segunda-feira, 18 de maio de 2015

LEITURA: "ANIVERSÁRIO", DE FERNANDO PESSOA (ÁLVARO DE CAMPOS)


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

sábado, 9 de maio de 2015

"ANGELUS" PARA UM NASCIMENTO CARDOSO



“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre nós mesmos”.
     (Marguerite Yourcenar)

Não sei se meus conterrâneos atentaram para isto, mas boa parte dos nascidos em Juazeiro do Norte (os da minha faixa etária, pelo menos) nasceu na Rua São Benedito – a rua, para mim, mais importante da cidade.

Nesta rua, localiza-se o Hospital Maternidade São Lucas – que, segundo comentário dos veteranos da cidade, era o antigo cemitério dos bexiguentos. Este hospital tem aos fundos a Rua Santa Teresa (rua em que morava minha Tia Etelvina, com quem morei por muito tempo, sobretudo na adolescência); à direita tem muro colado à Igreja de São Miguel (onde: minha mãe casou, minhas irmãs e eu fomos batizados e onde eu fui crismado), que se localiza à Rua São Francisco; à esquerda há a Rua da Conceição – alguns pensam que é alusão à Nossa Senhora da Conceição, mas poucas pessoas contavam com a astúcia do sagrado/profano em vigência na cidade: Conceição é, em verdade, o nome de uma mulher, pouco dada a moralismos aprisionadores do corpo feminino, que morou nesta rua e cujo nome foi preservado. 

Há nome de santo para todos os lados: resquícios da influência do pensamento religioso ainda forte nessa cidade que cresceu sob a égide do Padre Cícero Romão Batista – santo para uns, grande político de batina para outros.

Minha mãe me disse que, no domingo de um ano bissexto, quando na Igreja de São Miguel os sinos tocavam convidando os fiéis para a missa das 19h, eu nasci. De fato, em minha certidão de nascimento consta que nasci às 18h – hora em que o sol despedia-se da terra privando-a de seus raios luminosos, e hora em que o angelus é ecoado nas igrejas. Luiz Gonzaga cantava a Ave Maria Sertaneja em algum lugar do Nordeste quando eu nascia – é o que gosto de imaginar.     

Nasci em 20 de maio do penúltimo ano da ditadura militar (que muito fustigou o povo brasileiro com seu regime autoritário). Quando nasci, com certeza, na cidade era perceptível ver pessoas vestidas de luto, porque desde o dia 20 de julho de 1934, dia em que o Padre Cícero morreu, as pessoas mais fiéis da cidade vestem-se, em memória à funesta data, roupa preta durante todo o dia.

Minha mãe, mais dramática que eu, disse que sentira muitas dores por ocasião do parto e, pensando que ia morrer, fez promessa ao homenageado do dia. A promessa consistia no seguinte: se tudo ocorresse bem no parto, ela colocaria o nome de Cícero na criança pouco afeita a nascer. Eu nasci, ninguém morreu e a promessa foi cumprida - por isto, meu primeiro nome é Cícero.

A propósito do meu segundo nome, há um fato interessante. Eu seria Beethoven (nome de um dos meus compositores preferidos), pelo gosto do meu pai. Mas minha mãe preferiu colocar, cedendo a sugestões da minha avó paterna, o nome do médico que fizera o parto – segundo ela, dar nome de pessoas bem-sucedidas traz sorte à criança. Parece-me que foi necessário ampliar o argumento para convencerem meu pai a mudar meu nome: remeteram-se, desta feita, a Emerson Fittipaldi, que foi o primeiro campeão mundial brasileiro de Fórmula 1 (ele foi bicampeão em 1972 e 1974) e Campeão de Fórmula Indy (1989). Meu nome deixou de ser Beethoven e passou a ser Émerson (com acento gráfico, porque devem ter notado que era uma palavra proparoxítona e resolveram acentuar). 

Depois, acrescentaram o sobrenome materno (Nascimento), precedido da preposição “do”, e o sobrenome paterno (Cardoso) – o resultado foi um nome enorme: Cícero Émerson do Nascimento Cardoso.

Uma amiga, que desconhecia a minha história familiar, disse-me que meus dois nomes são peculiares, porque fazem alusão a Cícero – jurista, orador, escritor, filósofo, político romano – e Emerson – filósofo e poeta norte-americano. Outra pessoa perguntou, certa vez, se meu segundo nome aludia ao grupo Emerson, Lake & Palmer, banda britânica de rock progressivo formada na década de 1970. 

A expressão “do Nascimento Cardoso” figurou como um complemento nominal interessante. Considerando-se que o termo “cardoso” é um adjetivo proveniente da palavra “cardo” – arbusto espinhento –, este parece aludir diretamente ao fato de que meu nascimento não foi, senão, pungente, doloroso, sôfrego.

Alguém me perguntou se “cardoso” não estaria relacionado, também, ao termo “coração”, uma vez que muitas palavras relacionadas ao músculo cardíaco trazem no radical uma aparente aproximação na sonoridade e grafia: cardiologia, cardiopatia, cardiovascular... Eu disse que, nestes casos, há o acréscimo da vogal temática / i /, o que impediria essa associação com o radical que forma um dos meus nomes, o que sinceramente é uma pena.

Sem muitas opções, tive que nascer. Era um menino de pele excessivamente clara, muito choro e aspecto inconformado – pois é: parece que não mudei muito com o passar dos anos.                                                                                   

          27/04/2014