| Lançamento da antologia: Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024). |
Da criação de textos dramáticos à criação de textos
líricos e narrativos, o Cariri tem se caracterizado como um espaço de ampla
produção literária. A tradição oral em nossa região é de uma riqueza inconteste
(a lapinha, o reisado, a contação de histórias, os benditos, as lendas, dentre
outras manifestações que trazem os valores do povo, comprovam minha assertiva).
Desde que a escrita se manifestou no Cariri, em suas origens, a produção
literária encontrou espaços possíveis de realização. Hoje, ainda temos construtos literários envoltos nas
tradições orais, na tradição da literatura de cordel (ou de folhetos) e nas
experiências literárias que se aprofundam esteticamente por não excluírem os
valores da tradição ao desenvolverem obras modernas (e contemporâneas). Nesse mundo de
potencialidades criativas imensas, existe, sim, uma diversidade de artistas. A
seguir, mencionarei alguns nomes em uma lista, mas o farei certo de que ela não dará conta da vasta quantidade da produção literária caririense:
1. Inventário
de seus abraços, de Jorge Nogueira
2.
Chá da tarde e Valados de Giz, de Anchieta Mendes
3. Matozinho
vai à guerra, de José Flávio Vieira
4.
72, de Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro
5. Auto do Caldeirão, de Mazé Sales
6.
One Love, de Estrela do Sul
7.
Dança das juremas, de Roberto Ferreira
8.
Contra Banzo, de Karla Jaqueline Vieira Alves
9.
Eu tenho medo de Gorki & outros contos, de Ângela Calou
10.
Benjamim e Açucena, de Germá Martins
11.
No mar de silêncio gritei poesia, de Natália Pinheiro
12. Nomes de terra, de Gilles Diniz
13.
Rosário das aves e Conta, cordão e medalha, de Tiago Nascimento
14.
As cartas de Maria, de Zulmira Correia,
15.
Memórias de Lince, de Janir Ribeiro,
16.
Redemoinhos em dia quente, de Jarid Arraes,
17.
No útero não existe gravidade e Boca do mundo, de Dia Bárbara Nobre
18.
Flashes e O melhor dos mundos, de Sidney Rocha
19.
O Padre e o Romeiro, de Geraldo Menezes Barbosa
20.
O inferno da guerra étnica de Kosovo, de Wilma Maciel
21.
Extremos, de Maria Ferreira
22.
A Pedra da Batateira e A cidade que veio das águas, de Fátima Teles
23.
Flagrantes do tempo, de Maria Eurenice Coelho
24.
Os interiores, de João Matias
25.
Poemas embriagados, de Lívio Pereira
26.
Canções para Abraxas, de Siddha Abraxas
27.
Nacos d’alma, de Geraldo José de Oliveira
28. Objeto
urgente, de Auricélio Ferreira
29.
Cartas de um demônio, de Adílio Junior de Souza
30.
Minhas 4 futuras ex-namoradas, de Thiago Mariano
31.
Olhos celeiros, de Sheyla Xenofonte
32.
No luar do sertão, de Cícera Mamede
33.
Rastejos, de Weverton da Silva
34.
Mais dia, menos dia, de Jana Cruz
35.
Ruídos de artilharia, de Thiago Carneiro
36.
É domingo, de Emerson Monteiro
37.
Juazeiro anedótico, de Raimundo Araújo
38.
O silêncio laminado no casulo, de Cleilson Pereira Ribeiro
39.
O vento das minhas velas, de Luciana Coelho
40. Fuga pela claraboia, de Francisco de Freitas Leite
41. O martelo mágico e Centelhas de magia, de Newton de Castro
42. O baile das assimetrias e Romanceiros, de Émerson Cardoso
Juazeiro do Norte, que é a maior cidade do Cariri em termos demográficos, e o Crato dispõem de editoras (como fiquei sabendo há pouco tempo), porém elas ainda se mostram tímidas (por diversos fatores) com relação à democratização do acesso. Se publicar nessas editoras locais tem sido algo desafiador, imagina nas grandes editoras que, em sua maioria, estão localizadas nas capitais. Essas editoras não se abrem fácil sequer para quem está no eixo Rio/São Paulo, imagina para quem está no extremo Sul do Ceará. Seja porque, na atualidade, têm exigido temáticas específicas para as produções que financiam, seja porque optam por artistas integrantes de alguns nichos em alta no mundo editorial, publicar em grandes editoras é um desafio, embora algumas pessoas consigam furar a bolha (Jarid Arraes e Dia Bárbara Nobre são exemplos de artistas que conseguiram fazê-lo).
A literatura, aqui, tem circulado, felizmente, porque temos instituições e agremiações que fomentam a propagação dessa literatura (Universidade Regional do Cariri, Universidade Federal do Cariri, Centro Cultural Banco do Nordeste-Cariri, Centro Cultural do Cariri, Academias de Cordelistas do Crato e de Barbalha, Lira Nordestina, Academia de Letras Seccional Araripe, Clubes de Leituras, Coletivos etc.). Considero relevante demais que o Cariri produza arte, em todas as áreas, sobretudo a arte literária, mas gostaria de destacar o seguinte: não concordo com a ideia de que o Cariri tem que produzir uma literatura só para o Cariri. Temos que produzir, aqui, literatura para o mundo, sempre mantendo a liberdade de motivos a que acorremos em nossas experiências individuais. Assim, expandir experimentações estéticas, valorizar forma e conteúdo em construções originais e imaginativas, compartilhar experiências pelo uso efetivamente estético da palavra, sempre conscientes de que o nosso lugar de origem é o Cariri (com nossas cidades e seus valores inestimáveis para construção de pertencimento e de identidade), creio que são caminhos possíveis. O Cariri está repleto de artistas que empreendem essas buscas e têm, desse modo, produzido obras, em sua maioria, significativas.
