sábado, 29 de janeiro de 2022

CONTO: "UMA AMIZADE SINCERA", DE CLARICE LISPECTOR

 


Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.

Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados – mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.

Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes.

Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.

Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto – eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.

Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.

Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.

Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco. Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.

Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.

Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.

Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.

É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade – posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.

Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.

Encerrada a questão com a Prefeitura – seja dito de passagem, com vitória nossa – continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.

Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.

A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

(Clarice Lispector)[1]



[1] LISPECTOR, Clarice. Uma amizade sincera. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

CONTO: "O CANÁRIO", DE KATHERINE MANSFIELD

 


... Você vê aquele grande prego à direita da porta da frente? Dificilmente olho para ele, mesmo agora, e até hoje não tive vontade de arrancá-lo. Gostaria de pensar que ele fosse permanecer ali, mesmo depois de mim. Às vezes imagino as pessoas no futuro a dizerem: "Deve ter havido uma gaiola pendurada ali." E isso conforta-me; sinto que ele não está inteiramente esquecido.

... Você não pode avaliar como era maravilhoso o seu canto: não cantava como os outros canários. E isto não é apenas fantasia minha. De minha janela, eu costumava ver as pessoas pararem em frente ao portão, para ouvir melhor, ou encostarem-se na cerca perto da falsa-laranjeira, um bocado de tempo, emocionadas. Suponho que você vá achar isso um absurdo — não acharia se o tivesse ouvido cantar —, mas parecia, realmente, que ele cantava as canções completas, com começo e fim.

... Por exemplo: à tarde, quando eu terminava o serviço, mudava de blusa e trazia minha costura para a varanda, ele costumava pular de um poleiro para o outro, bater contra as grades da gaiola, como se fosse para atrair minha atenção, bebia um gole d'água, tal como o faria um cantor, e punha-se a executar uma canção tão afinada que eu tinha de largar a agulha para ouvi-lo. Não sou capaz de descrevê-lo; bem que gostaria. Era sempre igual, toda tarde, e eu sentia que compreendia cada nota emitida.

... Eu o amava. Como eu o amava! Talvez não importe muito que coisa amamos neste mundo. Mas devemos amar alguma coisa. É claro, eu tinha minha casinha e o jardim, mas, por algumas razões, não era o bastante. Flores são maravilhosas, mas não sabem demonstrar simpatia. Naquela ocasião eu amava a estrela d’alva. Isto lhe parece uma tolice? Eu tinha o costume de ir para o jardim, depois do pôr do sol, e esperá-la até que brilhasse por cima do eucalipto escuro. Eu costumava murmurar: "Aí está você, minha querida". E exatamente nesse instante ela parecia brilhar só para mim. Ela parecia compreender isso... alguma coisa que é como um anseio, mas não é um anseio. Ou lamento — sim, é mais parecido com lamento. E, no entanto, lamento por quê? Eu tenho tantos motivos para ser grata!

... Mas depois que ele entrou em minha vida, esqueci a estrela d’alva; não precisei mais dela. Mas foi estranho. Quando o chinês chegou à minha porta vendendo pássaros, ele, em sua pequena gaiola, em vez de se debater contra as grades, como aqueles pobres pintassilgos, soltou um trinado fraco e curto, e eu me vi dizendo, como havia dito para a estrela por cima do eucalipto: "Aí está você, meu querido". Desde aquele momento, ele foi meu.

