segunda-feira, 31 de julho de 2023
CRÔNICA: CARTA PARA MIM MESMO EM PREPARAÇÃO PARA O PERÍODO EM QUE MAIS FICO DEPRESSIVO
quarta-feira, 26 de julho de 2023
CRÔNICA: "O QUE É INSUPORTÁVEL PARA MIM?"
Convivo bem com as pessoas. Juro. É sempre prazeroso conversar e compartilhar ideias com pessoas inteligentes, bem humoradas, simples e que buscam serem práticas sem confundir a praticidade com grosseria. Eu convivo com muitas pessoas assim, mas convivo, também, com pessoas que são bem diferentes disso que aponto como o meu "ideal" de pessoas boas para conviver.
Quando tenho que conviver com pessoas com as quais sou exigido por alguma questão inevitável, devo confessar que a solidão pode ser um alívio, porque estar sozinho ameniza ansiedades e urgências e traumas e frustrações e tristezas. Fugir do convívio, como se pode constatar, não nos amplia. Conviver prepara-nos o espírito, torna-nos mais fortes e capazes de crescimentos. Apesar de saber disso, eu ainda preferiria a solidão a ter que estar em más companhias. Dizem até que elas destroem hábitos úteis, não é?
Agora, se me permite, existem gestos e palavras e comportamentos humanos, nos diversos grupos aos quais costumo acorrer (obrigatoriamente ou não), que me parecem insustentáveis e insuportáveis. Eu começarei a enumerá-los como forma de expurgação. Talvez seja um ato um tanto quanto passivo-agressivo, mas costumo usar a escrita para esse tipo de expurgação. Exposta a ressalva, vou começar:
1 - Pessoas competitivas (homens tendem a ser mais competitivos, mas algumas mulheres o são também) e, ainda pior, que competem por bobagens;
2 - Pessoas cujos gestos parecem bondosos quando, em verdade, ocultam maledicências e moralismos e falsidades;
3 - Pessoas incapazes de guardar segredos por serem indiscretas e por precisarem demais se autoafirmarem;
4 - Pessoas incapazes de fazer autoavaliação, mas que percebem com rigor as posturas negativas dos outros;
5 - Pessoas que, egocêntricas demais ou narcisistas em excesso, são incapazes de um gesto de humildade;
6 - Pessoas que não percebem o quão podem parecer inconvenientes e deselegantes em alguns espaços públicos;
7 - Pessoas que bebem e tornam-se agressivas, desagradáveis e inconvenientes;
8 - Pessoas que precisam de autoafirmação constante a ponto de propagarem demais o bem que fazem aos outros;
9 - Pessoas que mentem com o intuito de prejudicarem outras pessoas;
10 - Pessoas que não sabem respeitar o espaço do outro;
11 - Pessoas que não têm profundidade em relação a determinado tema e querem passar, equivocada ou acriticamente, por especialistas desse tema;
12 - Pessoas que consideram indispensável leitura de obras literárias para que uma pessoa seja sábia, instigante ou inteligente;
13 - Pessoas que se consideram importantes demais e levam-se a sério demais;
14 - Pessoas mal-humoradas;
15 - Pessoas que são negacionistas e, consequentemente, acríticas em assuntos de política, ou que endeusam excessivamente um partido, uma corrente política, um líder político (o mesmo se aplica a questões de religião);
16 - Pessoas que ligam por meio de celular e passam mais de 15min conversando (eu sempre sinto dor de cabeça quando atendo ligação) ou que prosseguem uma longa conversa depois de uma despedida;
17 - Pessoas que pedem algum favor sem perguntar, previamente, se o outro poderá realizar a ação pedida;
18 - Pessoas que recorrem demais ao conhecimento, ao status e à crença como forma de propagar uma verdade ou maltratar, diminuir e subjugar alguém;
19 - Pessoas que não usam fones de ouvido nos transportes públicos e não públicos para ouvirem música (independentemente do gênero musical);
20 - Pessoas que furam fila;
21 - Pessoas que não gostam de conversar amenidades ou coisas profundas em contexto de encontro com amigos, porque estão presas demais ao celular, a mágoas passadas ou algum mal-estar pessoal;
22 - Pessoas que confundem amizade com obrigatoriedade de estar disponível sempre;
23 - Pessoas que usam verbos no imperativo;
24 - Pessoas que fingem simpatia para forçarem aproximação por interesse;
25 - Pessoas que não compreendem que é preciso manter distanciamento prudente de certos assuntos previamente apontados como desagradáveis por alguém;
26 - Pessoas que exigem atenção por serem carentes demais;
27 - Pessoas invasivas em qualquer grau ou circunstância;
28 - Pessoas que são possessivas ou ciumentas;
29 - Pessoas que gostam de subjugar com elogios, favores e atenções desmesuradas como forma de manipular;
30 - Pessoas que tendem a transformar as demais em monstruosas para se colocarem como vítimas das situações.
