terça-feira, 30 de janeiro de 2018

FOLHETIM DE FACEBOOK OU CRÔNICA: "DEPOIS DA FESTA, COMEÇA O ANO"

PARTE 1

Primeiro mês do ano de 2018. Entendo o porquê de as pessoas idealizarem tanto a festa de fim de ano: o cotidiano é insuportável! Dormir, fazer refeições, trabalhar, lidar com o trânsito, ser vítima dos impostos (IPVA, IPTU, dentre outros), consumir no ar a pouca perspectiva de mudança para a política nacional...

As mesmas pessoas que falavam do nascimento de Jesus, e desejavam ano novo promissor a quem cruzasse o caminho, preferem dar bom exemplo aos políticos e agem com altruísmo e respeito em filas, no trânsito, nas repartições públicas, na cozinha de casa, nas calçadas do centro da cidade, nos terrenos baldios – com que gentileza fustigam o mundo! A chuva de começo do ano mostra a gentileza do povo sendo arrastada pelas ruas a entupir bueiros e esgotos. Ah! Ninguém subestime o universo das sombras cotidianas: ele pode muito mais do que nós! E Cristo fica em seu lugar de sempre, já não mais recém-nascido. Traz seus punhos furados e seu lado direito sangrando – como de costume. Enquanto isto, o ódio e a violência do mundo brincam de roda com a cristandade. Que ciranda festiva!

PARTE 2

A chuva de começo do ano mostra a gentileza do povo sendo arrastada pelas ruas a entupir bueiros e esgotos. Ah! Ninguém subestime o universo das sombras cotidianas: ele pode muito mais do que nós! E Cristo fica em seu lugar de sempre, já não mais recém-nascido. Traz seus punhos furados e seu lado direito sangrando - como de costume. Enquanto isto, o ódio e a violência do mundo brincam de roda com a cristandade. Que ciranda festiva!

O primeiro mês do novo ano já fez deslizar máscaras. Pessoas abraçáveis colocam punhais nos dentes e redesenham mágoas – comigo é diferente? Ética e respeito não cantam notas expressivas. Se o planeta soubesse o que comporta cessaria seu giro, e tudo o mais dançaria sem música. O ser humano pode ser podre, oco e frágil, repetimos. E quem pode ser perfeição na Terra? E quem pode cerrar os olhos? Poucos exemplares dignos ocupam os metros quadrados do planeta. E eu, que não sei de mim? E eu, que pareço santo quando julgo o mundo? E eu, que retalho a vida com mãos sempre feridas? Que vida? Ah! Não sei se 2018 poderá trazer arcanos mais dignos. Ano eleitoral e de copa e de... De quantos outros momentos de subterfúgio e caos?

PARTE 3

Acontece que é fácil exigir dos outros uma solidariedade que não temos. Somos culpados por esbravejar, ou por lavar as mãos? Cada verso do poema que não escrevemos é a entrelinha do monstro morando em nós: ele está fadado a comer libertação e iguais direitos para, insone, excretar não-fraternidades. Atirar pedra nos outros quer ser nossa missão, percebamos! É possível vestir roupagem isenta de orgulho e sombras, também tirar do olhar vapor de mágoas? Silêncio e solidão seriam caminhos adequados, ou mesmo antídotos, que nos libertariam de errar menos? 

O ser humano pode ser podre, oco e frágil, repetimos. E quem pode ser perfeição na Terra? E quem pode cerrar os olhos? Poucos exemplares dignos ocupam os metros quadrados do planeta. E eu, que não sei de mim? E eu, que pareço santo quando julgo o mundo? E eu, que retalho a vida com mãos sempre feridas? Que vida? Ah! Não sei se 2018 poderá trazer arcanos mais dignos. Ano eleitoral e de copa e de... De quantos outros momentos de subterfúgio e caos?

PARTE 4

Primeiro mês do ano, mas a sensação é de que os meses últimos já rechegaram. Seria possível alterar o girar do mundo se eu corresse aos gritos pisando em pregos e vestindo urtiga? Eu devo mudar primeiro, devo dizer. Mudar seria, meu Deus, conviver sem vislumbrar tortura. Nem sempre o convívio é ferir os pés e fustigar a pele – é certo. E, se a esperança se materializa, falhas são sinais de redenção: erros conduzem, tanto quanto a morte, a humanidade ao mesmo clã dos que vivem aos tombos. A cura existe? Ninguém se cura de errar aos prantos e redesejar perdão. Ao ser humano, errar tentando o melhor convívio é vida acesa no revirar das horas.

E por falar em convivência, querem que eu me posicione ante dois espaços de ódio: o ódio I quer que eu o abrace e odeie o ódio II, e o ódio II quer que eu o abrace e odeie o ódio I. Não tenho condições, porque odiar estraga a pele e não cura gordura no fígado. Se me dessem outra opção... Assim, prefiro o não e o não. Preciso recuperar meus dedos, que se foram em aceno austero. O que fazer com o que tenho agora? Ler é sufrágio, escrever é ponte. E tomar água e fazer poemas riem de mim. Não apoiarei um ódio ou outro, porque amar é estrada de espinho ridente que me instiga a recobrar meu pulso. E passar bem, despropositados ódios. Espero que o que for amor, em cada rua, exista – e eu o encontre na passarela inerte de um cotidiano bom.

PARTE 5

O primeiro mês do ano está prestes a acabar – acabou, devo dizer. Ou será que no espaço de um dia ainda poderemos viver grandes momentos? O ano, porém, prossegue a marcha indiferente a chacinas, a tempestades políticas que têm se formado, a olhares insones, a mudanças não planejadas e a golpes. O ano passa por estar com medo? Claro que não! O medo não o fustiga. O medo, antes, é vestimenta que cabe melhor em nós. Tenho visto muita coragem assomar em gente antes medrosa. Os tiranos e seus golpes não têm força quando a coragem redefine o sangue. Então, ano que finda, pode seguir seu curso, mas nos ensine a ter coragem. Não queremos congelar a boca e retesar os passos...

No mais, quando o caos sair sedento pelas ruas da vida, e o país abrir seus cansados olhos, será o momento da trégua? A esperança erguerá seu punho e saciará, finalmente, a fome que nos acomete? Todos dirão, ano intangível, que a voz guardada é bomba contra despotismo e morte. Na multidão escuto gritos de medo – sou eu perdido procurando a mim. O fim se fez carne e habitou o mundo. Adeus, janeiro! Aceite minha última saudação. Mas, antes, responda, Deus: virão melhores dias?

Émerson Cardoso

(Que escreveu sem forças entre os dias 24 – 30/01/2018)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

