quarta-feira, 30 de novembro de 2022

"UM APÓLOGO", DE MACHADO DE ASSIS

      


      Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha: 

    — Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo? 

    — Deixe-me, senhora. 

    — Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça. 

    — Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros. 

    — Mas você é orgulhosa. 

    — Decerto que sou. 

    — Mas por quê? 

    — É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu? 

    — Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu? 

    — Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados… 

    — Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando… 

    — Também os batedores vão adiante do imperador. 

    — Você é imperador? 

    — Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto… 

    Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha: 

    — Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima… 

    A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile. 

    Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe: 

    — Ora agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá. 

    Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: — Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico. 

    Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça: — Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

CRÔNICA: "BRINQUEDOS INCENDIADOS", DE CECÍLIA MEIRELES



Uma noite houve um incêndio num bazar. E no fogo total desapareceram consumidos os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos um por um, de tanto mirá-los nos mostruários – uns, pendentes de longos barbantes; outros, apenas entrevistos em suas caixas. Ah! Maravilhosas bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e verniz! Carneirinhos lanudos, de guizo ao pescoço! Piões zumbidores! – e uns bondes com algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia – filhotes que éramos, então, de M. Jordain, fazendo a nossa poesia concreta antes do tempo.

Às vezes, num aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos receber de presente alguns bonequinhos de celuloide, modesto cavalinhos de lata, bolas de gude, barquinhos sem possibilidade de navegação... – pois aquelas admiráveis bonecas de seda e filó, aqueles batalhões completos de soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem esperança nem inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os apenas em sonho, como se para isso, apenas, tivessem sido feitos.

Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da escola para casa, parava longo tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem muita noção do valor – porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos só renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar cravadas nelas, como setas, os nossos olhos.

Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara. E foi uma espécie de festa fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo rubro, voavam chispas e labaredas pelo bairro todo. As crianças queriam ver o incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas, fugiam para a rua, onde brilhavam bombeiros entre jorros d’água. A elas não interessavam nada peças de pano, cetins, cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam pelos cavalinhos e bonecas, os trens e palhaços, fechados, sufocados em suas grandes caixas. Brinquedos que jamais teriam possuído, sonhos apenas da infância, amor platônico.

O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um fumoso galpão de cinzas.

Felizmente, ninguém tinha morrido – diziam em redor. Como não tinha morrido ninguém?, pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e, dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali deixados.

E começávamos a pressentir que viriam outros incêndios. Em outras idades. De outros brinquedos. Até que um dia também desaparecêssemos sem socorro, nós brinquedos que somos, talvez de anjos distantes!

 

REFERÊNCIA:

 

MEIRELES, Cecília. Escolha seus sonhos. 25. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996.

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

RESENHA CRÍTICA DO LIVRO "O TERCEIRO ANONIMATO", DE FERREIRA LIMA


LIMA, Valdi Ferreira. O terceiro anonimato. Fortaleza: Editora Radiadora, 2022. 

O terceiro anonimato, de Ferreira Lima, publicado em 2022, apresenta vinte e três poemas de inegável apuro técnico e expressivo. Como é evocado no título, essa obra faz parte de uma trilogia iniciada com o livro Poemas para assobiar de longe (2019) e seguida do livro Apontamentos sobre o cultivo da poesia (2021). 

Os três primeiros poemas apresentados (os mais curtos do livro) são: O anonimato, Escrever e Andarilho. No primeiro, como constatamos pelo título, temos o tema por excelência da obra. No segundo, temos um tom metalinguístico que será constante ao longo do livro. No terceiro, temos um poema direcionado para a subjetividade de uma voz lírica que reflete sobre a busca de si mesmo.

 

O anonimato, a escrita e as reflexões sobre a subjetividade de vozes líricas em contextos existenciais diversos perpassam o eixo poemático desse livro. Exemplar dessa perspectiva são os poemas: Anônimo, analógico e anacrônico, Simétrico (o melhor poema do livro seja do ponto de vista do conteúdo, seja do ponto de vista da forma), Trajeto, Pássaro, Derradeiras de quem vai partir, Um certo voo, O(s) poeta(s), Andarilho ou Adeus, anonimato! e O terceiro anonimato.

