sábado, 16 de julho de 2016

RÉQUIEM PARA LUZIA




Eita, Luzia, parece que foi ontem
Que apertamos as mãos em despedida!
Que feliz conhecê-la nesta vida,
Vida que tende a ser pouco amigável!

Tu foste um ser humano tão amável!
Tantas vezes agiste por bondade
Quando isto em alguém é raridade:
E foste abrigo, afeto e acolhimento!

Foi de Deus caro presente, Luzia,
Tê-la encontrado em venturoso dia
E poder contar com sua amizade...

Qualquer lágrima que corra por ti,
É lembrança de que a vejo sorrir
Em minha mente plena de saudade!

Émerson Cardoso
13/06/16



terça-feira, 12 de julho de 2016

CONTO: "ENTRE MÚSICA E MOSCAS"


(Para ler, indispensavelmente, ao som de L’hymne a l’amour, de Edith Piaf)
  
“Enviarei enxames de moscas sobre ti.” (Êxodo 8: 21)

Um abrigo. No centro do recinto, um refeitório. Gatos rondam os espaços a espargir fezes. Moscas deslizam sobre o ar de incortável espessura. Há um resquício de jardim com roseiras repletas de espinhos e plantas que não verdejam. No todo, há um odor irrevitalizável de fechada gaveta. Mofo. Lentas águas de esgoto a céu aberto. Baratas ocultam-se estrepitosas. Cheiro de talco. Naftalina. Velhice. Abandono. Há pouco, um grito na decadente atmosfera ecoou. Foi assim:

Dona Aurora deitada estava em seu leito – engelhada e com fome sempre. Há dias sem banho. Moscas perspicazes, que sugavam as sujeiras do mundo, queriam sugá-la. Ela, que sofrera duas tromboses, o braço esquerdo movia para livrar-se dos selváticos insetos. Fechou os olhos, abriu-os. O que fazia ali? Onde o dedicado marido? Onde os três filhos? E os amigos tão íntimos? Sobraram-lhe velhice, doença, moscas.

No mesmo quarto, Dona Letícia com dificuldades andava. Ligou o rádio de pilha que ganhou no último dia das mães. Trazia alguma força contra moscas. E o rádio espargiu “L’hymne a l’amour”, de Edith Piaf. Ao escutar a música, Dona Letícia sorriu tristemente. Sua negra pele resplandeceu mais que era resplandecente seu olhar. Escutou a música enlevada. Sem entender palavra, um misto de saudade e persistência fez riacho em seu rosto. Moscas queriam, ousadas, sugar sua única posse: lágrimas-rios a correr silentes.

Dona Clarice saía do banheiro. Sentou-se na cama, para Dona Aurora olhou e deitou-se. Escutou a música de Dona Letícia e viu renascer o homem a quem devotara seu amor. Bonito era. Era bonito. Amou-o, embora doloroso fosse amar homem que traía, humilhava, espancava. Com raiva, certa vez, de ouvir coerências propagadas sobre os telhados, o homem bonito a quem ela devotadamente amara atirou nela uma chaleira que estava no fogo com água a ferver. A pele dos seios nunca mais voltou ao que era. Mas ela o amou, o amava, o amara. Depois que o amado morreu, ela amofinou e este era seu salário. Uma mosca invadiu seu vestido e ela matou-a num aperto do corpo contra a cama.

Dona Aurora tentou falar – não conseguiu. Em que mundo estranho ela... Ela, a mais rica da família, a bem-sucedida, a cujos trajes os outros invejavam, o que estava a fazer ali? Suas posses, adereços, móveis, imóveis, criadagem: onde? Lembrou-se: “Tenho marido rico, tenho dinheiro para toda vida e tenho maravilhosos filhos: o que eu quero mais? Nada peço a Deus. Se ele existe, parece que já me deu tudo... E ele que não se atreva a tomar o que é meu!” Agora, nos poucos movimentos que realizava, uma raiz de revolta e ódio. Odiava moscas. Ela não contava com o exemplo de Jó? E os filhos? Os amigos? O marido morto após a falência? Desesperou-se. Gritava, num sussurro, pelas companheiras de cárcere, ou pela enfermeira negligente, ou por um dos filhos, ou pelo marido, mas...

