segunda-feira, 24 de março de 2025

OFICINA DE GÊNEROS DIGITAIS (MINISTRANTES: EVELYN E LUIZ HENRIQUE)

 O que são gênero digitais?

     

Os gêneros digitais são formatos de comunicação e expressão que surgiram ou se popularizaram com o advento da internet e das tecnologias digitais. Eles são caracterizados por sua adaptação ao ambiente virtual, combinando texto, imagens, áudio e vídeo de forma interativa e dinâmica. Esses gêneros são amplamente utilizados para informar, entreter, educar e conectar pessoas em diferentes contextos.

Todo gênero textual, seja ele simples ou complexo, tem o poder de gerar uma resposta. Uma conversa casual, por exemplo, é um gênero discursivo em que a troca de conhecimento acontece de forma direta e imediata. Nesse tipo de interação, ambos os interlocutores assumem um papel ativo, construindo juntos o diálogo e respondendo instantaneamente às ideias apresentadas.

 No entanto, quando nos voltamos para gêneros mais complexos, como um livro, um artigo ou até mesmo um filme, a dinâmica da resposta muda. Nesses casos, a reação pode ser retardada, ou seja, não acontece no mesmo momento em que o conteúdo é consumido. O leitor ou espectador precisa de tempo para processar as informações, refletir sobre o que foi apresentado e, só então, formular sua resposta. Essa resposta pode se manifestar de diversas formas: uma resenha, um comentário em um blog, uma discussão com amigos ou até mesmo uma mudança de opinião sobre um determinado assunto.

Voltando ao Pré-Modernismo, por exemplo, temos um período literário marcado por discussões profundas que denunciam as injustiças sociais da época. As obras desse período não apenas retratam as desigualdades e os conflitos do início do século XX, mas também trazem para o debate temas polêmicos e relevantes, como o abandono das populações marginalizadas e as tensões entre tradição e modernidade. Tudo isso é apresentado com base em uma visão crítica girando em torno dos desafios e das contradições da época.

Vejamos alguns desses exemplos em grandes obras desse período:

Confira mais sobre o autor: https://www.ebiografia.com/lima_barreto/

 Confira mais sobre o autor: https://www.ebiografia.com/graca_aranha/

Confira mais sobre o autor: https://www.ebiografia.com/augusto_anjos/

Os trechos selecionados expressam ideias semelhantes ao que vemos nos dias de hoje? Além disso, propomos uma reflexão: se os autores dessa época estivessem vivos hoje, como você acha que se expressariam?

ANEXOS DOS MEMES E TWEETS

REFERÊNCIAS:

ALVES FILHO, Francisco; SANTOS, Leonor Werneck; RAMOS, Paulo. Gêneros digitais: muito além do hipertexto. In: MARQUESI, Sueli Cristina; PAULIUKONIS, Aparecida Lino; ELIAS, Vanda Maria (org.). Linguística textual e ensino. São Paulo: Contexto, 2017.

ANJOS, Augusto dos. Eu e outras poesias. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1998.

ARANHA, Graça. Canaã. São Paulo: Martin Claret, 2013.

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do Discurso. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2016.

BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2011.


sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

UMA EXPERIÊNCIA COM LITERATURA CONTEMPORÂNEA



TEXTO EM DESENVOLVIMENTO

Como apreciador e pesquisador de literatura, tenho a preocupação de organizar minhas leituras de modo a jamais deixar os clássicos de lado e, ao mesmo tempo, buscar a produção literária contemporânea. Não existe o que é moderno sem o que há de tradição, de modo que, para mim, excluir uma ou outra vertente é desconsiderar a trajetória empreendida por uma literatura que lutou por constituir-se enquanto projeto intelectual de um país massacrado por um processo colonizatório acrítico e excludente.

Sendo escritor, preciso estar atento a quem também enfrenta os mesmos desafios que eu nesse campo complexo da literatura produzida no Brasil. Tenho lido (e lerei) obras que merecem toda atenção nesta nossa construção literária contemporânea.

Aqui, então, mencionarei autores e autoras com os quais tenho vivido, pela leitura, experiências significativas de fruição, encantamento e aprendizagens. Devo destacar, nesse sentido, que mencionarei  apenas autores e autoras cujas obras eu realmente li. Assim, quero mencionar:

João Silvério Trevisan - Meu irmão, eu mesmo; Pai, Pai; A idade do ouro do Brasil; Em nome do desejo; Ana em Veneza; Vagas notícias de Melinha Marchiotti etc. [um dos mais relevantes escritores modernos do Brasil, que prossegue com produções literárias que o colocam no rol dos grandes dessa literatura contemporânea que temos produzido, João Silvério Trevisan é um ensaísta cuja obra é das mais significativas sobre homossexualidade e outras discussões, como é o caso de Devassos no Paraíso e Seis balas num buraco só].

