terça-feira, 10 de outubro de 2017

TEATRO INFANTIL QUE CRIANÇAS E ADULTOS NÃO PODEM DEIXAR DE VER: BREVES NOTAS SOBRE "O SONHO DE CLARA GEMA", DA CIA MANDACARU

Foto de Rogerio Duarte

O Cariri cearense tem seu histórico de excelentes peças teatrais realizadas pelos diversos grupos que, felizmente, apesar das dificuldades, por aqui circulam. Muitos trabalhos marcantes conseguem se concretizar pelo empenho e amor à arte que os integrantes desses grupos evidenciam. Dentre as peças que devem ser inseridas na lista das mais belas e cativantes que tive o privilégio de vislumbrar, no Cariri, O Sonho de Clara Gema, dirigida por Micaelle Lima, e que é uma adaptação do texto de Sandra Albano, sem dúvidas é uma delas. 

Hoje, por acaso, eu estive na plateia dessa peça teatral ao lado de outros adultos e muitas crianças e, assim como eles, eu fiquei mais que entusiasmado. O Sonho de Clara Gema é uma peça infantil - um musical, em verdade, no melhor sentido do termo - realizada pela Cia Mandacaru de Teatro. Ao assisti-la, não consegui guardar para mim as impressões que o espetáculo me proporcionou e, por isto, resolvi escrever algo, ainda que brevemente.

A primeira observação que faço sobre a peça diz respeito ao texto. Sandra Albano dialoga, com a história de sua galinha carismática, mas passível de morte, vale ressaltar, com outras personagens como Laura, Petronilha, Pedrina e Eponina - todas galinhas criadas por Clarice Lispector. Assim como Clarice Lispector, Sandra Albano nos apresenta a galinha como um ser singelo e digno de permanecer vivo. A personagem Clara Gema, que é amada pelas demais personagens que povoam a Fazenda Santa Fé, está diante da possibilidade de virar o almoço do austero fazendeiro Zé Tufão. Cabe à cozinheira Crizolina capturar Clara Gema e levá-la ao seu destino cruel: tornar-se galinha ao molho. Acontece que Clara Gema dispõe de dois grandes trunfos: 1) ela é uma grande cantora, ainda que não tenha o reconhecimento merecido, e 2) tem amigos fiéis que a protegem e a auxiliam a todo tempo. 

A enredística da peça é basicamente esta, porém não devemos nos restringir a analisá-la apenas por este viés, pois há um tema que não pode passar despercebido: a esperança. A esperança, do meu ponto de vista, é a grande reflexão da peça. Amizade, morte, vida e senso de coletividade são temas recorrentes, mas a esperança é, sem dúvidas, sua grande tônica. Quando tudo parece desabar, e os bichos já não sabem o que fazer, alguém do grupo consegue ter uma ideia e, a partir dela, tudo muda. A lição dos bichos, neste caso, é: grandes ideias nascidas da união de amigos podem ser salvadoras. E isto coaduna com o que diz um narrador de Clarice Lispector no conto Uma amizade sincera: "Amizade é matéria de salvação". 

Remetendo-me a aspectos mais técnicos, merece elogios a direção musical de Angélica Flor que, além de atuar no papel principal, e atuar com excelente desempenho, faz do espetáculo um musical de beleza inconteste. Não é fácil de esquecer a versão da Cantata BWV - 147, de Johann Sebastian Bach, mais precisamente seu décimo movimento (Jesus alegria dos homens), a versão de um trecho da ópera Carmen, de Georges Bizet, e o quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven (Ode à alegria). Associemos à música a coreografia da também diretora Micaelle Lima, que faz um trabalho coreográfico leve, divertido, simples, mas preciso. Nada é excesso, tudo está bem delineado e em conformidade com as canções apresentadas ao longo da peça. Todas as canções muito bem executadas, devo ressaltar. 

As atuações seguem o tom bem elaborado da peça. As crianças que pude ouvir na plateia amaram o Burro - isto se deve ao fato de que a personagem é, por excelência, carismática, cômica e hilariante, no entanto um ator pouco versátil e experiente poderia não funcionar. Mas na peça funciona perfeitamente, porque não é possível não notar a presença do ator que interpreta esta personagem. O riso e o olhar, nele, são marcantes - é impossível não destacá-lo. Os demais bichos conseguem ser bem interpretados, porque é nítido que todas as atrizes desenvolvem relevante harmonia na condução das cenas em que estão presentes - todas são envolventes. O galo, devo lembrar, também merece ser considerado uma personagem carismática, embora sua covardia/necessidade de afirmação o tornasse um tanto controverso - o ator consegue demonstrar isto muito bem. 

O jogo cênico, embora sem grandes inovações do ponto de vista do universo teatral infantil, é entusiasmante. O espectador não cansa, não se acomoda, não consegue perder de vista o fio da meada, porque novos acontecimentos vão surgindo, e a expectativa sobre o que os bichos farão para salvar a angustiada Clara Gema tornam os acontecimentos imprevisíveis. 

Algo que deve ser avaliado à parte, na peça, são a maquiagem e o deslumbrante figurino, de Joylson Kandahar. A maquiagem é primorosa, mas o figurino é digno de prêmio. Tudo é tão bem confeccionado, tão detalhadamente construído! Clara Gema, que aparece com vestimenta amarela e alguns tons em vermelho, surge, posteriormente, numa mudança de figurino que ocorre no meio do palco, e com direito a estouro e chuva de papéis coloridos, em vestido vermelho esplendoroso. Ela canta um trecho da ópera de Bizet, Carmen, com direito a coro, aplausos e sua definitiva consagração. Clara Gema torna-se uma grande diva - sua vestimenta não evidencia senão isto. 

Em suma, O Sonho de Clara Gema me entusiasmou, me fez esquecer o mundo por alguns minutos, me proporcionou bem-estar por me fazer ouvir os risos das crianças na plateia e, sobretudo, me apresentou um espetáculo que, em sua simplicidade, é comovente, reflexivo, instigante e belo. O SESC de Juazeiro do Norte merece notas de agradecimento por ter valorizado e apresentado essa obra ao público - as instituições devem fomentar a arte, e o SESC tem feito isto. Em tempos sombrios, como os que temos vivido, deparar-nos com arte, em sua acepção mais profunda, é um alívio para a alma. Foi isto que se deu: o espetáculo da Cia Mandacaru foi um alívio para a alma - e as crianças parecem ter sentido o mesmo! 

Émerson Cardoso
10/10/2017








sexta-feira, 6 de outubro de 2017

POEMA PARA A PROFESSORA E SUAS CRIANÇAS EM JANAÚBA

Para ler obrigatoriamente  ao som 
de "Incêndios" na voz de Amelinha
Ó língua portuguesa, como queria não precisar recorrer  
A teus vendavais singelos para me remeter a fato tão triste!

Crianças mortas, professora em chamas:
Em cidade brasileira dormiram inocentes para chorar suas mães.

Ó língua portuguesa, austera irmã, como queria
Acordar os olhos das crianças com palavras-água!

