Domingo de janeiro. Rodoviária de Russas. Luciene chegou ao local de trabalho antes das 6h. Chegou de ressaca com o humor de taurina que não pôde descansar da noite traiçoeira vivida.
Nem o caldo quente restituiu-lhe adequadamente as forças. Quem toma todas em véspera de dia de trabalho enfrenta a vida com gosto azedo na boca e a carne trêmula (era o que tinha para o momento).
Ela contou a Inês, Tainá e Micaele que foi beber com uma amiga cuja mãe, com raiva da esbórnea da filha, chamou-a de "rapariga" e, não satisfeita, xingou tmabém as pessoas com as quais a ofendida se confraternizava.
Luciene não engoliu o desaforo: "Eu não sou rapariga, minha filha, eu trabalho e tenho responsabilidade!" Diante da afronta da mulher ranzinza, foi isso o que Luciene pôde dizer. Diria mil coisas, se lhe fosse dado tempo para o confronto, porque taurinos são calmos, mas quando se espalham, viu?
Assim, com o estômago ressacado e ciente de que o desaforo de ser chamada de "rapariga" foi grande, recorreu ao ditado: "Galinha que acompanha pato, morre afogada". O ditado foi muito bem utilizado por Luciene, que encontrou a expressão adequada à sua realidade de moça que também tem o direito de se divertir, mas que foi xingada, sem merecer, porque foi acompanhar pato beberrão e terminou afogada em xingamentos. Como se não bastasse, ainda tinha que trabalhar em pleno domingo sob o caos da ressaca (ninguém merece)!
Luciene é dessas figuras marcantes (tem presença, apesar da baixa estatura). Ela é intensa no modo de falar, ri de si mesma, enfrenta a vida com determinação, bom humor e tem sonhos. Sim, ela quer ser da área do Direito. O pouco de convívio mostrou que ela seria uma excelente profissional nesse campo de atuação.
Luciene é uma moça cuja vida não foi fácil. Desafios familiares, amores traumatizantes e vinte e poucos anos vividos com intensidade. O que será da vida dela? Ela realizará o sonho de fazer o curso de Direito? Será feliz no amor? Viajará pelo mundo? Se um dia eu reencontrá-la, gostaria muito de saber que ela realizou os sonhos e que era feliz.
Aliás, nunca esquecerei da rodoviária de Russas (espaço no qual existem mulheres dignas que enfrentam as batalhas cotidianas com humor, força e coragem). Em tão pouco tempo de convívio, quanta coisa podemos aprender quando estamos abertos a escutar.
Émerson Cardoso
18.01.2026

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