sábado, 31 de janeiro de 2026

BREVES APONTAMENTOS SOBRE A LITERATURA PRODUZIDA NO CARIRI


Lançamento da antologia:
Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia:
manifesto poético
(2024).


Da criação de textos dramáticos à criação de textos líricos e narrativos, o Cariri tem se caracterizado como um espaço de ampla produção literária. A tradição oral em nossa região é de uma riqueza inconteste (a lapinha, o reisado, a contação de histórias, os benditos, as lendas, dentre outras manifestações que trazem os valores do povo, comprovam minha assertiva). Desde que a escrita se manifestou no Cariri, em suas origens, a produção literária encontrou espaços possíveis de realização. Hoje, ainda temos construtos literários envoltos nas tradições orais, na tradição da literatura de cordel (ou de folhetos) e nas experiências literárias que se aprofundam esteticamente por não excluírem os valores da tradição ao desenvolverem obras modernas (e contemporâneas). Nesse mundo de potencialidades criativas imensas, existe, sim, uma diversidade de artistas. A seguir, mencionarei alguns nomes em uma lista, mas o farei certo de que ela não dará conta da vasta quantidade da produção literária caririense:

 

1. Inventário de seus abraços, de Jorge Nogueira

2. Chá da tarde e Valados de Giz, de Anchieta Mendes

3. Matozinho vai à guerra, de José Flávio Vieira

4. 72, de Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro

5. Auto do Caldeirão, de Mazé Sales

6. One Love, de Estrela do Sul

7. Dança das juremas, de Roberto Ferreira

8. Contra Banzo, de Karla Jaqueline Vieira Alves

9. Eu tenho medo de Gorki & outros contos, de Ângela Calou

10. Benjamim e Açucena, de Germá Martins

11. No mar de silêncio gritei poesia, de Natália Pinheiro

12. Nomes de terra, de Gilles Diniz

13. Rosário das aves e Conta, cordão e medalha, de Tiago Nascimento

14. As cartas de Maria, de Zulmira Correia,

15. Memórias de Lince, de Janir Ribeiro,

16. Redemoinhos em dia quente, de Jarid Arraes,

17. No útero não existe gravidade e Boca do mundo, de Dia Bárbara Nobre

18. Flashes e O melhor dos mundos, de Sidney Rocha

19. O Padre e o Romeiro, de Geraldo Menezes Barbosa

20. O inferno da guerra étnica de Kosovo, de Wilma Maciel

21. Extremos, de Maria Ferreira

22. A Pedra da Batateira e A cidade que veio das águas, de Fátima Teles

23. Flagrantes do tempo, de Maria Eurenice Coelho

24. Os interiores, de João Matias

25. Poemas embriagados, de Lívio Pereira

26. Canções para Abraxas, de Siddha Abraxas

27. Nacos d’alma, de Geraldo José de Oliveira

28. Objeto urgente, de Auricélio Ferreira

29. Cartas de um demônio, de Adílio Junior de Souza

30. Minhas 4 futuras ex-namoradas, de Thiago Mariano

31. Olhos celeiros, de Sheyla Xenofonte

32. No luar do sertão, de Cícera Mamede

33. Rastejos, de Weverton da Silva

34. Mais dia, menos dia, de Jana Cruz

35. Ruídos de artilharia, de Thiago Carneiro

36. É domingo, de Emerson Monteiro

37. Juazeiro anedótico, de Raimundo Araújo

38. O silêncio laminado no casulo, de Cleilson Pereira Ribeiro

39. O vento das minhas velas, de Luciana Coelho

40. Fuga pela claraboia, de Francisco de Freitas Leite 

41. O martelo mágico e Centelhas de magia, de Newton de Castro 

42. O baile das assimetrias e Romanceiros, de Émerson Cardoso

Juazeiro do Norte, que é a maior cidade do Cariri em termos demográficos, e o Crato dispõem de editoras (como fiquei sabendo há pouco tempo), porém elas ainda se mostram tímidas (por diversos fatores) com relação à democratização do acesso. Se publicar nessas editoras locais tem sido algo desafiador, imagina nas grandes editoras que, em sua maioria, estão localizadas nas capitais. Essas editoras não se abrem fácil sequer para quem está no eixo Rio/São Paulo, imagina para quem está no extremo Sul do Ceará. Seja porque, na atualidade, têm exigido temáticas específicas para as produções que financiam, seja porque optam por artistas integrantes de alguns nichos em alta no mundo editorial, publicar em grandes editoras é um desafio, embora algumas pessoas consigam furar a bolha (Jarid Arraes e Dia Bárbara Nobre são exemplos de artistas que conseguiram fazê-lo).  