E meu semblante só vislumbra na fumaça
Da professora o corpo que a muitos tentou salvar.

Émerson Cardoso

06/10/2017



quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ENTREVISTANDO ÉMERSON CARDOSO (UM EXERCÍCIO)


ENTREVISTA

A entrevista é um gênero a que recorro com frequência há alguns anos. Eu sou viciado em entrevista – esta é que é a verdade –, mas não busquei saber, a fundo, o porquê de tal vício. Escrita ou oralmente, a entrevista sempre me instiga. Um dos meus programas preferidos de entrevista é o Provocações, com o imortal Antônio Abujamra. Como um dos meus sonhos era ser entrevistado por ele, o que ainda em vida do entrevistador já seria impossível por vários motivos, eu resolvi, em 2013, transcrever algumas das perguntas que ele apresentava no programa e tentar responder num fôlego. Foi um exercício interessante! Após quatro anos deste exercício, resolvi, sem ler as respostas anteriores, refazê-lo e ver em que aspectos minhas respostas foram preservadas – eu retomarei as mesmas perguntas acrescentando apenas um ou outro ponto. Autoentrevista é coisa de gente narcisista e egocêntrica, eu sei – mas que se danem as opiniões que criticam o exercício que preciso fazer. O que quero, em verdade, é me autoconhecer de algum modo e, se esse for um bom método, a ele recorrerei.


Em crônica em que você discorre sobre um fim de tarde, você escreve: “Aves pernoiteiras deslizavam pelo céu em arrebol e eu caía em pontiagudas ânsias: sede de alguma coisa que sequer eu sou, nem sei”. Que sede é esta?

A sede de viver em paz de espírito, de sentir a presença de Deus (apesar de minha pouca crença), de ampliar os conhecimentos, de conseguir realizar meus objetivos me persegue desde sempre, mas creio que a sede a que me refiro é a sede do autoconhecimento, da autocompreensão e de conseguir me tornar um ser humano melhor para mim mesmo e para o outro – que desafio!  

Perceber que o tempo passa, e que você envelhecerá, o incomoda?

Às vezes, sim. Não no sentido de que a velhice me conduziria para uma provável aproximação da morte – não é preciso envelhecer para morrer –, mas porque a velhice, nesta sociedade capitalista que exclui quem não é capaz de representar possibilidade de produção, me remete à solidão e ao abandono. Tenho pensado sobre o fato de que na velhice eu não poderei contar com meus filhos – porque não os tenho – para cuidar de mim. Mas ter filhos, é claro, não é garantia de proteção e cuidados.  

Como você acha que vai morrer?

Não sei, mas seria interessante que fosse sem medo e sem dor – conformar-se com a morte, ou melhor, perder o medo, quando ela vier, talvez alivie a sensação incômoda da inexistência inevitável. A solidão na hora da morte parece ser dolorosa demais, mas...

O que você acha que vai encontrar quando você morrer?  Com quem você, se pudesse, desejaria se encontrar?

Se houver vida após a morte, e eu me esforço para crer nisto, espero me encontrar com as pessoas com as quais mantive, aqui na Terra, grandes afinidades – seria bom reencontrar alguns familiares e alguns amigos e amigas.

Você costuma enfatizar o tema da amizade em vários textos que escreveu. Num deles, você afirmou: “Alguém me disse, certa vez, que amizade não passa de uma utilidade prática – eu discordo. Eu prefiro apoiar-me, talvez romantizando o termo – o que é um problema a ser dirimido –, na assertiva de Clarice Lispector (1999, p. 78): ‘Amizade é matéria de salvação’”. Você acredita mesmo que amizade não é uma utilidade prática?

A gente deve atribuir utilidade prática a objetos, não a pessoas. Creio, no entanto, que tenho uma visão mais racional sobre amizade, tanto que tenho restrições com esta palavra, por considerá-la valiosa demais para utilizá-la com quem de fato não a merece. Sobre o assunto, gosto do que Omar Kháyyát diz: “Contenta-te com poucos amigos. / Não busques ampliar a simpatia que alguém te inspirou. /Antes de apertares a mão de um homem, considera se ela um dia não se erguerá contra ti”.

Você considera importante que as pessoas professem uma crença religiosa?

Sim, creio que é pertinente quando isto torna a pessoa um ser humano melhor. E quando a crença não se transforma em motivo para que conflitos sejam fomentados.

Você prefere a certeza ou o risco?

Depende do contexto. Eu não gosto de ter certeza das coisas porque o mistério é, por vezes, instigante, porém não suporto lidar com coisas arriscadas. Correr riscos nunca foi meu forte – tenho muito medo do que é novo e tenho medo de surpresas!

Explique esta ideia que você expôs em um dos seus textos: “Baratas gordas existem em algum escuro que não posso perscrutar – e como são completas! Nascem para fins específicos sem que haja necessidade de problematizações”.

Elke Maravilha disse algo parecido numa entrevista. Ela comentava que o ser humano, diferente dos demais animais que já nasciam sabendo sua finalidade, precisa descobrir, às vezes durante a vida inteira, a que veio. Do meu ponto de vista, nós humanos somos realmente limitados neste sentido, ao mesmo tempo em que, por pensarmos sobre nossas limitações, somos de fato muito mais complexos que os animais e, por isto, mais fascinantes!

O que é a vida?

Gosto do que disse Clara Charf numa entrevista: “Eu acho que é tudo o que pulsa, tudo o que você pode realizar, construir, fazer... Vida é isso! Uma pessoa que não faz nada, que não participa de nada, que fica só se queixando, ou então, sei lá, amargurada, porque não tem isso ou aquilo, acho que não vive, porque vida, para mim, é luta!” Mas eu digo, ainda: a vida é algo inexplicável e a gente tem que fazer com que ela tenha sentido!

A vida é uma causa perdida?

Por vezes, sou instigado a dizer, porque tenho alma que se pretende realista demais, que a vida é um caos, um horror! Eu repensei muito esta minha percepção e tenho tentado considerar o seguinte: a vida é um momento compreendido entre o nascer e o morrer e, de certo modo, temos que dar significado, ou sentido, a este momento. Por este ângulo, a vida ainda não é uma causa perdida, pois temos muitos sentidos e significados a atribuir a ela.

A felicidade é uma causa velha?

Gosto do conceito de felicidade que Clóvis de Barros Filho propõe: felicidade seria, para ele, algo que a gente vive e não quer que acabe nunca. Desde que nasci, eu tive, pela primeira vez, um encontro definitivo com a felicidade: passei dois anos e alguns meses fazendo o que mais amo na vida – estudar. A felicidade acabou, infelizmente, quando o curso foi concluído, mas eu pude dizer que fui feliz e, com isto, constatei que a felicidade ainda pode acontecer, embora seja rara e passageira.

