domingo, 6 de dezembro de 2015

RESENHA: "CONVERSAS COM UM JOVEM PROFESSOR", DE LEANDRO KARNAL


KARNAL, Leandro. Conversas com um jovem professor. São Paulo: Contexto, 2014.

Leandro Karnal tem aparecido enfaticamente na mídia. Suas ideias são explanadas de modo simples sem, contudo, perder em densidade do ponto de vista teórico. Além de suas atividades com o magistério, ele ministra palestras e escreve livros.
            O primeiro livro de Leandro Karnal que eu li foi Conversas com um jovem professor. Eu buscava neste livro a mesma eloquência com que ele fala – suponho tê-la encontrado. O livro, segundo ele, não se pretende um tratado teórico, não se preocupa em apresentar citações grandiosas. Sua proposta se centra na ideia de desenvolver um relato de experiência sobre sua prática profissional na área de educação.
            Como fico impaciente ao ler textos sobre educação, por sentir que nada de novo é dito ou especulado, li com reservas o Conversas com um jovem professor. Percebo, no entanto, que apesar de em alguns trechos ter a sensação de que há uma tendência do autor de aconselhar demais (já ouvi alguém dizer, inclusive, que é um livro de “autoajuda” para professores, do que eu discordo!), eu o considero uma proposta pertinente e interessante para quem é da área.
A quem assumiu esta carreira que, para alguns, é pouco promissora, esse livro pode ser válido porque instiga à reflexão. Mas deve ser mais valioso para o profissional evocado no título: o jovem professor. Isto porque Karnal apresenta, sem subterfúgios reducionistas, os problemas cotidianos do professor no exercício de sua profissão, já que na academia a gente tende a desenvolver uma visão idealista demais.
No final de cada capítulo, Karnal sugere um filme vinculado à educação. Eu, hoje, não suporto assistir a maior parte deles, mas quando eu pretendia ser professor assisti a estes e outros mais – e os considero valorativos para minha formação.
O capítulo que mais me chamou atenção foi Pais, colegas e diretores. Quem me conhece, e já me ouviu discorrer sobre o que penso a respeito da educação, sabe que eu digo que o problema da educação não se centra na relação direta com os alunos (se o professor tem problema com um aluno e conta com o auxílio de um coordenador ou diretor competentes o aluno não é mais problema), mas na relação direta e indireta com colegas de profissão, coordenadores e diretores. As minhas experiências no magistério me possibilitam afirmar isto, sem dúvidas.
Neste capítulo, Karnal endossa o que sempre considerei como o desagradável da profissão. Isto me deixou amparado por uma visão que, de certo modo, me permite sentir que eu não sou o único a sofrer com tal percepção. Considero corajoso, e hilário, o que ele (2014, p. 69) afirma sobre o colega de profissão: “Deus inventou a educação e o diabo, invejoso, o colega”. Nada poderia ser mais coerente!
Há, ainda, dicas de leituras que podem auxiliar o professor a pensar um pouco a educação. Parece-me, porém, que o melhor do livro é fazer o professor repensar sua condição, como na seção em que ele, atento ao possível narcisismo que paira sobre o professor, se questiona: “Somos todos chorões profissionais?” E, em conclusão, ao perguntar sobre o porquê de permanecer na área, sendo consciente das inúmeras problemáticas que recaem sobre quem abraça essa profissão desafiadora, ele (2014, p. 133) cai numa perspectiva, do meu ponto de vista, idealista, mas não de todo descartável, quando afirma e questiona:

Por que eu continuo professor? Porque eu faço muita diferença na vida de muita gente. Por mais babaca que pareça para muitos, esse é meu tijolo na parede da cidadania que estamos construindo no Brasil. Essas coisas me fazem feliz. Sou professor porque sou feliz. Para mim, tem bastado ao longo dessas décadas. Basta para você?


            Leandro Karnal é graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, doutor pela USP e é professor da UNICAMP. Escreveu, dentre outros livros: História dos Estados Unidos e História na sala de aula. O Conversas com um jovem professor deve ser lido e relido, uma vez que apresenta, de modo instigante, ideias inteligentes sobre a profissão. 

sábado, 5 de dezembro de 2015

EnTrEvIsTaNdO PAULO HENRIQUE


ENTREVISTA
Meu sobrinho Paulo Henrique, estudante de 11 anos, concedeu-me uma entrevista neste início de dezembro de 2015. Conversamos sobre animais de estimação, filmes e, principalmente, sobre a vida.