CRÔNICA: "AH, OS AMIGOS", DE RACHEL DE QUEIROZ



 Sim, amigo é coisa muito séria. Acho que a gente pode viver sem emprego, sem dinheiro, sem saúde e até sem amor, mas sem amigos, nunca. Pois o amigo é capaz inclusive de suprir discretamente essas faltas e lhe conseguir trabalho, lhe emprestar dinheiro, lhe tratar a doença. Só não pode se envolver em assuntos de amor, porque aí deixa de ser amigo; e a maior tolice a que se arrisca a incorrer a alguém é misturar amigo com amor.
Amizade e amor são qualidades paralelas na vida de cada um; se conhecem, até se estimam, mas nunca se encontram ou se confundem. Aliás, não estou dizendo novidade nenhuma, todo mundo sabe que o namoro, noivado, casamento, amores são relações essencialmente antípodas da amizade. Quer pela sua impermanência, ou, quando permanentes, pela sua natureza tumultuária, absorvente, egoísta, as relações de amor têm que ter categoria à parte. Transforme em amante o seu amigo ou amiga, e você perde o amigo e terá um péssimo amante, que sabe todos os seus defeitos, lhe conhece do tempo em que você não se enfeitava para ele, não lhe escondia suas falhas do corpo e da alma, e que, portanto sabe de todos os seus pontos fracos. Fica impossível.
A primeira lei da boa amizade creio que é ter poucos amigos. Muitos camaradas, colegas, conhecidos cordiais, mas amigos, poucos. E, tendo poucos, poder e saber tratá-los. Jamais criar tempo de rivalidade entre os amigos: cada um há de ter sua área específica, sua zona própria de influência.
Não vê que cada amigo, por ser único no seu território, não precisa sequer conhecer os donos dos outros territórios. É que, sendo a nossa alma tão variada nas exigências, precisamos de amigos de acordo com os diferentes ângulos do nosso coração. O amigo da comunicação intelectual não pode ser o mesmo amigo da confiança íntima; o velho companheiro da infância não tem nada a ver com o precioso camarada adquirido nos anos de maturidade.
E há outras razões práticas para não misturar os amigos: eles podem se coligar contra a gente, ou se tornar amigos entre si, por conta própria, nos excluindo. Ou também podem se chatear uns com os outros, porque os companheiros espirituais deles nem sempre correspondem aos nossos. Se você adora fulano porque toca em suas cordas nostálgicas, contando-lhe lembranças da mocidade passadas na barranca de um rio em Mato Grosso. Assim com o futebol, os debates sobre religião, as intrigas políticas, os negócios, o gosto de recordar os sambas de Noel Rosa. Insisto, mantenha com rigor cada amigo no seu compartimento.
Axioma absoluto em assuntos de amizade: amigo é insubstituível. O que um lhe deu jamais outro lhe poderá dar igual. Pode vir um amigo novo para preencher a área vazia deixada pelo amigo que se foi por morte ou briga. Mas só ocupará mesmo aquele espaço físico. E há vezes em que nem isso é possível. E o melhor será fechar aquele nicho do coração, dada a dificuldade de encontrar outro ser vivo que satisfaça ante nós as especificações do ausente. Ai de mim, bem o sei. Minha amiga de infância que morreu deixou no meu peito esse santuário vazio.
Respeite seus amigos. Isso é essencial. Não procure influir neles, governá-los ou corrigi-los. Aceite-os como são. O lindo da amizade é a gente saber que é querida a despeito de todos os nossos defeitos. E nisso está outra superioridade da amizade sobre o amor: a amizade conhece as nossas falhas e as tolera e, até mesmo, as encara com condescendência e afeto. Já o amor é só de extremos e, ou se entrincheira na intolerância, ou se anula na cegueira total. Amigo entende, aguenta, perdoa, "Amigo é pra essas coisas", como diz aquela cantiga tão bonita.
Se você não é capaz de ter amigos, você é um erro da natureza, você é como o unicórnio, o animal de que se fala mas não existe. Porque até os bichos têm amigos; e dizem que, depois da morte, no outro mundo, as almas mantêm sublimadas as amizades cá de baixo, naquela quintessência de excelências que só o céu pode dar.
(Rachel de Queiroz)


QUEIROZ, Rachel de. Ah, os amigos. In: Rachel de Queiroz – Melhores Crônicas. 2. ed. São Paulo: Gaudí Editorial, 2008. 


CRÔNICA: "LITERATURA, SOLIDARIEDADE E MORTE"


Eu, que não conseguia pensar em definições para a felicidade, passei a utilizar a ideia proposta por Clóvis de Barros Filho em algumas de suas aparições internéticas. No Provocações, por exemplo, sendo entrevistado por Abujamra, ele sugeriu que a felicidade acontece quando se realiza algo e deseja-se que este algo não acabe nunca.
            Neste sábado, pela manhã, iniciei a fatigante tarefa de limpar e organizar livros. Meu problema é que demoro demais realizando esta tarefa, porque inevitavelmente passo a ler trechos ou capítulos inteiros – fica impossível concluir o trabalho a que me proponho em tempo hábil.
            Enquanto limpava os livros, devo dizer, fiquei tão angustiado a ponto de sentir dor física. Quando eu morrer, e eu vou morrer mais dia menos dia, o que acontecerá com meus livros, que constituem a única posse material que me causa medo de perda? Depois que eu me for, quem será capaz de cuidar deles, ou utilizá-los, com o mesmo devotamento a que eu estou fadado? Veio-me, com isto, medo de morrer. Medo de ficar sem aquilo que constitui algo de relevante para mim sobre a Terra. Medo e angústia. E se eu fosse embora hoje, por morte ou fuga? Como eu poderia deixar para trás aquilo que me causa tanta satisfação? Sim, eu também vejo nisto muito materialismo e dramaticidade. Parece-me doloroso que eu consiga atribuir tanto valor sentimental a objetos e, por vezes, não conseguir olhar com o mínimo de humanidade para alguns seres com os quais tenho que conviver. É que os livros foram conquistados com sacrifício, e sabem falhar menos.
            Pensei, em seguida, que amo livros porque amo Literatura. Pronto. Não amo livros – isto me redime! –, amo a Literatura que eles podem me dar em grandes ou pequenas doses. Eis, portanto, a relação com o que Clóvis de Barros Filho pensa sobre a felicidade. Enquanto posso ler, informar-me, discutir e repassar algo sobre Literatura eu me sinto vivo, eu me sinto feliz. Pensar que isto poderá cessar um dia, por algum motivo, me amedronta. E, para tentar expressar este medo, parei a arrumação dos livros, respirei um pouco e passei a escrever. Escrevi para mim mesmo, claro. Ultimamente, nem os clássicos têm leitura garantida, quanto mais os amadores!
            Além disso, alguém já me perguntou: o que a Literatura pode fazer de forma prática para mudar o mundo que vive de misérias? Deus do céu! Não sei! Não sei, em absoluto, o que dizer, o que responder. Eu poderia criar hipóteses, reproduzir o que foi dito por muita gente, mas sequer tenho forças para isto. Eu, e digo isto com tristeza, não sei se resolvi ou resolverei com meu amor à Literatura a miséria do mundo ou de alguém que nele habita. Primeiro, que sou herói do romantismo da desilusão – de tanto pensar, não ajo. Segundo, que, dos miseráveis, sou o que mais precisa: minha mão estendida criou raízes. O que peço? Peço humildade, leveza e amor – amor numa perspectiva cristã, se me permite exibir minha tendência a tudo explicar, que é minha neurose de guerra por excelência.
            Felicidade, para mim, portanto, seria o mesmo que disse Clóvis de Barros Filho. Eu queria tanto ter acesso à Literatura hoje e sempre, queria tanto passar a eternidade com ela, que pensar no fim disso me dói. Talvez eu esteja angustiado mesmo porque ontem, enquanto esperava ser atendido em consultório médico, reli a primeira parte de Memórias do subsolo, de Dostoiévski, ou porque parei a arrumação dos livros quando toquei A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, e achei por bem reler uns trechos e, num fôlego só, terminei lendo quase o livro inteiro.
            Devo voltar à arrumação. Escrever não me organizará a vida, nem me dará a eternidade que me possibilitaria viver de, para e com meus livros. Mas, para concluir, a propósito da pergunta que me fizeram sobre o que a Literatura pode fazer contra as misérias do mundo, eu devo dizer que ela pode não fazer muito pelo caos mundial criado pelo homem, e sua tendência ao mal, mas ela fez muito por mim, ao que sou grato. Por pura gratidão, devo propagá-la. Não é assim que devemos fazer com quem nos prestou alguma solidariedade?


