sexta-feira, 6 de outubro de 2023
CRÔNICA: "O ESGOTAMENTO MENTAL QUE ME AGRIDE"
CRÔNICA: "O CALOR REINA NO MUNDO"
Hoje, quando o calor reina no mundo, sinto que não é possível enfrentá-lo sem aceitar que nós temos colhido o que plantamos. A mediocridade do ser humano tem destruído o planeta e, agora, temos constatado a natureza mostrando sua capacidade de ensinar pela dor.
Não é que eu seja de todo pessimista, mas tampouco sou a viva esperança, de modo que ouso dizer: a humanidade pagará caro por ter desrespeitado a natureza da qual nunca deixou de fazer parte - embora faça de tudo para isentar-se dessa participação inequívoca.
Ultimamente, além do calor, tem sido cansativo conviver com o mundo. Não tenho estrutura psíquica que me torne capaz de prosseguir com as máscaras sociais com as quais precisei deslizar em mil convívios. Quero leveza, sabe? Para ser leve, precisarei fugir de amarras criadas no entorno das relações. Também precisarei acender fogueira com as máscaras que já não cabem mais em meu rosto exaurido.
Enquanto escrevo, sem ter exatamente condições de prosseguir, sinto que a noite me convida a um adormecimento incapaz de me acalentar. Estou exaurido demais para conseguir firmar meus sonhos em algum lugar capaz de me caber com minha angústia imensa, porém necessária em mim - sem ela não serei eu em minha essência.
07/10/2023
segunda-feira, 31 de julho de 2023
NOTAS A RESPEITO DO LIVRO "O SOL NA CABEÇA", DE GEOVANI MARTINS
"O sol na cabeça", de Geovani Martins, apresenta treze contos.
"Rolézim"
"Espiral"
"Roleta-russa"
"O caso da borboleta"
"A história do periquito e do macaco"
"Primeiro dia"
"O rabisco"
"A viagem"
"Estação Padre Miguel"
"O cego"
"O mistério da vila"
"Sextou"
"Travessia"
CRÔNICA: CARTA PARA MIM MESMO EM PREPARAÇÃO PARA O PERÍODO EM QUE MAIS FICO DEPRESSIVO
quarta-feira, 26 de julho de 2023
CRÔNICA: "O QUE É INSUPORTÁVEL PARA MIM?"
Convivo bem com as pessoas. Juro. É sempre prazeroso conversar e compartilhar ideias com pessoas inteligentes, bem humoradas, simples e que buscam serem práticas sem confundir a praticidade com grosseria. Eu convivo com muitas pessoas assim, mas convivo, também, com pessoas que são bem diferentes disso que aponto como o meu "ideal" de pessoas boas para conviver.
Quando tenho que conviver com pessoas com as quais sou exigido por alguma questão inevitável, devo confessar que a solidão pode ser um alívio, porque estar sozinho ameniza ansiedades e urgências e traumas e frustrações e tristezas. Fugir do convívio, como se pode constatar, não nos amplia. Conviver prepara-nos o espírito, torna-nos mais fortes e capazes de crescimentos. Apesar de saber disso, eu ainda preferiria a solidão a ter que estar em más companhias. Dizem até que elas destroem hábitos úteis, não é?
Agora, se me permite, existem gestos e palavras e comportamentos humanos, nos diversos grupos aos quais costumo acorrer (obrigatoriamente ou não), que me parecem insustentáveis e insuportáveis. Eu começarei a enumerá-los como forma de expurgação. Talvez seja um ato um tanto quanto passivo-agressivo, mas costumo usar a escrita para esse tipo de expurgação. Exposta a ressalva, vou começar:
1 - Pessoas competitivas (homens tendem a ser mais competitivos, mas algumas mulheres o são também) e, ainda pior, que competem por bobagens;
2 - Pessoas cujos gestos parecem bondosos quando, em verdade, ocultam maledicências e moralismos e falsidades;
3 - Pessoas incapazes de guardar segredos por serem indiscretas e por precisarem demais se autoafirmarem;
4 - Pessoas incapazes de fazer autoavaliação, mas que percebem com rigor as posturas negativas dos outros;
5 - Pessoas que, egocêntricas demais ou narcisistas em excesso, são incapazes de um gesto de humildade;
6 - Pessoas que não percebem o quão podem parecer inconvenientes e deselegantes em alguns espaços públicos;
7 - Pessoas que bebem e tornam-se agressivas, desagradáveis e inconvenientes;
8 - Pessoas que precisam de autoafirmação constante a ponto de propagarem demais o bem que fazem aos outros;
9 - Pessoas que mentem com o intuito de prejudicarem outras pessoas;
10 - Pessoas que não sabem respeitar o espaço do outro;
11 - Pessoas que não têm profundidade em relação a determinado tema e querem passar, equivocada ou acriticamente, por especialistas desse tema;
12 - Pessoas que consideram indispensável leitura de obras literárias para que uma pessoa seja sábia, instigante ou inteligente;
13 - Pessoas que se consideram importantes demais e levam-se a sério demais;
14 - Pessoas mal-humoradas;
15 - Pessoas que são negacionistas e, consequentemente, acríticas em assuntos de política, ou que endeusam excessivamente um partido, uma corrente política, um líder político (o mesmo se aplica a questões de religião);
16 - Pessoas que ligam por meio de celular e passam mais de 15min conversando (eu sempre sinto dor de cabeça quando atendo ligação) ou que prosseguem uma longa conversa depois de uma despedida;
17 - Pessoas que pedem algum favor sem perguntar, previamente, se o outro poderá realizar a ação pedida;
18 - Pessoas que recorrem demais ao conhecimento, ao status e à crença como forma de propagar uma verdade ou maltratar, diminuir e subjugar alguém;
19 - Pessoas que não usam fones de ouvido nos transportes públicos e não públicos para ouvirem música (independentemente do gênero musical);
20 - Pessoas que furam fila;
21 - Pessoas que não gostam de conversar amenidades ou coisas profundas em contexto de encontro com amigos, porque estão presas demais ao celular, a mágoas passadas ou algum mal-estar pessoal;
22 - Pessoas que confundem amizade com obrigatoriedade de estar disponível sempre;
23 - Pessoas que usam verbos no imperativo;
24 - Pessoas que fingem simpatia para forçarem aproximação por interesse;
25 - Pessoas que não compreendem que é preciso manter distanciamento prudente de certos assuntos previamente apontados como desagradáveis por alguém;
26 - Pessoas que exigem atenção por serem carentes demais;
27 - Pessoas invasivas em qualquer grau ou circunstância;
28 - Pessoas que são possessivas ou ciumentas;
29 - Pessoas que gostam de subjugar com elogios, favores e atenções desmesuradas como forma de manipular;
30 - Pessoas que tendem a transformar as demais em monstruosas para se colocarem como vítimas das situações.