1 – O que é que você gosta de fazer?
Brincar, assistir DVD... Videogame eu já abusei... Eu mexo muito na internet... Só isso...
2 – Você gosta de brincar de quê?
De assistir DVD.
3 – Brincar de assistir DVD? Mas não são coisas diferentes?
É...
4 – Você tem brinquedos?
Tenho.
5 – E cadê seus brinquedos?
Guardados numa caixa...
6 – Você nunca mais brincou com eles?
Brinco...
7 – Já assistiu Toy Story?
Sim. Já assisti os três.
8 – Você não tem medo de que eles fiquem como os brinquedos de Toy Story?
Não, eu brinco com eles...
9 – Qual seu filme preferido de animação?
Lorax. Pode dizer também um filme sem ser de animação? Eu gosto de Todo mundo em pânico III.
10 – Você gosta de brincar, assistir DVD, videogame, internet?
Não, videogame não, abusei... Internet mais ou menos.
11 – O que você vai ser quando crescer?
Eu tava pensando em criar uma máquina do tempo. Por causa que eu queria criar uma máquina pra voltar no tempo e salvar Birote.
12 – Quem é Birote?
Meu gato... Que morreu atropelado... [Falou com ar triste]
13 – O que você sentiu quando ele morreu?
Tristeza.
14 – E o que mais?
Dor.
15 – E o que mais?
[Ele ficou parado pensando e não deu resposta...]
16 – Se você encontrasse uma lâmpada mágica e tivesse direito a três pedidos, o que você pediria?
Aí eu ia pedir que eu tivesse uma mansão, com piscina e tudo, e que todos os animaizinhos de estimação que eu tinha tivessem lá...
17 – Quem são os seus animais de estimação?
Marri [uma gata], Milu [um cachorro] e Birote [um gato]... Marcelo [uma galinha] também...
18 – E o segundo pedido?
Que eu tivesse superpoderes.
19 – Quais seriam os superpoderes?
Ficar invisível, visão de raio-x, ter o poder dos quatro elementos e ser imortal...
20 – E o terceiro?
Era ter mais dez desejos.
21 – Mas você teria direito somente a três desejos...
Então, aí eu pediria mais dez...
22 – E o que você faria com dez desejos?
Eu ia querendo aí... Eu ia cansar de ter desejos... Aí eu ia libertar ele.
23 – Qual é o seu maior medo?
Meu medo? O maior de todos? O que eu tenho mais medo? [Silêncio reflexivo] Descer do tobogã do Caldas. Agora, eu desço normal...
24 – Você prefere filme de terror ou comédia?
Comédia!
25 – Qual seu filme de comédia preferido?
Todo mundo em pânico III.
26 – Qual a pessoa que você mais ama na vida?
Minha mãe, minha vó...
27 – O que você quer ser quando você crescer?
Um cientista pra criar uma máquina do tempo e salvar Birote... 
28 – E além disso?
Só isso... Eu queria que tivesse educação física todo dia.
29 – Qual seu esporte preferido?
Vôlei.
30 – Você joga vôlei na escola?
Não.
31 – O que você joga na escola?
Futebol, carimba  – queimada eu não jogo...
32 – E por que você prefere vôlei?
Porque é bom.
33 – E com quem você joga?
Com as pessoas. Eu e Levi...
34 – Você tem amigos?
Tenho.
35 – Quais são os seus melhores amigos?
Levi, Yáshila, Igor, Juninho...
36 – Quem é seu melhor amigo?
Levi.
37 – E sua melhor amiga?
Yáshila.
38 – Qual a palavra que você mais gosta?
Palavra? Uva.
39 – E a palavra que você menos gosta?
Palavrão.
40 – Ainda bem! Mas se você pudesse, onde você estaria agora?
Comendo hambúrguer com refrigerante de uva e lasanha.
41 – O que você menos gosta de comer?
Verdura.
42 – E o que você menos gosta de beber?
Maçã verde...
43 – Qual sua fruta preferida?
Uva.
44 – E a que você menos gosta?
Acerola...
45 – Qual foi o melhor livro que você já leu?
Monstros S/A.
46 – Coloque na ordem de sua preferência os seguintes pontos: 1) desenhar, 2) cantar, 3) dançar ou 4) tocar violão?
1) dançar, 2) desenhar, 3) tocar violão e 4) cantar.
47 – Que instrumento você gostaria de tocar?
