domingo, 12 de outubro de 2014

NOTA DE REPÚDIO SOBRE O USO DO TERMO "HOLOCAUSTO" EM TEMPOS DE ELEIÇÃO

Por ocasião desta preocupante eleição de 2014, tive acesso a uma postagem que trazia o seguinte título: Comunidade médica prega holocausto no Nordeste em campanha contra Dilma na web. Esta comunidade tem por título Dignidade Médica e é administrada, dentre outras pessoas, pela médica Patricia Sicchar, que atua na Secretaria de Saúde de Manaus.
           Após reportagem do iG, realizada por Carolina Garcia, que denunciava o teor obscuro das postagens na referida comunidade, houve alteração da foto do perfil desta e foi escrita, de forma anônima, uma nota de repúdio em que um suposto membro do grupo afirmava serem inverídicas as acusações feitas pela jornalista que realizara a matéria. Com isto, uma espécie de “disse-não-disse” parece surgir sem que, contudo, o termo “holocausto” seja vislumbrado com o grau de complexidade que ele suscita.
           "Holocausto", conforme sugere o dicionário*, corresponde à “imolação de vítima através do fogo”; significa, também, “sacrifício, expiação”. É claro que, se relacionarmos este termo ao que ocorreu por ocasião do governo totalitário perpetrado pelo Nazismo, esta palavra torna-se mais densa, complexa e, mais que isto, indigesta, absurda e deplorável.
Claro que não é inteligente, da minha parte, cair de todo numa visão niilista diante da vida, mas lidar com a ideia de que alguém pode citar o termo "holocausto", em pleno século XXI, sob o calor da emoção de uma MERA DISPUTA POLÍTICA, não me possibilita crer que haja possibilidades de redenção para esta humanidade tristonha, frágil e mórbida que eu integro.
No ímpeto emotivo que alguns vivenciam, em decorrência de suas posições políticas, surgem muitas mensagens cujo teor pode ser agressivo, mas nenhuma mensagem, a meu ver, me causou tamanho mal-estar e indignação. Eu jamais poderia pensar que essa vergonhosa palavra poderia ressurgir, desta feita direcionada como o correto a ser feito com pessoas do Nordeste – região a que eu pertenço – apenas porque alguns desta região exerceram o direito que lhes foi conferido, pela tão ansiada democracia, de votar em quem lhes aprouvesse.
A propósito, não estou a escrever este texto para fazer apologia a partido A ou B, também não quero tecer críticas a ninguém por ocasião do partido que defende – filiar-se a um partido e argumentar em prol deste é um direito que assiste ao cidadão depois de muitas lutas. Em verdade, escrevi esse texto porque estou estarrecido com o fato de que há quem seja capaz de revitalizar, inadvertidamente, a palavra mais trágica da história da humanidade, a meu ver.
O iG, com teor sensacionalista ou não, apontou como advindo de um ou outro profissional da saúde – sei que muitos profissionais da saúde exercem com dignidade ímpar seu trabalho tão indispensável à vida humana, portanto não me refiro à classe médica, mas a indivíduos específicos – o uso nefasto dessa palavra maligna e, com isto, logo me vem à mente o conceito de Hannah Arendt acerca da banalização do mal. Tão propensos alguns estão a agir de forma desumana que, sem ser capaz de avaliar seus pensamentos, palavras, atos e (não) omissões, tocam em um termo como esse sem sequer problematizá-lo.  
Não me interessa saber se quem postou ou deixou de postar tal mensagem foi a administradora da comunidade, ou se foi um dos membros, o fato é que alguém a citou e isto, no mínimo, é degradante. A sensação de medo e desconforto, também de desencanto e descrença, que essa postagem me causou não tem precedentes.
No iG foi dito que a médica defendeu-se das acusações com a seguinte frase: "Holocausto é uma revolução do agir. Nada do que vocês [jornalistas] entendem". Como disse, não quero atirar pedras em ninguém, no entanto não posso compactuar com essas ideias que, desde que eu li, têm me causado angústia e têm tirado minha paz. “Holocausto”, ó céus, ser considerado uma “revolução”? E uma “revolução do agir”? O que ela teria querido dizer? Como assim “revolução do agir”?
Para não expurgar mais do que me parece necessário, finalizarei meu texto. Sugiro, portanto, que, antes de qualquer divergência política, o interessante a fazer é realizar uma “revolução do agir”, ou seja, passar a agir com coerência, solidariedade, bom senso e, sobretudo, respeito. Faz-se necessário refletir sobre o que tem sido falado, escrito, debatido, porque nós poderemos incorrer em discriminação, preconceito e racismo a qualquer momento - e isto não pode ser tolerado. Penso que o ódio não pode suprimir a necessidade de sermos fraternos, nem considero correto sofrermos todos com as afrontas e agressões que têm sido propagadas pela mídia em decorrência dessa eleição. Que vença um ou outro – este me parece um problema que tem sua importância em outro aspecto –, mas que nós não percamos a capacidade de pensar, ação tão necessária para que de fato a política se efetive.
Espero que a palavra "holocausto" seja, daqui para frente, analisada com o peso semântico que ela de fato comporta. Espero, também, que as pessoas que insinuaram tal absurdo não se deixem levar por “verdades” obsoletas que, há poucos anos, dizimaram seis milhões de seres humanos em decorrência, dentre outros fatores, de uma notória ausência de bom senso e sensibilidade.
Enfrentar tantos dissabores como os que nós, nordestinos, enfrentamos e, ainda assim, construirmos, com altivez, a história cultural, política e socioeconômica deste país, como nós temos feito, não é para qualquer um. Para instigar algumas pessoas a pensar sobre o assunto, vou retomar uma frase de Marguerite Yourcenar que tenho repetido com veemência: “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre nós mesmos”. Façamos isto, portanto.
Texto de: Émerson Cardoso


* LUFT, Celso Pedro. Minidicionário Luft. São Paulo: Ática, 2000.  

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