Amara Moira - Se eu fosse puta e Neca [a obra dessa autora se tornou referência no que há de melhor na transgressão literária, sobretudo por seu trabalho estético, que traz para o texto literário o bajubá/pajubá]. 

Marcelino Freire - Nossos ossos, Navio negreiro, Ossos do ofídio [o uso da palavra a serviço de ritmo, pulsação e riqueza imagética]. 
 
Tércia Montenegro - Vendedor de Judas [contística de profundas incursões existenciais].

Mailson Furtado - à cidade..., Esquinas, O dia..., Litígio [o maior poeta cearense deste início de século cuja obra tenho lido com a intenção de realizar pesquisa acadêmica].

Zélia Sales - A cadeira de barbeiro, O desespero do sangue e Quando morrem as bonecas [das vozes mais expressivas da contística contemporânea, a densidade psicológica reverbera na contensão vocabular em contos tão ternos quanto cruéis].

Raymundo Neto - Crônicas absurdas de segunda [mestre cronista de humor e de lirismo incontestáveis].

Renan Alvarenga - Por aíViravoltaEólico e Traçados [um dos nomes mais expressivos da poesia brasileira, seus poemas se pretendem uma experiência de forma e de conteúdo entre beleza da linguagem e experimentação imagética].

Liduína Benigno Xavier - 

Almir Mota - 

Jovina Benigno - Cruviana [a criação de imagens que vai às últimas consequências no que há de lírico e metafórico].

Ana Miranda - Desmundo e Semíramis [o estudo da linguagem em romances históricos de rara beleza]. 
Liduína Benigno Xavier 

Ferreira Lima - Poemas para se assobiar de longe, Apontamentos sobre o cultivo da poesia, Outono do (quase) novoEspantos [poeta cuja investigação estética se desenvolve em conteúdo e forma, tornando-se um dos mais complexos no uso inteligente da metáfora e um dos mais inventivos da atual literatura produzida no Ceará].

Yane Cordeiro - A lenda do mosquito e da lâmpada e Julinha e os segredos do Ceará [o universo da literatura infantil construída com lirismo e apuro formal].

Karla Jaqueline Alves Vieira - Contra Banzo [incursão de uma poeta negra que se posiciona contra racismo em sua escrita repleta de simbologias, rebeldia contra sistemas sociais excludentes e criticidade contra imposições hegemonicamente constituídas]. 

Ângela Calou - Eu tenho medo de Górki [do ritmo na construção do texto à perquirição psicológica].

Stênio Gardel - A palavra que resta [romance que apresenta uma história de amor homoafetiva com lirismo e linguagem esteticamente trabalhada].

Fabio Santiago - Mar de sombras, Cantos temporais, Todo verso é vício [escritor cuja poesia traduz o que há de melhor na relação bem realizada da forma e do conteúdo].

Dia Nobre - No útero não existe gravidade.

Lívio Pereira - Poemas embriagados [fonte de experimentalismo literário e liberdade estética no âmbito da poesia entre precisão e simplicidade].

Rodrigo Marques - Oratório de Santa Luzia [poema cuja contenção vocabular ganha em intensidade com a experimentação que reúne hagiografia, fé católica popular e lirismo moderno]. 

Lúcio Flávio Gondim - 24 [contista cuja preocupação estética cria harmonia entre forma e conteúdo, tornando-o um dos mais criativos autores no que diz respeito ao uso da palavra a serviço de refletir, sobretudo, a homoafetividade e suas reverberações existenciais]. 

Jorge Nogueira - Inventário dos seus abraços [do lírico ao lunático em narrativas repletas de experiências homoafetivas e desenvolturas no âmbito da linguagem].

Socorro Acióli - Cabeça de santo [...].

Poeta de Meia-Tigela - Memorial Bárbara de Alencar e Concerto em Mim Maior [versos de maturidade estética que visitam a tradição e a modernidade com sensibilidade, criticidade e precisão vocabular].

Maria Valéria Rezende - Cartas à Rainha Louca [...].

Tiago Nascimento - Rosário de aves [poeta que retoma a tradição dos cantadores, repentistas e cordelistas em poemas de rara acuidade estética]. 