Bateria, guitarra e violão... Só isso.
48 – Soube que você já fez curso de inglês.
Eu gostava do curso de inglês.
49 – Aprendeu a falar inglês?
Mais ou menos.
50 – Que palavras você aprendeu?
Black, dog, cat, Santa Claus, ball... Eu queria ir pros Estados Unidos, porque tem neve.
51 – O que deixa você mais feliz?
Desenho, brincar no pula-pula, brincar em festa de aniversário, brincar na boate...
52 – Boate?
É... Foi numa festa de casamento que eu fui entregar a aliança... Lá tinha boate pro povo dançar.
53 – Quando você crescer você pensa em casar?
Não. Quando eu crescer não vou pensar em casamento não.
54 – O que deixa você com raiva?
Quando escondem o carregador do notebook.
55 – O que deixa você triste?
Meu animal de estimação preferido morrer.
56 – Você chora muito?
Quando eu não queria dar o gato...
57 – Qual foi o dia mais feliz da sua vida?
Um dia que eu fui pro shopping... Quando eu fui no cinema com minha mãe... Assistir Rio II.
58 – Você é feliz?
Sou.
59 – Por quê?
Porque eu gosto das coisas... Dos animais de estimação...
60 – Já fizeram festa de aniversário para você?
Já. Eu me lembro mais da de dez anos.
70 – E seu pai?
Um homem bom.
71 – Você gosta muito dele?
Gosto, por que quem não ia gostar do pai? [A voz dele saiu introspectiva e cheia de ternura]
72 – Você gosta de ler?
Mais ou menos, porque quando eu termino de ler a prova eu começo a pensar em outras coisas...
73 – Mas nós já lemos juntos mais de dez livros. Qual destes livros você gosta?
Nós já lemos Lino, Os três porquinhos, João e Maria, O patinho feio, Chapeuzinho amarelo...
74 – Você lê revistinhas da Turma da Mônica?
Gosto. Quando me dão eu leio.
75 – Você se lembra de quando aprendeu a ler?
Não.
76 – Você se lembra do nome de sua primeira professora?
Lembro... Marluce.
77 – Você queria ser pintor?
Acho que sim.
78 – Você queria ser desenhista?
Sim, pra desenhar as coisas.
79 – Você queria ser policial?
Não, porque podia morrer.
80 – Você queria ser bombeiro?
Não, porque podia morrer queimado.
81 – Você queria ser cientista?
Sim, pra criar uma máquina do tempo e salvar Birote. Aí depois ia ficar viajando no tempo com Birote.
82 – E você acha que cientista só faz máquina do tempo?
Não, também faz experiências...
83 – Com a máquina você poderia salvar os outros também, não é?
Mas eles não morreram, foram dados! [Ênfase triste na frase “foram dados”]
84 – Eles são felizes?
A mulher tá adorando Milu...
85 – Você sente saudade dele?
De todos! [Uma alegria triste]
86 – O que você gostaria de ler?
Um livro dos Power Ranger.
87 – O que você acha do Natal?
É o dia de comemorar o nascimento de Jesus e dar presente uns aos outros.
88 – O que você mais gostaria de ganhar?
Um brinquedo.
89 – Qual?
O que minha mãe tivesse dinheiro pra comprar.
90 – O que é a vida?
A vida é sobrevivência... É a morte... E a paz e a harmonia...
91 – Quem você é dos Cavaleiros do Zodíaco?
Fênix, porque se você matar ele, ele vai reviver de novo... É o mais forte!
92 – Uma pergunta que você queria que eu tivesse feito?
Você gosta de assistir Power Ranger?  
93 – Dê uma nota de 01 a 10 para:
1) As aventuras de Tintim (09)
2) Cavaleiros do Zodíaco (10)
3) Power Ranger (20) [Riu com o gato novo nas mãos, dizendo afetuosamente que ele era malcriado...]
4) Caverna do Dragão (08)
5) Bob Esponja (09)
6) Chaves (07)
7) Chapolin (08)
94 – Qual foi o último filme de animação que você assistiu?
O Pequeno Príncipe.
95 – O que você achou?
Ótimo!
96 – Por quê?
Porque é sobre o pequeno príncipe e uma amizade... Amizade entre uma menina e um velhinho...
97 – Mais alguma coisa a dizer?
Não!
98 – Obrigado pela entrevista!
[Riu envergonhado]