... Até hoje me surpreendo, quando me lembro de como ele e eu partilhávamos nossas vidas. Na hora em que eu descia, pela manhã, e retirava a toalha que cobria sua gaiola, ele saudava-me com uma notinha sonolenta. Sentia que ele queria dizer: "Tia! Tia!" Então, pendurava a gaiola no prego do lado de fora, enquanto servia o café aos meus três rapazes, e nunca o levava de volta para dentro enquanto não tínhamos a casa só para nós dois. Depois, enquanto eu lavava a louça, era uma diversão completa. Eu abria um jornal sobre um canto da mesa e, logo depois que eu punha a gaiola sobre o jornal, ele costumava bater as asas desesperadamente, como se não soubesse o que ia acontecer. "Você é um perfeito ator", eu gostava de dizer-lhe com ar de zangada. Eu raspava o fundo da gaiola, espalhava areia em cima, renovava a água e o alpiste das latinhas, espetava um pedaço de couve e meia pimenta malagueta na grade. Tenho plena certeza de que ele compreendia e apreciava cada item dessa pequena operação. Sabe, ele era por natureza muito asseado. Nunca havia uma sujeira em seu poleiro. E era preciso ver como gostava de se banhar, para se perceber que ele tinha verdadeira paixão por limpeza. Sua banheira era colocada por último; no mesmo instante ele pulava nela. Primeiro batia uma asa, depois a outra; então, mergulhava a cabeça e umedecia as penas do peito. Gotas d'água espalhavam-se por toda a cozinha, mas ele ainda não queria parar. Eu costumava dizer-lhe: "Agora basta. Você está apenas se exibindo”. E por fim ele pulava para fora e, de pé sobre uma das pernas, começava a se bicar para enxugar-se. Finalmente sacudia-se, dava uma pirueta, um gorjeio, levantava a cabeça e... Ah! como dói lembrar. Nessa hora eu estava sempre enxugando as facas e quase me convencia de que elas também cantavam quando eu as esfregava para brilharem em cima da tábua.

... Companhia! É isso, veja, isso é o que ele era. Uma companhia perfeita. Se você algum dia viveu só, compreenderá o quanto isto é precioso. É verdade que havia meus três rapazes, que chegavam para o jantar todas as tardes e algumas vezes ficavam na sala, lendo o jornal. Mas eu não podia esperar que eles se interessassem pelas pequenas coisas corriqueiras do meu dia a dia. Por que se interessariam? Eu nada era para eles. Na verdade, eu os ouvira certa vez na escada referindo-se a mim como "O espantalho". Não importa. Não tem importância. Eu entendo muito bem. Eles são jovens. Por que haveria eu de ficar ressentida? Mas lembro-me de me sentir grata por não estar inteiramente só, naquela noite. Eu lhe disse, depois que os rapazes tinham ido embora. Eu lhe disse: "Você sabe de que nome eles chamam a Tia?" E ele deixou cair a cabeça para um lado e olhou-me com seu olhinho brilhante até que eu não pude conter o riso. Aquilo pareceu diverti-lo.

... Você já criou pássaros? Se não, tudo isto vai talvez parecer-lhe exagerado. As pessoas têm ideia de que os pássaros são seres sem coração, pequenas criaturas frias, ao contrário de cães e gatos. Minha lavadeira costumava dizer, nas segundas-feiras, quando queria saber por que eu não criava "um bonito fox-terrier": "Ter um canário não traz conforto, senhora". Não é verdade. É um grande engano. Lembro-me de uma noite. Eu tinha tido um sonho horrível — os sonhos podem ser muito cruéis — do qual, mesmo depois de acordada, não podia livrar-me. Então, vesti minha camisola e desci à cozinha, para tomar um copo d'água. Era uma noite de inverno e chovia forte. Acho que eu estava ainda meio adormecida. Pela janela da cozinha, que não tinha veneziana, a escuridão parecia estar olhando fixamente para dentro, espionando. E de repente senti que era insuportável não ter alguém a quem pudesse dizer: "Tive um sonho tão horrível" — ou "Defenda-me da escuridão". Até mesmo cobri meu rosto, por um momento. Então veio o agradável som "Psiu! Psiu!" A gaiola estava em cima da mesa, e o pano que a cobria havia escorregado, deixando uma fenda, por onde entrava um raio de luz. "Psiu, psiu!" — disse o encantador bichinho outra vez, docemente, como para dizer "Estou aqui, Tia! Estou aqui!" Aquilo soou tão agradável e confortante para mim, que quase chorei.