A literatura, aqui, tem circulado, felizmente, porque temos instituições e agremiações que fomentam a propagação dessa literatura (Universidade Regional do Cariri, Universidade Federal do Cariri, Centro Cultural Banco do Nordeste-Cariri, Centro Cultural do Cariri, Academias de Cordelistas do Crato e de Barbalha, Lira Nordestina, Academia de Letras Seccional Araripe, Clubes de Leituras, Coletivos etc.). Considero relevante demais que o Cariri produza arte, em todas as áreas, sobretudo a arte literária, mas gostaria de destacar o seguinte: não concordo com a ideia de que o Cariri tem que produzir uma literatura só para o Cariri. Temos que produzir, aqui, literatura para o mundo, sempre mantendo a liberdade de motivos a que acorremos em nossas experiências individuais. Assim, expandir experimentações estéticas, valorizar forma e conteúdo em construções originais e imaginativas, compartilhar experiências pelo uso efetivamente estético da palavra, sempre conscientes de que o nosso lugar de origem é o Cariri (com nossas cidades e seus valores inestimáveis para construção de pertencimento e de identidade), creio que são caminhos possíveis. O Cariri está repleto de artistas que empreendem essas buscas e têm, desse modo, produzido obras, em sua maioria, significativas.  


Lançamento do livro de poemas Romanceiros
de Émerson Cardoso (2025).

Além disso, um fator importante de divulgação dessa produção são os Clubes de leitura. Acontecem em nossa região: o Clube do leitor do CCBNB-Cariri, o Círculo de leitura do Centro Cultural do Cariri, o Clube de leitura do Nordestinados a ler, dentre outros. Nesses espaços, temos a experiência da mediação que é indispensável para desenvolvimento do que Rildo Cosson, em Paradigmas do ensino de literatura, denomina letramento literário. Com eles, as pessoas podem ter acesso a leituras que, por vezes, ficam circunscritas ao espaço escolar ou universitário. Por isso, devem existir, serem propagados e valorizados.

Esses clubes e círculos são iniciativas que incentivam à leitura, certamente, e artistas caririenses também figuram com suas produções nesses espaços. Eu, por exemplo, mediei recentemente um Círculo de leitura proposto pelo Centro Cultural do Cariri (que foi realizado na sala de multimeios da escola em que trabalho). Nesse contexto, autoras do Cariri foram estudadas, dentre elas Neuma Xenofonte e Jarid Arraes. Em um dos encontros, a propósito, recebemos a visita  do escritor Sidney Rocha que, na ocasião, visitava a cidade e a escola em decorrência da Balada Literária Cariri. O Círculo de leitura envolveu professores do centro de multimeios, estudantes do curso de Letras da Universidade Regional do Cariri e estudantes da escola. Essa forma de mediação constrói incentivo à leitura e abre espaço para debates plurais, portanto merece toda atenção. 

Um exemplo notável de Biblioteca comunitária, dentre as muitas que existem, é a Biblioteca Caminho do Conhecimento, localizada no Sítio Latão, em Santana do Cariri. Nesse espaço, impulsionado pela Professora Renata Lino, há o incentivo à leitura e o acesso democrático ao acervo disponível para consulta, pesquisa e leitura da comunidade para a qual se destina.  

Na região, ainda sentimos falta de prêmios direcionados especialmente para nossas produções. Tínhamos, por aqui, o Prêmio de contos do SESC-Crato, no entanto, ao que parece, ele não tem mais acontecido (não tenho certeza se ele, de fato, foi extinto). Existem prêmios literários no Ceará, porém, que possibilitam o Cariri de apresentar suas obras. Dois deles são: o Prêmio Literário Demócrito (mais democrático e aberto aos valores cearenses) e o Ideal Clube de Literatura (que, embora aceite artistas do Ceará inteiro, realiza a cerimônia em datas inviáveis para quem vive longe da capital). Eu participei do I Prêmio Literário Demócrito Rocha e venci na categoria poesia. Isso foi importante, porquanto abriu portas, me possibilitou a sonhada publicação em uma editora de renome (como é o caso das Edições Demócrito Rocha) e deu visibilidade ao meu trabalho. Existem outros prêmios, mas não os conheço com profundidade. Existem editais, com propostas de prêmios, que possibilitam a participação do Ceará como um todo, porém não os considero suficientes ou acessíveis, pois são burocratizantes demais. 