04/12/15






quarta-feira, 18 de novembro de 2015

MOSTRA 21 DE CINEMA 2015: O DESEJO AGUÇA COM O OLHAR

"Dentro da casa", de François Ozon

Tenho o privilégio de acompanhar a Mostra 21, idealizada por Elvis Pinheiro, há algum tempo. Em 2015, estive mais uma vez neste evento que tem exibido filmes de grande qualidade estética para o Cariri e, a este respeito, tecerei comentários com ênfase na exibição de algumas obras que mais particularmente me interessaram.
            Coincidentemente, os filmes que mais me causaram impacto, neste ano, foram realizados por cineastas que exploraram o idioma francês em suas obras. Isto não quer dizer que não apreciei os demais filmes, no entanto meu olhar foi aguçado por estas obras tão densas quanto qualitativas – e que as assisti em êxtase.   
            O desejo aguça com o olhar foi o tema do ano. O verbo desejar significa, segundo o dicionário[1], “ter desejo ou vontade de; querer; ambicionar”. Quando substantivo, este vocábulo adquire significação mais ampla – o desejo significa, desta feita, “vontade de possuir; ambição” – em outra acepção, poderia representar “vontade de comer; apetite; aspiração; anelo”.
                A Mostra 21 nos possibilita, desde sua primeira edição, apreciar personagens do universo cinematográfico delineadas por aspectos comportamentais diversos. As relações humanas, em suas mais densas e, por vezes, complexas manifestações, foram pormenorizadas nestes vinte e um dias em que, talvez mais do que em anos anteriores, tivemos uma pausa em nossas vidas cotidianas para mergulhar em dramas excedentes em profundidade, lirismo e beleza. E, com isto, muito descobrimos acerca de nossos próprios desejos, fragilidades, vulnerabilidades e, também, acerca de nossas forças e potencialidades, à medida que foi possível refletir sobre os limites de nosso olhar em relação a nós mesmos e, sobretudo, em relação ao outro. 
            Dentre os filmes que pude assistir, devo destacar, inicialmente, os seguintes: Violette (Martin Provost), Amor (Michael Haneke), A religiosa (Guillaume Nicloux), Bem amadas (Christophe Honoré), Jovem e bela e Dentro da casa (François Ozon). Estes foram, sem dúvidas, os que mais gostei da Mostra.
            O filme Violette, biografia da escritora francesa Violette Leduc, me instigou à necessidade de conhecer a escrita desta personalidade que, confesso, tomei conhecimento a seu respeito pela primeira vez através deste filme. A propósito, Cássio Starling Carlos (2014)[2] realiza, na Folha de São Paulo, crítica elogiosa sobre esse filme e diz que: “Violette atualiza, para nossa época que confunde literatura, autoficção e autopromoção, questões mais fundamentais, como ‘para que escrever?’ e ‘para quem se escreve?’”.
Concordo e endosso: o que mais me marcou neste filme foi o trabalho primoroso em apresentar os percursos vivenciados por esta escritora para construir sua ficção que, pelo que constatamos, causou polêmica por ser intensa e por expurgar, sem falsos moralismos, o desejo a partir de uma ótica feminina tão lírica quanto controversa, para a visão preponderante na época.
Já nos filmes Amor e A religiosa, reencontrei Isabelle Huppert – minha atriz francesa preferida –, em papéis secundários brilhantes! Recordo-me que ela, como a passional madre do filme A religiosa, arrancou risos da plateia – risos de nervosismo e estranhamento, obviamente! Ela, ao externar seu desejo pela religiosa submetida, sofregamente, ao convento sem que tivesse vocação, expressa seu ardor erótico com o semblante patético típico dos que confessam, passionalmente, o quanto desejam ao outro que, por uma série de fatores, se entrincheira em preterimentos e recusas.  
Em Amor, por outro lado, ela é a filha do casal de velhos músicos que, na vivência de um amor para além do senso comum, encontram-se às vésperas do desespero ocasionado pela doença da esposa e da sensação de impotência do esposo. Lírico e tecnicamente majestoso, Amor demora a sair da mente da gente após sua exibição – quem ainda não escuta, com incômodo, o barulho da torneira que escorre sem que a personagem protagonista a possa, ou queira, desligar?