 

Instigante, sobretudo, é o poema Sísifo, um dos melhores do livro. Ferreira Lima retoma nele o mito grego do rei que ousa interferir nas ações dos deuses e acaba sendo punido, no Tártaro, com uma pedra que tenta conduzir até o cimo de uma montanha sem conseguir fazê-lo eternamente. O anonimato surge no poema metaforizado na imagem dessa pedra que se torna, também, a punição da voz lírica. Escrever é uma expurgação necessária a quem é poeta, mas pode ser torturante produzir quando se pode ser silenciado pelo anonimato.

 

Em Ulisses, poema que retoma o herói grego de uma das obras fundantes da Literatura Ocidental, temos uma reflexão sobre a escrita, uma perscrutação da subjetividade da voz lírica e explanações sobre a temática amorosa. O amor, a propósito, é retomado em vários poemas: Mil desculpas, Metas, Dotes para uma amada em segredo, Confissões de uma carta anunciada, Encontro, Cotidiano, Não quero tudo e Pra sempre.

 

Percebemos, após a leitura desse livro, que além do anonimato e do amor, reflexões sobre a escrita poética (com um tom metalinguístico evidente) também se caracterizam como recorrentes na obra do autor. Enquanto reflete sobre a escrita do poema, há predisposição do escritor a um atento trabalho com a linguagem. Não há rebuscamento linguístico, tampouco excessos imagéticos construídos a partir de metaforizações simplistas, em seus poemas. Quando recorre a figuras de linguagem (hipérbole, metáfora, símile, antítese, anacoluto, anáfora, aliteração etc.), ele está comprometido com a construção de imagens criativas e de perceptível lirismo.

 

No epílogo da obra, Nirton Venâncio comenta (apud LIMA, 2022, p. 110): “E onde estava Valdi Ferreira Lima que eu não via, que não víamos, que não líamos?” Reforço a pergunta, pois ao ler essa obra tive a sensação de estar diante de um dos grandes poetas do Ceará e, até pouco tempo, eu o desconhecia. É urgente, portanto, conhecê-lo. Há muito a descobrir na poesia que ele nos apresenta sem preciosismos e sem imbricadas soluções vocabulares.


Ressalvo que O terceiro anonimato encerra uma trilogia de poesias de Ferreira Lima, este poeta que descobri recentemente e é, sem dúvidas, um notável escritor. A poesia dele merece atenção, de modo que jamais poderá ser obscurecida pelo anonimato. O talento do autor e a beleza de sua obra precisam chegar ao mundo. Precisamos de poesia para ampliar nossas existências cotidianas. Leiamos, urgentemente, a poesia de Ferreira Lima.

 

Valdi Ferreira Lima nasceu em Serra da Donana, município de Jucás–CE, mas mora há anos em Sobral–CE. Vencedor de diversos prêmios, ele publicou: O guardador de raízes (2018), Poemas para assobiar de longe (2019) e Apontamentos sobre o cultivo da poesia (2021).


sexta-feira, 30 de setembro de 2022

CARTA PARA A VIDA APESAR DO CAOS DO MUNDO

Não sabemos totalmente onde localizar a fronteira entre o que é certo e o que é errado. Existem muitas implicações nessa dualidade, porque o que é certo para mim pode ser errado para o outro. Talvez seja esse, por excelência, o desafio de nossas existências: refletir sobre o melhor caminho para um possível equilíbrio e descobrir forças para agir conforme uma ética, um senso de justiça, um construto de respeito. 

Somos dois lados de uma página em branco que pode ser construída por quem melhor acolhe a capacidade de articular palavras na tentativa de contar uma história. Chimamanda Ngozi Adichie ensina que há um perigo inerente à legitimação de uma história única. Sempre existem dois ou mais lados quando uma narrativa é apresentada.

Tudo o que sabemos (do muito que desconhecemos) é que ainda é possível respirar apesar da dor e da angústia reveladas no cotidiano. Respirar ainda é possível?

Cada caminho percorrido e cada decisão tomada, tenho por certo, é como o caos afogado nas linhas das mãos sem qualquer resquício de correnteza. 

Assim é a vida: e tudo o mais é encontrar forças para prosseguir na jornada que pode ser curta ou pode ser longa, mas está repleta de paisagens verdejantes, apesar do cinza. 