Aos que são próximos e aos que são distantes, digo logo que não estou fazendo crítica direta ou indireta a quem quer que seja, porque eu mesmo não estou isento de ter muitos desses comportamentos que enumerei. Quem está livre de ser um ser humano? A questão é que algumas pessoas não têm o cuidado de se autoavaliarem. Não digo que devem se sentir culpadas ou se punirem, mas autoavaliação pode ser um bom caminho. É sempre pertinente se tornar uma pessoa melhor para si, para o outro e para o mundo.
Como disse, estou longe de ser santo, mas faço o esforço para não ser uma pessoa de todo desagradável. Além disso, procuro cuidar da mente. Faço análise com um psicanalista lacaniano há alguns anos. Tenho melhorado significativamente. Sou sensível demais aos conflitos, tenho dificuldade de dizer não, por isso preciso manter certa prudência. Se não faço isso, a vida se torna insustentável. Devo ser meio lunático, mas já admito para mim esse lado que tenho, pois não quero me forçar a usar máscaras com tanta frequência. Suportar certas posturas é me violentar para agradar ao outro, então preciso rever isso.
Para encerrar o desabafo, quero dizer o seguinte: familiares, amigos e amigas, relacionamentos possíveis e impossíveis (e tantas outras formas de relações humanas às quais estou inevitavelmente submetido no cotidiano caótico da existência), pode ser que o problema esteja em mim: tenho tendência a me exaurir fácil. Preciso de distanciamentos de tempos em tempos para me recompor. Não me odeiem por isso, mas se odiarem afastem-se discretamente, porque sou capaz de até pedir desculpas por esse texto que escrevi. Eu, no entanto, advirto: estou sendo muito mais eu mesmo ao escrever.
Vou confessar uma última coisa a respeito dessa minha percepção sobre a convivência: as pessoas que mais amo na vida são as que demoro a encontrar e, quando as encontro, tenho a sensação de que as vi no dia anterior.
E tenho dito.
27/07/2023
quarta-feira, 30 de novembro de 2022
"UM APÓLOGO", DE MACHADO DE ASSIS
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando…
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?
— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…
Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…
A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.
Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
— Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse,
abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
CRÔNICA: "BRINQUEDOS INCENDIADOS", DE CECÍLIA MEIRELES
Uma noite houve um incêndio num bazar. E no fogo total
desapareceram consumidos os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles
brinquedos um por um, de tanto mirá-los nos mostruários – uns, pendentes de
longos barbantes; outros, apenas entrevistos em suas caixas. Ah! Maravilhosas
bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e
verniz! Carneirinhos lanudos, de guizo ao pescoço! Piões zumbidores! – e uns
bondes com algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia – filhotes
que éramos, então, de M. Jordain, fazendo a nossa poesia concreta antes do
tempo.
Às vezes, num aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos
receber de presente alguns bonequinhos de celuloide, modesto cavalinhos de
lata, bolas de gude, barquinhos sem possibilidade de navegação... – pois
aquelas admiráveis bonecas de seda e filó, aqueles batalhões completos de
soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não
chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem
esperança nem inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os
apenas em sonho, como se para isso, apenas, tivessem sido feitos.
Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da
escola para casa, parava longo tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia
aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem muita noção do valor –
porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos só
renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar cravadas
nelas, como setas, os nossos olhos.
Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara.
E foi uma espécie de festa fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo
rubro, voavam chispas e labaredas pelo bairro todo. As crianças queriam ver o
incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas, fugiam para a rua,
onde brilhavam bombeiros entre jorros d’água. A elas não interessavam nada
peças de pano, cetins, cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam
pelos cavalinhos e bonecas, os trens e palhaços, fechados, sufocados em suas
grandes caixas. Brinquedos que jamais teriam possuído, sonhos apenas da
infância, amor platônico.
O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um
fumoso galpão de cinzas.
