segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

CARTA DE NATAL PARA JOSÉ ÉRICK


 Juazeiro do Norte-CE, 24 de dezembro de 2025. 

Querido José Érick, 

Nesta véspera de Natal, do ano de 2025, quando o mundo, entre verdades ou hipocrisias, supostamente espera a vinda do Menino Jesus (este baluarte da cristandade tão esquecido quanto desvalorizado nessas festas natalinas), nós também esperamos você.

Hoje, seus pais e demais familiares estavam na expectativa de saber se você seria um menino ou menina. Eu, por mim, não considerei tão importante saber disso agora, porque o que mais me importou, desde o início, foi saber de sua existência e confiar na possibilidade de você nascer bem, saudável e com todo acolhimento. Ao saber, porém, que você seria um menino, e já dispunha de nome e segundo nome, fiquei muito entusiasmado. Aliás, ao chamá-lo pelo nome, e ver o primeiro sapato que você ganhou, senti que você já estava, efetivamente, conosco. Assim, agradeci ao Deus que existe pelo privilégio de saber que você virá para perto de nós e pedi a Ele para você vir a esse mundo complexo sem qualquer sorte de desamparos.

Quanto ao mundo, ele realmente anda difícil, tanto que eu costumo refletir sobre o fato de que ter um filho é uma questão filosófica complicada demais a ser resolvida, mas tudo isso caiu por terra quando soubemos que você viria. Sim, porque desde o primeiro momento que soubemos de sua existência já começamos a esperar sua chegada com ansiedade.

Você demorará a chegar um pouquinho, porque talvez só venha quando o Sol estiver entre as constelações de Gêmeos ou de Câncer. Talvez, na época, esteja um tanto frio e a saudade das festas juninas ainda paire sobre o Nordeste. Na ocasião, você certamente chorará muito, porém confesso que seu chorar trará alegria, pois isso mostrará que há vida em você.

Então, venha, sim, e faça de nossas vidas um caminho possível de alegria. Enquanto não vier, vou continuar sugerindo que sua mãe escute música clássica, especialmente a Sinfonia nº 9, de Beethoven, viu? Queremos que você seja uma pessoa inteligente e sensível.

Por fim, neste Natal, em que estamos reunidos em família para homenagear Cristo, também queremos dizer que você já é muito amado por todos. Queremos demais que você seja feliz aqui, pois queremos o seu bem sempre.   

Um abraço e até breve!

Do seu Padrinho e Tio.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

TRILOGIA PARA O CARIRI CEARENSE: "TRÊS POEMAS JUAZEIRENSES"


Uns a denominam Literatura de Cordel, outros Literatura de Folheto. Seja com um termo ou outro, estamos diante de um gênero poemático que produziu (e tem produzido) manifestações artístico-literárias das mais significativas no Brasil.

Juazeiro do Norte-CE, cidade mais conhecida como Juazeiro do Padre Cícero, dispõe de valores sócio-históricos, sociopolíticos e socioculturais que são difíceis de mensurar, tendo em vista a complexidade desse universo que costumo chamar de sacroprofano.

Sendo assim, o livro Três poemas juazeirenses apresenta três folhetos publicados há algum tempo (e que eu revisei e reorganizei para republicar, desta feita melhorando-os em conteúdo e em forma). Esses textos dialogam com o universo denso e fascinante que povoa o imaginário dessa cidade que estimo devotadamente. Diante disso, são três os poemas:

A Beata Luzia vai à Guerra

Escrito em 22 de outubro de 2005, mas publicado somente em 05 de outubro de 2011, o folheto A Beata Luzia vai à Guerra evoca uma personagem feminina ficcional que é inserida em contexto histórico real. A Beata Luzia está imersa no conflito que, no início do século XX, envolveu duas forças antagônicas: uma representada pelo salvacionista Marcos Franco Rabelo e outra representada pelo Padre Cícero Romão Batista. Esse conflito ocorrido entre os anos de 1913 e 1914, denominado Sedição de Juazeiro, corresponde a um acontecimento relevante (e não menos intrigante) protagonizado pelo Ceará na história política do Brasil. Agora, vamos entrar na guerra, porque a Beata Luzia já correu para ela. Vamos ver como ela participa dessa batalha do “bem contra o mal” que tem como palco a cidade de Juazeiro do Norte?