“Je renierais ma patrie
Je renierais mes amis
     Si tu me le demandais...”

Dona Letícia o rosto enxugou para novamente chorar. Sentiu-se mais-que-sozinha de repente, porque sabia que a música cessaria sem remorsos ao deixá-la ali, naquele cômodo sem saídas. Mas, não sem prenúncios de adeus, a música prosseguia. Tentou acompanhar a melodia cantarolando-a, mas abriu demais a boca e uma mosca a invadiu. Tossiu, tossiu, tossiu... Cuspiu enojada enquanto Piaf espargia no mundo melancolias.

Dona Clarice, gorda no florido vestido que ganhara da silenciosa nora no Natal, deitou-se de vez. Acomodou a cabeça de brancos cabelos, muito penteados, que estavam presos eternamente com auxílio de um rio de vaselina. No ar, cheiro de talco. Talco que ganhara da apática neta que a olhava como se não a quisesse olhar. Nojo, mal-estar, estranhamento no abraço dado. Havia também forte cheiro de abandono.  
           
E o grito se fez carne e habitou entre nós...

Ataque de trombose terceiro para Dona Aurora. Líquido putrefato e acinzentado vomitado por Dona Letícia que trazia em sua essência gorda e espevitada mosca. Ataque fulminante do coração para Dona Clarice.

“Si un jour la vie t’arrache à moi...

Naquela tarde, ao som do rádio de pilha, todos os que podiam, dos demais quartos, foram ver de onde provinha tão compungido grito. Dona Letícia, de pé, abanava as moscas que revoavam sobre os corpos de Dona Aurora e Dona Clarice.

“Nous aurons pour nous l’éternité...”

REFERÊNCIA:

CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. Entre música e moscas. In: Breve estudo sobre corações endurecidos. Ponto da Cultura: Maricá – RJ, 2011. p. 26 – 28. 

domingo, 10 de julho de 2016

RESENHA CRÍTICA: "CANIBALISMO DE OUTONO", DE ARTURO GOUVEIA


Você e eu somos acúmulos deliberados e casuais de sílabas. E elas só existem se alguém nos ler. É aí que estamos condenados à degradação.
(AG, O Obscuro, p. 117)