Existe um histórico de várias produções de antologias em nossa região, porém farei pontuação de algumas realizadas entre os anos de 1988 a 2026. Tenho um projeto de pesquisa que busca catalogar com maior apuro essas produções, mas o projeto ainda está em fase inicial. Sendo assim, apresentarei apenas algumas dessas obras com seus respectivos organizadores:

             1988 - Juazeiro Poético (Raimundo Araújo)

2013 - Laboratório do caos (Cláudio Ricardo Reis Eduardo)

2018 - VII Coletânea de Contos (Sesc-Crato)

2018 - Mostra de Poemas Beata Maria de Araújo: Poemas para Maria (Rosana Pereira Marinho, Luciana Dantas e Renato Fernandes Oliveira)

2019 - Antologia Poética: escritores do Cariri (Elizângela Sampaio Leite, Antonio Romero Dodou e eu)

2021 - Poemates Rosarvm (Adílio Junior de Souza, Sebastiana Micaela e eu)

2021 - Cordel em homenagem a Gilmar de Carvalho (João Pedro e Rosário Lustosa)

2021/2026 - Coletânea de Textos: Nordestinados a ler (Luciana Bessa)

2012/2025 - Mostra de Poesia: Abril para a Leitura (CCBNB-Cariri)

2024 - Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (Émerson Cardoso)

2025 - Haicai-Cariri: antologia de haicais (Émerson Cardoso) 

Para concluir, considero pertinente que tenhamos esse olhar sobre o que nossa região tem produzido, porquanto localizamos uma diversidade de vozes que mostra o quão forte se mantém nossa vocação para a criação de literaturas (e notem que sequer apontamos a vastidão da literatura de cordel, esse gênero poemático ainda vivo e amplamente produzido por aqui). 

           Émerson Cardoso




sábado, 24 de janeiro de 2026

FOLHEANDO MANUAIS DE LITERATURA


Um panorama da literatura

brinca de passeio em obituários:

nomes, títulos e fotos

sem aprofundamentos biográficos.


Palavras certas de eternidade,

pulando incautas quando escritas,

no hoje são títulos curiosos 

que de leitura não têm garantia.


Certo é que o tempo espera

que alguém saia da página do manual,

com esperança de encontro festivo

que não aceita o morrer que se deu.


Quem vivo ou morto redefiniu estilos

paira perdido em papel e tinta,

quando qualquer água que o molhasse 

de imediato lhe apagaria.


Um manual de literatura 

é túmulo de glória já vivida,

mas ainda sobrevive algum nome

na memória que se pretende amiga.


E não precisa de angústia,

que a nenhum livro salvaria,

pois escrever é processo de vida

que falha se eternidade revindica.


Émerson Cardoso

20/01/2026

13h31

CRÔNICA: UM DOMINGO EM JANEIRO


Domingo de janeiro. Rodoviária de Russas. Luciene chegou ao local de trabalho antes das 6h. Chegou de ressaca com o humor de taurina que não pôde descansar da noite traiçoeira vivida.

Nem o caldo quente restituiu-lhe adequadamente as forças. Quem toma todas em véspera de dia de trabalho enfrenta a vida com gosto azedo na boca e a carne trêmula (era o que tinha para o momento). 

Ela contou a Inês, Tainá e Micaele que foi beber com uma amiga cuja mãe, com raiva da esbórnea da filha, chamou-a de "rapariga" e, não satisfeita, xingou tmabém as pessoas com as quais a ofendida se confraternizava.

Luciene não engoliu o desaforo: "Eu não sou rapariga, minha filha, eu trabalho e tenho responsabilidade!" Diante da afronta da mulher ranzinza, foi isso o que Luciene pôde dizer. Diria mil coisas, se lhe fosse dado tempo para o confronto, porque taurinos são calmos, mas quando se espalham, viu? 

Assim, com o estômago ressacado e ciente de que o desaforo de ser chamada de "rapariga" foi grande, recorreu ao ditado: "Galinha que acompanha pato, morre afogada". O ditado foi muito bem utilizado por Luciene, que encontrou a expressão adequada à sua realidade de moça que também tem o direito de se divertir, mas que foi xingada, sem merecer, porque foi acompanhar pato beberrão e terminou afogada em xingamentos. Como se não bastasse, ainda tinha que trabalhar em pleno domingo sob o caos da ressaca (ninguém merece)!