Aos que são próximos e aos que são distantes, digo logo que não estou fazendo crítica direta ou indireta a quem quer que seja, porque eu mesmo não estou isento de ter muitos desses comportamentos que enumerei. Quem está livre de ser um ser humano? A questão é que algumas pessoas não têm o cuidado de se autoavaliarem. Não digo que devem se sentir culpadas ou se punirem, mas autoavaliação pode ser um bom caminho. É sempre pertinente se tornar uma pessoa melhor para si, para o outro e para o mundo.
Como disse, estou longe de ser santo, mas faço o esforço para não ser uma pessoa de todo desagradável. Além disso, procuro cuidar da mente. Faço análise com um psicanalista lacaniano há alguns anos. Tenho melhorado significativamente. Sou sensível demais aos conflitos, tenho dificuldade de dizer não, por isso preciso manter certa prudência. Se não faço isso, a vida se torna insustentável. Devo ser meio lunático, mas já admito para mim esse lado que tenho, pois não quero me forçar a usar máscaras com tanta frequência. Suportar certas posturas é me violentar para agradar ao outro, então preciso rever isso.
Para encerrar o desabafo, quero dizer o seguinte: familiares, amigos e amigas, relacionamentos possíveis e impossíveis (e tantas outras formas de relações humanas às quais estou inevitavelmente submetido no cotidiano caótico da existência), pode ser que o problema esteja em mim: tenho tendência a me exaurir fácil. Preciso de distanciamentos de tempos em tempos para me recompor. Não me odeiem por isso, mas se odiarem afastem-se discretamente, porque sou capaz de até pedir desculpas por esse texto que escrevi. Eu, no entanto, advirto: estou sendo muito mais eu mesmo ao escrever.
Vou confessar uma última coisa a respeito dessa minha percepção sobre a convivência: as pessoas que mais amo na vida são as que demoro a encontrar e, quando as encontro, tenho a sensação de que as vi no dia anterior.
E tenho dito.
27/07/2023
quarta-feira, 30 de novembro de 2022
"UM APÓLOGO", DE MACHADO DE ASSIS
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando…
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse,
abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
CRÔNICA: "BRINQUEDOS INCENDIADOS", DE CECÍLIA MEIRELES
Uma noite houve um incêndio num bazar. E no fogo total
desapareceram consumidos os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles
brinquedos um por um, de tanto mirá-los nos mostruários – uns, pendentes de
longos barbantes; outros, apenas entrevistos em suas caixas. Ah! Maravilhosas
bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e
verniz! Carneirinhos lanudos, de guizo ao pescoço! Piões zumbidores! – e uns
bondes com algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia – filhotes
que éramos, então, de M. Jordain, fazendo a nossa poesia concreta antes do
tempo.
Às vezes, num aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos
receber de presente alguns bonequinhos de celuloide, modesto cavalinhos de
lata, bolas de gude, barquinhos sem possibilidade de navegação... – pois
aquelas admiráveis bonecas de seda e filó, aqueles batalhões completos de
soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não
chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem
esperança nem inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os
apenas em sonho, como se para isso, apenas, tivessem sido feitos.
Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da
escola para casa, parava longo tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia
aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem muita noção do valor –
porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos só
renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar cravadas
nelas, como setas, os nossos olhos.
Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara.
E foi uma espécie de festa fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo
rubro, voavam chispas e labaredas pelo bairro todo. As crianças queriam ver o
incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas, fugiam para a rua,
onde brilhavam bombeiros entre jorros d’água. A elas não interessavam nada
peças de pano, cetins, cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam
pelos cavalinhos e bonecas, os trens e palhaços, fechados, sufocados em suas
grandes caixas. Brinquedos que jamais teriam possuído, sonhos apenas da
infância, amor platônico.
O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um
fumoso galpão de cinzas.
Felizmente, ninguém tinha morrido – diziam em redor. Como
não tinha morrido ninguém?, pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e,
dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali deixados.
E começávamos a pressentir que viriam outros incêndios. Em
outras idades. De outros brinquedos. Até que um dia também desaparecêssemos sem
socorro, nós brinquedos que somos, talvez de anjos distantes!
REFERÊNCIA:
MEIRELES, Cecília. Escolha seus sonhos. 25. ed. Rio
de Janeiro: Record, 1996.