... E agora ele se foi. Nunca mais terei um outro pássaro, nem qualquer outro animal de estimação. Como poderia ter? Quando o encontrei, deitado de costas, os olhos turvos, as patinhas retorcidas, quando percebi que nunca mais ouviria seu canto tão querido, alguma coisa pareceu morrer em mim. Meu coração ficou vazio, como se fosse a gaiola dele. Eu hei de superar isso. É claro. Preciso fazê-lo. Com o tempo as pessoas se recuperam de qualquer coisa. Dizem que eu sempre estou bem-disposta, e têm razão. Graças a Deus, estou.

... Contudo, sem ser mórbida e mexendo nas lembranças, devo confessar que vejo nisto alguma coisa de triste na vida. Não me refiro à tristeza que todos nós conhecemos, como a doença, a pobreza e a morte. Não, é algo diferente. É lá no fundo, bem no fundo, faz parte da gente, como a respiração. Por mais que trabalhe, por mais que me canse, basta parar para sentir que essa coisa está lá, esperando. Muitas vezes eu me pergunto se todo mundo sente do mesmo jeito. Nunca se pode saber. Mas não é extraordinário que dentro de seu canto alegre, doce, tudo o que eu ouvia era: tristeza? ah, o que é isto?

 

(Katherine Mansfield)[1]



[1] MANSFIELD, Katherine. Felicidade e outros contos. Tradução de Julieta Cupertino. Rio de Janeiro: 2008. 

FOLHETO DE CORDEL: "A PUNIÇÃO DO PADRE BELO"


 
Sei que muito tempo faz

que se passou esta trama:

uma punição mordaz,

enredo de melodrama,

fez o Padre aí do título

viver o triste capítulo

que logo mais se derrama.

 

Era o Padre do Rosário

da batina um prisioneiro.

Um jovem que foi ricaço

e esqueceu todo o dinheiro

para servir ao Senhor,

o grande Deus criador,

a quem amou por inteiro.

 

Padre se tornou um dia

por amor à vocação.

Viver Deus, com alegria,

fez pulsar seu coração.

Da família se afastou

e do mundo se ocultou:

apegou-se à solidão.

 

Sofreu toda dor possível

em seu seminário austero.

No estudo era incrível

dizia: “Estudar eu quero

para Padre me tornar,

vou a salvação pregar

com amor ao ministério!”

 

Em seguida à ordenação,

tornou-se logo o vigário

d’uma gente de oração

na igrejinha do Rosário.

Era muito inteligente,

um homem de pura mente,

mas também um solitário.

 

Tão sério e tão belo era,

de cabelo muito preto.

Tinha olhar de quem espera

o poder do Deus perfeito.

Toda a paróquia o adorava,

tanta gente o admirava:

ele era sem defeito.

 

Porém dentro da batina,

batina frígida e escura,

sentia a dor mais ferina:

“Na vida, quanta amargura!”

Em seu íntimo trazia,

que fraqueza e covardia,

por mulher, viva loucura!

 

Por nome José Maria,

mas chamado Padre Belo,

pela grande simpatia

e pelo rosto singelo,

segredos trazia na mente:

um fogo intenso, fervente,

que inundaria um castelo.

 

Com olhar de azul bem forte,

era de rosto alongado.

Elegante e de bom porte,

tinha sido desenhado.

Apesar da pouca idade,

mostrava maturidade

em seu jeito ensimesmado.

 

Ficava de dia na igreja,

mas à noite solitário.

Se dormia como quem beija

a cruz de pé no calvário,

em seus sonhos só luxúria

serpenteava-lhe com fúria:

como sofria o vigário!

 

Certa noite aconteceu

missa de sétimo dia:

um fazendeiro morreu,

homem ruim e que fazia

o mal a todo cristão,

um monstro sem coração

que de maldade vivia.

