas costas porque ela precisa articular muitas ferramentas para conseguir o que quer.  

Eu não quero ser assim, meu Deus, não quero. E, pensando nisso, dentre os traços que comprometem minha índole, o que é triste demais, a covardia é o mais gritante. Tanto a dizer e realizar, mas o excesso de prudência – não seria melhor dizer medo? – me desencoraja. Tem a ver com a minha infância? Precisei silenciar demais, fugir do enfrentamento, aceitar calado a violência da vida. Eu tinha mãos erguidas pedindo auxílio, porém, como eu não gritava a plenos pulmões, por não saber gritar, ninguém via o vazio nelas renascido. Aprendi a escrever, no entanto, e isto foi um alívio.

Grande alívio este: quem escreve quer ser lido. Os clássicos não são lidos, que espaço terão os amadores? A insegurança também constituiria a índole mau-caráter? Tenho inseguranças demais, devo dizer. Tendência à mágoa também? E orgulho? E omitir, algumas vezes, coisas que desagradariam ao outro? Forçar indiferença pode ser mau-caratismo? E não querer ver para sempre-sem-fim a face de quem se mostrou mau-caráter? Raiva represada, raiva exibida, raiva em tom de voz, raiva no desprezo dispendido, raiva de moer com o olhar, raiva sem precedentes – isto também indica traços de alguém sem caráter?   

Quero tirar o mundo das costas, porque ter caráter pode conduzir o indivíduo à leveza – é a isto que devoto meu pensamento. Preciso de leveza e paz – que ambição hercúlea! Eu posso ter sido falho mil vezes, ou melhor, eu falho milhões de vezes, no entanto estou aqui confessando meus pecados mil vezes mil para, a partir disto, prosseguir e não tornar a pecar. Deus precisa estar comigo, porque, diante da vida e sua imprevisibilidade, a carne tende a ser fraca e, disto estou certo, a gente busca maturidade, caráter digno, gestos fraternos, mas as adversidades e a preservação da vida podem pesar na hora de darmos respostas ao mundo. Eu, assim como Sophie[1], também preciso fazer minhas escolhas – ah, e que eu encontre em mim a leveza que tanto busco.

Émerson Cardoso
10/02/18




[1] Sophie’s choice (1982) é um filme norte-americano de drama dirigido por Alan J. Pakula, que rendeu a Meryl Streep seu primeiro Óscar de Melhor Atriz em 1983. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

FOLHETIM DE FACEBOOK OU CRÔNICA: "DEPOIS DA FESTA, COMEÇA O ANO"

PARTE 1

Primeiro mês do ano de 2018. Entendo o porquê de as pessoas idealizarem tanto a festa de fim de ano: o cotidiano é insuportável! Dormir, fazer refeições, trabalhar, lidar com o trânsito, ser vítima dos impostos (IPVA, IPTU, dentre outros), consumir no ar a pouca perspectiva de mudança para a política nacional...

As mesmas pessoas que falavam do nascimento de Jesus, e desejavam ano novo promissor a quem cruzasse o caminho, preferem dar bom exemplo aos políticos e agem com altruísmo e respeito em filas, no trânsito, nas repartições públicas, na cozinha de casa, nas calçadas do centro da cidade, nos terrenos baldios – com que gentileza fustigam o mundo! A chuva de começo do ano mostra a gentileza do povo sendo arrastada pelas ruas a entupir bueiros e esgotos. Ah! Ninguém subestime o universo das sombras cotidianas: ele pode muito mais do que nós! E Cristo fica em seu lugar de sempre, já não mais recém-nascido. Traz seus punhos furados e seu lado direito sangrando – como de costume. Enquanto isto, o ódio e a violência do mundo brincam de roda com a cristandade. Que ciranda festiva!

PARTE 2

A chuva de começo do ano mostra a gentileza do povo sendo arrastada pelas ruas a entupir bueiros e esgotos. Ah! Ninguém subestime o universo das sombras cotidianas: ele pode muito mais do que nós! E Cristo fica em seu lugar de sempre, já não mais recém-nascido. Traz seus punhos furados e seu lado direito sangrando - como de costume. Enquanto isto, o ódio e a violência do mundo brincam de roda com a cristandade. Que ciranda festiva!