Émerson Cardoso
23/12/2017

domingo, 7 de janeiro de 2018

RESENHA CRÍTICA: NOTAS SOBRE "A CADEIRA DE BARBEIRO", DE ZÉLIA SALES


Na edição do Prêmio SESC de Contos de 2016, um dos contos me tocou profundamente. Seu enredo é constituído pelo cotidiano de uma menina do interior, e sua irmã, na árdua tarefa de "sobreviver" enquanto precisa pedir dinheiro ao pai para extrair seus dentes. O receio de pedir só não parece maior do que o medo da extração.
O leitor não deve se precipitar com essa sinopse aparentemente simples, porque se trata de um conto que trabalha, dentre outros aspectos, o universo do sertanejo que, por vezes, não conta senão com sua capacidade de resistir apesar das dores do corpo e, sobretudo, da alma. Família, infância, dores físicas e morais que a memória teima em resguardar surgem com intensidade nessa narrativa. O tom doloroso com que a autora a concebe, no entanto, é de uma singeleza que nos incita a vislumbrar nas personagens não só dor, mas lirismo e beleza – elas até conseguem ser felizes, embora esta felicidade seja “comprada a duras penas”. O que me causou espanto, nesse texto, foi a humanidade dessas personagens tão humildes, singelas e, por isto, grandiosas.
Quando um autor diz coisas intensas de modo simples, com linguagem precisa, objetiva e bem delineada, o leitor, invariavelmente, se deixa fisgar. Some-se a estas características, peculiares à linguagem, uma capacidade de perceber a poesia no que é aparentemente prosaico, e o autor não conseguirá ficar no anonimato jamais. É isto que acontece com Zélia Sales.
Eu tive acesso, após o deslumbramento que o conto Sobre dentes, mencionado acima, me causou, ao livro A cadeira de barbeiro – publicado em 2015, pela Editora Lua Azul. Neste livro, constam dez contos escritos com narrador autodiegético que percorre todas as narrativas como se contasse – confidenciasse – suas memórias da infância. Estas memórias trazem à tona acontecimentos familiares, cenários austeros, por vezes, porém sempre liricamente construídos, personagens cativantes que se deparam com: a morte, a loucura, a solidão, o medo, os traumas da infância, os cenários mais diversos que o olhar sempre atento da narradora nos apresenta. E esse olhar é impulsionado por uma sensibilidade excessiva, no melhor sentido do termo.
Os contos de Zélia Sales são escritos com períodos curtos, advérbios e adjetivos têm presença apenas quando muito necessários, o uso do verbo no pretérito imperfeito – tempo verbal que se refere a um fato ocorrido no passado, mas que ainda não foi completamente terminado, e é usado com frequência em fábulas, contos de fadas e histórias de trancoso – que dá ideia de continuidade e ruptura de ações para causar expectativas e prender a atenção do espectador/leitor.
Além disso, ela explora recursos descritivos com substantivos que empregam tom cinematográfico à cena. O lirismo e a beleza das narrativas não são conseguidos no texto a custo de excessos verborrágicos. O que melhor caracteriza o texto dessa autora é sua capacidade de dizer com simplicidade, objetividade e acuidade linguística aquilo a que se propõe.
As narrativas são construídas a partir de um fio central: uma narradora-personagem retoma as memórias da infância e as esparge em suas histórias sempre enternecedoras. Ela é carismática, humana, instiga empatia, de modo que o leitor confia em seu olhar sobre as demais personagens. As sensações e reflexões a que cada história conduz o leitor vêm, certamente, do empenho dessa narradora que, até quando comete um pecado – como em O sétimo mandamento –, faz o leitor sofrer com ela, feito um cúmplice apiedado. Ela roubou, mas o fruto do roubo – “um caquinho de louça” – é tão insignificante, e seu gesto é dotado de tamanha ingenuidade, que condená-la parece impertinente. Ainda mais quando ela mesma superdimensiona a culpa e ouve em todos os lugares a fatídica frase proferida pela menina lesada: “Tu roubou meu caco”. Seria cômico, se não fosse trágico – e o leitor se apieda. Há, neste conto, uma frase inesquecível: “A dor da ovelha ferida dura mais que o prazer do lobo saciado”.  
Seguindo a sequência em que os textos são dispostos, deparamo-nos com o primeiro conto do livro cujo título evoca a narradora das demais narrativas: A filha do barbeiro. Conduzindo-nos pelas imagens que sua memória resguarda, a narradora descreve, nostálgica, a casa paterna em que ganha destaque o barbeiro, seu pai. Trata-se de uma descrição aguçada pelo saudosismo que torna o cenário – e seus objetos – um recanto de felicidade perdido a que a narradora não tem mais acesso senão por meio de lembranças. Tudo se desfez a partir da separação dos pais, o que motiva o patriarca a abrir o Salão Popular na cidade. Ela descreve, assim, a cadeira utilizada pelo pai em seu ofício:

Uma autêntica cadeira de ferro, robusta e presunçosa. Na pisadeira reforçada, o nome em alto relevo, que soletrei com dificuldade: ES-TI-LO. Ele se movia naquele ambiente com tanta naturalidade, com tanto pertencimento, falava com desenvoltura, movia o objeto do lugar procurando um melhor efeito, sorria... (SALES, 2015, p. 23)

            Esse conto, dividido em duas partes, mostra os efeitos causados pela separação – os filhos tendem a sofrer em demasia. Os parágrafos criados após a afirmação de que os pais discutiram, acontecimento que se segue à separação, são formados por períodos excessivamente curtos, que poderiam indicar a ideia de corte, redução do que se tem a narrar, ou mesmo dificuldade da narradora de retomar assunto tão indigesto, e não superado. A ausência paterna é representada pela imagem: “A enorme cadeira imóvel, triste, silenciosa no canto da sala”. Perde-se, com isto, o universo infantil que, de modo idealizado, representa: felicidade, segurança e equilíbrio.
Depois, a narradora reencontra o pai, em seu salão, e recebe dele uma maleta. Ele diz: “Guardei todo esse tempo pra lhe dar”. Ela, por sua vez, expressa suas sensações ante o gesto do pai: “Veio um nó no meu peito, subiu, me engasgou. Segurei-a nos braços tentando mostrar naturalidade, descansei meus olhos sobre ela”.
            Segue-se a esse conto, o texto A indesejada das gentes. Ao ler esta narrativa foi inevitável não lê-la em comparação com a letra da canção Samarica Parteira, de Luiz Gonzaga. A diferença entre elas é que na letra da canção temos um parto bem-sucedido, com direito a festejos e outras benesses, enquanto no conto de Zélia Sales temos um parto com cores sombrias e imagens pungentes.
A personagem Melha, diante da constatação da parteira Zefinha Barroso, de que seu filho estava atravessado, tem seu comovente, e fatídico, encontro com a morte. A narradora, que recorre a tons descritivos com a intenção de retardar o acontecimento trágico, e que, com isto, causa intensa expectativa no leitor, relata o acontecimento com vivacidade. O trecho a seguir, que descreve a chegada da parteira à casa de Melha, comprova nossa afirmação:

Já passava das nove quando os dois apearam no terreiro. A sogra, as cunhadas, as comadres, alvoroçadas, cuidavam de tudo, no impedimento da dona da casa, a essa hora já se vendo de dores. A parteira atravessou o alpendre, a sala, o corredor rumo à camarinha. Já conhecia o caminho. Num passinho miúdo, o queixinho gordo levantado, com sua maletinha debaixo do braço, cumprimentou as mulheres e adentrou. Conhecia todas elas, suas camarinhas, seus corpos. Já aparara mais de cinquenta meninos, sem perder nem um. (SALES, 2015, p. 30)