Jarid Arraes - Redemoinho em dia quente [da voz feminina que reflete sobre a condição da mulher enquanto retoma temáticas alusivas aos valores do Cariri cearense].


terça-feira, 3 de dezembro de 2024

'SERTÃO CONFEDERADO': NOTAS SOBRE A ESTREIA DE UM ESPETÁCULO NOTÁVEL

 
Foto: sintafce.org.br

O Grupo Criar de Teatro e a CIA Prisma de Artes apresentaram, no dia 28 de novembro de 2024, às 20h, no Teatro Dragão do Mar, a peça teatral Sertão Confederado. Como é evocado no título, a obra discorre sobre o movimento político ocorrido no Nordeste do Brasil, há 200 anos, denominado Confederação do Equador.

 

Quando o público entra, é recebido por duas imagens: uma visual e uma sonora. A imagem visual se dá pela apresentação da personagem Ana Triste, que escreve, sentada em uma cadeira postada sobre um móvel de madeira, com caderno e pena nas mãos — uma espécie de diário ou livro de memória? O espectador constata, desde o início, que ela será a narradora da ação da peça. A imagem sonora, por sua vez, se dá ao som do violão que conduz os espectadores (como se fossem levados a viajar por um túnel do tempo) à atmosfera que remete ao contexto histórico explanado na peça.  

 

Essas duas imagens, simbolicamente, prevalecerão no enredo. A narrativa de Ana Triste, entre intensa e introspectiva, é o fio condutor da ação dramática. A música, onipresente no espetáculo, reforça a pretensão do texto de envolver o público, sobretudo emocionalmente, quanto aos eventos políticos do Brasil após a independência.  

 

Explicitado o contexto histórico da peça, ela faz um recorte: trata da presença (em tudo relevante) do estado do Ceará nesse movimento, que envolveu vários estados do Nordeste, contra o governo brasileiro do início do século XIX — um governo lastreado pela monarquia. Desse modo, o elenco se move pelo palco em cenário minimalista (com falas, cantos ou danças), dando vida às figuras históricas cujos nomes são conhecidos (mas  ainda não suficientemente reconhecidos) pela efetiva participação na Confederação do Equador.

 

Esse recorte é muito bem delineado no texto dramático, de autoria de Mailson Furtado (que dá vida ao herói Tristão Gonçalves de Araripe e também oferece ao espetáculo seu conhecimento musical), uma vez que a dramaturgia apoia-se em apurada pesquisa histórica e cultural. Os diversos conteúdos colhidos são transformados em componentes de ação capazes de envolver o público. Nesse sentido, em meio à explanação de aspectos históricos, políticos e memorialísticos, o autor acerta na linguagem empregada, uma vez que articula: 1) a retórica dos discursos políticos e eclesiásticos com criatividade, 2) o lirismo do discurso de Ana Triste (que é melancólico, mas transgressor e provocativo, de modo que ela transgride tempo e espaço em sua narrativa repleta de prolepses e analepses) e 3) o prosaico nos discursos, sobretudo, de personagens secundárias em contexto cômicos etc.

 

Algo a ser considerado, também, nessa perspectiva, é o uso de fugas cômicas no plano da ação e da linguagem que, sem descaracterizar o tom sério e de contornos trágicos predominantes no texto, consegue incitar ao riso em vários momentos. O texto mostra, na superfície e em suas camadas profundas, a presença da configuração trágica. Apesar disso, se permite a atos de comicidade em momentos pontuais — o que o torna dinâmico e instigante.

 

Além disso, outro aspecto notável da peça é o uso de componentes das tradições orais. Isso fica nítido, principalmente, quando canções e danças concentram, em suas melodias e coreografias, valores que remetem à cultura popular. As composições exibidas e as coreografias apresentadas tornam a peça lúdica, ágil, expressiva e lírica. A plateia interage, em vários momentos, com o elenco. Nas coreografias, não é difícil localizar menções ao reisado, maneiro-pau, coco de roda etc.

 

Sendo essa a apresentação de estreia, é notório o potencial dessa obra, que conseguiu expor o contexto histórico-político sem cair em didatismos impertinentes, linearidades acríticas ou clichês narrativos. Ao contrário disso, os recursos dramatúrgicos, utilizados com originalidade, tornam a experiência de adentrar o universo complexo da Confederação do Equador algo prazeroso.

