domingo, 13 de março de 2016

FASSBENDER E WINSLET: UM ENCONTRO TRIUNFANTE EM “STEVE JOBS”



Rafael Fishmann (2016)[1] afirma, sobre o filme Steve Jobs, dirigido por Danny Boyle, que este, pelo diferencial de seu enredo, não é apenas “mais um filme sobre Steve Jobs”. Ele diz isto, certamente, porque quem o assistir se deparará com novas nuanças que diferem dos demais filmes que também discorrem sobre a personalidade evocada no título.
Boyle o apresenta em três momentos de sua vida e enfatiza, além das decisões que ele toma do ponto de vista profissional, sua dificuldade em demonstrar afeto pelas pessoas com as quais mantém laços de maior proximidade: como ocorre em sua relação com a filha – que ele inicialmente nega ser sua – e com as pessoas com quem precisa lidar ao longo de sua instável vida profissional.  
            Devo dizer que o que torna esse filme cinebiográfico um clássico imediato se deve, sobretudo, a dois aspectos: 1) o roteiro (adaptado da premiada biografia Steve Jobs (2011), realizada por Walter Isaacson, ele é constituído de diálogos precisos, bem articulados e dotados de um ritmo intenso) e 2) o elenco, que dá o melhor de si em grandes atuações (Michael Fassbender, Kate Winslet, Jeff Daniels e Michael Stuhlbarg estão impecáveis).
            A respeito desse filme, A. O. Scott (2015)[2] diz que: “The accuracy of this portrait is not my concern. Cinematic biographies of the famous are not documentaries”[3]. Concordo. Não me parece, de fato, o mais relevante encontrar nele o que pode ter sido fiel à realidade, ou mesmo ao livro que o inspirou, mas o modo como a história foi contada – o roteirista Aaron Sorkin e o diretor, do meu ponto de vista, foram geniais.
            Sobre a interpretação de Fassbender, aclamada por diversos críticos, Steve Rose (2015)[4] diz que: “Despite bearing little physical resemblace [...], Fassbender inhabits the Jobs persona with compelling conviction – long before he breaks out the black polo neck”[5]. A propósito, por sua atuação Fassbender recebeu indicações, dentre outros prêmios, para o BAFTA, para o Globo de Ouro e para o Óscar de Melhor Ator. Sua interpretação é realmente digna de prêmios! Ele consegue nos convencer como um Jobs humano, falível, austero, dotado de conflitos internos, mas ao mesmo tempo determinado, ousado e incisivo em suas posturas.
            Outra atuação que teve indicação para o BAFTA, para o Globo de Ouro e para o Óscar, desta feita de Melhor Atriz Coadjuvante, nesse filme, foi a de Kate Winslet. Ela venceu o Globo de Ouro, o BAFTA e é uma das favoritas para os demais prêmios para os quais foi indicada. Considerada uma das melhores atrizes de sua geração, Winslet tem um histórico de personagens marcantes e ela, em Steve Jobs, acrescentou à sua carreira mais uma personagem delineada por um caráter forte a que ela deu vida com seu já reconhecido talento. Trata-se de Joanna Hoffman, que trabalhou com Jobs e, no filme, é apresentada como sua fiel escudeira.
            Em entrevista, ao ser indagada sobre o que há de especial nesta personagem, Winslet[6] afirma: “Foi um dos grandes papéis que criei. É um cenário de sonhos: diálogos de Aaron Sorkin, interação com Michael Fassbender, dirigida por Danny Boyle. Eu quase nem prestei atenção no tema central do filme, para ser honesta. Eu queria era estar naquele set”.
            A interação entre Winslet e Fassbender rendeu cenas magistrais. Eles são atores experientes, intensos e determinados a dar o melhor de si, por isto conseguem ser convincentes e emocionam por conduzirem com propriedade suas personagens e, também, pelo ritmo que empregam aos diálogos – o trabalho de construção vocal de Winslet merece ser elogiado.
            Winslet disse, ainda, quanto à relação existente entre Jobs e Joanna, que nunca viu “uma dinâmica assim no cinema americano, em que o protagonista precisava mais dela do que vice-versa”. Ressalte-se, nesta perspectiva, uma das cenas mais emblemáticas do filme: Joanna, indignada pela falta de atenção de Jobs, em relação à filha, expurga seu desconforto atirando papéis pelo chão, ao mesmo tempo em que ameaça abandoná-lo. Ela, que sempre permaneceu ao seu lado, mesmo quando, com sua personalidade forte, o enfrentava, ameaça que se demitirá, após anos de uma parceria marcada pela lealdade e pelo apoio irrestrito que ela lhe dispendeu em seus empreendimentos. Isto faz com que ele, incentivado pela companheira de trabalho, e amiga, olhe com mais sensibilidade para a filha.   
Cumplicidade, lealdade e amizade, a partir dessa relação, podem ser apontadas, pertinentemente, como subtemas desse filme. Poucas vezes foi possível ver no cinema uma relação de amizade entre um homem e uma mulher construída de modo tão intenso, sem que isto caísse em conotações afetivo-sexuais entre eles.
Desse modo, é possível perceber que tais subtemas somam-se ao tema principal, que é a perscrutação psicológica de Jobs ante seus empreendimentos e conflitos internos, e amplia a dimensão humana do filme. Isto suscita inúmeras reflexões que apontam para os aspectos polissêmicos dessa obra cinematográfica que pode ser considerada, sim, uma das mais bem delineadas cinebiografias realizadas pelo cinema norte-americano.
Fassbender e Winslet protagonizaram um encontro triunfante nesse filme em que as personagens Jobs e Joanna se completam, fraternalmente, numa existência que parece exigir deles, cada vez mais, coragem, persistência e mútua lealdade. Esse encontro foi tão expressivo que merece acontecer novamente: que isto ocorra em breve! 
 