Na irônica e crítica crônica intitulada “A felicidade de ser professor no Brasil”, você afirmou: “Num país em que Professores são tratados com desdém, humilhação, violência, descaso e desrespeito [...], ser Professor parece incongruência e masoquismo: por quanto tempo cursos de licenciatura ainda terão público?”. Comente:

Eu me tornei professor por vocação – escolhi a profissão antes de estar no Ensino Médio. Agora, na minha concepção, o problema da educação neste país é um projeto arquitetado ardilosamente pelos malditos poderosos que se dizem políticos: quanto menos o povo tiver acesso ao conhecimento, mais alienado, retrógrado, abobalhado e infeliz será o povo e, consequentemente, mais fácil de manipular. Ser professor é um grande acontecimento em minha vida, não me imagino em outra profissão, porque de fato amo o que faço, no entanto não considero que seja viável olhar para o que temos com cegueira e conformismo. Algo precisa ser feito e eu, sinceramente, não sei o que é, porque um professor sozinho nada faz e os profissionais da área tendem a ser pouco organizados e, muitas vezes, acomodados e acríticos demais. Eu tento fazer a diferença na minha área – tenho conseguido alguns momentos de alívio na dor.

Qual foi sua grande frustração nesta vida?

Não ter nascido numa família bem estruturada que representasse apoio e segurança.

O que mais pesa em sua cabeça: as dores ou as recordações?

Tenho uma memória absurdamente intensa – e isto é uma dádiva, porque eu sou aquilo que minha memória conseguiu resguardar de bom ou de ruim ao longo de minha vida. O problema é que recordações vêm à tona com muita facilidade e, inevitavelmente, isto representa dor. Há alguns dias vivi algo muito grave em termos de memória: 1) nem sempre o que ela insiste em mostrar corresponde, de fato, à realidade, ela pode superdimensionar as coisas e nos enganar, 2) a memória pode nos trazer alegrias inexplicáveis, pois guardei uma melodia por quase vinte anos e, por tê-la resguardado com afinco, foi possível reencontrá-la por meio de uma pesquisa.

O que você quis dizer com a seguinte frase: “Estou num lugar que não é meu, num tempo que não é meu, num mundo que não é meu”.  Em que época você queria ter vivido?

Não sei explicar muito bem, mas não me sinto pertencente ao lugar em que vivo, embora eu me sinta rico por ser nordestino; não me sinto identificado com o tempo em que vivo, embora eu reconheça as facilidades tecnológicas de que dispomos; não me sinto parte do mundo, porque o vejo por um prisma do realismo demais: os seres humanos, e eu me incluo, são capazes de tantas monstruosidades que eu, em verdade, por pura vergonha, gostaria de não ser parte dele e...

Você se considera politizado?

Não no que diz respeito a concepções partidárias e coisa e tal. Sou politizado porque estudo política, porque penso a condição da minha cidade, estado e país... Porque analiso as práticas governamentais e sou capaz de apontar falhas e propor ideias que amenizariam o caos... Sim, penso politicamente... Sou capaz de agir politicamente.

Há esperança para o mundo?

Queria que sim, mas...

E para o Brasil?

Só quando o povo brasileiro for capaz de condenar a corrupção dos políticos e, também, for capaz de excluir de si as pequenas e grandes corrupções diárias. Quando o povo, além disso, buscar intelectualizar-se e tiver capacidade de reivindicar seus direitos ao contrário de ficar, como teria cantado Raul Seixas, “com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”.

Remetendo-se à política nacional, em texto contundente e, por vezes, irônico, você apresentou a seguinte assertiva: “E Enquanto biltres se ocupam em destruir – ratos que são – o país, eu me impressiono com a minha própria condição. Fixo um ponto na parede e deixo o mundo girar sem mim”.

Eu disse que fixo um ponto e deixo o mundo girar sem mim, mas não é verdade. Eu me envolvo com questões políticas a ponto de adoecer – evito jornais, porque sou capaz de perder, literalmente, o sono quando vejo certas notícias. Quanto ao que disse sobre os políticos, isto é o de menos que eles são. Eu os chamo de ratos, mas com todo respeito aos ratos. Estamos perdidos, sobretudo no momento atual, com a gentalha de baixa índole que, por meio de um golpe, dita as regras e destrói o país cinicamente.

Numa das suas assertivas mais amargas, você diz que a população brasileira, fortemente hipócrita, costuma “cantar o Hino nos jogos da copa do mundo e em cerimônias obsoletas, ilusórias e acríticas que são realizadas sempre na semana da pátria”. Qual é o seu problema com o Hino Nacional?

Eu aprendi a cantar o Hino Nacional na escola – e o reforcei na época do serviço militar. Eu não consigo cantar o Hino, eu não o suporto, não o tolero... Não sei se tem a ver com tristeza e decepção com o país, se tem a ver com a raiva que tenho de só ver a população cantá-lo por ocasião da copa do mundo... Talvez tenha a ver, ainda, com o fato de que me traz lembranças dolorosas demais: o Hino me lembra uma infância triste, uma adolescência dolorida... Eu cantei o Hino na escola, toquei o Hino na fanfarra, cantei o Hino no Tiro de Guerra... Não o posso ouvir e cantar nunca mais!

Você escreveu, certa vez: “No meu serviço militar, dentro de coturno e fardamento, fui instigado a crer na pátria como algo de imenso valor e que eu deveria, com o sacrifício da vida, preservá-la, no entanto...” As reticências remetem a algo que não foi dito – o que é este algo?

Tudo neste país é contraditório... Quando a gente canta o Hino da Independência que, devo ressaltar, me comove profundamente (ele me faz lembrar uma professora que tive: ela se atirou da janela de um hospital psiquiátrico), nós cantamos o refrão como se fôssemos capazes de morrer para salvar a pátria de inimigos externos que tivessem a ousadia de vir desrespeitar e espoliar a nação, mas o inimigo da nação, em verdade, está aqui fazendo coisa pior e ninguém faz nada! Como mentem os brasileiros que cantam este verso: “Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil!”

Você tem humor?

Sim, eu rio muito facilmente das coisas... E de mim mesmo.  

Você já deu vexame?

Milhões de vezes.

Qual foi a maior imprudência da sua vida?

Lembrei-me de uma frase de Dercy Gonçalves: “Nada foi alegre, nada foi triste: foi vida!” Faz parte da vida e suas aprendizagens ser um tanto imprudente – mas evito ser.

Em crônica, você diz: “As pessoas temem a solidão – palavra mais linda da língua portuguesa, para mim –, porque a solidão tem peso de chumbo”. Você realmente considera esta a palavra “mais linda” da nossa língua? E a solidão tem peso de chumbo por quê?

A solidão, para mim, é a mais linda das palavras, sem dúvidas, e a mais indispensável das sensações e o mais indispensável dos estados. A solidão pesa, porque nem todo mundo é capaz de acorrer a ela, ou aceitá-la como algo positivo. Estar com pessoas é valioso também, claro, porém a solidão é condição sine qua non para quem deseja produzir, autoconhecer-se, encontrar-se com a espiritualidade...