Eu, que gosto muito de musicais, esperava com ansiedade assistir ao filme Bem amadas. Ele correspondeu às expectativas e tornou-se um dos meus preferidos da Mostra. Catherine Deneuve que – alterando um pouco o que teria dito, sobre ela, Susan Sarandon, no filme Fome de viver – ninguém precisa de muito estímulo para vê-la em cena, seja por sua beleza ou por sua atuação. Ela aparece ao lado de Chiara Mastroianni, sua filha, e pode dizer que colocou no currículo mais um belíssimo trabalho.
Devo mencionar, ainda, Jovem e bela e Dentro da casa, filmes do mesmo diretor.  Sobre o primeiro, gostei muito e o considerei interessante pela abordagem da juventude, prostituição e família com a densidade que os temas comportam, mas gostei mesmo, sem exageros, foi do controverso Dentro da Casa
Até que ponto, por meio da escrita, e seus vieses imaginativos, alguém pode manipular a outrem? Que versão de uma história é de fato a verdadeira? Desejar ver demais não seria uma postura masoquista, enquanto mostrar demais poderia figurar como uma postura de perceptível sadismo? Olhar não é uma tentativa, também, de encontrar-se com aquilo de mais íntimo que há em si mesmo? O que poderá ser encontrado na próxima página de um texto, que se pretende literário, não é um mecanismo que atiça, aguça, fomenta o desejo de olhar e olhar e olhar como um vício irrefreável? Este filme me deixou com muitas questões, talvez sem resposta – foi a sensação que eu tive, assim como outras pessoas, ao sair da sessão em que o filme Dentro da casa foi exibido. E a polissemia, nele presente, o confirmou como uma obra de arte excedente em genialidade! Talvez esta tenha sido a sessão em que melhor o desejo aguçado pelo olhar me foi apresentado.
Quanto aos demais filmes, o cinema nacional foi bem representado por Praia do futuro e Tatuagem. Ambos excelentes e muito elogiados pelos que participaram da exibição. Ninfomaníaca, Um estranho no lago, Holly Motors e Azul é a cor mais quente foram, talvez, os mais polêmicos – teriam causado estranhamentos e repulsa, ou instigado os olhares a desejarem mais loucamente?
Outros filmes foram exibidos, no entanto já me estendi muito em meu comentário. Devo cessar a escrita, por isto não falarei sobre todos. Porém, antes de silenciar, preciso dizer que o Ela foi um dos destaques desta Mostra – e com razão! A voz do sistema operacional Samantha, que era assustadoramente romântica e sexy, faz Theodore apaixonar-se – e quem não se apaixonaria? O amor, com suas vicissitudes, não poderia ter sido melhor retratado na Mostra!
Uma novidade ocorrida este ano foi a realização de palestras (em verdade, minicursos riquíssimos!) oferecidos ao público gratuitamente e ministrados por membros do Grupo Sétima de Cinema: 1) Cinelésbico: representatividade lésbica no cinema – mediado por Débora Costa – e 2) A estética do medo: os principais filmes e ciclos da história do cinema de horror – mediado por Wendell Borges.
Queria ter participado das duas palestras, mas participei apenas de uma – a ministrada por Wendell Borges. E posso afirmar que eu tive, assim como os demais que participaram, a oportunidade de aprender muito sobre uma das estéticas cinematográficas que eu menos apreciava, justamente por não conhecer mais a fundo. Após o passeio histórico realizado pelo ministrante, que foi coerente com a explanação conteudística, e com a exibição de materiais ricos acerca do assunto, pude me familiarizar mais com o gênero e repensar a visão errônea que eu tinha a este respeito.  
 Para finalizar, preciso dizer que a Mostra 21 é um acontecimento marcante para a história do cinema no Cariri, no Ceará, no Nordeste, no Brasil! O público ganha muito com o contato que tem tido com as exibições dessas obras cinematográficas de incomensurável valor estético. Precisamos que o Grupo Sétima de Cinema seja ainda mais perseverante no estudo, divulgação e produção textual sobre Cinema – e que para isto tenha sempre apoio. E Elvis Pinheiro, cuja iniciativa fez do Cariri um espaço aberto à sétima arte, continue aguçando nossos olhares cada vez mais para a necessidade de vislumbrar, na arte cinematográfica, momentos de fuga do mundo cotidiano, tão cheio de seus dissabores, e o encontro com os nossos desejos mais profundos que, de certo modo, só precisam de um estímulo, visual, talvez, para virem à tona.  