Salvador Dalí apresentou sua obra Canibalismo de Outono ao mundo em 1936. Nesta obra, percebemos, dentre outros pontos, a presença de um casal cujas cabeças interligam-se, aparentemente, por meio de um beijo, ao mesmo tempo em que a mulher segura garfo e faca, com os quais se alimenta do corpo do homem que, por sua vez, segura uma colher com a qual também pretende alimentar-se da mulher.
       O título da pintura de Dalí é retomado, também sua essência temática, na primeira obra romanesca de Arturo Gouveia publicada no primeiro semestre de 2016, pela editora Iluminuras. Dividido em duas partes (I – A RAIZ DO ARGUMENTO e II – AS FOLHAS DISPERSAS), este romance apresenta um narrador autodiegético que tem como interlocutor uma juíza a quem ele se reporta através do pronome de tratamento “Meritíssima”. Este narrador, denominado Próspero Miranda, confessa seu crime – crime tão cruel quanto bem articulado – e apresenta as razões que o motivaram a conceber tão passionalmente seu desejo de vingança.
O romance inicia, desse modo, com a narração de momentos especiais vividos entre ele e sua amada, como percebemos no trecho (2016, p. 07)[1]: “No dia em que o Papa morreu, eu tive uma experiência de amor inconfundível. Eu e a Italiana vínhamos de Roma, de um concerto internacional de barítonos e um curso de regência, e nos envolvemos na cama da forma mais suave”. O narrador é um proeminente músico que adota uma órfã chamada Karol, que ele também chama de Italiana, e por quem, com o tempo, apaixona-se – sendo prontamente correspondido.
 Acontece que, quando Próspero Miranda, a despeito de críticas, introduzira a filha adotiva numa apresentação para a qual estava ensaiando, e a esperava para o segundo ensaio da Litania n. 4, de Francesco Durante, ela não apareceu. Depois, somos informados de que a moça (p. 09) “foi encontrada morta no carro dos gêmeos, cortada, trucidada de espancamentos, quase todo o corpo com hematomas e sinais de estupro e resistência”.
Foram acusados do crime os gêmeos Tila e Vói, de dezessete anos, que, apoiados pelo status do pai, conseguem ser absolvidos, sobretudo porque dispunham do álibi perfeito: uma foto na qual eles estavam, na mesma noite do crime, com garotas na boate de propriedade de seu pai.
A partir deste fato, e de outros que o leitor precisa recorrer ao instigante enredo para compreender, Próspero Miranda decide realizar um ato de vingança que seja, em todos os sentidos, excepcional. Ele deseja, por meio disto, expurgar sua frustração ante a impunidade que possibilita aos gêmeos ter uma vida normal após ele ter sido dilacerado, psicologicamente, ao saber da morte de sua amada.
A vingança, como poucas vezes vislumbramos na Literatura Brasileira, aparece com intensidade nessa obra. O narrador, a respeito de seu projeto de vingança, afirma (p. 13): “Meu plano era relativamente digressivo e previsível, como uma literatura de mau gosto que não vai direto ao desfecho. Mas isso multiplicava meu ódio como ninguém podia prever. E foi aí, um ano após a morte do Papa, que Tila e Vói chegaram no inferno”.
A propósito, do ponto de vista onomástico, o nome do narrador-protagonista nos remete à obra shakespeariana A tempestade. Próspero, duque de Milão, é confinado por traições políticas numa ilha, com sua filha Miranda, e utiliza-se de vasto conhecimento e de magia para realizar um ato de vingança contra seus traidores. Neste sentido, a relação intertextual presente nos nomes é mais que evidente e amplia as possibilidades de interpretação desse livro, sobretudo se considerarmos a temática da vingança – temática central de ambos.
Devemos mencionar, também, a proximidade sonora dos nomes dos gêmeos Vói e Tila com o sobrenome do Papa João Paulo II (Karol Józef Wojtyla), cuja morte é mencionada enfaticamente no livro. Atentemos, ainda, para o fato de que a filha adotiva de Próspero, a quem ele devota amor intenso, chama-se Karol, ou seja, o primeiro nome do líder religioso.
Ressaltemos que, além desses aspectos, Arturo Gouveia comprova a ideia de Bakhtin, que pensa o romance como uma forma proteica que pode assimilar, em si, diversos gêneros. Percebemos, neste sentido, que Canibalismo de Outono apresenta capítulos que se assemelham estruturalmente, por exemplo, aos textos do gênero dramático. Neles, há a indicação do nome da personagem seguida de sua fala, o que pode remeter também ao formato de diálogo típico de textos clássicos como os de Platão e Aristóteles. Há, ainda: partitura, entrevista, inúmeros minicontos e sonetos, que são de uma criatividade imensurável, também carta, como a que é direcionada a Hannah Arendt, com onze pontos que são breves comentários sobre seu conceito de banalidade do mal.