Luciene é dessas figuras marcantes (tem presença, apesar da baixa estatura). Ela é intensa no modo de falar, ri de si mesma, enfrenta a vida com determinação, bom humor e tem sonhos. Sim, ela quer ser da área do Direito. O pouco de convívio mostrou que ela seria uma excelente profissional nesse campo de atuação. 

Luciene é uma moça cuja vida não foi fácil. Desafios familiares, amores traumatizantes e vinte e poucos anos vividos com intensidade. O que será da vida dela? Ela realizará o sonho de fazer o curso de Direito? Será feliz no amor? Viajará pelo mundo? Se um dia eu reencontrá-la, gostaria muito de saber que ela realizou os sonhos e que era feliz. 

Aliás, nunca esquecerei da rodoviária de Russas (espaço no qual existem mulheres dignas que enfrentam as batalhas cotidianas com humor, força e coragem). Em tão pouco tempo de convívio, quanta coisa podemos aprender quando estamos abertos a escutar.

Émerson Cardoso

18.01.2026

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

CARTA DE NATAL PARA JOSÉ ÉRICK


 Juazeiro do Norte-CE, 24 de dezembro de 2025. 

Querido José Érick, 

Nesta véspera de Natal, do ano de 2025, quando o mundo, entre verdades ou hipocrisias, supostamente espera a vinda do Menino Jesus (este baluarte da cristandade tão esquecido quanto desvalorizado nessas festas natalinas), nós também esperamos você.

Hoje, seus pais e demais familiares estavam na expectativa de saber se você seria um menino ou menina. Eu, por mim, não considerei tão importante saber disso agora, porque o que mais me importou, desde o início, foi saber de sua existência e confiar na possibilidade de você nascer bem, saudável e com todo acolhimento. Ao saber, porém, que você seria um menino, e já dispunha de nome e segundo nome, fiquei muito entusiasmado. Aliás, ao chamá-lo pelo nome, e ver o primeiro sapato que você ganhou, senti que você já estava, efetivamente, conosco. Assim, agradeci ao Deus que existe pelo privilégio de saber que você virá para perto de nós e pedi a Ele para você vir a esse mundo complexo sem qualquer sorte de desamparos.

Quanto ao mundo, ele realmente anda difícil, tanto que eu costumo refletir sobre o fato de que ter um filho é uma questão filosófica complicada demais a ser resolvida, mas tudo isso caiu por terra quando soubemos que você viria. Sim, porque desde o primeiro momento que soubemos de sua existência já começamos a esperar sua chegada com ansiedade.

Você demorará a chegar um pouquinho, porque talvez só venha quando o Sol estiver entre as constelações de Gêmeos ou de Câncer. Talvez, na época, esteja um tanto frio e a saudade das festas juninas ainda paire sobre o Nordeste. Na ocasião, você certamente chorará muito, porém confesso que seu chorar trará alegria, pois isso mostrará que há vida em você.

Então, venha, sim, e faça de nossas vidas um caminho possível de alegria. Enquanto não vier, vou continuar sugerindo que sua mãe escute música clássica, especialmente a Sinfonia nº 9, de Beethoven, viu? Queremos que você seja uma pessoa inteligente e sensível.

Por fim, neste Natal, em que estamos reunidos em família para homenagear Cristo, também queremos dizer que você já é muito amado por todos. Queremos demais que você seja feliz aqui, pois queremos o seu bem sempre.   

Um abraço e até breve!

Do seu Padrinho e Tio.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

TRILOGIA PARA O CARIRI CEARENSE: "TRÊS POEMAS JUAZEIRENSES"


Uns a denominam Literatura de Cordel, outros Literatura de Folheto. Seja com um termo ou outro, estamos diante de um gênero poemático que produziu (e tem produzido) manifestações artístico-literárias das mais significativas no Brasil.

Juazeiro do Norte-CE, cidade mais conhecida como Juazeiro do Padre Cícero, dispõe de valores sócio-históricos, sociopolíticos e socioculturais que são difíceis de mensurar, tendo em vista a complexidade desse universo que costumo chamar de sacroprofano.