O primeiro mês do novo ano já fez deslizar máscaras. Pessoas abraçáveis colocam punhais nos dentes e redesenham mágoas – comigo é diferente? Ética e respeito não cantam notas expressivas. Se o planeta soubesse o que comporta cessaria seu giro, e tudo o mais dançaria sem música. O ser humano pode ser podre, oco e frágil, repetimos. E quem pode ser perfeição na Terra? E quem pode cerrar os olhos? Poucos exemplares dignos ocupam os metros quadrados do planeta. E eu, que não sei de mim? E eu, que pareço santo quando julgo o mundo? E eu, que retalho a vida com mãos sempre feridas? Que vida? Ah! Não sei se 2018 poderá trazer arcanos mais dignos. Ano eleitoral e de copa e de... De quantos outros momentos de subterfúgio e caos?

PARTE 3

Acontece que é fácil exigir dos outros uma solidariedade que não temos. Somos culpados por esbravejar, ou por lavar as mãos? Cada verso do poema que não escrevemos é a entrelinha do monstro morando em nós: ele está fadado a comer libertação e iguais direitos para, insone, excretar não-fraternidades. Atirar pedra nos outros quer ser nossa missão, percebamos! É possível vestir roupagem isenta de orgulho e sombras, também tirar do olhar vapor de mágoas? Silêncio e solidão seriam caminhos adequados, ou mesmo antídotos, que nos libertariam de errar menos? 

O ser humano pode ser podre, oco e frágil, repetimos. E quem pode ser perfeição na Terra? E quem pode cerrar os olhos? Poucos exemplares dignos ocupam os metros quadrados do planeta. E eu, que não sei de mim? E eu, que pareço santo quando julgo o mundo? E eu, que retalho a vida com mãos sempre feridas? Que vida? Ah! Não sei se 2018 poderá trazer arcanos mais dignos. Ano eleitoral e de copa e de... De quantos outros momentos de subterfúgio e caos?

PARTE 4

Primeiro mês do ano, mas a sensação é de que os meses últimos já rechegaram. Seria possível alterar o girar do mundo se eu corresse aos gritos pisando em pregos e vestindo urtiga? Eu devo mudar primeiro, devo dizer. Mudar seria, meu Deus, conviver sem vislumbrar tortura. Nem sempre o convívio é ferir os pés e fustigar a pele – é certo. E, se a esperança se materializa, falhas são sinais de redenção: erros conduzem, tanto quanto a morte, a humanidade ao mesmo clã dos que vivem aos tombos. A cura existe? Ninguém se cura de errar aos prantos e redesejar perdão. Ao ser humano, errar tentando o melhor convívio é vida acesa no revirar das horas.

E por falar em convivência, querem que eu me posicione ante dois espaços de ódio: o ódio I quer que eu o abrace e odeie o ódio II, e o ódio II quer que eu o abrace e odeie o ódio I. Não tenho condições, porque odiar estraga a pele e não cura gordura no fígado. Se me dessem outra opção... Assim, prefiro o não e o não. Preciso recuperar meus dedos, que se foram em aceno austero. O que fazer com o que tenho agora? Ler é sufrágio, escrever é ponte. E tomar água e fazer poemas riem de mim. Não apoiarei um ódio ou outro, porque amar é estrada de espinho ridente que me instiga a recobrar meu pulso. E passar bem, despropositados ódios. Espero que o que for amor, em cada rua, exista – e eu o encontre na passarela inerte de um cotidiano bom.

PARTE 5

O primeiro mês do ano está prestes a acabar – acabou, devo dizer. Ou será que no espaço de um dia ainda poderemos viver grandes momentos? O ano, porém, prossegue a marcha indiferente a chacinas, a tempestades políticas que têm se formado, a olhares insones, a mudanças não planejadas e a golpes. O ano passa por estar com medo? Claro que não! O medo não o fustiga. O medo, antes, é vestimenta que cabe melhor em nós. Tenho visto muita coragem assomar em gente antes medrosa. Os tiranos e seus golpes não têm força quando a coragem redefine o sangue. Então, ano que finda, pode seguir seu curso, mas nos ensine a ter coragem. Não queremos congelar a boca e retesar os passos...

No mais, quando o caos sair sedento pelas ruas da vida, e o país abrir seus cansados olhos, será o momento da trégua? A esperança erguerá seu punho e saciará, finalmente, a fome que nos acomete? Todos dirão, ano intangível, que a voz guardada é bomba contra despotismo e morte. Na multidão escuto gritos de medo – sou eu perdido procurando a mim. O fim se fez carne e habitou o mundo. Adeus, janeiro! Aceite minha última saudação. Mas, antes, responda, Deus: virão melhores dias?