Além disso, a morte, que se apresentou à narradora quando ela “ainda não tinha seis anos”, é personificada, assim como no romance A menina que roubava livros (obra em que a morte é a narradora), e é descrita da seguinte forma: “Agora eu podia perceber seus longos cabelos cor de ferrugem descendo até a barra das saias, roçando o chão, confundindo-se com a poeira vermelha da estrada”. A impotência do ser humano ante a certeza da morte é o tema por excelência do texto, também certo fascínio que ela exerce, justamente por sua aura misteriosa, sobre as pessoas – neste caso, sobre a criança que trava seu primeiro contato, nada amistoso, com esta “indesejada”.
O Cemitério de Santa Cruz, mencionado no texto anterior, é retomado no conto: Mas havia um menino morto sobre a mesa, no centro da sala. Se no texto anterior a comoção nos vem como uma pancada, tendo em vista que depois de intensa luta a morte sai vitoriosa, e ainda exibe seu “troféu” – o corpo da mãe e do filho mortos –, neste, a comoção já nos é incitada desde o título. O menino nele evocado é o irmão da narradora. Ela, que não vivia com o pai, e sentia sua falta, ao revê-lo, sequer pôde demonstrar alegria: “Queria correr para os seus braços, subir em seus pés, dançar com ele agarrada à sua cintura, o rosto colado em sua barriga, como tantas vezes antes”.
No parágrafo seguinte, no entanto, como numa ênfase, a oração é iniciada por uma conjunção adversativa. Ela queria fazer festa pelo reencontro com o pai: “Mas havia um menino morto sobre a mesa, no centro da sala”. Ela está, portanto, impedida de realizar seu gesto de afeto – e a estrutura linguística empregada consegue formalizar isto com maestria.
Em seguida, somos informados sobre a dor da mãe que perdeu o filho e vislumbramos a cena do enterro. A narradora, que mais parece lamentar a partida do pai, do que a saída do pequeno caixão, em imagem das mais belas e angustiantes do livro, afirma: “Parecia que eu havia engolido um angu grosso e fervente que me queimava a garganta e comprimia o peito”.
Devo ressaltar o trabalho com a linguagem, sobretudo nos últimos parágrafos do texto que, do meu ponto de vista, estão mais para versos, no melhor sentido do termo, ricos em aliteração. Notemos que o barulho dos passos do pai parecem ser sugeridos pela recorrência da consoante oclusiva bilabial /p/, e pelas consoantes oclusivas linguodentais /t/ e /d/. Podemos remeter a recorrência de sons nasais /n/ e /m/, do dígrafo nh, e da vogal nasal /ã/, à melancolia e angústia presentes na cena descrita (SALES, 2015, p. 39):

Fiquei na porta vendo-o desaparecer no caminho íngreme e sinuoso.
A pedra grande, meu pai, a palmeira.
Meu pai.
                                                 Tudo tão longe.
                                                                            
Esta cena, devo ressaltar, é uma das mais belas e pungentes de quantas aparecem na obra em pauta. Mas quando pensamos que um texto se superou em lirismo e poesia, deparamo-nos com outros como Parques dos horrores. A narradora, com sua fixação pela figura paterna, cuja presença lhe parece acontecimento grandioso e desejado, apresenta, neste caso, pelo menos duas visões opositivas sobre ele.
Na primeira, a vemos julgando, ressentida, o pai por ele a levar para o parque, porém não permiti-la brincar nos carrinhos: “Mas que miserável unha de fome sem coragem de comprar um reles bilhetinho para a filha que aprendeu a ler antes do tempo, praticamente sozinha, que nunca recebeu reclamação da escola, que não lhe respondia...” Ela diz, ainda, neste sentido, que sentia: “Vontade de esmurrá-lo, chamá-lo de insensível, miserável”.
Na segunda, vemos indulgência e tentativa de compreensão por parte da narradora: “Pobre papai, talvez, por trás do sorriso infantil estivesse mentalizando um cálculo, contabilizando o que sobraria para o pão, para o leite e o feijão do dia seguinte”. Além disso, ela diz: “Mas todo dinheiro existente talvez repousasse no fundo da gaveta para saldar a conta da farmácia, o aluguel atrasado da casa, da barbearia”.
A frustração, a impotência e a pobreza são temas perceptivelmente presentes nesse conto que pode ser considerado um dos mais cinematográficos do livro. A descrição dos cenários e o ritmo empregado apontam para isto. Tudo é bem delineado, a linguagem consegue expor o que é exterior à protagonista com a mesma fluidez com que consegue entrar em sua psicologia.
A propósito, a menina é impossibilitada de brincar, mas o pai, que no início se diverte, parece subentender a angústia da filha, e ele, em sua impossibilidade, também parece se frustrar por não poder lhe proporcionar o que ela tanto queria, como apreendemos do trecho: “O sorriso tinha desaparecido de seu rosto, que me parecia cansado, já com duas covas fundas de cada lado, a testa vincada. A cabeça baixa, os ombros caídos, os olhos enterrados no chão, caminhava como se carregasse uma montanha nas costas”.
Com relação ao tema da frustração, desilusão e quebra de expectativas, devo dizer: o conto O Circo Íbis é emblemático. A magia do circo, o fascínio que ele exerce sobre as pessoas, com seus artistas exóticos e revestidos de beleza e encanto, surge, neste texto, com intensidade. A narradora, que pela primeira vez vai ao circo, e o vislumbra por um prisma da idealização, como toda criança, pensa em como seria maravilhoso fugir com o circo e, ao deparar-se com a realidade existente em seus bastidores, se desencanta.
Ela flagra o cotidiano da personagem Francimeire, a rumbeira que aviva o imaginário dos homens, e percebe a diferença entre a realidade e a imaginação. A mesma moça encantadora que dança no picadeiro, e na imaginação dos homens, é flagrada pela narradora estando sonolenta, tendo que cuidar do filho ainda bebê e com marcas de cansaço e envelhecimento:

A longa cabeleira negra estava lá, como no picadeiro, mas muito real... Real como aquele cheiro de cocô que impregnava o ambiente, as estrelas sem brilho da almofada murcha como os seios dela, onde o garotinho se agarrava. Fui recuando de costas, me afastando daquela cena, procurando o caminho de casa. (SALES, 2015, p. 81)