 

O Padre Belo rezou

desse fazendeiro a missa

e nos bancos avistou

a perfeição que enfeitiça.

Se viu confuso e sem norte,

parecia até que a morte

tinha por ele cobiça.

 

A mulher muito arrumada,

com grande busto a exibir,

mostrava-se preparada

para de amor explodir.

O Padre santo e castíssimo

pressentiu do inferno o abismo

 e aspirou nele cair.

 

Com cabelos cacheados

caídos nos ombros finos,

com olhos esverdeados

em seu rosto feminino:

“Que beleza de mulher!”

Disse o serviçal da fé

com desejo mais ferino.

 

Quando a missa terminou,

o Padre ficou sabendo:

a mulher que tanto olhou

muito estava lá sofrendo.

Era a tristonha Viúva

com olhar a verter chuva

feito nuvem derretendo.

 

Imaginou-se lamber

da Viúva todo o pranto

e, ao lado dela, fazer:

do mundo, lascivo canto;

do amor, um impuro ninho;

da paz, imoral caminho;

da vida, prazer e encanto...

 

Sentiu-se tão pecador,

sem serventia para a fé.

Como sentir tal ardor

por um corpo de mulher?

Ele, guardião do templo,

e do povo o grande exemplo,

viu a culpa o corroer.

 

O problema só piorou

e, de forma assustadora,

quando a Viúva falou:

“Seu Padre, sou pecadora!

Sempre traí meu marido...

Ele morreu tão sofrido,

sou serpente tentadora!”

 

Revirou a mente dele

a tal confissão ouvida.

Tinha chance, agora, ele

para fazer da sua vida

uma perdição completa,

uma loucura repleta,

tinha a alma revolvida.

 

“Dona Clara, eu também

sou mais que vil pecador.

Digo-lhe, agora, um amém

ao que hoje me contou.

Sinto o fogo em mim arder

desde que avistei você.

Estou vivendo um horror!”

 

A Viúva bem depressa

entrou no confessionário.

Deu um beijo sem conversa

e despiu logo o vigário.

A virgindade perdeu,

o Padre santo de Deus,

dando as costas ao sacrário.  

 

E assim o Padre, qual louco,

perdeu-se nessa aventura.

A bela Viúva, em pouco,

aumentou sua cintura.

A cidade percebeu

e a conversa se estendeu

com muita descompostura.

 

Mas ninguém ia saber

quem era o pai do menino

se não fosse o povo ver

a Viúva e o tão divino

Padre Belo do Rosário,

dentro do confessionário,

com agarro clandestino.

 

Houve tão grande alarido,

o povo se apavorou.

A Viúva sem vestido,

que o bom Padre retirou,

quase morreu de vergonha

e, com cara mais bisonha,

uma porta procurou.

 

Ficou só o Padre nu,

sem batina e sem calção,

branco, quase cor azul,

se cobrindo só co’a mão.

Foi inútil se esconder,

porque o povo ousou dizer:

“Mas que Padre do corpão!”

 

Da cidade, bem depressa,

a Viúva se mandou.

O povo toda repulsa

pela Viúva expressou.

Era a serpente corrupta

que destruiu, mais abrupta,

do Padre a pureza e o ardor.

 

Pensaram em mil torturas,

na reunião levantada:

fogueira, pedrada, surra,

denúncia foi aventada.

Tão-somente o Sacristão,

com gritos e comoção,

fez-lhe defesa apressada:

 

“Minha cidade querida,

me escute, por seu favor:

não podemos tirar vida

do Padre Belo — que horror!

O melhor é repensar,

uma estratégia criar:

quem aqui nunca pecou?”

 

Depois de muita conversa,

a cidade decidiu

que, apesar da ação perversa,

na qual o Padre caiu,

morrer não era remédio

ele curaria o tédio

do povo qu’ele feriu...

 

Ele não iria morrer,

mas seria aprisionado.