Émerson Cardoso
"A religosa", de Guillaume Nicloux





[1] LUFT, Celso Pedro. Minidicionário Luft. São Paulo: Ática, 2000.
[2] CARLOS, Starling Cássio. Mais que biografia, “Violette” atualiza questões da literatura. In: Folha de São Paulo. Disponível em: www1.folha.uol.combr/ilustrada/2014/0815066448. Acesso em: 11/09/15.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

FICHAMENTO DE TRANSCRIÇÃO: "CRÍTICA E SOCIOLOGIA (TENTATIVA DE ESCLARECIMENTO)", DE ANTONIO CANDIDO


CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. 11. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2010.

I

1 – [...] estamos avaliando melhor o vínculo entre a obra e o ambiente, após termos chegado à conclusão de que a análise estética precede considerações de outra ordem. (p. 13)
2 – De fato, antes procurava-se mostrar que o valor e o significado de uma obra dependiam de ela exprimir ou não certo aspecto da realidade, e que este aspecto constituía o que ela tinha de essencial. Depois, chegou-se à posição oposta, procurando-se mostrar que a matéria de uma obra é secundária, e que a sua importância deriva das operações formais postas em jogo, conferindo-lhe uma peculiaridade que a torna de fato independente de quaisquer condicionamentos, sobretudo social, considerado inoperante como elemento de compreensão.

NOTA: Visões opostas da crítica apontavam para dois ângulos de visão:
1) a obra deveria exprimir certo aspecto da realidade, e isto constituía o que ela tinha de essencial;
2) a matéria de uma obra seria secundária, e a importância dela derivaria dos aspectos formais com que foi engendrada e não de condicionamentos sociais .

3 – Hoje sabemos que a integridade da obra não permite adotar nenhuma dessas visões dissociadas; e que só a podemos entender fundindo texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto ao outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam como momentos necessários do processo interpretativo. (p. 14)
3.1 – Sabemos, ainda, que o externo (no caso, o social) importa, não como causa, nem como significado, mas como elemento que desempenha um certo papel na constituição da estrutura, tornando-se, portanto, interno. (p. 14)

NOTA: A sociologia da obra não propõe a questão do valor da obra, e pode interessar-se por tudo que é condicionamento: 1) a voga de um livro, 2) a preferência por um gênero, 3) o gosto das classes, 4) a origem social dos autores, 5) a relação entre as obras e as ideias, 6) a influência da organização social, econômica e política.

4 – [...] quando estamos no terreno da crítica literária somos levados a analisar a intimidade das obras, e o que interessa é averiguar que fatores atuam na organização interna, de maneira a constituir uma estrutura peculiar.
4.1 – Tomando o fator social, procuraríamos determinar se ele fornece apenas matéria (ambiente, costumes, traços grupais, ideias), que serve de veículo para conduzir a corrente criadora (nos termos de Lukács, se apenas possibilita a realização do valor estético); ou se, além disso, é elemento que atua na constituição do que há de essencial na obra enquanto obra de arte (nos termos de Lukács, se é determinante do valor estético).

NOTA: O fator social é apenas: 1) matéria ou veículo para a realização do valor estético de uma obra, ou 2) elemento que atua na constituição do que há de essencial para realização do valor estético de uma obra?

5 – [...] estudiosos contemporâneos [...] ao se interessarem pelos fatores sociais e psíquicos, procuram vê-los como agentes da estrutura, não como enquadramento nem como matéria registrada pelo trabalho criador; e isto permite alinhá-los entre os fatores estéticos. (p. 15)
5.1 – A análise crítica, de fato, pretende ir mais fundo, sendo basicamente a procura dos elementos responsáveis pelo aspecto e o significado da obra, unificados para formar um todo indissolúvel, do qual se pode dizer [...] que tudo é tecido num conjunto, cada coisa vive e atua sobre a outra.