Émerson Cardoso

11/10/2022




quarta-feira, 21 de setembro de 2022

CARTA PARA QUEM ESCREVE UMA TESE DE DOUTORADO


Caros irmãos e irmãs, 

Antes de iniciarmos a escrita da tese, que nos deixa em tensão constante, passamos por um processo seletivo excludente e massacrante, concorda? Quando saiu o resultado, devo dizer, a alegria foi sem tamanho. A sensação de vitória não nos cabia no peito, lembra? 

Depois, vêm as disciplinas a cumprir, com seus respectivos trabalhos de conclusão. Em seguida, temos que retomar nossos projetos e reorganizá-los para iniciar o trabalho de pesquisa. Tudo em atendimento a burocracias e a cumprimento de prazos. Faz parte do métier, sei disso, mas não é tão simples quanto parece. 

Não sei como aconteceu com vocês, mas, no meu caso, eu estudei em João Pessoa-PB, cidade muito distante da minha, de modo que ir para as aulas, semanalmente, foi uma experiência entre alegre e angustiante: 1) alegre porque ir para as aulas era a certeza de que eu havia entrado no Programa de Pós-Graduação tão desejado e a oportunidade de estudar com professores e professoras, sem exceção, incríveis; 2) angustiante porque voltar para casa era ter que ir da rodoviária, depois de quase nove horas de viagem, para a escola em que trabalho. Gosto muito de ser professor, mas na ocasião, quando eu esperava o afastamento do Estado (que me veio seis meses depois e, por questões burocráticas, durou apenas um ano), a sala de aula me consumia.

Agora, que estou na escrita da tese, penso muito no seguinte: que tal transformar esse processo que pode ser angustiante em algo suportável? 

Para começar, devo dizer que escrever uma tese é um processo extremamente solitário. Ele exige solidão, sem dúvidas, porque só se desenvolve quando se tem, minimamente, um espaço adequado para a leitura e a escrita, quando se tem ambiente silencioso e tranquilo com a menor quantidade possível de interferências etc. Que tarefa difícil encontrar esse espaço para muitos de nós!

Quando consigo esse espaço, coloco cânticos gregorianos, sons da natureza ou de harpas. Os livros de que preciso coloco-os todos muito próximos de mim. Escrevo seguindo um roteiro mental diariamente construído. Como faço mapeamento das obras literárias que analiso, também fichamentos das obras teórico-críticas lidas ao longo da pesquisa, isso me ajuda significativamente. Devo dizer, todavia, que não deixa de ser desafiador cumprir esse ritual!

Nesse processo que exige organização e momentos solitários, Deus sabe, corremos o risco de vivenciar dores físicas e psíquicas. Psíquicas, sobretudo, pois sentimos pressões de todos os lados. Os familiares raramente consideram nossa atividade como um trabalho relevante. Os amigos raramente conseguem a empatia que nos representa acolhida para lidar com a necessidade de distanciamento, por vezes, tão sofrida. Quem tem relacionamentos afetivos pode sofrer com cobranças de atenção quando, em verdade, o que queremos é empatia e apoio. Os ambientes de trabalho (caso estejamos vinculados a algum ambiente de trabalho) não têm a verdadeira dimensão do sacrifício que é estudar, produzir uma tese e sobreviver às exigências inerentes às atividades a serem realizadas. Os programas (não são todos) criam seminários acadêmicos e relatórios a serem entregues periodicamente com o objetivo de, por vezes, burocratizar o que já é burocratizante ao extremo. Faz parte do métier, claro, mas ainda é desafiador!

Nesse contexto todo, ainda existe a relação com o orientador, que pode ser maravilhosa ou desalentadora (eu tive a sorte de ter o melhor orientador do mundo, tendo em vista que ele tanto orienta trabalhos acadêmicos com dedicação e vasto conhecimento, quanto ajuda na compreensão de conteúdos que podem ser complexos, sempre com respeito e gentileza). Há casos, porém, em que as pessoas não têm essa mesma sorte. O sofrimento, quando isso acontece, pode ser triplicado. Torço para que vocês estejam bem nesse quesito! 