Além de missa e afazer

que o deixavam fatigado,

Padre Belo suportou

punição que o devastou:

ao sexo foi condenado!

 

O Padre Belo entraria

no seu frio confessionário,

dia e noite, noite e dia,

sempre mais, pobre vigário.

Homens, mulheres e moças,

as multidões iguais moscas,

queriam provar do vigário.

 

O Sacristão defendeu

o Padre Belo contra o mundo,

mas foi quem mais acendeu  

desejo intenso e profundo.

Cobiçava o Padre Belo,

com seu fogo e olhar singelo,

dentro dele bem no fundo.

 

O Padre Belo sofreu

uma triste punição.

Ele dava ao povo seu

de seu fogo um bom tostão.

Se o Padreco recusasse,

ele então se preparasse

e enfrentasse a multidão.

 

Assim se deu a história

do Padre do fogo quente

que perdeu sua fama e glória,

a vida santa e inocente,  

e entregou-se à chantagem

sem poder fazer viagem

dando o corpo à toda gente. 

 

Émerson Cardoso

(30.05.2008 / 01.11.2021)


CARDOSO, Émerson. A Punição do Padre Belo. Fortaleza: Tipografia Padre Cícero, 2022.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

DESPEDIDA DA SÉRIE "POSE"


Pose tem três temporadas. Série transmitida entre junho de 2018 e junho de 2021, foi a que mais trouxe no elenco pessoas trans dando-lhes protagonismo. Ela trouxe profunda reflexão sobre vida, morte, superação, amizade e tantos outros temas.

Pose trouxe personagens de sensibilidade transbordante. Dificilmente Blanca será esquecida em sua capacidade de acreditar nos outros e em si mesma, Elektra em sua elegância arrogante e Angel em sua beleza ingênua. 

Mesmo diante de personagens que aparentam encerrar em si o pior do caráter, ainda elas trazem perspectivas valiosas para a reflexão sobre o que é ser e estar no mundo quando tudo lhes é negado. As pessoas tendem a criar mecanismos de defesa, porque a vida nem sempre lhes possibilita riso e festa.

Essas personagens, no entanto, têm os bailes. Neles, é possível brilhar, ter aceitação e construir vínculos. Blanca, Elektra e outras mães representam lideranças das casas que se tornam abrigos para pessoas excluídas socialmente.

Assim, surgem figuras singulares para construírem o dinamismo da série: Candy, Lulu, Papi, Damon, Ricky, Judy, Lemar e o grande Pray Tell. Todas podem agir bem ou mal, pois o que está em jogo na vida delas é transformar abandono em forças para sobreviver ao caos do mundo.  

Se me perguntassem qual o tema principal da série, eu diria que é solidariedade (que é personificada pela personagem Blanca Evangelista). A solidariedade se manifesta de várias formas, porque ela apresenta um panorama histórico que compreende as décadas de 1980 e 1990 (inicia em 1986 e termina em 1998). Com isso, ela aponta para um tema tão complexo quanto doloroso: os primeiros casos de AIDS e o preconceito que essa doença trouxe como consequência. Além disso, ela traz a resistência e a luta para se discutir e construir espaços na política da vida contra um vírus que representou, por muito tempo, dor, abandono e morte.

Resiliência, portanto, é um tema a ser considerado nessa série. Crer no potencial do outro, e ver o que de melhor pode ser apreendido no convívio, dá a tônica nessa obra que trata de construir família fora dos padrões e das normas. 

As personagens também são passíveis de erro. Elas conseguem falhar e mesmo assim serem capazes de reconfigurar o mundo no qual estão inseridas. Humanidade tem a ver com acertos e erros, com agir no mundo e aprender enquanto se está em movimento, então Pose acerta nisso.

Foi significativo demais que essa série tenha ficado em pauta, recebido prêmios e despertado a atenção. São tempos de desconstrução, de modo que nela podemos encontrar caminhos diversos para construir novos olhares sobre política, democracia, gênero, sexualidade, homofobia, transfobia, racismo, diversidade etc. 