A Artesã do Chapéu

(ou pequena biografia de Dona Maria Raquel)

Escrito em 29 de novembro de 2011, e publicado em 15 de abril de 2012, o folheto A artesã do chapéu (ou pequena biografia de Dona Maria Raquel) traz aspectos biográficos da minha bisavó materna, Maria Raquel da Conceição, que produziu, por mais de setenta anos, chapéus e outros artefatos com palha de carnaúba. Nele, apresento fatos de sua vida, como o que lhe aconteceu durante a seca de 1932, ocasião em que sua mãe (Dona Bárbara Raquel), seu irmão mais novo (Cícero Raquel) e ela foram assistidos por três meses e alguns dias pelo Padre Cícero Romão Batista. Além disso, também menciono o racismo que ela sofreu por ter vivido uma história de amor com o galante Joaquim Dourado Cabral, que era um homem branco, enquanto ela era uma mulher negra em contexto de intenso preconceito racial. Minha bisavó, que chamávamos de Mãezinha, e cuja força e sabedoria eram inabaláveis, faleceu dias antes de completar 87 anos, deixando-nos desolados com sua partida.

A punição do Padre Belo

Este folheto foi escrito em 30 de maio de 2008 e publicado em 01 de novembro de 2021. Dadas as temáticas apontadas, e por admirar as perscrutações estéticas e ideológicas propostas pela Sociedade dos Cordelistas Mauditos (que chamo de Semana de Arte Moderna de Juazeiro), eu apresento A punição do Padre Belo como folheto herdeiro desse movimento dos mais relevantes da história cultural do Cariri cearense, que deve ser considerado, por sua complexidade e riqueza de valores, um movimento, também, de dimensão nacional. No meu poema, está em pauta o sacroprofano que dança (de hábito religioso ou despido) pelas ruas de nossa cidade. O Padre Belo (que é uma personagem fictícia) está inserido nesse universo de possibilidades pecaminosas e instigantes que pululam em nossas imaginações.

O livro Três poemas juazeirenses compõe minha Trilogia do Cariri Cearense (constituída por um romance O casarão sem janelas; uma peça teatral A Revolta de Antonina e este livro de poesia Três poemas juazeirenses). Nesse caso, corresponde ao terceiro (e último) livro desse projeto.

Publicar no Brasil não é algo tranquilo, mas nós criamos as estratégias possíveis para fazer nossos trabalhos serem conhecidos, de modo que apresento esse livro, simples e em busca de melhores dias, com o desejo de mostrar um pouco do que temos em valores e construções simbólicas aqui em Juazeiro do Norte, que também clama, em sua jornada complexa, por melhores condições de vida.

Livro disponível para download 

GRATUITO:

Livro: Três poemas juazeirenses



quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

CARTA (ABERTA) AO POETA DÉRCIO BRAÚNA

Juazeiro do Norte-CE, 10 de dezembro de 2025

Caro Dércio Braúna, 

Venho, por meio desta, dizer da emoção que senti ao receber os livros que você me enviou. Eles chegaram hoje: no Dia Internacional dos Direitos Humanos e no dia em que aniversariam duas autoras cujas obras me fascinam: Emily Dickinson e Clarice Lispector. Tenho mais é que comemorar, hein!

Conheci sua obra através do poeta e dramaturgo Mailson Furtado que, generoso como ele é, falou sobre a beleza de sua escrita e instigou-me a ler seus livros. Os primeiros livros de sua autoria que eu li foram: Como cavalos fatigados abrindo um mar (este livro tem título, capa e textos poéticos maravilhosos demais para que eu possa, com simples palavras, definir) e Aridez lavrada pela carne disto (este, igual ao anteriormente citado, dispõe de título, capa e textos poéticos de tal modo incríveis que não sei como demonstrar o que ele me causou). Lembro de tê-los lido com voracidade no mesmo dia em que eles me chegaram às mãos (e os tenho relido com intenções de escrever algo a respeito deles). 