Alguém perguntou se você já amou e sua resposta foi: “Se amei ou amo [...], a quem direciono tal amor? Isto não importa, pois dizer que amo alguém não trará este alguém para mim. E amar é totalmente contrário ao ato de exposição – ao menos no meu caso –, porque sou avesso a declarações mais explícitas. E costumo dizer, contrariando visões mais telenovelísticas, que a confissão de amor é uma falha sem precedentes numa relação afetiva. O amor deve ser expresso, mas não com palavras. Confessar a alguém o amor sentido é um risco desnecessário – o que é mistério instiga”. São muitas afirmações contundentes sobre o amor em um parágrafo só, não acha? Você pode comentar o que, de fato, está por trás dessas afirmações?

Realmente, são declarações incisivas sobre o amor. Eu continuo pensando dessa forma e continuo sem conseguir dizer, ao certo, se amei alguém. Sobre o tema, gosto do que Katherine Mansfield diz no texto O canário: “Talvez não importe muito que coisa amamos nesta vida. Mas devemos amar alguma coisa”. Isto contraria o trecho de O Quinze, de Rachel de Queiroz, que norteou, nesta perspectiva, minha vida desde sempre: “Ora o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforme as conveniências...”

Em que você se considera melhor que os outros?

Em nada. Cada vez mais, tenho percebido que não sou aquilo que eu deveria e poderia ser. Estou longe de ser melhor em algo...

Em que você se considera pior que os outros?

Sou medroso demais!

Em seu memorial sobre como adquiriu o hábito da leitura, você afirma o seguinte: “A minha professora da primeira série foi, sem dúvidas, uma grande influência que tive para tornar-me um leitor, tendo em vista que em casa não havia estímulo. Minha infância foi totalmente diferente da infância de crianças comuns: eu era muito isolado, passava o dia a desenhar, criar narrativas, tinha poucas amizades e muito medo de sair de casa”.

Em verdade, o desejo de ler nasceu sem que ninguém me estimulasse diretamente, pelo que me lembro. Não só a minha primeira professora, mas todas elas contribuíram com a minha formação, sim, porque não tive estímulo em casa... Desde sempre, quando criança, eu fui muito atento ao que as pessoas falavam. Eu amava escutar histórias...  

Qual a manifestação de Arte que você prefere?

Literatura, cinema e música – mas todas as outras áreas me são instigantes.

Por qual personagem da Literatura você sente maior admiração?

São tantas, em verdade. Vou dizer três mulheres e três homens: 1) Maria Moura, de Rachel de Queiroz; 2) Emma Bovary, de Gustave Flaubert; 3) Úrsula, de Gabriel García Márquez; 1) Aliocha, de Fiódor Dostoiévski; 2) Frédéric Moreau, de Gustave Flaubert; 3) Nando, de Antonio Callado.  

E da História?

Francesco d’Assisi, Gandhi...  

O que você lê atualmente?

Tropicália: a história de uma revolução musical, de Carlos Calado.

Cite um autor de que você gosta muito:

Impossível citar um...

Qual o grande autor que você ainda não descobriu?

Camus, Balzac...

Que obra literária vem à sua mente sempre que alguém pergunta sobre qual é sua obra preferida? 

Memorial de Maria Moura, Madame Bovary, Cem anos de solidão, Os irmãos Karamazov, A educação sentimental, Quarup, A hora da estrela, Verão no aquário, Romanceiro cigano...

Que obra você leu – se é que conseguiu finalizar a leitura – e que você não suporta e não recomenda ao pior inimigo?

Farda, fardão, camisola de dormir, de Jorge Amado.

Você teceu um comentário incisivo em certo texto: “Preconceito acadêmico é uma lástima – antes de tecer qualquer crítica contra um autor e sua obra faz-se necessário conhecê-los”. É preciso ler autores como Paulo Coelho para confirmar o quanto de fato ele é ruim?

Sem dúvidas. Não é possível criticar um autor sem ter condições de apontar em que aspectos ele falha. O preconceito acadêmico é complicado, pois se dizem que uma obra é ruim, pela lógica, o aluno deveria ler a obra considerada ruim para tirar suas próprias conclusões – e isto não ocorre. Alunos de graduação aceitam, conformados, o pensamento dos professores. Se um texto for ruim ou bom, que a leitura seja o meio através do qual essa constatação se estabeleça. Criticar algo sem ler, do meu ponto de vista, é catastrófico – e patético!   

Qual é o maior trabalho musical do Brasil?

A história do Nordeste (1954), de Luiz Gonzaga; Tropicália ou Panis et circensis (1968), de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Gal Costa e Nara Leão; Acabou chorare (1972), dos Novos Baianos; e A mulher do fim do mundo (2015), de Elza Soares!

Qual a maior cantora e o maior cantor?

Elza Soares e Luiz Gonzaga.

Ao remeter-se ao cantor Luiz Gonzaga, em comentário sobre sua morte, você disse: “Se um dia o país em que vivo tiver que renegar seus grandes artistas, eu lamentaria muito porque sei que muitos artistas vivos e mortos não mereceriam tal condição, mas eu talvez, dependendo da circunstância, o perdoasse. Mas um há que eu não admitiria ser, em hipótese alguma, renegado: Luiz Gonzaga”. Por que um comentário tão generalizante e apaixonado?

Luiz Gonzaga traz à tona a única coisa de que me orgulho neste país: o Nordeste. O Nordeste é de uma riqueza cultural e de uma força de sobrevivência que não podem ser mensuradas. A história desse país em que nasci mostra, com facilidade, o quanto o Nordeste contribuiu em seus vários aspectos. Luiz Gonzaga, com sua voz e lirismo, construiu um projeto muito bem articulado e fez o Nordeste ser visto para além dos estereótipos...

Qual é o maior equívoco que as pessoas poderiam cometer ao falar sobre você?

Algumas pessoas me veem como alguém que detém muita inteligência e coisa e tal – isto não é verdade. Se há inteligência em mim, tem a ver com a visão perspicaz que me diz diariamente o quanto preciso ampliar meus conhecimentos e mudar meu comportamento que, por vezes, é complicado.

Você se indagou: “De onde me vem este desejo absurdo de chorar sem conseguir nunca?” Você não chora? Por quê?

Quando criança, segundo minha mãe, eu chorava muito e por tudo. Certo dia, cansada de me ver chorar, minha mãe me trancou no banheiro e me deixou lá até eu parar de chorar... Ela conseguiu alcançar seu objetivo. Eu choro apenas por estar comovido, e isto só acontece se eu estiver sozinho.

Diga algo que, se você tivesse tido oportunidade, você teria dito, mas que até então você, por vários motivos, não pôde dizer:

“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre nós mesmos”. (Marguerite Yourcenar)

OBS.: Perguntas elaboradas pelo autor do Blog a partir das entrevistas realizadas por Antônio Abujamra, do programa de entrevistas "Provocações", da TV Cultura, em 26/09/13, e retomado em 23/09/2017. 




RESENHA CRÍTICA: "DÉCIMAS A GALOPE", DE ARTURO GOUVEIA




GOUVEIA, Arturo. Décimas a galope. João Pessoa: Ideia, 2017.