Émerson Cardoso

(Que escreveu sem forças entre os dias 24 – 30/01/2018)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CRÔNICA: "AH, OS AMIGOS", DE RACHEL DE QUEIROZ



 Sim, amigo é coisa muito séria. Acho que a gente pode viver sem emprego, sem dinheiro, sem saúde e até sem amor, mas sem amigos, nunca. Pois o amigo é capaz inclusive de suprir discretamente essas faltas e lhe conseguir trabalho, lhe emprestar dinheiro, lhe tratar a doença. Só não pode se envolver em assuntos de amor, porque aí deixa de ser amigo; e a maior tolice a que se arrisca a incorrer a alguém é misturar amigo com amor.
Amizade e amor são qualidades paralelas na vida de cada um; se conhecem, até se estimam, mas nunca se encontram ou se confundem. Aliás, não estou dizendo novidade nenhuma, todo mundo sabe que o namoro, noivado, casamento, amores são relações essencialmente antípodas da amizade. Quer pela sua impermanência, ou, quando permanentes, pela sua natureza tumultuária, absorvente, egoísta, as relações de amor têm que ter categoria à parte. Transforme em amante o seu amigo ou amiga, e você perde o amigo e terá um péssimo amante, que sabe todos os seus defeitos, lhe conhece do tempo em que você não se enfeitava para ele, não lhe escondia suas falhas do corpo e da alma, e que, portanto sabe de todos os seus pontos fracos. Fica impossível.
A primeira lei da boa amizade creio que é ter poucos amigos. Muitos camaradas, colegas, conhecidos cordiais, mas amigos, poucos. E, tendo poucos, poder e saber tratá-los. Jamais criar tempo de rivalidade entre os amigos: cada um há de ter sua área específica, sua zona própria de influência.
Não vê que cada amigo, por ser único no seu território, não precisa sequer conhecer os donos dos outros territórios. É que, sendo a nossa alma tão variada nas exigências, precisamos de amigos de acordo com os diferentes ângulos do nosso coração. O amigo da comunicação intelectual não pode ser o mesmo amigo da confiança íntima; o velho companheiro da infância não tem nada a ver com o precioso camarada adquirido nos anos de maturidade.
E há outras razões práticas para não misturar os amigos: eles podem se coligar contra a gente, ou se tornar amigos entre si, por conta própria, nos excluindo. Ou também podem se chatear uns com os outros, porque os companheiros espirituais deles nem sempre correspondem aos nossos. Se você adora fulano porque toca em suas cordas nostálgicas, contando-lhe lembranças da mocidade passadas na barranca de um rio em Mato Grosso. Assim com o futebol, os debates sobre religião, as intrigas políticas, os negócios, o gosto de recordar os sambas de Noel Rosa. Insisto, mantenha com rigor cada amigo no seu compartimento.
Axioma absoluto em assuntos de amizade: amigo é insubstituível. O que um lhe deu jamais outro lhe poderá dar igual. Pode vir um amigo novo para preencher a área vazia deixada pelo amigo que se foi por morte ou briga. Mas só ocupará mesmo aquele espaço físico. E há vezes em que nem isso é possível. E o melhor será fechar aquele nicho do coração, dada a dificuldade de encontrar outro ser vivo que satisfaça ante nós as especificações do ausente. Ai de mim, bem o sei. Minha amiga de infância que morreu deixou no meu peito esse santuário vazio.
Respeite seus amigos. Isso é essencial. Não procure influir neles, governá-los ou corrigi-los. Aceite-os como são. O lindo da amizade é a gente saber que é querida a despeito de todos os nossos defeitos. E nisso está outra superioridade da amizade sobre o amor: a amizade conhece as nossas falhas e as tolera e, até mesmo, as encara com condescendência e afeto. Já o amor é só de extremos e, ou se entrincheira na intolerância, ou se anula na cegueira total. Amigo entende, aguenta, perdoa, "Amigo é pra essas coisas", como diz aquela cantiga tão bonita.
Se você não é capaz de ter amigos, você é um erro da natureza, você é como o unicórnio, o animal de que se fala mas não existe. Porque até os bichos têm amigos; e dizem que, depois da morte, no outro mundo, as almas mantêm sublimadas as amizades cá de baixo, naquela quintessência de excelências que só o céu pode dar.
(Rachel de Queiroz)


 QUEIROZ, Rachel de. Ah, os amigos. In: Rachel de Queiroz – Melhores Crônicas. 2. ed. São Paulo: Gaudí Editorial, 2008. 