            Cícero Émerson do Nascimento Cardoso
           




[1] FISHMANN, Rafael. Steve Jobs não é só mais um filme sobre Steve Jobs. Disponível em: https://macmagazine.com.br/2016/01/12/critica-steve-jobs-nao-e-so-mais-um-filme-sobre-steve-jobs. Acesso em: 13/02/16.
[2] SCOTT, A. O. Review: ‘Steve Jobs’, Apple’s Visionary C.E.O. Dissected.   http://www.nytimes.com/2015/10/09/movies/review-steve-jobs-apples-visionary-ceo-dissected. Acesso em: 13/02/16.
[3] “A precisão biográfica deste retrato não é minha preocupação. Biografias cinematográficas de famosos não são documentários”.
[4] ROSE, Steve. Michael Fassbender on playing Steve Jobs: “Was he flawed? Yeah! We all are”. http://www.theguardian.com/film/2015/nov/12/steve-jobs-well-done-portraying-the-apple. Acesso em: 13/02/16.
[5] “Apesar da pouca semelhança [...], Fassbender habita a persona Jobs com convicção convincente – muito antes de ele entrar na polo de gola preta”.
[6] GRAÇA, Eduardo. Entrevista: Kate Winslet sobre “Steve Jobs”: estava disposta a desaparecer neste papel. Disponível em: http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2016/01/14/kate-winslet-sobre-steve-jobs-estava-disposta-a-desaparecer-neste-papel.htm. Acesso em: 13/02/16. 

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

CLARA CHARF NO PROGRAMA "PROVOCAÇÕES" (2011)


ABUJAMRA

Clara Charf, o que é a vida?

CLARA CHARF

É dificil definir, né? Eu acho que é tudo o que pulsa, tudo o que você pode realizar, construir, fazer... Vida é isso! Uma pessoa que não faz nada, que não participa de nada, que fica só se queixando, ou então, sei lá, amargurada, porque não tem isso ou aquilo, acho que não vive, porque vida, para mim, é luta! 

LEITURA: "A PORTA", DE VINICIUS DE MORAES



Eu sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Mas não há coisa no mundo
Mais viva do que uma porta.

Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão.

Só não abro pra essa gente
Que diz (a mim bem me importa...)
Que se uma pessoa é burra
É burra como uma porta.

Eu sou muito inteligente!

Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Fecho tudo nesse mundo
Só vivo aberta no céu!

MEUS POEMAS DE CECÍLIA MEIRELES


ENCOMENDA

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria 
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia. 

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração 
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança, 
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

INSCRIÇÃO NA AREIA 

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma.

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma.

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- Mais nada.

A AVÓ DO MENINO

A avó 
vive só.
Na casa da avó
o galo liró faz "cocorocó!"
A avó bate pão-de-ló
E anda o vento-t-o-tó
Na cortina de filó.
A avó 
vive só.
Mas se o neto meninó
Mas se o neto Ricardó
Mas se o neto travessó
Vai à casa da avó,
Os dois jogam dominó.



TRECHO DO DISCURSO DE "O GRANDE DITADOR", DE CHARLES CHAPLIN



"Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem nos deixado na penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido".