Após apresentar ao público seu romance Canibalismo de Outono (2016), Arturo Gouveia percorre outros caminhos em sua produção artística. O autor apresenta-nos, agora, seu livro Décimas a galope (2017), publicado pela Editora Ideia, e mostra que sua maestria não se restringe apenas à produção de textos em prosa, pois sua poesia, entre lírica e irreverente, também comprova seu notável talento com as palavras.   
            Ao dizer que sua poesia é o ousado fruto de sua “infantilidade poética”, o que o leva a sentir-se “salvaguardado” dos críticos, Gouveia não tem dimensão, talvez, do quanto foi pertinente ter se metido na tradição dos poetas e cantadores que circula pelo Nordeste com seus folhetos de cordel e cancioneiros que muito resguardam do que há de mais valorativo em nossa cultura.
            Em Décimas a galope, o autor apresenta-nos nove poemas decassílabos a partir de motes entre cômicos e líricos. A preocupação formal quanto ao atendimento ao metro, à sonoridade e à rima é recorrente – isto resultou num trabalho de grande precisão técnica perceptível em todos os poemas.
            Passando para o conteúdo do livro, o primeiro poema é realizado a partir do mote: “NO SERTÃO O CREPUSCLO É TÃO BONITO, / QUE JESUS SE DEBRUÇA PARA OLHAR”. Como o poeta explica, este mote é de autoria não definida e apresenta algumas variações, de modo que ele o retomou criando, dessa forma, um dos mais comoventes poemas do livro. A primeira estrofe expõe o sertão com tons entre melancólicos e belos: se por um lado “o Sol se despede do sertão / E enlamaça de cores o horizonte”, com seus tons de melancolia, por outro lado, cria-se uma imagem de intensa beleza: “Entre a Terra e o Céu fica uma ponte / Que transita entre a luz e a escuridão”. Grilos com seus tilintares e crianças a brincar compõem o lírico cenário sertanejo – e o “Supremo se ergue no Infinito”.
            Em versos como: “Cusparadas de luzes verticais”, “Os morcegos decolam em transversais”, “Os miolos do Céu são dissipados”, “A cratera da noite engole o mundo”, “Vagalumes começam a parir”, localizamos imagens que se inserem na linha da produção artística do autor que, pelo que analisamos de suas obras anteriores, prima pela criação de imagens grotescas e violentas, mas não menos poéticas. Neste caso, ele capta a aspereza do sertão que remete à sobrevivência, por vezes, em meio à escassez e à austeridade da vida, apesar de permear seus versos com imagens que nos remetem à apreciação de cenários de beleza inconteste.
Do grotesco, do sombrio, do áspero saem lampejos de vida, de singeleza e, também, de esperança – por que não? A simbologia do crepúsculo, que poderia remeter ao fim do dia / fim da vida, é de tal modo detentor de beleza imagética que o próprio Criador se surpreende: “Mesmo Autor de incontáveis perfeições, / A tardinha a Jesus é u’a surpresa”. O Criador torna-se cúmplice do sertanejo na contemplação do cenário.
            O segundo poema se desenvolve a partir do mote: “SEM TALENTO NENHUM PARA IMPROVISO, PELO MENOS ESCREVO MEU MARTELO”. Em tom marcadamente metalinguístico, o poeta retoma os valores artísticos do repentista e do cantador e propõe um duelo, desta feita não por meio do improviso, tão ao gosto dos artistas populares, mas por meio da escrita. Com isto, ele cria versos como:

É na escrita que as rimas são complexas,
Proparó, oquici, faço o que quero,
Pode o mundo pensar que é lero-lero,
Porém mágicas letras vão anexas.
Seja aqui, em Dubai, Berlim, no Texas,
Linhas mestras se agrupam elo a elo,
Frase a frase o impáquito é tão belo,
Que abrange o perfeito e o impreciso
Sem talento nenhum para improviso,
Pelo menos escrevo meu martelo.

Palavras como “proparoxítona” (proparó / oquici) e “impacto” (impáquito) saem da usualidade e, criativamente, são reconfiguradas – saudosismo da herança dos modernistas da denominada fase heroica, ou deboche bem articulado que não hesita em fugir de preciosismos, e que, se obedece às nuanças formais do poema, burla as regras da linguagem?
As regras da linguagem são burladas também em expressões neologísticas como: “vamagora”, “pirrai” e “inda”. No mesmo poema em que tais palavras são concebidas, surge um verso, ao estilo Augusto dos Anjos, que apresenta um decassílabo formado apenas por duas palavras: “Imponderabilíssimos versículos”.
Em seguida, no terceiro poema, que poderia ser subintitulado como ‘catálogo do absurdo’, deparamo-nos com o sarcasmo já evidenciado no poema anterior, mas que neste vai às últimas consequências. A concepção de arte contemporânea e a noção de pós-modernidade são alvo do escarnecimento da voz lírica do poema. Uma espécie de jorro de palavras, que nos aproxima das propostas artísticas de algumas vanguardas europeias, como o dadaísmo (Marcel Duchamp é citado duas vezes) e o surrealismo, vem à tona.
O absurdo prepondera na imagética do poema, como podermos constatar em sua última estrofe, ocasião em que a voz lírica tece contundente crítica a certas concepções artísticas pouco comprometidas com a singularidade estética:

Para a arte atingir seu esplendor,
Deve ser tão banal quanto o insólito:
Uma foto de Hipólita e de Hipólito
E um casal de embuá fazendo amor.
Sutiãs de Nabucodonosor
Num pedófilo amando um general,
Mil goteiras de baba vaginal
Inundando de urânio Fukushima
- Instalei a mais célebre obra-prima
Que arrasou nos salões da Bienal.

No quarto poema, o autor retoma um dos mais extraordinários contos da literatura nacional: A hora e vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa. A saga de Nhô Augusto, homem austero que passa por uma mudança vertiginosa em sua vida após um episódio de quase morte, é retomada. Seja pela bem delineada reconstrução da enredística do conto, seja pela linguagem que retoma, em vários aspectos, o estilo do autor mineiro, este poema consegue nos aproximar do universo lírico de Guimarães Rosa, como no trecho em que é narrada a viagem de Augusto Matraga em busca das terras do Rala-coco:

Despediu-se do povo e foi sem rumo
Encontrar sua vez e sua hora,
Deparou com o solzão, lonjão, lá fora,
Vomitando relâmpagos sem prumo.
Sem bebida, pecado ou mesmo fumo,
Viajou no jumento com ardor.
Não sabia a distância por transpor,
Mas a fé feita em Deus nunca se indaga
- O maior dos Augustos, o Matraga,
Ascendeu de maldito a redentor.