Quanto ao processo de escrita da tese propriamente dito, invade-nos, frequentemente, o MEDO. Temos medo de não dar conta do trabalho, de não cumprir os prazos, de não conseguir realizar um trabalho digno da leitura do orientador (no meu caso, como meu orientador é, realmente, maravilhoso, eu fico com o receio de decepcioná-lo), de falhar, de não alcançar os objetivos propostos no projeto etc. São muitos os medos - e isso amplia nossa angústia e ansiedade. Muitos de nós (eu que o diga) precisamos de psiquiatras e psicólogos para sobreviver a esse período. Em nosso caso, principalmente, somos sobreviventes de uma pandemia e estamos em contexto de desvalorização completa das pesquisas científicas em nosso país. A coisa não anda das mais tranquilas!  

Assim, entre angústias e medos, por vezes, ficamos paralisados. Então, não vamos deixar que isso aconteça. Vamos organizar nossos horários de escrita de modo a ter, também, um momento de distanciamento. Lazer, atividade física e distrações podem nos ajudar. Não vamos tomar café, por Deus, porque ele pode aumentar nossa ansiedade (se bem que algumas pessoas precisam do café para se manterem acordadas). Eu, se tomar café, não escrevo mais nada.

Além disso, vamos usar protetor solar para ficarmos diante do computador. Tive problemas de vermelhidão na pele e o protetor me ajudou. Seria interessante usarmos lubrificantes oculares para amenizarmos o ressecamento dos olhos. Vamos tomar muita água, viu? Também chás e sucos. Devemos acalmar a cabeça com músicas agradáveis. Assistir a filmes leves também pode ser uma boa ideia. Eu gosto de comédias. Vamos nos levantar, de vez em quando, e fazer alongamentos? Isso minimizará nossos problemas de circulação. 

Nesse momento em que o tempo corre indiferente ao nosso desespero, vamos acreditar em dias melhores e criar o hábito de escrever sem desanimar. Pausas para distanciamento, sim, mas dedicação também, pois escrever é criar um hábito, como tudo na vida, e exige algum sacrifício. Criado o hábito, o sofrimento tende a amenizar, porque o hábito dá a sensação de dever cumprido.

Depois, o que mais queremos é nos superar, construir um espaço de aprendizagens e ser capazes de olhar para esse momento de "sofrimento" e dizer: foi um tempo difícil, sim, mas vencemos. Vencemos!

Pode parecer clichê, tudo o que escrevi, porém: vai passar essa fase mais difícil, viu? Em breve, conseguiremos aquilo a que tanto nos dedicamos. E todo esse processo doloroso terá valido a pena!

Muita força, coragem e dedicação! Estamos na luta por dias melhores! Estudar nesse país é resistência, então resistamos! 

Atenciosamente, 

Émerson Cardoso






terça-feira, 6 de setembro de 2022

CARTA DE ANIVERSÁRIO PARA PAULO HENRIQUE


Juazeiro do Norte - CE, 06 de setembro de 2022


Caro sobrinho Paulo Henrique, 


Resolvi dar de presente, neste seu aniversário de dezoito anos, o que de mais importante eu poderia oferecê-lo: minhas palavras escritas nesta que se pretende uma carta pessoal não muito extensa, porque você anda preguiçoso demais e tem fugido de leituras. 

Para começar, lembro-me de que fiquei em choque quando sua mãe (minha irmã muito querida) disse que estava grávida. Fiquei em choque porque, na ocasião, a idade dela era a mesma que você tem hoje. Seu pai e sua mãe, aliás, tinham a mesma idade, isto é, eram jovens demais, na minha concepção, para colocarem uma criança no mundo. Eles moravam em bairro distante, de modo que não tínhamos tanta proximidade na ocasião da boa nova propagada sobre os telhados. 

Quando você nasceu, em um dia de segunda-feira, véspera do feriado no qual se comemora a "independência" do Brasil, eu experimentei sensações contraditórias: se, por um lado, fiquei alegre, porque o parto aconteceu dentro da normalidade (você e sua mãe estavam bem), por outro, fiquei triste porque eu analisava, já naquela época, que colocar uma criança no mundo era um problema filosófico sem precedentes. Sim, porque sua mãe e eu tivemos uma infância e adolescência difíceis demais. Eu temia, portanto, que isso também viesse a acontecer com você. A vida nem sempre é uma festa repleta de risos, de doces e de cores agradáveis em torno de uma mesa que resplandece sob efeito de flashes. A vida, em verdade, tem a mania de ser em preto e branco e, por vezes, festejar é um luxo de poucos. 