Do ponto de vista da linguagem, a incapacidade de comunicação dos gêmeos, que são aparentemente incapazes de comunicar-se sem espargir contra o interlocutor uma palavra obscena e vulgar, é ridicularizada pela erudição de Próspero Miranda e de outras personagens fascinantes que o narrador apresenta: o PINTOR – Salvador Dalí –, AG – o Obscuro –, Górgona-Húmus – a destruidora de rostos – e o Mentor – também retomado pelo pronome ELE.
Há capítulos em que percebemos o fluxo de consciência da personagem de modo tão intenso que desaparecem os sinais de pontuação e algumas palavras – surgem, em contrapartida, sinais gráficos aleatórios, pontilhados, parágrafos formados apenas por cinco linhas sem qualquer pontuação, dentre outras marcas textuais que parecem acompanhar os conflitos e divagações psicológicas do narrador-personagem. Há um capítulo, nesta perspectiva, intitulado ENCONTRO ACELERADO – III (DÓ), em que a frase “não seja puta de Benjamin Franklin” é repetida excessivamente, sendo intercalada com parágrafos em que o narrador retoma, apenas em alguns trechos, sua narração, e com sonetos, e minicontos, de notável vigor poético.
         Precisamos dar ênfase, para além da vingança de Próspero, que constitui o enredo por excelência do livro e já nos dimensiona, pela fabulação, seu valor estético, a pelo menos três acontecimentos marcantes: 1) o capítulo ENCONTRO ACELERADO – I (em que o narrador encontra-se com personalidades como AG – o Obscuro), 2) o capítulo ENCONTRO ACELERADO – II (em que o narrador visita Górgona-Húmus na Penitenciária Feminina localizada no Paço dos Abutres) e 3) o capítulo ENCONTRO ACELERADO IV (em que o narrador encontra-se na Itália com o Mentor, mais precisamente o diabo, e com ESQUILO  e ELI).
            Consideramos, diga-se de passagem, que Canibalismo de Outono pode inserir-se na tradição de textos literários que se remetem a pactos diabólicos. Neste caso, o Mentor, que se opõe a Próspero, tenta desencorajá-lo, por meio de argumentos bem delineados, a desistir de sua vingança – seus argumentos, no entanto, não são aceitos.
            A erudição dos diálogos, o alto grau de reflexão apresentado nos discursos das personagens, a menção a obras e nomes da música erudita, a menção a autores proeminentes da Literatura Universal e da Filosofia, assim como a construção narrativa que traz seus tons de bizarrice e de absurdo, bem como a construção psicológica de suas personagens que, algumas delas, margeiam o grotesco, tornam este livro uma experiência romanesca mais-que-bem-sucedida.
            Entre o amor erótico em sua manifestação mais singela, e o despertar da crueldade humana que nasce, por vezes, da incapacidade de ser indiferente a injustiças, Canibalismo de Outono nos apresenta um protagonista complexo, cruel e vingativo, mas que nos incita a pensar sobre a condição humana em suas mais vastas potencialidades – sobretudo em sua capacidade de amar, de sentir solidão e de sentir-se impotente ante a dor da perda.  
Este romance nos causa impacto, nos atemoriza, nos causa estranhamento, ao mesmo tempo em que nos leva a indagar, enternecidos, sobre o que de fato ocorreu no enredo: os acontecimentos são reais, ou não passam de devaneios de uma mente fustigada pela crueldade de tipos como os gêmeos Vói e Tila? O esboço de romance apresentado por AG, o Obscuro, é a resposta para o que perscrutamos? Isto tira nossa paz. Mas, a propósito da paz, para concluir, transcrevo uma das muitas frases que me tocaram profundamente neste livro (p. 191): “O pior dos infernos é ser cúmplice de uma paz aparente”.         
Arturo Gouveia é doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada, é professor titular da Universidade Federal da Paraíba e escreveu, dentre outras obras: No inferno (1988), O mal absoluto (1996), A farsa do milênio (1997), A arte do breve (2003), O Evangelho Segundo Lúcifer (2007) e Santíssimas trevas (2008).
Cícero Émerson do Nascimento Cardoso