No quinto poema, mesclam-se ficção e realidade. Nos primeiros versos, a voz lírica sugere que teve uma conversa com Riobaldo, ao mesmo tempo em que é retomada a figura de Zé Limeira que, supostamente, teria morado em um convento. Surge nele algumas figuras desde o Saci, do folclore brasileiro, a Policarpo Quaresma, de Lima Barreto. Além disso, há menção a pessoas reais do universo das artes – Pablo Picasso, Piet Mondrian, Salvador Dalí, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe e Procópio e Bibi Ferreira, dentre outros. A intertextualidade é nítida em trechos como: “O abiççurdo, cubista ou expressionista, / Tá na fala tubi or no tubi. / Elsenor é o palácio de Geni...” Além da retomada das Vanguardas Europeias, no trecho há alusões a Hamlet, de Shakespeare, a Geni e o zepelim, de Chico Buarque, passando pelo Movimento Antropofágico, proposto por Oswald de Andrade. Percebemos isto, também, na menção a Augusto dos Anjos presente no verso: “Tem poeta que numa boca escarra, / Tem quem viva esperando o Jabuti...”  
No poema seguinte, Zé Limeira reaparece, desta feita a convite da voz lírica que afirma tê-lo convidado e ele ter trazido Moreira e Juliano. A formalidade da linguagem é alternada com a linguagem coloquial que se adéqua ao tom irreverente, absurdo e nonsense do poema. Assim como subintitulamos o terceiro poema como ‘catálogo do absurdo’, o sexto poema poderia ser subintitulado como o “catálogo da loucura”.
Os poemas posteriores, que são marcadamente humorísticos: o primeiro (PEGUE A LÍNGUA DA SUA SOGRA MORTA / E ELOGIE COM AMOR EM DOIS VELÓRIOS), que se remete à imagem popularmente considerada como detestável da sogra, a homenageia ao contrário, apresentando-a com tons caricaturais e jocosos; o segundo (QUANDO EU ERA PIRRAI VOVÓ DIZIA / QUE MEU ROSTO ERA A CARA DE UM PIPIU), galhofeiro e obsceno, apresenta os mesmos tons caricaturais do poema sobre a sogra.
Esses poemas são cômicos, apresentam inovações do ponto de vista da linguagem – como exemplo, consideremos os termos “pralutakismariu”, “Zé-Mezera” e “bimbim” – e são criativos ao extremo. Para ilustrar a criatividade com que a voz lírica manipula os componentes do humor que os tornam textos irreverentes e galhofeiros, além de marcadamente sarcásticos, leiamos a seguinte estrofe:

Conta todo carimbo de um calção,
Sabe todo defeito dos ingratos,
Delatou Jesus Cristo pra Pilatos,
Entregou Galileu à Inquisição.
Não tem Bíblia, Odisseia nem Corão
Nem cardápio de uns trinta refeitórios
Que concorram com tanto palavrórios
Que a garganta do Cão fabrica e exporta
- Pegue a língua da sua sogra morta
E elogie com amor em dois velórios.

        E, para concluir, o último poema pode ser considerado um dos mais extraordinários do livro (trata-se da décima O MAIS ALTO DEGRAU DA INTELIGÊNCIA / É SAIR PRA CAÇAR O POKEMÓN). Neste, um dos mais críticos, sarcásticos e cômicos, deparamo-nos com a difundida prática do mundo virtual: “caçar pokemón” que, na percepção sempre irônica da voz lírica, é considerada uma ação totalmente contrária ao desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Nos versos seguintes, percebemos o teor sarcástico com que as palavras são dispostas:

A burrisse é negoçço de familha,
Não têm erros na língua poquemônica:
Tanto faiz candidato, bomba atônica,
Ou cartasis ou rúbrica ou barguilha.
Os 40 ladrões lá em Brazilha
Açaltaro Seu Jorje, urrei de Tlon.
Oge vô se cobrir com o edredón
Só se eu se abister da abstinênsia.
- O mas auto degrau da inteligência
É saí pra cassar o Pokemón.

         Pelas estrofes que apresentamos, podemos constatar que o novo livro de Arturo Gouveia é instigante, criativo e formalmente irretocável. Consegue ser denso no manuseio dos aspectos estruturais e inovador pela forma como a linguagem é apresentada. Por ser um artista consciente da profundidade que uma palavra pode alcançar quando bem arquitetada, ele consegue nos proporcionar uma leitura que nos amplia o olhar sobre cenários e temas diversos, e, além disso, nos propicia momentos de leveza e diversão, quando nos motiva a rir aturdidos pelos absurdos, pelas caricaturas e pelas irreverências que emergem de seus versos sempre rigorosamente construídos.
            O livro Décimas a galope é uma brincadeira séria que está longe de configurar-se como fruto de uma “infantilidade poética”, a não ser que compreendamos essa infantilidade como um gesto de desprendimento, ousadia, leveza e, de certo modo, desobediência e rebeldia, ingredientes muito válidos para quem pensa o fazer artístico como algo singular que, em suas especificidades, pode conduzir seu apreciador às mais benéficas sensações e a novas perspectivas de apreciação artística.  

Émerson Cardoso

04/10/2017

domingo, 24 de setembro de 2017

SAUDADE DE UMA INESQUECÍVEL AMIGA


Conhecemos algumas pessoas que surgem em nossas vidas, mas passam. Elas vêm e até contribuem de algum modo, porém mal o tempo segue seu curso e elas se transformam apenas em meras lembranças que podem ser positivas ou não. Há pessoas, no entanto, de tal modo significativas que é impossível não notarmos sua presença afetiva em nossas memórias. Acontece que, por vezes, essas pessoas notáveis vão embora antes de nós e deixam um espaço vazio impossível de ser preenchido – não se substitui uma pessoa que estimamos. Resta-nos, portanto, lidar com a saudade que nos afaga inevitavelmente.

No dia 22 de agosto de 2017, ainda pela manhã, fiquei sabendo do falecimento de Mazé – Maria José Barbosa Gonçalves. Eu a conheci em 1992, quando eu ainda era criança. Éramos vizinhos e, sendo amigo de suas filhas, tornei-me, também, amigo dela. Nossa amizade aconteceu de uma forma diferente: eu era criança e ela adulta. Ela me instigava respeito e admiração, no início, mas a infância se foi, a adolescência passou e a fase adulta chegou ampliando, cada vez mais, os sentimentos positivos que ela me despertava. Assim, ela tornou-se alguém que eu costumava ver pouco, mas que, quando eu reencontrava, me causava grande alegria.

Ela era uma mulher muito dedicada ao marido e aos filhos. Estudou, mas optou pelo casamento. Era católica, tinha suas devoções. Era uma pessoa forte, de caráter irreprochável e rica em dignidade – poucas pessoas conseguiram ser tão dignas quanto ela. Com a mesma seriedade com que fazia exortações aos filhos, era capaz de fazer rir aos que estavam em seu derredor. Acho que esta era a sua maior peculiaridade: ser engraçada, divertida, bem-humorada. Eu a vi chorar, claro, também se irritar, algumas vezes, mas ela era essencialmente alegre, simpática e fazia a gente se sentir bem quando estava por perto – ela tinha muitas amizades.