SAVIOLI, Francisco Platão & FIORIN, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, p. 100.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

UM LAMENTO PELO "MUSEU CASA DO PADRE CÍCERO"


Estive no Museu Casa do Padre Cícero no dia 25 de janeiro de 2016. Ao sair, perguntei a uma moça que trabalha no local sobre quem administra o Museu e fui informado de que são os Salesianos.  
            Encontrei uma página intitulada Casa Museu do Padre Cícero numa rede social e vi, dentre os materiais iconográficos, audiovisuais e textuais, apresentados na referida página, um texto cujo autor não é identificado e que fiz questão de ler. Neste texto, fiquei sabendo que o Museu “é um verdadeiro patrimônio histórico e cultural para o Ceará, Região do Cariri, especialmente para o Juazeiro”.
            Agora, decepcionado com o que os administradores têm feito com o Museu, devo perguntar: como assim o Museu Casa do Padre Cícero é um patrimônio de inconteste valor se ele me parece desprezado, abandonado, à mercê da própria sorte?
       Estou estarrecido, triste e decepcionadíssimo com o que vi. No texto mencionado anteriormente, há menção a um trabalho que tem sido desenvolvido com relação ao material bibliográfico, e isto é louvável. Mas como proteger este material se a casa parece não dispor do mínimo de cuidado por parte da administração, se tudo parece atirado ao léu?
            Eu sou juazeirense, nascido e criado, de modo que posso falar sobre o que tem ocorrido com propriedade. Como se não bastasse a administração municipal não ter o mínimo de competência para gerir nossa cidade, que está devastada em vários aspectos, deparar-me com o que vi na última morada do padre Cícero, considerado o cearense do século, parece uma afronta aos valores históricos e culturais de que a cidade dispõe.
            Sujeira pelo chão, poeira, desorganização na disposição dos objetos do padre, madeira do teto de um dos cômodos caindo, nenhuma fiscalização para acompanhar os muitos visitantes que se abalroavam pelos cômodos da casa e um notável odor de mofo a espargir de todos os espaços. Claro que temos visto muita chuva neste mês de janeiro, e que a umidade é possível neste caso, mas, convenhamos, não me parece que o problema deve ser lido apenas como uma das consequências da chuva!
          Aquela casa em que o padre Cícero morou, e onde morreu, é de valor incomensurável do ponto de vista histórico – isto é fato. Como podemos permitir que tanto descaso a acometa e a transforme em reduto de sombras quando, em verdade, ela representa um dos espaços mais importantes da atualmente tristonha Juazeiro do Norte?
          Creio que os Salesianos devem realizar, no momento, algum trabalho nesta perspectiva, porém precisamos de algo mais expressivo. Vamos deixar que aquele espaço se dilua por falta de melhores cuidados? Meu Deus, que absurdo!
       Juazeiro do Norte, com tanto potencial humano e econômico e político e cultural, tem se deteriorado em vários aspectos, porque não vislumbramos, há tempos, a sensibilidade de políticos que olhem com mais sensação de pertencimento para nossa cidade. O que a tem salvado, de certo modo, é a sensibilidade de alguns que ainda levantam a voz contra o descaso a que ela está submetida, de modo que preciso integrar este grupo dos que gritam a seu favor. Temos que fazer algo por ela hoje, para que, na posteridade, possamos dispor do que por nós foi preservado.
            A primeira ação que proponho é olhar para o Museu Casa do Padre Cícero e revitalizá-lo. O Horto foi revigorado e todos saímos ganhando com isto, não foi? Façamos o mesmo com este Museu. Não posso ver a casa, que minha bisavó visitou tantas vezes para colher, do padre que ela considerava santo, auxílio para o corpo e para a alma, ser desamparada, excluída, desvalorizada desta forma.
            Aliás, quantas pessoas, ao longo dos anos em que ela está de pé, entraram nela em busca de acolhimento e paz de espírito! Não há quem olhe para seus degraus, e suas espessas paredes, muito menos para os seus cômodos quase vazios, sem que vozes maltratadas pela sorte gritem por um auxílio, e sem que o padre Cícero, em sua inteligência e personalidade forte, lhes valha com uma palavra de conforto ou com uma ordem à beata Mocinha de que lhes entregue alguns tões e tantos vinténs – e isto quem me disse foi minha bisavó, mulher que nunca foi de mentira.   
            Este texto, portanto, é uma nota de repúdio. É, também, um pedido devotado de que os Salesianos, ou a quem de direito, faça alguma coisa por essa casa que aprendi a respeitar como se fosse um ente querido que aguarda, sempre atencioso, alguma visita minha. A propósito, mesmo quando morei fora da cidade, por algum tempo, não houve uma vez em que estive aqui sem que eu fosse revê-la, com saudade e respeito, sempre certo de que ela não me deixaria isento de ser bem acolhido.

CÍCERO Émerson do Nascimento Cardoso

25/01/16

sábado, 26 de dezembro de 2015

CRÔNICA: "NATAL, SOLITÁRIO NATAL".