Você nasceu no ano bissexto de 2004. Neste ano, tínhamos perdido, em abril, nossa bisavó materna: Dona Maria Raquel. Estávamos sobrevivendo ao luto. Para mim, foi como se você fosse amenizar o vazio deixado com a partida dela. 

O dia do seu nascimento é uma data que tem desde a oficialização do Hino Nacional Brasileiro, de autoria de Joaquim Osório Duque Estrada, em 1922, até o aniversário de uma figura como Di Cavalcante (pintor brasileiro). Você nasceu sob o Signo de Virgem, somos do Elemento Terra, por isso nos damos tão bem?

Você nasceu rodeado de nomes de santos, afinal é juazeirense: a maternidade se chama São Lucas (sua mãe e eu nascemos nela também), localizada entre a Rua São Benedito, a Rua Santa Tereza, a Rua São Francisco e a Rua da Conceição. Ela fica ao lado da Igreja de São Miguel. A Igreja Católica, nesse dia,  celebra o dia de São Liberato de Loro. 

Por falar em nome, você iria se chamar Erick, mas seu pai optou por utilizar dois nomes: Paulo (nome de Saulo após sua conversão) e Henrique (nome vinculado à realeza). Ao pesquisar mais pormenorizadamente, Paulo Henrique significaria o pequeno rei da casa. Faz sentido, então, seu nome. Para sua avó, sobretudo, você é, desde sempre, o pequeno rei da casa e do coração dela.  

Na sua primeira infância, você viveu entre as cidades de Juazeiro do Norte e de Crato. No Juazeiro, conviveu com seus familiares paternos (a bisavó e o avô, infelizmente, já se foram) e, no Crato, conviveu com sua avó materna (também as duas tias mais novas). Com sua avó, você viveu longas temporadas no sítio em que ela morava. Ela comentou que sua infância foi tumultuada, a ponto de você quase ter pisado em uma cobra coral, de ter brincadeiras periculosas como perseguir sapos, de quase ter sido fulminado por um raio, dentre outras coisas. 

Ao retornar para Juazeiro, você começou a estudar efetivamente. Sempre me chamou atenção o fato de que você gostava demais de datas comemorativas, de festas, de eventos da escola. Parece uma predisposição para celebrar, para divertir-se, para coisas mais aproximadas do riso do que das melancolias. Suas escolas, desde o primeiro momento, foram particulares. Sua mãe sempre trabalhou para dar a você o que ela considerava a melhor Educação. 

Por falar em Educação, lembra que eu fui o primeiro a dar um livro de presente a você? Lembra que eu o fiz ler dez livros infantis nas férias de 2013? Lembra que eu o levei diversas vezes para peças teatrais nos sábados do CCBNB-Cariri? A propósito, um dos mais lindos espetáculos que já vi, intitulado Felinda, apresentado na Praça Padre Cícero, eu estava ao seu lado, recorda? 

Vimos muitos filmes juntos, também séries, vídeos etc. Gosto de assistir ao meu desenho animado favorito com você: Os Cavaleiros do Zodíaco. Também sua companhia é a melhor para assistir filmes de comédia, de aventura e de animação. Nada pode ser melhor do que fazer pipoca, produzir algum suco e assistir, até altas horas, aos filmes de nossa predileção - incrível como temos gosto parecido. 

Sabia que um dos melhores livros que eu li foi em sua companhia? Lemos O Hobbit juntos, anotando trechos, fazendo as vozes das personagens, rindo ou nos emocionando. Sabia que esse foi um dos melhores momentos de minha vida? No final do livro, eu caí no choro. Você deve se recordar disso, porque não deve ter me visto chorar muitas vezes. Nem sei ao certo o porquê do choro: se foi porque o livro chegou ao fim, se foi porque nossa leitura divertida tinha acabado ou se porque você realizou, naquele momento, o meu sonho de ler com meu filho (que não tive e não terei) uma obra literária que nos transformasse de algum modo. 