 

A propósito, a peça é dirigida pela experiente e criativa Herê Aquino, que faz um trabalho notável em torno do texto dramático de Mailson Furtado. Quanto à cenografia, certamente em nítido diálogo com a diretora, Chico Henrique opta pela criação de um cenário conciso, objetivo e prático na transição de cenas. Por exemplo, o móvel sobre o qual Ana Triste se apresenta sentada, no início e no desenvolvimento da ação da peça, transforma-se em diversos outros itens — de mesa utilizada para reunião de Bárbara de Alencar com seus adeptos, a barco utilizado por Thomas Cochrane, esse móvel concentra surpresas que funcionam perfeitamente a serviço da dramaturgia.

 

Aspecto notável no espetáculo é o elenco e a caracterização primorosa das personagens. Estamos diante de dois grupos teatrais com atores e atrizes que dão vida a personalidades históricas marcadas por dois ângulos de visão: o propagado pela oficialidade histórica e o propagado pelo imaginário.

 

Com base nisso, são retomadas: 1) figuras femininas como Bárbara de Alencar (Luisete Carvalho), a matriarca cujas ideias tornaram-na a primeira presa política do país, e Ana Triste (Yane Cordeiro), a fiel esposa que se enlutou, para sempre, depois da morte do marido amado; e 2) figuras masculinas como Tristão Gonçalves Araripe (Mailson Furtado), líder do movimento no Ceará, Pereira Filgueiras (Raimundo Moreira), comandante das armas, e José Martiniano Pereira de Alencar (Maycon Wiliam), dentre outras personalidades relevantes da Confederação do Equador.  

 

Merece nota o fato de que os/as artistas se revezam na interpretação de uma mesma personagem, também assumem outras atividades no desenvolvimento da ação — especialmente no trabalho com a música, que é um dos pontos altos do espetáculo. Embora ocorra essa amplitude de funções, o elenco as realiza com leveza e fluidez, criando harmonia cênica.

 

As personagens são compostas, com maestria, pelos dois grupos teatrais unidos para realização dessa obra. Reforçam a caracterização delas excelente trabalho de figurino, cabelo e maquiagem. O figurino, criado por Chico Henrique e Ivanio Sousa, é significativo para a dramaturgia: no figurino permanente, prevalecem tons claros com  uso de vermelho e amarelo. Quando uma personagem surge na cena, ela é representada, também, pelo figurino que muda: é possível reconhecer a transição das personagens por meio da sobreposição de vestimentas. Além disso, é pertinente observar o azul, principalmente nas vestimentas masculinas.   

 

Na peça, existem momentos emblemáticos: 1] a cena da marcha (momento em que há uma apresentação de música e dança com coreografia remetendo à marcha dos revolucionários); 2] a cena da mesa de reunião (espécie de santa ceia de rebelados?) na qual Bárbara de Alencar tem destaque; 3] a cena do diálogo entre Pereira Filgueiras e o Governador Sampaio que, por meio de recursos cômicos (com espaço para um jogo metalinguístico), é realizado com auxílio de um mensageiro (Gal Saldanha) capaz de transgredir tempo e espaço para levar e trazer as correspondências dos dois políticos; 4] a cena da chegada de Thomas Cochrane (Maycon Wiliam) com o ajudante (Gal Saldanha), que é dos momentos mais cômicos da peça (Gal Saldanha e Maycon Wiliam estão excelentes na cena); 5] a cena em que ocorre o breve monólogo de Ana Triste ante a morte de Tristão Gonçalves (nesse momento, Yane Cordeiro emprega forte carga dramática e leva o espectador à comoção); 6] a cena em que Tristão Gonçalves é assassinado e levado em cortejo (deixando Ana Triste desolada).

 

Essas e tantas outras cenas são dignas de notas. Em verdade, é pertinente dizer: a peça em seu todo é rica em forma e conteúdo, é criativa em sua maneira de apresentar a Confederação do Equador, é dinâmica em sua predisposição a alternar o que é trágico e cômico; é harmônica em sua composição dramática; é consciente em sua articulação dos recursos dramáticos a serviço de contar uma história esteticamente constituída; é uma obra de arte, porquanto concentra polissemia, catarse, mimesis, universalidade e outros itens indispensáveis ao que é artístico.

 

Sertão Confederado é uma experiência teatral intensa em vários aspectos, pois ela é atual em suas reflexões políticas, históricas e memorialísticas, também é rica pelo texto dramático e pelas atuações. Música, dança, canto e atuações tornam essa obra uma profusão de lirismo, dinamismo e vida.

 

Émerson Cardoso

02/12/2024