[1] GOUVEIA, Arturo. Canibalismo de Outono. São Paulo: Iluminuras, 2016.

segunda-feira, 14 de março de 2016

RESENHA CRÍTICA: NOTAS SOBRE O AMOR EM "A CÉU ABERTO", DE PAULO SOARES


A propósito do novo livro de Paulo Soares, A céu aberto (2015), devo dizer, para fins de apresentação, que o poeta se manteve na linha da denúncia social presente em seu primeiro livro: Um tiro no coração da poesia.
 Percebemos isto em poemas, por exemplo, como Onu, que é inteligente e faz isto por meio de trocadilhos agressivos que são pertinentes, críticos e corajosos.
Onu

Anos
e
Anos
de ONU.

Anos
e
Anos
de ÔNUS.

Ônus
e
ONUs

No Ânus.

   Repleto de metalinguagem, esse livro dispõe de poemas, em sua maioria, curtos, carregados de trocadilhos, anáforas, aliterações e metáforas. Embora o teor político seja sua temática por excelência, outros temas surgem e dão a tônica versátil da obra. O amor, numa perspectiva do erotismo, por exemplo, aparece com recorrência. Observamos, desse modo, de modo panorâmico, os poemas em que Paulo Soares discorre sobre o amor.
   Assim, apesar de sentir que, em se tratando da temática amorosa, o autor poderia, em alguns textos, ser mais original na criação de algumas imagens, podemos encontrar poemas como Nós, em que o trocadilho entre o pronome pessoal reto, na terceira pessoa do plural (NÓS), confunde-se com o substantivo pluralizado (NÓS), e evidencia criatividade em seu conteúdo e sua forma.  
Nós

Não
nos desatAMOs.

O AMOr
dá corda.

E
nós somos
nós.

Nos apertAMOs.

    O eu lírico do poema afirma que está, conotativamente falando, atado ao ser a quem devota seu amor. Na primeira estrofe ele afirma: “Não / nos desatAMOs”. O amor é metaforizado como algo que, de certo modo, aprisiona, no entanto o eu lírico, pelo que apreendemos do verbo amar, que aparece no presente do indicativo, e é transcrito em maiúscula dentro de outro verbo, confessa que ama sem demonstrações de angústia ou sofrimento. O amor aprisiona ou, como ele afirma, “dá corda”, mas não indica, com isto, que o eu lírico deseja libertar-se dessa suposta prisão. Ele, na sequência, enfatiza: “E / nós somos / nós”. O Nós a que ele alude nos possibilita pensar o vocábulo como substantivo ou pronome sem, contudo, isto prejudicar o sentido que o poema quer alcançar, antes o torna mais amplo em sua polissemia.
   O verbo AMO, imbricado em outros verbos, surge três vezes como a confirmar o discurso passional do eu lírico. Se o amor aprisiona suas “vítimas” em suas cordas, ao mesmo tempo em que dá “corda”, e ele e o ser amado tornam-se “nós”, não há necessidade de fuga da parte, pelo menos, do eu lírico. Ele, em verdade, resigna-se e afirma, aprisionado ao ser de sua devoção: “Nos apertAMOs”. Ressaltemos, ainda, que o vocábulo “nó”, amarra que se dá na ponta de uma corda, que aparece no plural, ou “nós”, pronome indicativo de junção, conexão, acoplamento entre indivíduos, se confundem e intensificam o efeito poético do texto.
  Outro poema, nesta linha, que é notável, sobretudo porque tem um teor erótico bem articulado com o teor metalinguístico recorrente nos textos do autor, dá-se pela polissemia assumida no texto pelo vocábulo “oral” que, neste caso, traz pelo menos duas acepções.
Oral

Antes
Do coito,
Do gozo
Da consonante com a vogal.

Verdade seja dita!

O prazer da transa escrita
Passa primeiro pela linguagem oral.