Eu tive duas sensações com a leitura desses livros: 1) a primeira sensação foi de satisfação ao constatar que, de fato, eu estava diante de um escritor de talento inconteste e que, portanto, deveria figurar como um dos mais representativos dessa nossa Literatura Brasileira Contemporânea (essa literatura que pisa e repisa solo fértil, mas ainda incerto); e 2) a segunda sensação foi de que estava diante de autor que conseguia conjugar conteúdo e forma com maturidade, de modo que foi intensa a experiência de ver: suas abordagens temáticas e sua articulação, sempre expressiva, da linguagem poética (como foi aprazível observar sua maestria no uso de recursos estéticos de que a poesia se vale para manifestar-se sem amarras e sem cerceamentos).   

Agora, estou com os seguintes livros em mãos: Metal sem húmus (2008), Como um cão que sonha a noite só (2010), Escrevivências: livro de vidas imaginografas (em parceria com Joel Neto, 2017), Auto de incineração (2021), Eu talvez desejasse matar poetas: exercícios barrocos (2023) e Três margens para a alquimia dos dias (em parceria com Ícaro Malveira e Kelson Oliveira, 2024). Além desses, recebi, com entusiasmo e alegria, o livro Tentações de sapateiro: o cerco da história na operação ficcional de José Saramago (2023), que é resultado de sua tese de doutorado (produção acadêmica orientada pelo Prof. Dr. Francisco Régis Lopes Ramos). 

Por falar em Régis Lopes, este intelectual cujo olhar para o Juazeiro do Norte tem proporcionado obras-primas da pesquisa acadêmica no âmbito da História, recentemente estivemos juntos e ele falou sobre sua tese. Ele, uma pessoa de generosidade notável, foi quem me instigou a realizar a leitura do seu Tentações de sapateiro, que lerei o quanto antes (assim que concluir a leitura dos livros poéticos). 

O primeiro que vou ler é o seu Auto de incineração, pois do título à capa, devo enfatizar, ele me convida à realização de leitura profunda e atenta. Lerei, daqui a pouco, ele e, na sequência, todos os outros. Será um prazer poder reencontrá-lo pela leitura de seus livros (eu que já o encontrei pessoalmente em contexto rápido). Sabe o que penso a seu respeito? Sinto orgulho por sabê-lo do nosso Ceará. Sim, é gratificante conhecer escritor como você: criativo, ousado, expressivo, crítico, reflexivo e, sobretudo, talentoso. 

Simone Weill escreveu, certa vez, o seguinte: "A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade". Ela tem razão. Como mensurar um gesto tão generoso? Como recompensar atitude tão nobre? Ter recebido seus livros, hoje, neste dezembro de sol triste, nesta quarta-feira de esperança precária, foi um oásis, porque seu gesto me lembrou algo indispensável para quem se dispõe a viver a experiência de escrever e de publicar: conhecimentos devem ser compartilhados, arte deve chegar ao coração dos que precisam de bom ânimo e, como diz a canção de Milton Nascimento: "Todo artista tem de ir onde o povo está". 

Você veio para mim, hoje, e eu agradeço demais por ter vindo. Acolherei seu trabalho com atenção e com entusiasmo, pois, neste dia de alegria ausente, nesta horda de mediocridade que a vida tem me proporcionado (sou um dos deprimidos da nação, Dércio!), você me alegrou demais, a ponto de me fazer esquecer da angústia cotidiana tão sufocante quanto desenganadora. 

Para terminar com um tom mais leve, porque não adianta viver de desesperos, quero dizer o seguinte: venha ao Cariri, rapaz, que será uma alegria reencontrá-lo! Temos muitos assuntos de literatura e de vida para conversar. Mailson, de vez em quando, vem ao Cariri (ele, Yane Cordeiro e o Grupo Criar de Teatro estiveram aqui semana passada para apresentar o maravilhoso Cassacos). Venha com eles, viu? 

Abraço fraterno e, mais uma vez (e não o suficiente), muito obrigado! 

Émerson Cardoso

P.S.: Eu li (e estou relendo) a obra Papel Passado: cartas entre os devotos e o Padre Cícero, de Régis Lopes, e estou com mil vontades de escrever cartas, por isso envio esta (simples e carecida de ampliação) para você.