Sendo assim, o livro Três poemas juazeirenses apresenta três folhetos publicados há algum tempo (e que eu revisei e reorganizei para republicar, desta feita melhorando-os em conteúdo e em forma). Esses textos dialogam com o universo denso e fascinante que povoa o imaginário dessa cidade que estimo devotadamente. Diante disso, são três os poemas:

A Beata Luzia vai à Guerra

Escrito em 22 de outubro de 2005, mas publicado somente em 05 de outubro de 2011, o folheto A Beata Luzia vai à Guerra evoca uma personagem feminina ficcional que é inserida em contexto histórico real. A Beata Luzia está imersa no conflito que, no início do século XX, envolveu duas forças antagônicas: uma representada pelo salvacionista Marcos Franco Rabelo e outra representada pelo Padre Cícero Romão Batista. Esse conflito ocorrido entre os anos de 1913 e 1914, denominado Sedição de Juazeiro, corresponde a um acontecimento relevante (e não menos intrigante) protagonizado pelo Ceará na história política do Brasil. Agora, vamos entrar na guerra, porque a Beata Luzia já correu para ela. Vamos ver como ela participa dessa batalha do “bem contra o mal” que tem como palco a cidade de Juazeiro do Norte?

A Artesã do Chapéu

(ou pequena biografia de Dona Maria Raquel)

Escrito em 29 de novembro de 2011, e publicado em 15 de abril de 2012, o folheto A artesã do chapéu (ou pequena biografia de Dona Maria Raquel) traz aspectos biográficos da minha bisavó materna, Maria Raquel da Conceição, que produziu, por mais de setenta anos, chapéus e outros artefatos com palha de carnaúba. Nele, apresento fatos de sua vida, como o que lhe aconteceu durante a seca de 1932, ocasião em que sua mãe (Dona Bárbara Raquel), seu irmão mais novo (Cícero Raquel) e ela foram assistidos por três meses e alguns dias pelo Padre Cícero Romão Batista. Além disso, também menciono o racismo que ela sofreu por ter vivido uma história de amor com o galante Joaquim Dourado Cabral, que era um homem branco, enquanto ela era uma mulher negra em contexto de intenso preconceito racial. Minha bisavó, que chamávamos de Mãezinha, e cuja força e sabedoria eram inabaláveis, faleceu dias antes de completar 87 anos, deixando-nos desolados com sua partida.

A punição do Padre Belo

Este folheto foi escrito em 30 de maio de 2008 e publicado em 01 de novembro de 2021. Dadas as temáticas apontadas, e por admirar as perscrutações estéticas e ideológicas propostas pela Sociedade dos Cordelistas Mauditos (que chamo de Semana de Arte Moderna de Juazeiro), eu apresento A punição do Padre Belo como folheto herdeiro desse movimento dos mais relevantes da história cultural do Cariri cearense, que deve ser considerado, por sua complexidade e riqueza de valores, um movimento, também, de dimensão nacional. No meu poema, está em pauta o sacroprofano que dança (de hábito religioso ou despido) pelas ruas de nossa cidade. O Padre Belo (que é uma personagem fictícia) está inserido nesse universo de possibilidades pecaminosas e instigantes que pululam em nossas imaginações.

O livro Três poemas juazeirenses compõe minha Trilogia do Cariri Cearense (constituída por um romance O casarão sem janelas; uma peça teatral A Revolta de Antonina e este livro de poesia Três poemas juazeirenses). Nesse caso, corresponde ao terceiro (e último) livro desse projeto.

Publicar no Brasil não é algo tranquilo, mas nós criamos as estratégias possíveis para fazer nossos trabalhos serem conhecidos, de modo que apresento esse livro, simples e em busca de melhores dias, com o desejo de mostrar um pouco do que temos em valores e construções simbólicas aqui em Juazeiro do Norte, que também clama, em sua jornada complexa, por melhores condições de vida.

Livro disponível para download 

GRATUITO:

Livro: Três poemas juazeirenses



quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

CARTA (ABERTA) AO POETA DÉRCIO BRAÚNA

Juazeiro do Norte-CE, 10 de dezembro de 2025

Caro Dércio Braúna, 

Venho, por meio desta, dizer da emoção que senti ao receber os livros que você me enviou. Eles chegaram hoje: no Dia Internacional dos Direitos Humanos e no dia em que aniversariam duas autoras cujas obras me fascinam: Emily Dickinson e Clarice Lispector. Tenho mais é que comemorar, hein!

Conheci sua obra através do poeta e dramaturgo Mailson Furtado que, generoso como ele é, falou sobre a beleza de sua escrita e instigou-me a ler seus livros. Os primeiros livros de sua autoria que eu li foram: Como cavalos fatigados abrindo um mar (este livro tem título, capa e textos poéticos maravilhosos demais para que eu possa, com simples palavras, definir) e Aridez lavrada pela carne disto (este, igual ao anteriormente citado, dispõe de título, capa e textos poéticos de tal modo incríveis que não sei como demonstrar o que ele me causou). Lembro de tê-los lido com voracidade no mesmo dia em que eles me chegaram às mãos (e os tenho relido com intenções de escrever algo a respeito deles). 