Intenso, com um tom realista, e humano, esse conto desfaz na criança – e no leitor, por que não? – a visão idealizada do circo. Nele, está presente uma discussão sobre alguém que se questiona: o que é real ou irreal naquilo que esteve sempre no plano da idealização? Até que ponto o que nos emociona, de fato, deve ser vivido como uma realidade inexorável e absoluta? A metáfora da carrapeta, que a mãe recomenda à narradora que não abra, e ela termina por abrir, para constatar, desiludida, não haver nada dentro, dá ao conto um tom de parábola que muito o enriquece.
Com o conto O grito é perceptível o aspecto fabular que remete às histórias de trancoso, ou de exemplo e assombração, recorrentes na cultura popular e propagadas pela oralidade. Ao ler esta história, é possível questionar: se tudo não passa de imaginação da narradora-personagem, por que a avó se mostra visivelmente intrigada e tentando disfarçar algum medo? A memória, sobretudo se pensarmos a memória da criança, tende a superdimensionar a realidade das coisas. O que aconteceu realmente pode, com o tempo, parecer irreal, e o contrário disto também é possível.
O teor de mistério, de incerteza, a recorrência à memória, e seus efeitos sobre a realidade, que são motes comuns à obra da escritora Lygia Fagundes Telles, parecem ter sido muito bem explorados no conto de Zélia Sales. Os pormenores do cenário e os diálogos precisos e rápidos são marcas estilísticas que a autora consegue articular sobriamente. Ela consegue ser singular em sua criação artística, no entanto podemos dizer que em vários aspectos ela lembra o que de melhor podemos encontrar na literatura nacional – sua proximidade com temas explorados por Lygia Fagundes Telles, por exemplo, sobretudo se pensarmos o conto O grito, não é gratuita. Também não seria exagero dizer que Zélia Sales tem intensidade narrativa, trabalho com a linguagem, temas e análises psicológicas que lembram um dos maiores contistas de que dispomos no país, e que também é um cearense: Moreira Campos.
Prosseguindo em nossa leitura, não é menos bem articulado o conto Batismo. Uma mulher condenada por assassinato, mal vista na cidade, e que é alvo do imaginário fantasioso das crianças, ao tomar água na casa da narradora, tem, finalmente, seu momento de redenção. Enquanto toma a água: “De olhos fechados, totalmente desarmada, a mulher se diluía naquela água pura e transparente”. Como se a água a fizesse renascer, aparentemente cai a máscara de assassina e dela emerge outra pessoa. Assim: “A criança antiga, magra, faminta surgiu esticando o braço esquálido, a mão esquálida, os dedos esquálidos pedindo complacência. Sua alminha de algodão-doce se banhava naquela sacramental água de pote”. A mulher vista como monstruosa, no final das contas, se humaniza.
Outra personagem feminina marcante é a personagem evocada no conto Dandola. A narrativa tem início com a apresentação da inquieta Maria Angélica, colega de escola da narradora, que, despois, confessa ser filha adotiva de um casal de velhos que moravam em casarão próximo à matriz. Ao mesmo tempo, somos apresentados a Dandola, personagem marcada pela loucura que a torna alvo de preconceito e inferiorização social. Maria Angélica, após descobrir que Dandola é sua mãe biológica, entra em estado depressivo e termina por também enlouquecer.
O último conto do livro é o que apresenta maior título: Dois anjos deslizando no assoalho encardido do Cine Teatro Royal ao som de um bolero rasgado. Mais uma personagem feminina é apresentada: a virago Tereza Zoin. A narradora vai em busca do pai, a pedido da mãe, e depara-se com ele a dançar com Tereza Zoin cujo comportamento em nada lembra o de uma mulher que estaria em acordo com o que uma sociedade preconceituosa e moralista atribuiria à mulher.
Além da força física que lembrava a de um homem, Tereza Zoin também jogava sinuca, bebia e fumava. A descrição da personagem nos mostra que seu perfil em vários aspectos destoa do que, de fato, se atribui socialmente à mulher. No momento em que a narradora a vê dançar com seu pai, no entanto, aponta para o fato de que: “O cabelo curto, preto, a camisa de colarinho, a calça masculina. Nada disso tirava dela, naquele momento, a leveza, a doçura, a alma feminina”.
Por fim, seja pela riqueza psicológica das personagens femininas recorrentes no livro, seja pela linguagem precisa, enxuta, bem delineada, os contos de A cadeira de barbeiro são um achado literário de grande valor. Poucos autores conseguiriam tanta pungência e criatividade em suas produções literárias. Zélia Sales consegue ir além da escolha de temas, alguns já muito explorados na literatura, pois ela consegue comover, instigar, despertar reflexões. Também consegue ser lírica, poética e, sobretudo, sabe ser singular.  
Ler A cadeira de barbeiro foi um prazer indubitável – prazer dolorido, claro, porque ninguém deve se enganar sobre o conteúdo deste livro. Ele é pungente, não poupa suas personagens quando o objetivo é tirar delas o melhor em humanidade. Devo dizer que é gratificante saber que temos autoras com a capacidade artística de Zélia Sales neste país. Quero ler mil vezes esse livro – que li na íntegra uma quatro vezes –, porque sei que a sensibilidade dessa notável escritora amplia nossa humanidade quantas vezes a seu texto acorrermos. Como afirmei acima, a obra de Zélia Sales me tocou profundamente e eu espero, com urgência, que toque mais pessoas. Temos em sua obra o que há de melhor e mais lírico – não podemos deixar de conhecê-la em sua profundidade.

SALES, Zélia. A cadeira de barbeiro: contos. Fortaleza: Lua Azul Edições, 2015.
Émerson Cardoso
05/01/2018

terça-feira, 10 de outubro de 2017

TEATRO INFANTIL QUE CRIANÇAS E ADULTOS NÃO PODEM DEIXAR DE VER: BREVES NOTAS SOBRE "O SONHO DE CLARA GEMA", DA CIA MANDACARU

Foto de Rogerio Duarte

O Cariri cearense tem seu histórico de excelentes peças teatrais realizadas pelos diversos grupos que, felizmente, apesar das dificuldades, por aqui circulam. Muitos trabalhos marcantes conseguem se concretizar pelo empenho e amor à arte que os integrantes desses grupos evidenciam. Dentre as peças que devem ser inseridas na lista das mais belas e cativantes que tive o privilégio de vislumbrar, no Cariri, O Sonho de Clara Gema, dirigida por Micaelle Lima, e que é uma adaptação do texto de Sandra Albano, sem dúvidas é uma delas. 

Hoje, por acaso, eu estive na plateia dessa peça teatral ao lado de outros adultos e muitas crianças e, assim como eles, eu fiquei mais que entusiasmado. O Sonho de Clara Gema é uma peça infantil - um musical, em verdade, no melhor sentido do termo - realizada pela Cia Mandacaru de Teatro. Ao assisti-la, não consegui guardar para mim as impressões que o espetáculo me proporcionou e, por isto, resolvi escrever algo, ainda que brevemente.

A primeira observação que faço sobre a peça diz respeito ao texto. Sandra Albano dialoga, com a história de sua galinha carismática, mas passível de morte, vale ressaltar, com outras personagens como Laura, Petronilha, Pedrina e Eponina - todas galinhas criadas por Clarice Lispector. Assim como Clarice Lispector, Sandra Albano nos apresenta a galinha como um ser singelo e digno de permanecer vivo. A personagem Clara Gema, que é amada pelas demais personagens que povoam a Fazenda Santa Fé, está diante da possibilidade de virar o almoço do austero fazendeiro Zé Tufão. Cabe à cozinheira Crizolina capturar Clara Gema e levá-la ao seu destino cruel: tornar-se galinha ao molho. Acontece que Clara Gema dispõe de dois grandes trunfos: 1) ela é uma grande cantora, ainda que não tenha o reconhecimento merecido, e 2) tem amigos fiéis que a protegem e a auxiliam a todo tempo. 

A enredística da peça é basicamente esta, porém não devemos nos restringir a analisá-la apenas por este viés, pois há um tema que não pode passar despercebido: a esperança. A esperança, do meu ponto de vista, é a grande reflexão da peça. Amizade, morte, vida e senso de coletividade são temas recorrentes, mas a esperança é, sem dúvidas, sua grande tônica. Quando tudo parece desabar, e os bichos já não sabem o que fazer, alguém do grupo consegue ter uma ideia e, a partir dela, tudo muda. A lição dos bichos, neste caso, é: grandes ideias nascidas da união de amigos podem ser salvadoras. E isto coaduna com o que diz um narrador de Clarice Lispector no conto Uma amizade sincera: "Amizade é matéria de salvação". 

Remetendo-me a aspectos mais técnicos, merece elogios a direção musical de Angélica Flor que, além de atuar no papel principal, e atuar com excelente desempenho, faz do espetáculo um musical de beleza inconteste. Não é fácil de esquecer a versão da Cantata BWV - 147, de Johann Sebastian Bach, mais precisamente seu décimo movimento (Jesus alegria dos homens), a versão de um trecho da ópera Carmen, de Georges Bizet, e o quarto movimento da Nona Sinfonia de Beethoven (Ode à alegria). Associemos à música a coreografia da também diretora Micaelle Lima, que faz um trabalho coreográfico leve, divertido, simples, mas preciso. Nada é excesso, tudo está bem delineado e em conformidade com as canções apresentadas ao longo da peça. Todas as canções muito bem executadas, devo ressaltar. 

As atuações seguem o tom bem elaborado da peça. As crianças que pude ouvir na plateia amaram o Burro - isto se deve ao fato de que a personagem é, por excelência, carismática, cômica e hilariante, no entanto um ator pouco versátil e experiente poderia não funcionar. Mas na peça funciona perfeitamente, porque não é possível não notar a presença do ator que interpreta esta personagem. O riso e o olhar, nele, são marcantes - é impossível não destacá-lo. Os demais bichos conseguem ser bem interpretados, porque é nítido que todas as atrizes desenvolvem relevante harmonia na condução das cenas em que estão presentes - todas são envolventes. O galo, devo lembrar, também merece ser considerado uma personagem carismática, embora sua covardia/necessidade de afirmação o tornasse um tanto controverso - o ator consegue demonstrar isto muito bem. 

