segunda-feira, 8 de julho de 2013

(RE) ENCONTRANDO FRIDA KAHLO



FRIDA KAHLO 

“Sua obra é ácida e frágil. Dura como aço e fina como a asa de uma borboleta. Cativante como um sorriso e cruel como as agruras da vida. Creio que jamais, até hoje, uma mulher depositou tanta agonia e poesia nas telas.”
             (Diego Rivera)

Passei a buscar, de uma hora para outra, tudo que me desse um pouco mais sobre Frida Kahlo. Não recordo em que lugar, especificamente, a vi pela primeira vez – isso só me dá cada vez mais a sensação de que já a conhecia desde sempre.
Numa noite de domingo, quando a tarde já destruíra minhas expectativas com o seu tédio natural, vi, por acaso, o filme Frida, de Julie Taymor. Esqueci o tédio e mergulhei no enredo: Frida Kahlo vivida por Salma Hayek – e nunca mais consegui me esquecer de que no México existiu uma mulher cuja dor se transformara na mais bela manifestação da arte pictórica.
Fazer considerações sobre a importância artística, política e social dessa mexicana é um lugar-comum, mas como não olhá-la senão por meio de todas essas vertentes em que sua personalidade forte deixou impressões? Mas e se eu decidisse agir pela intuição e apresentasse minhas impressões próprias sobre a obra dessa pintora que, em sendo do México, é do mundo inteiro por ter construído obras de caráter universal?
Num dia de finados, encontrei a obra “O Segredo de Frida Kahlo”, de Francisco Haghenbeck, e a li com voracidade. Cada página me proporcionava uma intensa sensação de bem-estar: era o encontro. Abria-se a porta da Casa Azul, em Coyoacan, e eu sentia o odor de especiarias exóticas. A luz era melancólica, as paredes se erguiam numa singela acolhida. Em poucos passos caminhados, de repente a vi. Deitada, imóvel, com os olhos caídos no mesmo ângulo da mão que repousava sobre as cobertas da cama ela olhava para o nada. Ao erguer seus olhos e fitar meu rosto, senti um frisson perpassar meu corpo inteiro: um encontro de almas se deu.
Quando a encontrei novamente, na obra “Frida: a biografia”, de Hayden Herrera, tomei-a nas mãos e não a deixei mais sozinha – ela me esperava, por entre livros, numa obra cuja espessura me daria dias e dias de sua expressiva presença. Passei dias sem sequer conseguir tocá-la, porque abrir aquela obra seria tatear a alma de Frida e, em algum momento, concluí-la  quando eu a queria sempre e mais. Tirei, mesmo que receoso, seu manto, deitei-a num leito suspenso, passeei meus lábios em seus cômodos e tornei-me um só com ela. Duas almas absortas no desespero de se contemplarem, desnudas, num espelho indiscreto: meu amor por Frida!
Em cada encontro ela me fragmenta por inteiro. Em cada gesto seu, meu ser se acopla ao seu em sussurrante deslizar. Suas tramas de tinta me envolvem, suas cores vibrantes me constrangem – constrangido, me entrego. Deitamos num jardim surrealistaexpressionista   melancolia e dor e estranhamento. O barulho da chuva me entristece e me dá prazer: Frida tateia meu corpo e percorre minha alma. Encontrá-la é um momento de extremo ardor – sinto medo de me perder: seus lábios espargem tequila, seus seios são uma taça convidativa, sua boca tem o perfume de mil mulheres...
Olho para a imagem que numa das paredes de meu exílio coloquei: “A Coluna Partida”. Quem poderia me dar o olhar doloroso que encontrei nesta imagem? Sou eu ou ela, preso pelas amarras de um colete? Seu corpo perfurado, sua pele morena, suas lágrimas, a cratera que a traduzia e o deserto em que pisava: quem diria tanto numa pintura? Quem?