Depois do livro, fizemos uma maratona para assistir O Hobbit: você, seu irmão Paulo Victor e eu. Essa foi uma das noites mais felizes. Havia pipoca para todo lado e a alegria de poder compartilhar a experiência de ler uma obra e ver sua adaptação para o cinema. No final do ano, fizemos o chá d'O Hobbit, com direito a RPG, biscoito élfico e muita diversão. Esse foi outro momento inesquecível.

Quando preparávamos a festa, fazendo o biscoito élfico, lembrei daquele dia em que, altas horas, fui fazer panquecas e terminei fazendo outra receita. Sim, porque errei a receita e como saldo tivemos muita bagunça e riso. Lembra? Outro dia rimos muito em torno de minhas trapalhadas no preparo de um molho de beterraba. Aí estava em pauta meu embate muito comum com sua avó, que você costuma achar muito engraçado.  

Você é uma excelente companhia para caminhadas. Também é muito divertido para momentos de pizza, açaí, sorvete e outras guloseimas que são uma tentação difícil de resistir. Você é engraçado, porque tem um humor inteligente. Tem um humor sarcástico. Acho que aprendemos com Sheldon e Leonard - da minha série preferida The Big Bang: Theory. Por falar em série, estamos unidos quando o assunto é  Chaves e Chapolin - somos fãs incondicionais.

Ainda não disse, mas uma das coisas que mais gosto é de esperá-lo chegar da escola para almoçarmos juntos. Eu pergunto coisas da escola (quando você não falta, claro, porque anda faltando demais), você pergunta coisas do meu cotidiano, aí brigamos, rimos, conversamos, trocamos ideias, assistimos a algum vídeo etc. 

Neste seu aniversário, Paulo Henrique, vou dizer o que me disse um primo quando eu tinha a mesma idade que você: "Homem é aquele que sabe entrar e sabe sair de qualquer lugar". O primo me disse isso quando me viu todo fardado, em decorrência do serviço militar, e falou algo que o pai dele havia dito em sua adolescência: "Homem é aquele que sabe entrar e sabe sair de qualquer lugar". Eu, portanto, jogo essa frase para você, mas com alguns complementos: ser homem é ser você mesmo, é ser capaz de humanidades redescobertas, é ser dedicado a algum projeto que dê sentido à sua vida, é ser passível de erro, mas apto a refletir sobre esse erro e melhorar, é ser inteligente o suficiente para compreender que a vida é de quem se movimenta, é ser forte para os momentos de dor e de sofrimento, é ser corajoso para demonstrar suas fragilidades quando isso for necessário, é ser determinado a construir conhecimentos e saber compartilhá-los, é ter a humildade de admitir os erros, é ser honesto e lutar contra o que corrompe, é ser enfrentamento quando estiver em pauta defender sua dignidade, é ser coerente com o que você compreende ser sua verdade, é existir em plenitude e não deixar que ninguém impeça você de crescer e tornar-se uma pessoa melhor. 

Sabe o melhor presente que você poderia receber nesse dia festivo? O elogio que uma professora me ofertou, certa vez, durante o Ensino Médio (você e eu estudamos na mesma escola): "Você é um grande ser humano!"

A professora me deixou pensando nessa frase até hoje. Então, atiro-a para você também: "Você é um grande ser humano!" Por que ela disse isso? O que significa ser um grande ser humano? Sugiro que passe a vida inteira pensando nisso e, mais do que pensando, tentando ser esse grande ser humano. 

Para concluir, desejo um feliz aniversário. Você é o filho que eu gostaria de ter. Torço sempre para você se tornar algo verdadeiramente significativo para este mundo complexo no qual você foi atirado há exatos dezoito anos. 

Parabéns!

Com um abraço do seu Timerson.



 






terça-feira, 30 de agosto de 2022

FRATERNIDADE NA JAULA



Tempero de dor

e sal na ferida?

Mas passará logo...

 

Cratera na estrada


e pedra de ponta?

 

Mas passará logo...

 

Velório do sono


em cinzas de faca?

 

Mas passará logo...

 

Janela de sangue


em grito engolido?

 

Mas passará logo.

 


Émerson Cardoso

26/10/2020