O jogo cênico, embora sem grandes inovações do ponto de vista do universo teatral infantil, é entusiasmante. O espectador não cansa, não se acomoda, não consegue perder de vista o fio da meada, porque novos acontecimentos vão surgindo, e a expectativa sobre o que os bichos farão para salvar a angustiada Clara Gema tornam os acontecimentos imprevisíveis. 

Algo que deve ser avaliado à parte, na peça, são a maquiagem e o deslumbrante figurino, de Joylson Kandahar. A maquiagem é primorosa, mas o figurino é digno de prêmio. Tudo é tão bem confeccionado, tão detalhadamente construído! Clara Gema, que aparece com vestimenta amarela e alguns tons em vermelho, surge, posteriormente, numa mudança de figurino que ocorre no meio do palco, e com direito a estouro e chuva de papéis coloridos, em vestido vermelho esplendoroso. Ela canta um trecho da ópera de Bizet, Carmen, com direito a coro, aplausos e sua definitiva consagração. Clara Gema torna-se uma grande diva - sua vestimenta não evidencia senão isto. 

Em suma, O Sonho de Clara Gema me entusiasmou, me fez esquecer o mundo por alguns minutos, me proporcionou bem-estar por me fazer ouvir os risos das crianças na plateia e, sobretudo, me apresentou um espetáculo que, em sua simplicidade, é comovente, reflexivo, instigante e belo. O SESC de Juazeiro do Norte merece notas de agradecimento por ter valorizado e apresentado essa obra ao público - as instituições devem fomentar a arte, e o SESC tem feito isto. Em tempos sombrios, como os que temos vivido, deparar-nos com arte, em sua acepção mais profunda, é um alívio para a alma. Foi isto que se deu: o espetáculo da Cia Mandacaru foi um alívio para a alma - e as crianças parecem ter sentido o mesmo! 

Émerson Cardoso
10/10/2017








sexta-feira, 6 de outubro de 2017

POEMA PARA A PROFESSORA E SUAS CRIANÇAS EM JANAÚBA


     Para a heroína Heley de Abreu Silva Batista

Para ler obrigatoriamente  ao som 
de "Incêndios" na voz de Amelinha
Língua portuguesa, 
como queria não precisar
de tua sonoridade para sofrer
por algo tão doloroso...

Crianças mortas, professora em chamas,
quantas lágrimas arrefeceriam 
o pranto de tantas mães sem filhos?

Língua portuguesa, 
como queria, austera irmã,
acordar os olhos das crianças
com palavras-água de plena vida!

Mas meu semblante só vislumbra,
na fumaça, da professora a voz
que a muitos tentou salvar.

Émerson Cardoso

06/10/2017




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

ENTREVISTANDO ÉMERSON CARDOSO (UM EXERCÍCIO)


ENTREVISTA

A entrevista é um gênero a que recorro com frequência há alguns anos. Eu sou viciado em entrevista – esta é que é a verdade –, mas não busquei saber, a fundo, o porquê de tal vício. Escrita ou oralmente, a entrevista sempre me instiga. Um dos meus programas preferidos de entrevista é o Provocações, com o imortal Antônio Abujamra. Como um dos meus sonhos era ser entrevistado por ele, o que ainda em vida do entrevistador já seria impossível por vários motivos, eu resolvi, em 2013, transcrever algumas das perguntas que ele apresentava no programa e tentar responder num fôlego. Foi um exercício interessante! Após quatro anos deste exercício, resolvi, sem ler as respostas anteriores, refazê-lo e ver em que aspectos minhas respostas foram preservadas – eu retomarei as mesmas perguntas acrescentando apenas um ou outro ponto. Autoentrevista é coisa de gente narcisista e egocêntrica, eu sei – mas que se danem as opiniões que criticam o exercício que preciso fazer. O que quero, em verdade, é me autoconhecer de algum modo e, se esse for um bom método, a ele recorrerei.


Em crônica em que você discorre sobre um fim de tarde, você escreve: “Aves pernoiteiras deslizavam pelo céu em arrebol e eu caía em pontiagudas ânsias: sede de alguma coisa que sequer eu sou, nem sei”. Que sede é esta?

A sede de viver em paz de espírito, de sentir a presença de Deus (apesar de minha pouca crença), de ampliar os conhecimentos, de conseguir realizar meus objetivos me persegue desde sempre, mas creio que a sede a que me refiro é a sede do autoconhecimento, da autocompreensão e de conseguir me tornar um ser humano melhor para mim mesmo e para o outro – que desafio!  

Perceber que o tempo passa, e que você envelhecerá, o incomoda?

Às vezes, sim. Não no sentido de que a velhice me conduziria para uma provável aproximação da morte – não é preciso envelhecer para morrer –, mas porque a velhice, nesta sociedade capitalista que exclui quem não é capaz de representar possibilidade de produção, me remete à solidão e ao abandono. Tenho pensado sobre o fato de que na velhice eu não poderei contar com meus filhos – porque não os tenho – para cuidar de mim. Mas ter filhos, é claro, não é garantia de proteção e cuidados.  

Como você acha que vai morrer?

Não sei, mas seria interessante que fosse sem medo e sem dor – conformar-se com a morte, ou melhor, perder o medo, quando ela vier, talvez alivie a sensação incômoda da inexistência inevitável. A solidão na hora da morte parece ser dolorosa demais, mas...

O que você acha que vai encontrar quando você morrer?  Com quem você, se pudesse, desejaria se encontrar?

Se houver vida após a morte, e eu me esforço para crer nisto, espero me encontrar com as pessoas com as quais mantive, aqui na Terra, grandes afinidades – seria bom reencontrar alguns familiares e alguns amigos e amigas.

Você costuma enfatizar o tema da amizade em vários textos que escreveu. Num deles, você afirmou: “Alguém me disse, certa vez, que amizade não passa de uma utilidade prática – eu discordo. Eu prefiro apoiar-me, talvez romantizando o termo – o que é um problema a ser dirimido –, na assertiva de Clarice Lispector (1999, p. 78): ‘Amizade é matéria de salvação’”. Você acredita mesmo que amizade não é uma utilidade prática?

A gente deve atribuir utilidade prática a objetos, não a pessoas. Creio, no entanto, que tenho uma visão mais racional sobre amizade, tanto que tenho restrições com esta palavra, por considerá-la valiosa demais para utilizá-la com quem de fato não a merece. Sobre o assunto, gosto do que Omar Kháyyát diz: “Contenta-te com poucos amigos. / Não busques ampliar a simpatia que alguém te inspirou. /Antes de apertares a mão de um homem, considera se ela um dia não se erguerá contra ti”.

Você considera importante que as pessoas professem uma crença religiosa?

Sim, creio que é pertinente quando isto torna a pessoa um ser humano melhor. E quando a crença não se transforma em motivo para que conflitos sejam fomentados.

Você prefere a certeza ou o risco?

Depende do contexto. Eu não gosto de ter certeza das coisas porque o mistério é, por vezes, instigante, porém não suporto lidar com coisas arriscadas. Correr riscos nunca foi meu forte – tenho muito medo do que é novo e tenho medo de surpresas!

Explique esta ideia que você expôs em um dos seus textos: “Baratas gordas existem em algum escuro que não posso perscrutar – e como são completas! Nascem para fins específicos sem que haja necessidade de problematizações”.

Elke Maravilha disse algo parecido numa entrevista. Ela comentava que o ser humano, diferente dos demais animais que já nasciam sabendo sua finalidade, precisa descobrir, às vezes durante a vida inteira, a que veio. Do meu ponto de vista, nós humanos somos realmente limitados neste sentido, ao mesmo tempo em que, por pensarmos sobre nossas limitações, somos de fato muito mais complexos que os animais e, por isto, mais fascinantes!

O que é a vida?