Felizmente, ninguém tinha morrido – diziam em redor. Como
não tinha morrido ninguém?, pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e,
dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali deixados.
E começávamos a pressentir que viriam outros incêndios. Em
outras idades. De outros brinquedos. Até que um dia também desaparecêssemos sem
socorro, nós brinquedos que somos, talvez de anjos distantes!
REFERÊNCIA:
MEIRELES, Cecília. Escolha seus sonhos. 25. ed. Rio
de Janeiro: Record, 1996.
quinta-feira, 10 de novembro de 2022
RESENHA CRÍTICA DO LIVRO "O TERCEIRO ANONIMATO", DE FERREIRA LIMA
O terceiro anonimato, de Ferreira Lima, publicado em 2022, apresenta vinte e três poemas de inegável apuro técnico e expressivo. Como é evocado no título, essa obra faz parte de uma trilogia iniciada com o livro Poemas para assobiar de longe (2019) e seguida do livro Apontamentos sobre o cultivo da poesia (2021).
Os três
primeiros poemas apresentados (os mais curtos do livro) são: O anonimato,
Escrever e Andarilho. No primeiro, como constatamos pelo título,
temos o tema por excelência da obra. No segundo, temos um tom metalinguístico
que será constante ao longo do livro. No terceiro, temos um poema direcionado para
a subjetividade de uma voz lírica que reflete sobre a busca de si mesmo.
O anonimato,
a escrita e as reflexões sobre a subjetividade de vozes líricas em contextos existenciais
diversos perpassam o eixo poemático desse livro. Exemplar dessa perspectiva são
os poemas: Anônimo, analógico e anacrônico, Simétrico (o melhor poema do
livro seja do ponto de vista do conteúdo, seja do ponto de vista da forma), Trajeto, Pássaro, Derradeiras de quem vai partir, Um certo voo, O(s) poeta(s),
Andarilho ou Adeus, anonimato! e O terceiro anonimato.
Instigante,
sobretudo, é o poema Sísifo, um dos melhores do livro. Ferreira Lima
retoma nele o mito grego do rei que ousa interferir nas ações dos deuses e
acaba sendo punido, no Tártaro, com uma pedra que tenta conduzir até o cimo de uma
montanha sem conseguir fazê-lo eternamente. O anonimato surge no poema metaforizado na imagem dessa pedra
que se torna, também, a punição da voz lírica. Escrever é uma expurgação necessária
a quem é poeta, mas pode ser torturante produzir quando se pode ser silenciado pelo anonimato.
Em Ulisses,
poema que retoma o herói grego de uma das obras fundantes da Literatura
Ocidental, temos uma reflexão sobre a escrita, uma perscrutação da
subjetividade da voz lírica e explanações sobre a temática amorosa. O amor, a
propósito, é retomado em vários poemas: Mil desculpas, Metas, Dotes para uma
amada em segredo, Confissões de uma carta anunciada, Encontro, Cotidiano, Não
quero tudo e Pra sempre.
Percebemos,
após a leitura desse livro, que além do anonimato e do amor, reflexões sobre a escrita poética (com um tom metalinguístico evidente) também se caracterizam como recorrentes na obra do autor. Enquanto reflete sobre a escrita do poema, há predisposição do escritor a um atento trabalho com
a linguagem. Não há rebuscamento linguístico, tampouco excessos imagéticos
construídos a partir de metaforizações simplistas, em seus poemas. Quando recorre a figuras de
linguagem (hipérbole, metáfora, símile, antítese, anacoluto, anáfora,
aliteração etc.), ele está comprometido com a construção de imagens criativas e de perceptível
lirismo.
No epílogo da obra, Nirton Venâncio comenta (apud LIMA, 2022, p. 110): “E onde estava Valdi Ferreira Lima que eu não via, que não víamos, que não líamos?” Reforço a pergunta, pois ao ler essa obra tive a sensação de estar diante de um dos grandes poetas do Ceará e, até pouco tempo, eu o desconhecia. É urgente, portanto, conhecê-lo. Há muito a descobrir na poesia que ele nos apresenta sem preciosismos e sem imbricadas soluções vocabulares.