NOTA:

Candido realiza uma breve análise de Senhora, de José de Alencar, em suas dimensões sociais (referências a lugares, modas, usos, manifestações de atitudes de grupo ou classe, expressão de um conceito de vida entre burguês e patriarcal).

Candido diz, no entanto, que apontar estes pontos não é o bastante para definir o caráter sociológico de um estudo. Ao discorrer sobre o casamento ocorrido por meio da compra de um marido, a ideia de compra tem um “sentido social simbólico, pois é ao mesmo tempo representação e desmascaramento de costumes vigentes na época, como casamento por dinheiro”. Mas, para Candido, a análise em suas camadas mais fundas suscita a constatação deste traço social (ato de compra e venda no matrimônio) “funcionando para formar a estrutura do livro”. Candido conclui, a respeito da estrutura dessa obra, que no “conjunto, como no pormenor de cada parte, os mesmos princípios estruturais enformam a matéria”. (p. 15 – 16)

A compra e venda em Senhora, afirmada abstratamente pelo romancista, não foi, segundo Candido, “afirmada abstratamente pelo romancista, nem apenas ilustrada com exemplos, mas sugerida na própria composição do todo e das partes, na maneira por que organiza a matéria, a fim de lhe dar uma certa expressividade”. (p. 16)

6 – Quando fazemos uma análise deste tipo, podemos dizer que levamos em conta o elemento social, não exteriormente, como referência que permite identificar, na matéria do livro, a expressão de uma certa época ou de uma sociedade determinada; nem como enquadramento, que permite situá-lo historicamente; mas como fator da própria construção artística, estudando no nível explicativo e não ilustrativo. (p. 17)

7 – Neste caso, saímos dos aspectos periféricos da sociologia, ou da história sociologicamente orientada, para chegar a uma interpretação estética que assimilou a dimensão social como fator de arte.
7.1 – Quando isto se dá, ocorre o paradoxo assinalado inicialmente: o externo se torna interno e a crítica deixa de ser sociológica, para ser apenas crítica.
7.2 – O elemento social se torna um dos muitos que interferem na economia do livro, ao lado dos psicológicos, religiosos, linguísticos e outros.
8 – Uma crítica que se queira integral deixará de ser unilateralmente sociológica, psicológica ou linguística, para utilizar livremente os elementos capazes de conduzirem a uma interpretação coerente. Mas nada impede que cada crítico ressalte o elemento da sua preferência, desde que o utilize como componente da estruturação da obra. E nós verificamos que o que a crítica superou foi a orientação sociológica, sempre possível e legítima, mas o sociologismo crítico, a tendência devoradora de tudo explicar por meio de fatores sociais. (p. 17)

NOTA: Candido aponta dois perigos tanto na sociologia quanto na crítica: 1) PERIGO UM: a tendência pela análise que faça deixar de existir a verdade básica que consiste no fato de que a precedência lógica, e empírica, pertence ao todo, apesar de ser apreendido por uma referência constante à função das partes; 2) PERIGO DOIS: a preocupação do estudioso com a ideia de que a integridade e a autonomia da obra exacerbe, além dos limites cabíveis, o senso da função interna dos elementos, em detrimento dos aspectos históricos.

II

1 – Para fixar ideias e delimitar terrenos, pode-se tentar uma enumeração das modalidades mais comuns de estudos de tipo sociológico em literatura, feitos conforme critérios mais ou menos tradicionais e oscilando entre a sociologia, a história e a crítica de conteúdo. (p. 18)

PRIMEIRO – formado por trabalhos que procuram relacionar o conjunto de uma literatura, um período, um gênero, com as condições sociais. É o método tradicional, esboçado no século XVIII, que encontrou porventura em Taine o maior representante e foi tentado entre nós por Sílvio Romero. VIRTUDE – discernir uma ordem geral, um arranjo, que facilita o entendimento das sequências históricas e traça o panorama das épocas. DEFEITO – dificuldade de mostrar efetivamente [...] a ligação entre condições sociais e as obras.