CRÔNICA: "LITERATURA, SOLIDARIEDADE E MORTE"


Eu, que não conseguia pensar em definições para a felicidade, passei a utilizar a ideia proposta por Clóvis de Barros Filho em algumas de suas aparições internéticas. No Provocações, por exemplo, sendo entrevistado por Abujamra, ele sugeriu que a felicidade acontece quando se realiza algo e deseja-se que este algo não acabe nunca.
            Neste sábado, pela manhã, iniciei a fatigante tarefa de limpar e organizar livros. Meu problema é que demoro demais realizando esta tarefa, porque inevitavelmente passo a ler trechos ou capítulos inteiros – fica impossível concluir o trabalho a que me proponho em tempo hábil.
            Enquanto limpava os livros, devo dizer, fiquei tão angustiado a ponto de sentir dor física. Quando eu morrer, e eu vou morrer mais dia menos dia, o que acontecerá com meus livros, que constituem a única posse material que me causa medo de perda? Depois que eu me for, quem será capaz de cuidar deles, ou utilizá-los, com o mesmo devotamento a que eu estou fadado? Veio-me, com isto, medo de morrer. Medo de ficar sem aquilo que constitui algo de relevante para mim sobre a Terra. Medo e angústia. E se eu fosse embora hoje, por morte ou fuga? Como eu poderia deixar para trás aquilo que me causa tanta satisfação? Sim, eu também vejo nisto muito materialismo e dramaticidade. Parece-me doloroso que eu consiga atribuir tanto valor sentimental a objetos e, por vezes, não conseguir olhar com o mínimo de humanidade para alguns seres com os quais tenho que conviver. É que os livros foram conquistados com sacrifício, e sabem falhar menos.
            Pensei, em seguida, que amo livros porque amo Literatura. Pronto. Não amo livros – isto me redime! –, amo a Literatura que eles podem me dar em grandes ou pequenas doses. Eis, portanto, a relação com o que Clóvis de Barros Filho pensa sobre a felicidade. Enquanto posso ler, informar-me, discutir e repassar algo sobre Literatura eu me sinto vivo, eu me sinto feliz. Pensar que isto poderá cessar um dia, por algum motivo, me amedronta. E, para tentar expressar este medo, parei a arrumação dos livros, respirei um pouco e passei a escrever. Escrevi para mim mesmo, claro. Ultimamente, nem os clássicos têm leitura garantida, quanto mais os amadores!
            Além disso, alguém já me perguntou: o que a Literatura pode fazer de forma prática para mudar o mundo que vive de misérias? Deus do céu! Não sei! Não sei, em absoluto, o que dizer, o que responder. Eu poderia criar hipóteses, reproduzir o que foi dito por muita gente, mas sequer tenho forças para isto. Eu, e digo isto com tristeza, não sei se resolvi ou resolverei com meu amor à Literatura a miséria do mundo ou de alguém que nele habita. Primeiro, que sou herói do romantismo da desilusão – de tanto pensar, não ajo. Segundo, que, dos miseráveis, sou o que mais precisa: minha mão estendida criou raízes. O que peço? Peço humildade, leveza e amor – amor numa perspectiva cristã, se me permite exibir minha tendência a tudo explicar, que é minha neurose de guerra por excelência.
            Felicidade, para mim, portanto, seria o mesmo que disse Clóvis de Barros Filho. Eu queria tanto ter acesso à Literatura hoje e sempre, queria tanto passar a eternidade com ela, que pensar no fim disso me dói. Talvez eu esteja angustiado mesmo porque ontem, enquanto esperava ser atendido em consultório médico, reli a primeira parte de Memórias do subsolo, de Dostoiévski, ou porque parei a arrumação dos livros quando toquei A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, e achei por bem reler uns trechos e, num fôlego só, terminei lendo quase o livro inteiro.
            Devo voltar à arrumação. Escrever não me organizará a vida, nem me dará a eternidade que me possibilitaria viver de, para e com meus livros. Mas, para concluir, a propósito da pergunta que me fizeram sobre o que a Literatura pode fazer contra as misérias do mundo, eu devo dizer que ela pode não fazer muito pelo caos mundial criado pelo homem, e sua tendência ao mal, mas ela fez muito por mim, ao que sou grato. Por pura gratidão, devo propagá-la. Não é assim que devemos fazer com quem nos prestou alguma solidariedade?


Émerson Cardoso
23/12/2017