Eu tive duas sensações com a leitura desses livros: 1) a primeira sensação foi de satisfação ao constatar que, de fato, eu estava diante de um escritor de talento inconteste e que, portanto, deveria figurar como um dos mais representativos dessa nossa Literatura Brasileira Contemporânea (essa literatura que pisa e repisa solo fértil, mas ainda incerto); e 2) a segunda sensação foi de que estava diante de autor que conseguia conjugar conteúdo e forma com maturidade, de modo que foi intensa a experiência de ver: suas abordagens temáticas e sua articulação, sempre expressiva, da linguagem poética (como foi aprazível observar sua maestria no uso de recursos estéticos de que a poesia se vale para manifestar-se sem amarras e sem cerceamentos).   

Agora, estou com os seguintes livros em mãos: Metal sem húmus (2008), Como um cão que sonha a noite só (2010), Escrevivências: livro de vidas imaginografas (em parceria com Joel Neto, 2017), Auto de incineração (2021), Eu talvez desejasse matar poetas: exercícios barrocos (2023) e Três margens para a alquimia dos dias (em parceria com Ícaro Malveira e Kelson Oliveira, 2024). Além desses, recebi, com entusiasmo e alegria, o livro Tentações de sapateiro: o cerco da história na operação ficcional de José Saramago (2023), que é resultado de sua tese de doutorado (produção acadêmica orientada pelo Prof. Dr. Francisco Régis Lopes Ramos). 

Por falar em Régis Lopes, este intelectual cujo olhar para o Juazeiro do Norte tem proporcionado obras-primas da pesquisa acadêmica no âmbito da História, recentemente estivemos juntos e ele falou sobre sua tese. Ele, uma pessoa de generosidade notável, foi quem me instigou a realizar a leitura do seu Tentações de sapateiro, que lerei o quanto antes (assim que concluir a leitura dos livros poéticos). 

O primeiro que vou ler é o seu Auto de incineração, pois do título à capa, devo enfatizar, ele me convida à realização de leitura profunda e atenta. Lerei, daqui a pouco, ele e, na sequência, todos os outros. Será um prazer poder reencontrá-lo pela leitura de seus livros (eu que já o encontrei pessoalmente em contexto rápido). Sabe o que penso a seu respeito? Sinto orgulho por sabê-lo do nosso Ceará. Sim, é gratificante conhecer escritor como você: criativo, ousado, expressivo, crítico, reflexivo e, sobretudo, talentoso. 

Simone Weill escreveu, certa vez, o seguinte: "A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade". Ela tem razão. Como mensurar um gesto tão generoso? Como recompensar atitude tão nobre? Ter recebido seus livros, hoje, neste dezembro de sol triste, nesta quarta-feira de esperança precária, foi um oásis, porque seu gesto me lembrou algo indispensável para quem se dispõe a viver a experiência de escrever e de publicar: conhecimentos devem ser compartilhados, arte deve chegar ao coração dos que precisam de bom ânimo e, como diz a canção de Milton Nascimento: "Todo artista tem de ir onde o povo está". 

Você veio para mim, hoje, e eu agradeço demais por ter vindo. Acolherei seu trabalho com atenção e com entusiasmo, pois, neste dia de alegria ausente, nesta horda de mediocridade que a vida tem me proporcionado (sou um dos deprimidos da nação, Dércio!), você me alegrou demais, a ponto de me fazer esquecer da angústia cotidiana tão sufocante quanto desenganadora. 

Para terminar com um tom mais leve, porque não adianta viver de desesperos, quero dizer o seguinte: venha ao Cariri, rapaz, que será uma alegria reencontrá-lo! Temos muitos assuntos de literatura e de vida para conversar. Mailson, de vez em quando, vem ao Cariri (ele, Yane Cordeiro e o Grupo Criar de Teatro estiveram aqui semana passada para apresentar o maravilhoso Cassacos). Venha com eles, viu? 

Abraço fraterno e, mais uma vez (e não o suficiente), muito obrigado! 

Émerson Cardoso

P.S.: Eu li (e estou relendo) a obra Papel Passado: cartas entre os devotos e o Padre Cícero, de Régis Lopes, e estou com mil vontades de escrever cartas, por isso envio esta (simples e carecida de ampliação) para você.