Algo que me chamou atenção foi o fato de que as personagens vivenciam conflitos,  rivalidades e competitividades entre elas, mas quando o assunto é proteger umas às outras, elas se unem. Elas compreendem que somente dessa maneira poderão resistir em espaço social que se compraz em marginalizá-las. 

Eu assisti comovido a essa série que é o melhor em entretenimento e o melhor em reflexão. Temos tanto a aprender quando a questão é entrar em contato com o que há de beleza e dor nas relações humanas. Assistir Pose, para mim, representou muito em aprendizagens. Que tal assisti-la?

Émerson Cardoso

29/10/2022


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

ANTÍGONA 442 a.C. (PEÇA-FILME-PONTE)

Foto: Divulgação 


Antígona, ensina-me a não calar o gesto, a não guardar a voz, a não fugir da luta. Agora, mergulhei meus pés nas sombras de tua estirpe desventurada. O girar da fortuna, Antígona, nos impele à queda, ou à altivez apesar da tirania que nos deseja arrebatar? Teus entes queridos do pó ao grito, Antígona, quero tuas mãos em meu olhar sem força.

Andrea Beltrão engoliu tua estirpe e a vomitou sobre nós, trágica irmã, com que entrega de corpo e alma! Sabe atriz impelida ao que não é medo, mas intensidade e força? Sabe mulher com olhar despido cuja vida subiu à grandeza inestimável? Sabe um ser humano que traça uma curva entre o existir e o despejar sua arte com sensibilidade para nos ampliar em alegria-dor? 

Antígona, de dentro de Andrea Beltrão percebi teus cabelos, teus olhos e tua boca jamais silente. O corpo de teu irmão, Antígona, em cenário construído no rebrilhar do gesto fez Andrea Beltrão ressuscitá-lo por ti, também matá-lo, para obrigar-te a sepultá-lo mais uma vez. Ela, atriz sem trégua, abriu caminhos para te fazer cumprir o destino em nova batalha. 

Andrea Beltrão desapareceu em cena. Não é ela quem está sob luz e direção. A estirpe de Laio entra e sai de sua voz insone, profunda e complexa. Vozes sobem e descem da atriz, que invoca filhos de Édipo para nos fazer sofrer por eles e por nós mesmos. Adereços, Antígona, ela os utilizou com maestria. Quantas vezes ela reviveu essa história nada simples tão ampla em sensibilidade e violência? 

Antígona, Andrea Beltrão é atriz que nos oferece luz nestes nossos tempos sombrios. Creonte apodreceu nas hamartias colecionadas, enquanto ela nos fez reviver mil personagens assegurada sempre pelo destemor que a perpassa. Com quem ela mais se identifica, dentre as vozes que lhe percorrem? Quando uma atriz se apaga para fazer brotar a Grécia trágica, o que dizer para ser justo no elogio que ela tanto merece? Andrea Beltrão não tem cordas que ousem tolher sua atuação irreprochável. 

Andrea Beltrão, se pudesses me ver, aqui, na plateia, poderias ler as emoções derramadas em meu olhar? Ele diria, o meu olhar, que nosso país se fraterniza com tua existência! Cada palavra tua é imersão e busca, sabes disso? Cada gesto é retorno a um tempo de antigos cabelos, sabes disso? Antígona grita destemida em tuas mãos de precisos gestos, saiba disso!

Antígona, irmã de tristeza e luta, Andrea Beltrão te honrou. Ela te honrou e fez o país reencontrar teus entes queridos com perfeição difícil de mensurar. Vamos construindo pontes, Antígona, tu com tua capacidade de reivindicar, Andrea Beltrão com a natureza tempestuosa que a fez ocupar todos os lugares do palco-tela e eu com minha escrita em busca de algum estilo.