     O vocábulo “oral”, numa primeira acepção, remete-se ao sexo oral que, como o eu lírico expõe, é uma preliminar da cópula, para ele, indispensável: “Antes / Do coito [...], / O prazer da transa escrita / Passa primeiro pela linguagem oral”. Numa segunda acepção, e nisto está o valor estético do poema, “oral” remete-se a uma das propriedades da linguagem. Antes da escrita, em seu sentido pragmático, há a oralidade, ou seja, a língua em sua manifestação mais direta e, para isto, não se faz necessária a assimilação da língua em sua forma escrita.  
  Assim, antes da escrita, segundo o eu lírico, é a oralidade que representa a manifestação expressiva da língua. Do mesmo modo, agora numa instância erótica, para efetivação do coito – os genitais masculino e feminino estão metaforizados, respectivamente, no vocábulo “consoante” e “vogal”, ou vice-versa –, ele confessa: o sexo oral representa ato indispensável para efetivação do “prazer da transa”.
   O amor também aparece com uma visão realista mais que pertinente no poema Diagnóstico. O eu poético expõe um casal representado pelos pronomes Ela / Ele. Para ela, o amor “era uma FICÇÃO” – algo fantasioso, elaborado imaginariamente. Para ele, o amor era “uma FACÇÃO” – grupo que detém indivíduos que lutam por uma mesma causa, ou grupos antagônicos que disputam uma supremacia política. O diagnóstico evocado no título ocorre quando o casal se separa e é dito pelo médico que o amor não era, senão, “uma INFECÇÃO / intestinal”.
O amor tratado com o lirismo presente nos poemas anteriores não está presente neste último. Este propõe uma reflexão sobre o quanto o amor, que surge no eufemismo “infecção intestinal” – que substitui palavras do campo semântico das fezes –, pode ser doentio e sórdido a quem o vivencia sem considerá-lo em suas contradições e possibilidades de conflito. O amor, desse modo, é tratado primorosamente como algo não idealizado.
No poema Cavalo de troia, há mais criatividade pela discussão de categorias que aproximam o eu lírico do universo tecnológico, e pelos trocadilhos utilizados, do que pela originalidade temática propriamente dita. O amor, neste poema, é apresentado como algo que está no fim. Um “hacker” surgiu, na história de amor vivida pelo eu lírico e sua amada, e o hacker foi responsável pela destruição dessa história de amor. Assim, ele lamenta: “Um hacker / Malicioso / Invadiu nossa conexão / Deletou o nosso tesão” e, também, “Jogou nosso amor na lixeira”.
Os poemas Ela é fada!, Senha, Água viva, A flor mais bela, Poema leve e Amor e caligrafias, apesar de apresentarem aliterações, metáforas ou tons metalinguísticos, não trazem, como os anteriores, a temática do amor com um trabalho mais apurado, muito menos apresentam trocadilhos bem delineados e efeitos impactantes em seus versos de desfecho. No caso de Arco-íris e Cantiga moderna, há a promessa inicial de um texto cujo desfecho poderá ter alguma intensidade, no entanto o primeiro conclui com uma imagem explícita demais, e não poética, como era prenunciado; e o segundo, um tanto moralista, perde o lirismo porque tenta fazer crítica à falta de lirismo do “trovador” moderno, mas incorre no mesmo equívoco que denuncia.
Estes problemas não ocorrem, por exemplo, em Todo teu. Este poema, cujo título já indica uma tentativa hiperbólica de entrega afetiva, discorre sobre o amor numa perspectiva da passionalidade. De tal modo o eu lírico se entrega ao ser a quem devota seu amor, que o pronome possessivo, repetido à exaustão, evidencia que ele parece perder a identidade. A repetição do pronome pessoal reto na primeira pessoa do singular (EU), que parece ter mais a ver com a tentativa de aproximação sonora entre Eu e Teu, que causa a aliteração dos versos, indica no mínimo um discurso paradoxal. O Eu está tão presente no poema que questionamos se realmente o eu lírico se entregou de todo a sua amada, tendo em vista que ao dizer que ele é todo, inteiramente, completamente dela, não seria necessário apresentar as partes do seu todo para enfatizar seu discurso, como ele faz de modo recorrente. Poema de um eu lírico autoafirmativo, deparamo-nos com anáforas, aliterações, assonâncias e rimas. É um poema com ritmo, com tom hiperbólico e que é rico em sonoridade.  
Amor platônico pode ser inserido no rol dos poemas bem articulados do livro. Sobretudo no desfecho, que tem efeito intenso, o poeta ganha em expressividade. Os trocadilhos, a preocupação formal e o jogo de palavras tornam o poema um dos mais criativos da coletânea.
Mas Kama Sutra, mais uma vez pela metalinguagem, e pelo trocadilho sexo / escrita, também pela simplicidade do texto, que não deixa de ter um efeito intenso na conclusão bem delineada, é um poema notável.
Kama Sutra

Invento
Posições verbais
Todo santo dia.

Escrever
É fazer Kama Sutra
Com a poesia.