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| Lançamento do livro de poemas Romanceiros, de Émerson Cardoso (2025). |
Além disso, um fator importante de divulgação dessa produção são os Clubes de leitura. Acontecem em nossa região: o Clube do leitor do CCBNB-Cariri, o Círculo de leitura do Centro Cultural do Cariri, o Clube de leitura do Nordestinados a ler, dentre outros. Nesses espaços, temos a experiência da mediação que é indispensável para desenvolvimento do que Rildo Cosson, em Paradigmas do ensino de literatura, denomina letramento literário. Com eles, as pessoas podem ter acesso a leituras que, por vezes, ficam circunscritas ao espaço escolar ou universitário. Por isso, devem existir, serem propagados e valorizados.
Esses clubes e círculos são iniciativas que incentivam à leitura, certamente, e artistas caririenses também figuram com suas produções nesses espaços. Eu, por exemplo, mediei recentemente um Círculo de leitura proposto pelo Centro Cultural do Cariri (que foi realizado na sala de multimeios da escola em que trabalho). Nesse contexto, autoras do Cariri foram estudadas, dentre elas Neuma Xenofonte e Jarid Arraes. Em um dos encontros, a propósito, recebemos a visita do escritor Sidney Rocha que, na ocasião, visitava a cidade e a escola em decorrência da Balada Literária Cariri. O Círculo de leitura envolveu professores do centro de multimeios, estudantes do curso de Letras da Universidade Regional do Cariri e estudantes da escola. Essa forma de mediação constrói incentivo à leitura e abre espaço para debates plurais, portanto merece toda atenção.
Um exemplo notável de Biblioteca comunitária, dentre as muitas que existem, é a Biblioteca Caminho do Conhecimento, localizada no Sítio Latão, em Santana do Cariri. Nesse espaço, impulsionado pela Professora Renata Lino, há o incentivo à leitura e o acesso democrático ao acervo disponível para consulta, pesquisa e leitura da comunidade para a qual se destina.
Na região, ainda sentimos falta de prêmios direcionados especialmente para nossas produções. Tínhamos, por aqui, o Prêmio de contos do SESC-Crato, no entanto, ao que parece, ele não tem mais acontecido (não tenho certeza se ele, de fato, foi extinto). Existem prêmios literários no Ceará, porém, que possibilitam o Cariri de apresentar suas obras. Dois deles são: o Prêmio Literário Demócrito (mais democrático e aberto aos valores cearenses) e o Ideal Clube de Literatura (que, embora aceite artistas do Ceará inteiro, realiza a cerimônia em datas inviáveis para quem vive longe da capital). Eu participei do I Prêmio Literário Demócrito Rocha e venci na categoria poesia. Isso foi importante, porquanto abriu portas, me possibilitou a sonhada publicação em uma editora de renome (como é o caso das Edições Demócrito Rocha) e deu visibilidade ao meu trabalho. Existem outros prêmios, mas não os conheço com profundidade. Existem editais, com propostas de prêmios, que possibilitam a participação do Ceará como um todo, porém não os considero suficientes ou acessíveis, pois são burocratizantes demais.
Existe um histórico de várias produções de antologias em nossa região, porém farei pontuação de algumas realizadas entre os anos de 1988 a 2026. Tenho um projeto de pesquisa que busca catalogar com maior apuro essas produções, mas o projeto ainda está em fase inicial. Sendo assim, apresentarei apenas algumas dessas obras com seus respectivos organizadores:
1988 - Juazeiro Poético (Raimundo Araújo)
2013 - Laboratório do caos (Cláudio Ricardo Reis Eduardo)
2018 - VII Coletânea de Contos (Sesc-Crato)
2018 - Mostra de Poemas Beata Maria de Araújo: Poemas para Maria (Rosana Pereira Marinho, Luciana Dantas e Renato Fernandes Oliveira)
2019 - Antologia Poética: escritores do Cariri (Elizângela Sampaio Leite, Antonio Romero Dodou e eu)
2021 - Poemates Rosarvm (Adílio Junior de Souza, Sebastiana Micaela e eu)
2021 - Cordel em homenagem a Gilmar de Carvalho (João Pedro e Rosário Lustosa)
2021/2026 - Coletânea de Textos: Nordestinados a ler (Luciana Bessa)
2012/2025 - Mostra de Poesia: Abril para a Leitura (CCBNB-Cariri)
2024 - Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (Émerson Cardoso)
2025 - Haicai-Cariri: antologia de haicais (Émerson Cardoso)
Para concluir, considero pertinente que tenhamos esse olhar sobre o que nossa região tem produzido, porquanto localizamos uma diversidade de vozes que mostra o quão forte se mantém nossa vocação para a criação de literaturas (e notem que sequer apontamos a vastidão da literatura de cordel, esse gênero poemático ainda vivo e amplamente produzido por aqui).
Émerson Cardoso