Quando soube de sua partida, eu senti uma tristeza profunda. Ela é, talvez, a pessoa que nunca, em minha vida inteira, me causou dor, tristeza ou mágoa. Eu, que tive uma infância infeliz e cheia de dores, não me recordo de ouvir de sua boca uma palavra áspera, um tratamento que me causasse sofrimento ou tristeza – e isto foi o que me aproximou dela por toda a vida. Ela fazia com que eu me sentisse querido, fazia com que eu me sentisse gente, porque nunca me olhou com julgamento, repreensão ou crítica. Eu era, nas várias fases em que estivemos juntos, alguém que ela sempre tratou com carinho e, para mim, ela era mais que uma pessoa estimada, era minha amiga – uma amiga inesquecível, que sempre ri e me acolhe quando a vejo em minhas recordações.   

Sei que um dia eu me reencontrarei com ela no mundo espiritual ou em outras vidas, porque estou certo de que não importa a forma e o contexto, mas nós, se nos reencontrarmos, seremos sempre amigos. Ela despertou em mim aquele tipo de afeto que o tempo não apaga, nem a morte impossibilita de crescer. Não são assim as verdadeiras amizades? Que saudade dessa minha amiga tão querida, Deus, que saudade! Enquanto ela descansa um pouco, eu, daqui, envio meu carinho e bons sentimentos para ela, que ocupará, enquanto eu existir, um grande espaço neste meu coração tristonho.

Émerson Cardoso
22/09/2017



segunda-feira, 28 de agosto de 2017

REFLEXÕES SOBRE 11 DE SETEMBRO - E O CAMPO MAGNÉTICO DA TERRA ESTÁ SENDO QUEIMADO PELO SOL


Ontem li algo sobre o sol: ele está queimando o campo magnético da Terra. Vento solar às toneladas vem em direção ao planeta desde o dia 04 de setembro. Hoje, 11 de setembro, é um dia emblemático. Nesta data, o mundo certamente se recorda do golpe militar aplicado por Pinochet, que exerceu governo ditatorial no Chile por 17 anos. 

Hoje, também, me queima o campo magnético da alma abismo e medo: se cai para sempre nas valas abertas e se tem que engolir a queda com olhar silente. O maior acidente ferroviário de Portugal, ocorrido em 1985, me vem à memória. A meus pés o vento parece brincar de morte. Tanto a viver, mas imprevistos existenciais tolhem nossas mãos de entrecruzadas linhas. E meu campo magnético sucumbe. Teria a ver com o "brasil" e suas impossibilidades? Com a América que se dissipa em furacões e terremoto nestes dias de insanidades e virtuais abrigos?  

Nasceu, em 1885, na Inglaterra, D. H. Lawrence (que eu nunca li). E o sol está queimando o campo magnético da Terra com punhal nos dentes e vermelhos olhos. O "brasil" está perdido, crianças nascem hoje e não sabem ao certo se haverá solução para o nascimento que as oprime. 

Aniversário de Theodor Adorno. O que devemos comemorar, Adorno: o domínio racional da natureza, ou o domínio irracional do homem? Campos de concentração já riram de nós em passado próximo, no entanto valados se despem à espera de novas carícias. Sem soluções, sem vida, sem nada, eu desço. 

De onde me vem este desejo absurdo de chorar sem conseguir nunca? Antero de Quental morreu em dia assim, vislumbrando esperança com duas carícias prateadas ferindo corpo e alma. Antero, irmão, quem nos dará a paz de espírito de que necessitamos para suportar a vida e seus mistérios? 

Carpina, Arcoverde, Cabrobó, Araripina, cidades pernambucanas, estão de feriado (outras cidades no "brasil" também, mas...). Comemoram emancipação, é isto? E seus moradores? Eu conheço um morador de Carpina que se tornou meu amigo: ele comemora que realizações nesta-data-querida? O campo magnético dos meus olhos ardem: escrevi até sangrar as mãos em tela de luz sombria.

Há algum dado a lembrar neste 11 de setembro? Minha memória não menciona nada. Ah! Morreu Jessica Tandy, a mais velha a receber um Óscar. E por falar em Óscar, que remete aos EUA, não foi hoje que Dane Clark morreu? 

Enquanto não consigo chorar, embora o abismo me instigue a isto, escuto Indochina, banda francesa que insiste em dizer, numa canção das minhas preferidas, que La vie est belle. Talvez seja, quem sou para desdizer tal assertiva? Mas o campo magnético de minha alma passa por holocausto, e eu não sei quem é o responsável: a vida, o mundo, o sol? Fecho os olhos, abro-os em seguida: e este gesto não alterou nada no rumo das coisas. Estou caindo, é certo, e minhas mãos estão em carne viva. 

Émerson Cardoso
11/09/2017

domingo, 13 de agosto de 2017

CONTO: "RESSURREIÇÃO NA CHUVA"


“As rãs virão sobre ti, sobre teu povo”. (Êxodo 8: 4)

Nuvens de chumbo ocultam o crepúsculo. Obscurecida praça. Quantas almas podem perecer com o dilúvio que se forma?

Nas sombras da praça tomou forma um vulto que procurou um banco e sentou-se. Era um homem de longa barba, sórdido aspecto. Na ignorância de ser, ele trazia nas mãos um saco tão encardido quanto sua roupa. O muito perambular pelas ruas da cidade rendera-lhe pouco dinheiro naquele dia. Cansado, e com previsão de chuva, passeou a mão no rosto, deixou-a cair. O braço esquerdo estava enrolado em amarelecido pano que purpúrea ferida, de purulentas bordas, ocultava. Era partícipe do clã dos mendigos aos milhões que, em nação desumana, sequer são percebidos como seres capazes de alguma humanidade. Trazia embrulhada em sua mendicância o desejo de ser um grande homem – com que ineficácia movia-se pela existência. O homem-mendigo-fatigado-impotente encostou o encardido corpo no banco da praça e tentou descansar. Quem o discriminaria por tentar repousar seu lúgubre mundo naquela obscura praça? Com olhos que desciam ao chão suspirou.

Surgiu nas sombras outro vulto que aos poucos tomou forma. Procurou um banco, sentou-se. Era uma mulher em corpo de homem, ou era um homem em corpo de mulher? Vestido vermelho, salto alto, bolsa na mão, imensos seios que loiros cabelos cobriam. Tinha cílios postiços, forte maquiagem, anéis e cordões prateados. Tinha unhas avermelhadas e longas. Ao sentar-se, respirou profundamente. Por vezes foi, aquele ser artificialmente construído, objeto de uso de vários homens. De tanto lutar contra a suposta natureza que lhe determinara o sexo, fatigadx estava. Não escolhera. Agora, sentadx em praça obscurecida, não suportava mais o peso que a solidão pode proporcionar aos transgressores da terra. Olhava para si mesmx e sentia-se num cárcere. Era uma mulher, desde sempre, mas estava presx por indevassáveis grades. Segurando com força as grades, gritando com veemência, percebia-se mulher, mas quem teria compaixão de tirá-lx daquele corpo que não lhe pertencia? Até quando carregaria sua letra escarlate? A voz paterna. De tempos em tempos, irrompia a voz paterna e o flagrante: o amigo da escola estava despido em seu quarto quando o pai entrou. Retirou o sexo do amigo da boca e balbuciou pedidos de desculpa. O pai arrastou-x pelos cabelos, esbofeteou seu rosto, tirou sangue de suas costas, em seu pescoço pisou, em seu corpo frágil de meninx desnorteadx cuspiu. E a dor maior: “Em minha casa aberração não quero!” Frias podem ser as avenidas. Naquele instante, no entanto, queria ter querido outro querer. Não arrependimento, porém queria ter podido optar. A cabeça baixou. Mãos cruzadas. Permaneceu na praça com sua desenhada face.