Ressalvo que O
terceiro anonimato encerra uma trilogia de poesias de Ferreira Lima, este poeta
que descobri recentemente e é, sem dúvidas, um notável escritor. A poesia dele merece
atenção, de modo que jamais poderá ser obscurecida pelo anonimato. O talento do autor e a beleza de sua obra precisam chegar ao mundo. Precisamos de poesia para ampliar nossas existências cotidianas. Leiamos, urgentemente, a poesia de Ferreira Lima.
Valdi Ferreira
Lima nasceu em Serra da Donana, município de Jucás–CE, mas mora há anos em
Sobral–CE. Vencedor de diversos prêmios, ele publicou: O guardador de raízes
(2018), Poemas para assobiar de longe (2019) e Apontamentos sobre o
cultivo da poesia (2021).
sexta-feira, 30 de setembro de 2022
CARTA PARA A VIDA APESAR DO CAOS DO MUNDO
Não sabemos totalmente onde localizar a fronteira entre o que é certo e o que é errado. Existem muitas implicações nessa dualidade, porque o que é certo para mim pode ser errado para o outro. Talvez seja esse, por excelência, o desafio de nossas existências: refletir sobre o melhor caminho para um possível equilíbrio e descobrir forças para agir conforme uma ética, um senso de justiça, um construto de respeito.
Somos dois lados de uma página em branco que pode ser construída por quem melhor acolhe a capacidade de articular palavras na tentativa de contar uma história. Chimamanda Ngozi Adichie ensina que há um perigo inerente à legitimação de uma história única. Sempre existem dois ou mais lados quando uma narrativa é apresentada.
Tudo o que sabemos (do muito que desconhecemos) é que ainda é possível respirar apesar da dor e da angústia reveladas no cotidiano. Respirar ainda é possível?
Cada caminho percorrido e cada decisão tomada, tenho por certo, é como o caos afogado nas linhas das mãos sem qualquer resquício de correnteza.
Assim é a vida: e tudo o mais é encontrar forças para prosseguir na jornada que pode ser curta ou pode ser longa, mas está repleta de paisagens verdejantes, apesar do cinza.
Émerson Cardoso
11/10/2022
quarta-feira, 21 de setembro de 2022
CARTA PARA QUEM ESCREVE UMA TESE DE DOUTORADO
Caros irmãos e irmãs,
Antes de iniciarmos a escrita da tese, que nos deixa em tensão constante, passamos por um processo seletivo excludente e massacrante, concorda? Quando saiu o resultado, devo dizer, a alegria foi sem tamanho. A sensação de vitória não nos cabia no peito, lembra?
Depois, vêm as disciplinas a cumprir, com seus respectivos trabalhos de conclusão. Em seguida, temos que retomar nossos projetos e reorganizá-los para iniciar o trabalho de pesquisa. Tudo em atendimento a burocracias e a cumprimento de prazos. Faz parte do métier, sei disso, mas não é tão simples quanto parece.
Não sei como aconteceu com vocês, mas, no meu caso, eu estudei em João Pessoa-PB, cidade muito distante da minha, de modo que ir para as aulas, semanalmente, foi uma experiência entre alegre e angustiante: 1) alegre porque ir para as aulas era a certeza de que eu havia entrado no Programa de Pós-Graduação tão desejado e a oportunidade de estudar com professores e professoras, sem exceção, incríveis; 2) angustiante porque voltar para casa era ter que ir da rodoviária, depois de quase nove horas de viagem, para a escola em que trabalho. Gosto muito de ser professor, mas na ocasião, quando eu esperava o afastamento do Estado (que me veio seis meses depois e, por questões burocráticas, durou apenas um ano), a sala de aula me consumia.
Agora, que estou na escrita da tese, penso muito no seguinte: que tal transformar esse processo que pode ser angustiante em algo suportável?
Para começar, devo dizer que escrever uma tese é um processo extremamente solitário. Ele exige solidão, sem dúvidas, porque só se desenvolve quando se tem, minimamente, um espaço adequado para a leitura e a escrita, quando se tem ambiente silencioso e tranquilo com a menor quantidade possível de interferências etc. Que tarefa difícil encontrar esse espaço para muitos de nós!
Quando consigo esse espaço, coloco cânticos gregorianos, sons da natureza ou de harpas. Os livros de que preciso coloco-os todos muito próximos de mim. Escrevo seguindo um roteiro mental diariamente construído. Como faço mapeamento das obras literárias que analiso, também fichamentos das obras teórico-críticas lidas ao longo da pesquisa, isso me ajuda significativamente. Devo dizer, todavia, que não deixa de ser desafiador cumprir esse ritual!