Gosto do que disse Clara Charf numa entrevista: “Eu acho que é tudo o que pulsa, tudo o que você pode realizar, construir, fazer... Vida é isso! Uma pessoa que não faz nada, que não participa de nada, que fica só se queixando, ou então, sei lá, amargurada, porque não tem isso ou aquilo, acho que não vive, porque vida, para mim, é luta!” Mas eu digo, ainda: a vida é algo inexplicável e a gente tem que fazer com que ela tenha sentido!

A vida é uma causa perdida?

Por vezes, sou instigado a dizer, porque tenho alma que se pretende realista demais, que a vida é um caos, um horror! Eu repensei muito esta minha percepção e tenho tentado considerar o seguinte: a vida é um momento compreendido entre o nascer e o morrer e, de certo modo, temos que dar significado, ou sentido, a este momento. Por este ângulo, a vida ainda não é uma causa perdida, pois temos muitos sentidos e significados a atribuir a ela.

A felicidade é uma causa velha?

Gosto do conceito de felicidade que Clóvis de Barros Filho propõe: felicidade seria, para ele, algo que a gente vive e não quer que acabe nunca. Desde que nasci, eu tive, pela primeira vez, um encontro definitivo com a felicidade: passei dois anos e alguns meses fazendo o que mais amo na vida – estudar. A felicidade acabou, infelizmente, quando o curso foi concluído, mas eu pude dizer que fui feliz e, com isto, constatei que a felicidade ainda pode acontecer, embora seja rara e passageira.

Na irônica e crítica crônica intitulada “A felicidade de ser professor no Brasil”, você afirmou: “Num país em que Professores são tratados com desdém, humilhação, violência, descaso e desrespeito [...], ser Professor parece incongruência e masoquismo: por quanto tempo cursos de licenciatura ainda terão público?”. Comente:

Eu me tornei professor por vocação – escolhi a profissão antes de estar no Ensino Médio. Agora, na minha concepção, o problema da educação neste país é um projeto arquitetado ardilosamente pelos malditos poderosos que se dizem políticos: quanto menos o povo tiver acesso ao conhecimento, mais alienado, retrógrado, abobalhado e infeliz será o povo e, consequentemente, mais fácil de manipular. Ser professor é um grande acontecimento em minha vida, não me imagino em outra profissão, porque de fato amo o que faço, no entanto não considero que seja viável olhar para o que temos com cegueira e conformismo. Algo precisa ser feito e eu, sinceramente, não sei o que é, porque um professor sozinho nada faz e os profissionais da área tendem a ser pouco organizados e, muitas vezes, acomodados e acríticos demais. Eu tento fazer a diferença na minha área – tenho conseguido alguns momentos de alívio na dor.

Qual foi sua grande frustração nesta vida?

Não ter nascido numa família bem estruturada que representasse apoio e segurança.

O que mais pesa em sua cabeça: as dores ou as recordações?

Tenho uma memória absurdamente intensa – e isto é uma dádiva, porque eu sou aquilo que minha memória conseguiu resguardar de bom ou de ruim ao longo de minha vida. O problema é que recordações vêm à tona com muita facilidade e, inevitavelmente, isto representa dor. Há alguns dias vivi algo muito grave em termos de memória: 1) nem sempre o que ela insiste em mostrar corresponde, de fato, à realidade, ela pode superdimensionar as coisas e nos enganar, 2) a memória pode nos trazer alegrias inexplicáveis, pois guardei uma melodia por quase vinte anos e, por tê-la resguardado com afinco, foi possível reencontrá-la por meio de uma pesquisa.

O que você quis dizer com a seguinte frase: “Estou num lugar que não é meu, num tempo que não é meu, num mundo que não é meu”.  Em que época você queria ter vivido?

Não sei explicar muito bem, mas não me sinto pertencente ao lugar em que vivo, embora eu me sinta rico por ser nordestino; não me sinto identificado com o tempo em que vivo, embora eu reconheça as facilidades tecnológicas de que dispomos; não me sinto parte do mundo, porque o vejo por um prisma do realismo demais: os seres humanos, e eu me incluo, são capazes de tantas monstruosidades que eu, em verdade, por pura vergonha, gostaria de não ser parte dele e...

Você se considera politizado?

Não no que diz respeito a concepções partidárias e coisa e tal. Sou politizado porque estudo política, porque penso a condição da minha cidade, estado e país... Porque analiso as práticas governamentais e sou capaz de apontar falhas e propor ideias que amenizariam o caos... Sim, penso politicamente... Sou capaz de agir politicamente.

Há esperança para o mundo?

Queria que sim, mas...

E para o Brasil?

Só quando o povo brasileiro for capaz de condenar a corrupção dos políticos e, também, for capaz de excluir de si as pequenas e grandes corrupções diárias. Quando o povo, além disso, buscar intelectualizar-se e tiver capacidade de reivindicar seus direitos ao contrário de ficar, como teria cantado Raul Seixas, “com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”.

Remetendo-se à política nacional, em texto contundente e, por vezes, irônico, você apresentou a seguinte assertiva: “E Enquanto biltres se ocupam em destruir – ratos que são – o país, eu me impressiono com a minha própria condição. Fixo um ponto na parede e deixo o mundo girar sem mim”.

Eu disse que fixo um ponto e deixo o mundo girar sem mim, mas não é verdade. Eu me envolvo com questões políticas a ponto de adoecer – evito jornais, porque sou capaz de perder, literalmente, o sono quando vejo certas notícias. Quanto ao que disse sobre os políticos, isto é o de menos que eles são. Eu os chamo de ratos, mas com todo respeito aos ratos. Estamos perdidos, sobretudo no momento atual, com a gentalha de baixa índole que, por meio de um golpe, dita as regras e destrói o país cinicamente.

Numa das suas assertivas mais amargas, você diz que a população brasileira, fortemente hipócrita, costuma “cantar o Hino nos jogos da copa do mundo e em cerimônias obsoletas, ilusórias e acríticas que são realizadas sempre na semana da pátria”. Qual é o seu problema com o Hino Nacional?

Eu aprendi a cantar o Hino Nacional na escola – e o reforcei na época do serviço militar. Eu não consigo cantar o Hino, eu não o suporto, não o tolero... Não sei se tem a ver com tristeza e decepção com o país, se tem a ver com a raiva que tenho de só ver a população cantá-lo por ocasião da copa do mundo... Talvez tenha a ver, ainda, com o fato de que me traz lembranças dolorosas demais: o Hino me lembra uma infância triste, uma adolescência dolorida... Eu cantei o Hino na escola, toquei o Hino na fanfarra, cantei o Hino no Tiro de Guerra... Não o posso ouvir e cantar nunca mais!

Você escreveu, certa vez: “No meu serviço militar, dentro de coturno e fardamento, fui instigado a crer na pátria como algo de imenso valor e que eu deveria, com o sacrifício da vida, preservá-la, no entanto...” As reticências remetem a algo que não foi dito – o que é este algo?

Tudo neste país é contraditório... Quando a gente canta o Hino da Independência que, devo ressaltar, me comove profundamente (ele me faz lembrar uma professora que tive: ela se atirou da janela de um hospital psiquiátrico), nós cantamos o refrão como se fôssemos capazes de morrer para salvar a pátria de inimigos externos que tivessem a ousadia de vir desrespeitar e espoliar a nação, mas o inimigo da nação, em verdade, está aqui fazendo coisa pior e ninguém faz nada! Como mentem os brasileiros que cantam este verso: “Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil!”

Você tem humor?

Sim, eu rio muito facilmente das coisas... E de mim mesmo.  

Você já deu vexame?

Milhões de vezes.

Qual foi a maior imprudência da sua vida?

Lembrei-me de uma frase de Dercy Gonçalves: “Nada foi alegre, nada foi triste: foi vida!” Faz parte da vida e suas aprendizagens ser um tanto imprudente – mas evito ser.