  A céu aberto discorre, também, sobre política, como foi apontado no início deste texto. Quem decidir ler a obra de Paulo Soares se deparará, desde seu livro anterior, e sua produção literária na época dos Cordelistas Mauditos, com poemas de grande valor estético, sobretudo numa perspectiva política, que me parece ser o tema que o autor, sempre ácido, bem como pertinente, melhor explora.
Um tiro no coração da poesia e A céu aberto apresentam um autor que ainda busca delinear seu estilo, mas do ponto de vista conteudístico ambos são fiéis ao que parece ser o principal mote do autor: observar com criticidade o mundo a sua volta. Devemos aguardar os novos trabalhos do autor, para certificarmo-nos de que seu estilo finalmente será consolidado. A leitura do novo livro de Paulo Soares, no entanto, mostra-nos que podemos esperar, em meio a poemas que podem não ser dos mais expressivos, e que apresentam alguns problemas de pontuações, grandes textos poéticos que certamente o tornam um autor notável por não ter medo de expor seu trabalho na busca de torná-lo conhecido, e que parece não temer ter que melhorá-lo.
Paulo Soares precisa criar mais poemas como este, ambíguo, incisivo e com efeito intenso no desfecho, com o qual encerro minhas observações sobre A céu aberto:  

Na ponta da língua

Se na hora do poema
A inspiração me deixar brochar
E ficar à míngua.
Não ria!
Meu tesão pela poesia
Tem a resposta na ponta da língua.


SOARES, Paulo. A céu aberto. Fortaleza: Premius, 2015.

Émerson Cardoso

Junho de 2016

POEMA SELECIONADO PARA A V MOSTRA DE POESIA "ABRIL PARA A LEITURA" DO CCBNB - CARIRI 2016


ACABOU CHORARE

(minha versão)

 

Pela janela, ao acordar, vislumbrei

Três humanos, à força de machado e picareta,

Arrancarem de mim uma das árvores da rua...

 

O que dizer para os devastadores:

Que não me sangrassem com a lâmina do machado,

Porque minhas folhas poderiam nunca mais se recompor?

 

Acabou! – Disse a mim mesmo, quando a vi no chão,

E fiz velório o dia inteiro

Nublando a janela com o furor das pálpebras...

 

"O QUINZE", DE RACHEL DE QUEIROZ - TRECHOS


Publicado em 1930, O Quinze tornou-se um dos livros mais populares de Rachel de Queiroz. Em meio ao drama da seca, o narrador dessa obra – narrador heterodiegético – insere suas personagens em dois planos: 1) por um lado, deparamo-nos com a personagem feminina Conceição, que se vê dividida entre a possibilidade de emancipação, proporcionada pelo universo do conhecimento, e o aprisionamento doméstico, representado pela efetivação do casamento; 2) e, por outro lado, deparamo-nos com a personagem Chico Bento que, com sua família, decide caminhar de Quixadá até Fortaleza para tentar fugir da seca, ocasião em que se defronta com necessidades limítrofes da sua dignidade humana. Diante disso, retomamos O Quinze, no ano em que a seca que serviu como contexto para sua enredística completa seu centenário, com o objetivo de realizar estudo crítico sobre sua estrutura, além de enfatizar o debate que vem à tona à medida que, cem anos após essa grande seca, ainda percebemos a existência de tal problema.  

Em seguida, apresentamos dois trechos dessa obra:

5

Agora, ao Chico Bento, como único recurso, só restava arribar.
Sem legume, sem serviço, sem meio de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca durasse.
Depois, o mundo é grande e no Amazonas sempre há borracha...
Alta noite, na camarinha fechada que uma lamparina moribunda alumiava mal, combinou com a mulher o plano de partida.
Ela ouvia chorando, enxugando na varanda encarnada da rede, os olhos cegos de lágrimas.
Chico Bento, na confiança do seu sonho, procurou animá-la, contando-lhe os mil casos de retirantes enriquecidos no Norte.
[...]
Cordulina ouvia, e abria o coração àquela esperança; mas correndo os olhos pelas paredes de taipa, pelo canto onde na redinha remendada o filho pequenino dormia, novamente sentiu um aperto de saudade, e lastimou-se:
– Mas, Chico, eu tenho tanta pena da minha barraquinha! Onde é que a gente vai viver, por esse mundão de meu Deus?
A voz dolente do vaqueiro novamente se ergueu em consolações e promessas:
 – Em todo pé de pau há um galho mode a gente armar a tipoia... E com umas noites assim limpas até dá vontade de se dormir no tempo... Se chovesse, quer de noite, quer de dia, tinha carecido se ganhar o mundo atrás de um gancho?
Cordulina baixava a cabeça. Chico Bento continuou a falar.
(QUEIROZ, p. 26 – 27)