Nesse processo que exige organização e momentos solitários, Deus sabe, corremos o risco de vivenciar dores físicas e psíquicas. Psíquicas, sobretudo, pois sentimos pressões de todos os lados. Os familiares raramente consideram nossa atividade como um trabalho relevante. Os amigos raramente conseguem a empatia que nos representa acolhida para lidar com a necessidade de distanciamento, por vezes, tão sofrida. Quem tem relacionamentos afetivos pode sofrer com cobranças de atenção quando, em verdade, o que queremos é empatia e apoio. Os ambientes de trabalho (caso estejamos vinculados a algum ambiente de trabalho) não têm a verdadeira dimensão do sacrifício que é estudar, produzir uma tese e sobreviver às exigências inerentes às atividades a serem realizadas. Os programas (não são todos) criam seminários acadêmicos e relatórios a serem entregues periodicamente com o objetivo de, por vezes, burocratizar o que já é burocratizante ao extremo. Faz parte do métier, claro, mas ainda é desafiador!
Nesse contexto todo, ainda existe a relação com o orientador, que pode ser maravilhosa ou desalentadora (eu tive a sorte de ter o melhor orientador do mundo, tendo em vista que ele tanto orienta trabalhos acadêmicos com dedicação e vasto conhecimento, quanto ajuda na compreensão de conteúdos que podem ser complexos, sempre com respeito e gentileza). Há casos, porém, em que as pessoas não têm essa mesma sorte. O sofrimento, quando isso acontece, pode ser triplicado. Torço para que vocês estejam bem nesse quesito!
Quanto ao processo de escrita da tese propriamente dito, invade-nos, frequentemente, o MEDO. Temos medo de não dar conta do trabalho, de não cumprir os prazos, de não conseguir realizar um trabalho digno da leitura do orientador (no meu caso, como meu orientador é, realmente, maravilhoso, eu fico com o receio de decepcioná-lo), de falhar, de não alcançar os objetivos propostos no projeto etc. São muitos os medos - e isso amplia nossa angústia e ansiedade. Muitos de nós (eu que o diga) precisamos de psiquiatras e psicólogos para sobreviver a esse período. Em nosso caso, principalmente, somos sobreviventes de uma pandemia e estamos em contexto de desvalorização completa das pesquisas científicas em nosso país. A coisa não anda das mais tranquilas!
Assim, entre angústias e medos, por vezes, ficamos paralisados. Então, não vamos deixar que isso aconteça. Vamos organizar nossos horários de escrita de modo a ter, também, um momento de distanciamento. Lazer, atividade física e distrações podem nos ajudar. Não vamos tomar café, por Deus, porque ele pode aumentar nossa ansiedade (se bem que algumas pessoas precisam do café para se manterem acordadas). Eu, se tomar café, não escrevo mais nada.
Além disso, vamos usar protetor solar para ficarmos diante do computador. Tive problemas de vermelhidão na pele e o protetor me ajudou. Seria interessante usarmos lubrificantes oculares para amenizarmos o ressecamento dos olhos. Vamos tomar muita água, viu? Também chás e sucos. Devemos acalmar a cabeça com músicas agradáveis. Assistir a filmes leves também pode ser uma boa ideia. Eu gosto de comédias. Vamos nos levantar, de vez em quando, e fazer alongamentos? Isso minimizará nossos problemas de circulação.
Nesse momento em que o tempo corre indiferente ao nosso desespero, vamos acreditar em dias melhores e criar o hábito de escrever sem desanimar. Pausas para distanciamento, sim, mas dedicação também, pois escrever é criar um hábito, como tudo na vida, e exige algum sacrifício. Criado o hábito, o sofrimento tende a amenizar, porque o hábito dá a sensação de dever cumprido.
Depois, o que mais queremos é nos superar, construir um espaço de aprendizagens e ser capazes de olhar para esse momento de "sofrimento" e dizer: foi um tempo difícil, sim, mas vencemos. Vencemos!
Pode parecer clichê, tudo o que escrevi, porém: vai passar essa fase mais difícil, viu? Em breve, conseguiremos aquilo a que tanto nos dedicamos. E todo esse processo doloroso terá valido a pena!
Muita força, coragem e dedicação! Estamos na luta por dias melhores! Estudar nesse país é resistência, então resistamos!
Atenciosamente,
Émerson Cardoso