Em crônica, você diz: “As pessoas temem a solidão – palavra mais linda da língua portuguesa, para mim –, porque a solidão tem peso de chumbo”. Você realmente considera esta a palavra “mais linda” da nossa língua? E a solidão tem peso de chumbo por quê?

A solidão, para mim, é a mais linda das palavras, sem dúvidas, e a mais indispensável das sensações e o mais indispensável dos estados. A solidão pesa, porque nem todo mundo é capaz de acorrer a ela, ou aceitá-la como algo positivo. Estar com pessoas é valioso também, claro, porém a solidão é condição sine qua non para quem deseja produzir, autoconhecer-se, encontrar-se com a espiritualidade...

Alguém perguntou se você já amou e sua resposta foi: “Se amei ou amo [...], a quem direciono tal amor? Isto não importa, pois dizer que amo alguém não trará este alguém para mim. E amar é totalmente contrário ao ato de exposição – ao menos no meu caso –, porque sou avesso a declarações mais explícitas. E costumo dizer, contrariando visões mais telenovelísticas, que a confissão de amor é uma falha sem precedentes numa relação afetiva. O amor deve ser expresso, mas não com palavras. Confessar a alguém o amor sentido é um risco desnecessário – o que é mistério instiga”. São muitas afirmações contundentes sobre o amor em um parágrafo só, não acha? Você pode comentar o que, de fato, está por trás dessas afirmações?

Realmente, são declarações incisivas sobre o amor. Eu continuo pensando dessa forma e continuo sem conseguir dizer, ao certo, se amei alguém. Sobre o tema, gosto do que Katherine Mansfield diz no texto O canário: “Talvez não importe muito que coisa amamos nesta vida. Mas devemos amar alguma coisa”. Isto contraria o trecho de O Quinze, de Rachel de Queiroz, que norteou, nesta perspectiva, minha vida desde sempre: “Ora o amor!... Essa história de amor, absoluto e incoerente, é muito difícil de achar... eu, pelo menos, nunca o vi... o que vejo, por aí, é um instinto de aproximação muito obscuro e tímido, a que a gente obedece conforme as conveniências...”

Em que você se considera melhor que os outros?

Em nada. Cada vez mais, tenho percebido que não sou aquilo que eu deveria e poderia ser. Estou longe de ser melhor em algo...

Em que você se considera pior que os outros?

Sou medroso demais!

Em seu memorial sobre como adquiriu o hábito da leitura, você afirma o seguinte: “A minha professora da primeira série foi, sem dúvidas, uma grande influência que tive para tornar-me um leitor, tendo em vista que em casa não havia estímulo. Minha infância foi totalmente diferente da infância de crianças comuns: eu era muito isolado, passava o dia a desenhar, criar narrativas, tinha poucas amizades e muito medo de sair de casa”.

Em verdade, o desejo de ler nasceu sem que ninguém me estimulasse diretamente, pelo que me lembro. Não só a minha primeira professora, mas todas elas contribuíram com a minha formação, sim, porque não tive estímulo em casa... Desde sempre, quando criança, eu fui muito atento ao que as pessoas falavam. Eu amava escutar histórias...  

Qual a manifestação de Arte que você prefere?

Literatura, cinema e música – mas todas as outras áreas me são instigantes.

Por qual personagem da Literatura você sente maior admiração?

São tantas, em verdade. Vou dizer três mulheres e três homens: 1) Maria Moura, de Rachel de Queiroz; 2) Emma Bovary, de Gustave Flaubert; 3) Úrsula, de Gabriel García Márquez; 1) Aliocha, de Fiódor Dostoiévski; 2) Frédéric Moreau, de Gustave Flaubert; 3) Nando, de Antonio Callado.  

E da História?

Francesco d’Assisi, Gandhi...  

O que você lê atualmente?

Tropicália: a história de uma revolução musical, de Carlos Calado.

Cite um autor de que você gosta muito:

Impossível citar um...

Qual o grande autor que você ainda não descobriu?

Camus, Balzac e Lúcio Cardoso...

Que obra literária vem à sua mente sempre que alguém pergunta sobre qual é sua obra preferida? 

Memorial de Maria Moura, Madame Bovary, Cem anos de solidão, Os irmãos Karamazov, A educação sentimental, Quarup, A hora da estrela, Verão no aquário, Romanceiro cigano, O Quinze...

Que obra você leu – se é que conseguiu finalizar a leitura – e que você não suporta e não recomenda ao pior inimigo?

Farda, fardão, camisola de dormir, de Jorge Amado.

Você teceu um comentário incisivo em certo texto: “Preconceito acadêmico é uma lástima – antes de tecer qualquer crítica contra um autor e sua obra faz-se necessário conhecê-los”. É preciso ler autores como Paulo Coelho para confirmar o quanto de fato ele é ruim?

Sem dúvidas. Não é possível criticar um autor sem ter condições de apontar em que aspectos ele falha. O preconceito acadêmico é complicado, pois se dizem que uma obra é ruim, pela lógica, o aluno deveria ler a obra considerada ruim para tirar suas próprias conclusões – e isto não ocorre. Alunos de graduação aceitam, conformados, o pensamento dos professores. Se um texto for ruim ou bom, que a leitura seja o meio através do qual essa constatação se estabeleça. Criticar algo sem ler, do meu ponto de vista, é catastrófico – e patético!   

Qual é o maior trabalho musical do Brasil?

A história do Nordeste (1954), de Luiz Gonzaga; Tropicália ou Panis et circensis (1968), de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Tom Zé, Gal Costa e Nara Leão; Acabou chorare (1972), dos Novos Baianos; e A mulher do fim do mundo (2015), de Elza Soares!

Qual a maior cantora e o maior cantor?

Elza Soares e Luiz Gonzaga.

Ao remeter-se ao cantor Luiz Gonzaga, em comentário sobre sua morte, você disse: “Se um dia o país em que vivo tiver que renegar seus grandes artistas, eu lamentaria muito porque sei que muitos artistas vivos e mortos não mereceriam tal condição, mas eu talvez, dependendo da circunstância, o perdoasse. Mas um há que eu não admitiria ser, em hipótese alguma, renegado: Luiz Gonzaga”. Por que um comentário tão generalizante e apaixonado?

Luiz Gonzaga traz à tona a única coisa de que me orgulho neste país: o Nordeste. O Nordeste é de uma riqueza cultural e de uma força de sobrevivência que não podem ser mensuradas. A história desse país em que nasci mostra, com facilidade, o quanto o Nordeste contribuiu em seus vários aspectos. Luiz Gonzaga, com sua voz e lirismo, construiu um projeto muito bem articulado e fez o Nordeste ser visto para além dos estereótipos...

Qual é o maior equívoco que as pessoas poderiam cometer ao falar sobre você?

Algumas pessoas me veem como alguém que detém muita inteligência e coisa e tal – isto não é verdade. Se há inteligência em mim, tem a ver com a visão perspicaz que me diz diariamente o quanto preciso ampliar meus conhecimentos e mudar meu comportamento que, por vezes, é complicado.

Você se indagou: “De onde me vem este desejo absurdo de chorar sem conseguir nunca?” Você não chora? Por quê?

Quando criança, segundo minha mãe, eu chorava muito e por tudo. Certo dia, cansada de me ver chorar, minha mãe me trancou no banheiro e me deixou lá até eu parar de chorar... Ela conseguiu alcançar seu objetivo. Eu choro apenas por estar comovido, e isto só acontece se eu estiver sozinho.

Diga algo que, se você tivesse tido oportunidade, você teria dito, mas que até então você, por vários motivos, não pôde dizer:

“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos, pela primeira vez, um olhar inteligente sobre nós mesmos”. (Marguerite Yourcenar)

OBS.: Perguntas elaboradas pelo autor do Blog a partir das entrevistas realizadas por Antônio Abujamra, do programa de entrevistas "Provocações", da TV Cultura, em 26/09/13, e retomado em 23/09/2017.