SEGUNDO – formado pelos estudos que procuram verificar a medida em que as obras espelham ou representam a sociedade, descrevendo os seus vários aspectos. Consiste em estabelecer correlações entre os aspectos reais e os que aparecem no livro. Tende mais para a sociologia elementar do que à crítica literária.

TERCEIRO – apenas sociologia, e muito mais coerente, consiste no estudo da relação entre a obra e o público – isto é, o seu destino, a sua aceitação, a ação recíproca de ambos. 

QUARTO – estuda a posição e a função social do escritor, procurando relacionar a sua posição com a natureza da sua produção e ambas com a organização da sociedade.

QUINTO – desdobramento do anterior, investiga a função política das obras e dos autores, em geral com o intuito ideológico marcado (nos nossos dias tem tido a preferência dos marxistas).

SEXTO – voltado para a investigação hipotética das origens, seja da literatura em geral, seja de determinados gêneros.

2 – Todas estas modalidades e suas numerosas variantes são legítimas e, quando bem conduzidas, fecundas, na medida em que as tomarmos, não como crítica, mas com teoria e história sociológica da literatura, ou como sociologia da literatura, embora algumas delas satisfaçam também as exigências próprias do crítico.
2.1 – Em todas nota-se o deslocamento de interesse da obra para os elementos sociais que formam a sua matéria, para as circunstâncias do meio que influíram na sua elaboração, ou para a sua função na sociedade. (p. 21)

3 – Ora, tais aspectos são capitais para o historiador e o sociólogo, mas podem ser secundários e mesmo inúteis para o crítico, interessado em interpretar, se não forem considerados segundo a função que exercem na economia interna da obra, para a qual podem ter contribuído de maneira tão remota que se tornam dispensáveis para esclarecer os casos concretos.

4 – [...] a literatura como fenômeno de civilização, depende, para se constituir e caracterizar, do entrelaçamento de vários fatores sociais. (p. 21)

NOTA:
O primeiro passo [...] para averiguar, do ângulo de visão da crítica, uma obra, é ter consciência da relação arbitrária e deformante que o trabalho artístico estabelece com a realidade, mesmo quando pretende observá-la e transpô-la rigorosamente, pois a mimese é sempre uma forma de poiese. Em seguida, Candido cita o caso do veneno no romance O homem, de Aluísio de Azevedo, e alude à liberdade que o escritor tem em relação à realidade.

5 – Esta liberdade, mesmo dentro da orientação documentária, é o quinhão da fantasia, que às vezes precisa modificar a ordem do mundo justamente para torná-la mais expressiva; de tal maneira que o sentimento da verdade se constitui no leitor graças a esta traição metódica.
5.1 – Achar, pois, que basta aferir a obra com a realidade exterior para entendê-la é correr o risco de uma perigosa simplificação causal.

6 – [...] se tomarmos o cuidado de considerar os fatores sociais [...] no seu papel de formadores da estrutura, veremos que tanto eles quanto os psíquicos são decisivos para a análise literária [...]. (p. 22)

III

1 – Em muitos críticos de orientação sociológica já se nota o esforço de mostrar essa interiorização dos dados de natureza social, tornados núcleos de elaboração estética. (p. 23)

2 – Num plano [...] mais sutil, mencionamos a tentativa de Erich Auerbach, fundindo os processos estilísticos com os métodos histórico-sociológicos para investigar os fatos da literatura. (p. 24)

3 – [...] os elementos de ordem social serão filtrados através de uma concepção estética e trazidos ao nível da fatura, para entender a singularidade e a autonomia da obra.

4 – Há certo exageros compensatórios, que vão ao extremo oposto e afirmam que a obra, no que tem de significativo, é um todo que se explica a si mesmo, como um universo fechado. Este estruturalismo radical, cabível como um dos momentos da análise, é inviável no trabalho prático de interpretar, porque despreza, entre outras coisas, a dimensão histórica, sem a qual o pensamento contemporâneo não enfrenta de maneira adequada os problemas que o preocupam.

5 – [...] é esta concepção da obra como organismo que permite, no seu estudo, levar em conta e variar o jogo dos fatores que a condicionam e motivam; pois quando é interpretado como elemento de estrutura, cada fator se torna componente essencial do caso em foco, não podendo a sua legitimidade ser contestada nem glorificada a priori.