9

Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas.
– Mãezinha, cadê a janta?
– Cala a boca, menino! Já vem!
– Lá vem o quê?...
Angustiado, Chico Bento apalpava os bolsos... nem um triste vintém azinhavrado...
 (QUEIROZ, p. 46 – 47)

14

Deitada na cama, com a luz apagada, Conceição recordava Vicente e sua visita.
A verdade é que ela era sempre uma tola muito romântica para lhe emprestar essa auréola de herói de novela!
Metido com cabras... não se dava ao respeito... E ainda por cima, não se importava nem em negar...
Mãe Nácia, porque naturalmente, no tempo dela, aguentou muitas dessas, diz que não vale nada...
[...]
Foi então que se lembrou que, provavelmente, Vicente nunca lera o Machado... Nem nada do que ela lia.
Ele dizia sempre que, de livros, só o da nota do gado...
Num relevo mais forte, tão forte quanto nunca o sentira, foi-lhe aparecendo a diferença que havia entre ambos, de gosto, de tendências, de vida.
O seu pensamento, que até há pouco se dirigia ao primo como a um fim de natural e feliz, esbarrou nessa encruzilhada difícil e não soube ir adiante.
Ele lhe aparecia agora como um desses recantos da mata, próximo a um riacho, num sombrio misterioso e confortante. Passando num meio-dia quente, ao trote do cavalo, a gente para ali, olha a sombra e o verde como se fosse para um cantinho do céu...
Mas volvendo depois, numa manhã chuvosa, encontra-se o doce recanto enlameado, escavado de minhocas, os lindos troncos escorregadios e lodosos, os galhos de redor pingando tristemente.

  (QUEIROZ, 1993, p. 78 – 79)

QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. 58. ed. São Paulo: Siciliano, 1993.

"ROMANCE LXXX OU DO ENTERRO DE BÁRBARA ELIODORA", DE CECÍLIA MEIRELES



Nove padres vão rezando
– e com que tristeza rezam! –
atrás de um pequeno vulto,
mirrado corpo, que levam
pela nave, além das grades
e ao pé do altar-mor enterram.

Dona Bárbara Eliodora,
tão altiva e tão cantada,
que foi Bueno e foi Silveira,
dama de tão alta casta
que em toda terra das Minas
a ninguém se comparara,

lá vai para a fria campa,
já sem nome, voz nem peso,
entre palavras latinas,
velas brancas, panos negros,
– lá vai para as longas praias
Do sobre-humano degredo.

Nove padres vão rezando...
(Dizei-me se ainda é preciso!...
Fundos calabouços frios
devoraram-lhe o marido.
Quatro punhais teve n’alma,
na sorte de cada filho.

E, conforme a cor da lua,
viram-na, exaltada e brava,
falar às paredes mudas
da casa desesperada,
invocar Reis e Rainhas,
clamar às pedras de Ambaca.)

Ela era a Estrela do Norte,
ela era Bárbara, a bela...
(Secava-lhe a tosse o peito,
queimava-lhe a febre a testa.)
Agora, deitam-na, exausta,
num simples colchão de terra.

Nove padres vão rezando
sobre seu pálido corpo.
E os vultos já se retiram,
e a pedra cobre-lhe o sono,
e os missais já estão fechados
e as velas secam seu choro.

Dona Bárbara Eliodora
toma vida noutros mundos.
Grita a amigos e parentes,
quer saber de seus defuntos:
ronda igrejas e presídios,
fala aos santos mais obscuros.

Transparente de água e lua,
velha poeira em sonho de asa,
Dona Bárbara Eliodora
move seu débil fantasma
entre o túmulo e a memória:
mariposa na vidraça.

Nove padres já rezaram.
Já vão longe, os nove padres.
Uma porta vai rodando,
vão rodando grossas chaves.
Fica o silêncio pensando,
nessa pedra, além das grades.