Outro vulto surgiu. Procurou hesitante um banco e sentou-se. Uma moça de saia longa e preta, óculos, cabelos presos, nas mãos um livro, pés em baixa sandália. Gorda. Sentada, contra o peito apertou o livro. Queria, num aperto, morrer – para sempre morrer. Queria nunca mais para casa retornar (engástulo, jaula, cárcere, gaiola, cela, cadeia, masmorra, calabouço, prisão, túmulo). Libertar-se de si mesma queria: morrer seria pleno. Sentia-se feia, pelo mundo rejeitada. Detestava os olhares alheios. Quis, na penumbra, chorar. Lispector nas mãos – o marcador na página em que constava A fuga. E se dieta fizesse? Uma professora de trinta anos e feia e pobre e gorda e míope ainda poderia encontrar o amor? Deus cria os bonitos para que os feios sofram e assim paguem, com a sensação de inferioridade, seus muitos pecados? Sentia o mundo como uma pancada ocular sobre seu muito corpo. Melancolia intermitente invadiu-a. Tateou em si a culpa por sentir-se a mais feia do mundo e permaneceu, arfante, com seu pesar morando ao lado.

Mas vai chover. Árvores dançam sob o vento. Das águas vêm punhais prateados que almejam perfurar desamparados olhos. Quanto à chuva, ela cai torrencialmente.     

O mendigo poderia erguer-se e ir-se embora. Decidiu, no entanto, permanecer. O corpo, gradativamente, ensopava-se de uma chuva tão fria quanto cortante. Era, o mendigo, na ânsia de limpar-se das sujeiras do corpo, um homem em busca de apenas ser. Era fênix ressurgida da poeira das ruas e calçadas. A chuva, austera e barulhenta e intensa, carregava cansaços e angústias. E ele, por alguns segundos, não se sentia mais homem das ruas. Não, o que poderia haver de mendicância em si acabava de descer nas águas. Curada a ferida, vermelhidão e pus não mais.

Ela-ele poderia ter fugido da chuva, ter protegido a maquiagem. Poderia cobrir com as mãos o rosto e proteger sua bolsa. Não quis fugir, dessa vez toleraria as pancadas. Ela-ele, fênix maquiada, tiresiana das avenidas, poderia ressurgir das cores do esmalte, do vermelho do batom, da circunferência dos seios apertados no vestido curto? Poderia ser, dali para sempre, a mulher que sempre quis? Poderia livrar-se, definitivamente, da artificialidade da aparência, dos hormônios em cápsulas? Queria nunca ter sentido do pai o ódio. Se mulher fosse, desde sempre, mas... Ela-ele decidiu, portanto: deixaria o paterno olhar descer nas águas e seria, eternamente, mulher. Sem culpa sem medo sem remorso sem dor: mulher seria. Ela permaneceu sentada, vitoriosa, felicíssima, imersa em profundas águas de uma chuva que eriçava a pele. Não teria mais avenidas a percorrer com sonolência e medo.

A moça que se achava a mais feia e gorda e míope do mundo deixou o livro molhar-se. Abriu as páginas com desprendimento e contemplou, estática, as personagens de Lispector descerem nas águas. Ocorreu-lhe que, se naquele dilúvio não estivesse, estaria deitada, muito limpa, pensando nas discriminações vividas durante o dia. A cama seria aconchegante, porém o frio da chuva, naquele instante, era-lhe um oásis. Olhou-se nas gotículas de chuva que se aglomeravam em suas lentes, depois a chuva levou-as. Sem óculos, sentiu-se livre. A partir dali não precisaria enxergar o mundo. A necessidade de lecionar, a angústia de ser sozinha, o anseio de morrer, tudo estava água abaixo descendo. Agora, era uma ave fênix ressurgida das letras de uma página que poderia ser reescrita, pois, num súbito, nova mulher se fazia. O dilúvio retirava seus medos aos pares e ordenava-os numa arca que não se abriria jamais. Permaneceu sentada enquanto a chuva tateava-a com orgia e frivolidade.

Eu já posso chorar, pois na chuva as lágrimas ficam imperceptíveis. Sem julgamentos, meus olhos podem finalmente deslizar em águas. Eu já posso chorar, eu já posso nascer! – Foi o que disseram para si mesmos.

Quando cessar o dilúvio – será necessário repovoar o mundo. Todos esperarão um ramo que lhes absolva e redistribua vida.  

Cílios, maquiagem, unhas postiças, batom, molhados cabelos. Ela, na penumbra, para o mendigo olhou e refletiu: “Mais um cliente que quer me usar por dinheiro pouco, mas hoje não sou de ninguém mais!” Ao mesmo tempo, olhou para a mulher que estava sentada a certa distância – não a tinha percebido ali. Aquela sim era satisfeita com a vida, ganhou um corpo que sua alma conseguia comportar. Já a moça gorda viu uma mulher jovem e de seios extravagantes num dos bancos à frente e pensou: “Aquela moça a felicidade é: com tão perfeito corpo, que sofrimentos enfrentaria?” O mendigo olhou para as moças e sentiu vergonha de que elas percebessem sua ferida. Era intenso o silêncio que os engolia. Gritos aos arroubos, íntimos, denunciavam a miséria existencial que os aprisionava. Tentaram fugir uns dos outros – talvez não suportassem o fato de que a água da chuva os tinha exposto demais. Tentaram, de repente, fugir como quem sente medo de ser, por impiedosos predadores, devorado. 

Os três, molhados e sob uma chuva que recomeçava, ergueram-se de súbito. Estavam vivos, embora encharcados. Estavam vivos, embora incertos. Saíram ao mesmo tempo de seus respectivos bancos, porém ficaram estupefatos: as gotículas de água da chuva transformavam-se em rãs e sapos que, com barulho, caíam no chão. Imensos, sangrando, abertos olhos, bocas abertas, rãs e sapos. Vísceras expostas, e corpos alquebrados na queda, eles interditaram todas as saídas. 

A tríade marchou enfrentando bilhões de anfíbios agonizantes na obscurecida praça. O mendigo apertou o passo intimidado pela mulher que se equilibrava no salto, e mulher que sentia inveja da mulher gorda que tentava andar sem óculos e que, com destreza, pulava os animais empoçados. A chuva na praça caía sem cessar – contra o chão, novos anuros. Depois, cessou a chuva e a estiagem, para sempre, carregou os três seres ressurgidos das águas. 

E o mundo nunca mais foi o mesmo.

REFERÊNCIA

CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. Ressurreição na chuva. In: Breve estudo sobre corações endurecidos. Maricá - RJ: Ponto da Cultura, 2011.