As pessoas temem a solidão. E até é compreensível. Eu decidi fazer, este ano, um exercício: decidi ficar sozinho neste natal de 2015. Moro num bairro de estudantes na cidade de João Pessoa – PB, no entanto meus familiares, e maior parte dos amigos, estão no Ceará. Permaneci sozinho com a intenção de ler, escrever, pensar. Também realizei algumas tarefas. Recorri com certa reserva aos recursos eletrônicos que me possibilitaram alguma comunicação. Acrescentei a isto o ato de acordar, alimentar-me, andar um pouco, ouvir canções que ampliassem a alma...

Esta decisão, obviamente, é cômoda, porque bastaria uma passagem comprada e eu teria gente com quem passar o feriado natalino! Mas e se não houvesse condição para comprar a passagem, se não houvesse familiar ou amigo a quem encontrar? Estar sozinho, neste caso, seria uma tragédia existencial dolorosa demais!

Quando saí de casa, na noite de natal, para descansar a mente, vi pouquíssimas pessoas pelas ruas. Bairro de estudante fica vazio em período de recesso da universidade, sobretudo em dia de feriado tão bem reputado nacionalmente. Além disto, a maior parte deles deve ter viajado porque tinha esta opção – assim espero!

Como disse, foi possível ver pessoas pelas ruas. Numa parada do ônibus, por exemplo, uma idosa entrava em si mesma com seu fixo olhar à espera de um transporte público que a conduziria para um destino, tomara Deus, menos obscuro que aquele ponto solitário em que ela estava a ruminar a solidão. Numa esquina, mais à frente, um rapaz tentava vender frutas aos poucos carros que atravessavam a avenida principal do bairro – com que disposição ele se erguia da calçada quando o sinal fechava para ouvir nãos que se repetiam por meio de gestos ou sons de vozes distanciadas. Recostada a um poste, no meio de um dos quarteirões, uma moça passeava uma das mãos pelos cabelos. Ela me olhou temerosa, afinal eu era um dos poucos viventes a andar naquela hora – e era cedo da noite  em sua direção, depois baixou a vista para nunca mais erguê-la sob meu olhar que a devassou discretamente até que por ela passei. Um idoso sujo, desgrenhado, barbudo, espargia impropérios contra outro idoso que ria de alguma coisa – ambos pareciam alcoolizados – de frente a uma agência bancária. E só.

Choveu na noite anterior, o dia nublou sem águas, a noite de natal foi um tanto fria. Os estabelecimentos comerciais estavam livres da opressão cotidiana a que seus funcionários são submetidos. Meu passeio desolador findou quando cheguei à iluminada Praça da Paz. Realmente, a paz reinava ali – ao menos aparentemente. Havia pouca gente espalhada em seus espaços. Chamou minha atenção uma moça e um rapaz que tão próximos estavam um do corpo do outro, num abraço, que fiquei perplexo: ainda há singeleza no mundo! Depois, duas crianças corriam sob vigilância do pai abobalhado e da mãe ensimesmada que os vislumbrava afastada. O pai, meu Deus, como era cúmplice na simplicidade excedente de seus filhos risonhos! E este pai, que desprezava meu olhar discreto, porém perscrutador, abraçou o filho com amor sincero e o beijou na testa. A filha, enciumada, certamente, exigiu dele o mesmo gesto e ele, obediente como um adulto frágil, abraçou a ciumenta dando-lhe mil beijos que fizeram rir a criança e a mãe que distante os observava.

Não suportei flagrar tanto amor. Fugi depressa, antes que a luz me ofuscasse e meu silêncio se transformasse em súplica. Vinha um ônibus, entrei... Um homem me desejou boa noite com bondade no tom de voz. O motorista tinha os olhos cansados. Um rapaz escutava, de olhos fechados e assanhados cabelos, indiferente ao movimento do coletivo, alguma canção que eu desconhecerei por toda uma eternidade. Desci do transporte, andei um pouco, sob efeito de escuro e silêncio, e agradeci a Deus por ter chegado intacto em casa. Tenho dúvida: cheguei intacto?

Depois, comi restos do almoço, escrevi um pouco, tomei um banho triste e tentei dormir. As pessoas temem a solidão – palavra mais linda da língua portuguesa, para mim –, porque a solidão tem peso de chumbo. Estar só pode ser entrar demais em si mesmo e, sinceramente, neste mundo superficial, e de felizes natais desejados de modo tão automatizado, olhar para si mesmo, e descobrir-se a olhar para os outros, pode assustar. Eis uma experiência que me enriqueceu, certamente. Mas não quero me acostumar demais com esse exercício, pois devemos aproveitar as pessoas que temos, e amamos, enquanto elas podem ser amadas. E foi assim.


Émerson Cardoso
26/12/15