Temos sede de honrar, também, neste momento doloroso, nossos mortos que sucumbiram pelo descaso das tiranias. Não iremos, tenho por certo, não iremos nos calar jamais. A arte abre portas e pede passagem. Esperança.

Émerson Cardoso

25/10/2021



 

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

VIAGEM EM OUTUBRO QUENTE


Isto não é diário de bordo, relato de experiência ou memória. É sobre a tríade da Terra e um gato. Gatos gostam de Terra, como pulam pela própria natureza e miam em busca da mãe. 

Quando alguém viaja também está em busca. Cada um que traga a motivação para a fuga em setembro amargo, ou outubro quente. 

Gatos já nascem prontos. Nada de questões profundas de vida ou morte para ruminar. Humanos à sua volta é que estão perdidos. No tempo de sono demorado para gatos, humanos tecem fotografias. Recortes de momentos ou desenhos na alma? Ambos. Acontece que fotografar é menos pelo aparelho tecnológico e mais pelos sentidos. 

Gatos eriçam a pele quando Redemption song é cantada em noite de lua-não-cheia ao léu? Sobre a lua, os pescadores me garantiram. E era mais uma mentira. O reggae na caixa de som de um homem sentado aos pés de uma palmeira, tendo um balanço ao lado, não foi mentira. Sabe fotografia impossível de realizar? A solidão balançando de um lado para outro em ritmo noturno de mar sem trégua.

Quando ele, o gato, apareceu, era noite e a paisagem fazia festa de mal-estar. Bar amargo, café ciumento e futuro sem bancos de praça. Os gatos já nascem pobres, porém já nascem livres? Humanos nascem de maneiras diversas, mas livres talvez nunca sejam. Mesmo no impulso teimoso de Virgem, na vitalidade cômica de Capricórnio e na pasmaceira bruta de Touro, ser livre é batalha de todo sempre.

Os gatos têm medo do inesperado? Eles percorrem estradas com velocidade e atravessam curvas sem prudência? Gatos só querem miar, porque existem assim. Humanos é que se distraem em busca de. É tão bonito o que escapa ao registro. Virgem conduzindo o mundo. Capricórnio e precipícios superados. Touro, o fixo, colhendo vida no medo que não disfarça. 

Pessoas desconhecidas surgem sempre pelas vidraças. Feliz quem é, nesta vida de ausências? Talvez nem seja triste o olhar cansado dos homens e mulheres ressurgindo urgentes.

Andar com areia nos pés. Tudo sol ou noite em movimento. Passado. Presente. Futuro? A vida com seu jogo de brincar de infâncias pobres. Ela que não contava com a teimosia de três almas de vigor terrestre. Vento no rosto queima, mas ainda é resquício de liberdade. A vida sem resposta. 

O destino tem vontade de rir da gente com barulho e olhar sedento. Para ele, nossa desforra. Dançar e cantar e viver até o corpo ranger agradecido por se alegrar um pouco que seja. 

Houve a anfitriã de leveza e riso, pois Gêmeos pode ser movimento e força. Seria o caso de fugir com o circo para encontrar no mundo o direito de ser o que se é? Desencanto de pedra. Travessia em escombro. Caminhar pela noite. Não sucumbir. 

Depois, o retorno. Estrada sempre com curvas, almoço em paisagem simples, arcanos querendo voar e canções para preencher vazios. Já a rapidez engolia o tempo. 

O gato, depois de ter seus humanos nas mãos, arranjou-se em novas paragens. Ele que não chorou na despedida. A tríade de Terra, às pressas, também teve momentos de adeus. O gato ficando para trás. É que nas despedidas dançam mãos cansadas pedindo chão para repousar. O gato constatando seu lugar ao sol. Alguém cantou Valsa da despedida

Agora, bagagem aos pés. Uma questão filosófica se imprime nas linhas da mão: quantos passeios de vida ainda teremos em outubros quentes?   

Émerson Cardoso

11/10/2021