Sei sobre ela que seu nome era Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón. E ela era uma mexicana nascida na cidade de Coyoacan – hoje distrito da Cidade do México – em 06 de julho de 1907.  Sobre sua morte, dizem que se foi em 13 de julho de 1954. Sua existência lhe outorgou inúmeros acontecimentos trágicos: na infância, enfrentou a poliomielite que a deixou com sequelas durante a vida inteira; na adolescência, aos 18 anos, sofreu um acidente em que teve seu corpo perfurado por uma barra de ferro e que lhe forçou a fazer várias cirurgias; durante muito tempo precisou usar coletes de gesso que dessem sustentação à sua coluna; casou-se com Diego Rivera – um homem de ideias libertárias e incapaz de manter-se fiel a uma mulher.
Sei, também, que além de ter casado por duas vezes com o famoso pintor e ativista político Diego Rivera, sofreu abortos involuntários. Manteve uma vida descomprometida com as regras sociais, tendo mantido relações com homens e mulheres, como se isso, talvez, compensasse as constantes traições do marido. Sofreu as dores de perder a mãe; viu seu marido se relacionar com sua própria irmã – fato que a fez separar-se dele pela primeira vez –; manteve caso amoroso com Leon Trotsky, o que lhe causou problemas quando este foi assassinado; foi presa; perdeu uma perna em decorrência de uma gangrena; sentia muitas dores por causa da coluna e morreu, de modo controverso – suicídio, assassinato, problemas pulmonares? –, aos 47 anos. Mas, talvez para amenizar as agruras a que fora submetida, ainda em vida teve reconhecimento pela obra que produziu: os triunfos do talento!
Todas essas experiências traumáticas teriam sido responsáveis pelos temas de suas pinturas. Frida transformou sua obra num meio através do qual sublimava suas feridas existenciais. E seu tema principal era a dor experimentada por si mesma, o que torna inevitável o estabelecimento de uma ligação direta entre sua vida e obra. Digo, comovido e curioso, que suas telas eram diários imagéticos por meio das quais a pintora sublimava, artisticamente, os acontecimentos dramáticos da vida.
      Alguns estudiosos consideram-na uma representante grandiosa do Surrealismo, também do Expressionismo. Essas duas correntes artísticas, proeminentes no início do século XX, com suas respectivas características, parecem ter sido internalizadas por Frida – consciente ou inconscientemente – e servido de base para que ela produzisse muitas de suas obras, porém ela não aceitava rótulos.
Frida atira em suas telas um sonho ou, em verdade, um pesadelo. Suas pinturas abrem-se, amiúde, à renovação estética, captam materiais oníricos e traduzem um pertinente encontro com a realidade, por vezes cruel, da vida. Para isso, Frida aproveita-se da sua própria imagem, num perceptível tom confessional, para mostrar a que patamares de dor a alma humana pode ser submetida.
Olho para Frida Kahlo agora: ela chora pesadas lágrimas na pintura que, do meu ponto de vista mais que apaixonado, é o mais belo trabalho em Artes Plásticas que a humanidade já conheceu: salve a “A Coluna Partida!” Trata-se da obra a que dedico minha mais fiel contemplação. Olhamo-nos em silêncio. Todos os dias nos encontramos e, por meio de uma identificação completa, toleramos essa dor inevitável que nos motiva a sublimar, artisticamente, nossas desilusões e desesperos. Quero aprender a viver como Frida que, sem qualquer preocupação com as coerções sociais de sua época, se entregou, de corpo e alma, ao insondável grito que a Arte possibilita.
Como não amar Frida!

TEXTO: ÉMERSON CARDOSO


RETRATOS E AUTORRETRATOS DE FRIDA KAHLO















A MINHA PINTURA PREFERIDA ENTRE AS PREFERIDAS



PARA QUEM SE INTERESSAR POR FRIDA KAHLO, OU POR ESTA OBRA ESPECIFICAMENTE, RECOMENDO O MEU ARTIGO "AUTORRETRATOS DA DOR EM PROFUSÃO: DIÁLOGO ENTRE O SONETO EU..., DE FLORBELA ESPANCA, E A PINTURA A COLUNA PARTIDA, DE FRIDA KAHLO", PUBLICADO NA "MIGUILIM - REVISTA ELETRÔNICA DO NETLLI: 












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