Tempero de dor
e sal na ferida?
Mas passará logo...
Cratera na estrada
e pedra de ponta?
Mas passará logo...
Velório do sono
em cinzas de faca?
Mas passará logo...
Janela de sangue
em grito engolido?
Mas passará logo.
Émerson Cardoso
26/10/2020
Tempero de dor
e sal na ferida?
Mas passará logo...
Cratera na estrada
e pedra de ponta?
Mas passará logo...
Velório do sono
em cinzas de faca?
Mas passará logo...
Janela de sangue
em grito engolido?
Mas passará logo.
Émerson Cardoso
26/10/2020
Depois, o reencontrei quando passei uma temporada em Fortaleza, entre junho e julho de 2010. Ele estava no Museu do Ceará. Foi a primeira vez que eu falei pessoalmente com ele. Foi a primeira vez que eu entrei no Museu do Ceará.
Lembro-me de que ele estava um tanto apressado, mas meu primo o conhecia e apresentou-nos. Mesmo apressado, ele me deu atenção. Comentei que estava escrevendo uma espécie de Romanceiro que contava em poesia a História de Juazeiro do Norte, minha cidade, que decidi escrever após uma recomendação de Ariano Suassuna (a quem conheci e entrevistei em dezembro de 2009).
Ele me disse, na ocasião, que eu escrevesse esse Romanceiro, sim, e que poderia contar com ele para uma leitura e até para um prefácio. Fiquei irradiante, porque era uma deferência receber esse incentivo de uma personalidade que nós, estudantes e escritores do Cariri, já conhecíamos pela ampla pesquisa acadêmica realizada por ele em torno da Cultura Popular.
Por timidez, não enviei o texto. Lamento até hoje por esse gesto de insegurança literária. Resolvi publicá-lo, para meu grande arrependimento, em 2014. Ele ainda estava incipiente. Se eu o tivesse enviado para apreciação do Professor Gilmar de Carvalho, ele talvez tivesse me dado as orientações necessárias para torná-lo um livro apresentável. Uma pena ter perdido essa oportunidade.
A terceira vez que nos encontramos foi no Passeio Público. Eu almoçava quando o vi chegar acompanhado de um amigo. Pensei em cumprimentá-lo, mas tive receio. Não queria incomodá-lo naquele horário de almoço. Se eu fosse falar com ele, meu gesto poderia ser interpretado como indiscrição. Lembro-me de que, na ocasião, olhei para ele várias vezes, mas não quis, por timidez, falar com ele. Quando eu saí, no entanto, fui até ele e o cumprimentei. Ele foi muito atencioso. Conversamos um pouco e fui embora. Nunca mais o vi pessoalmente.
Quem me apresentou o Professor Gilmar de Carvalho, em verdade, seja pelos textos que produziu, seja pelos depoimentos apresentados, foi João Pedro do Juazeiro. Este cordelista e xilógrafo, cuja obra fala por si em valor e criatividade, apresentou o melhor dessa figura emblemática que eu passei a admirar mais profundamente.
Para João Pedro do Juazeiro, o Professor Gilmar de Carvalho é mentor, padrinho artístico e mestre. Para ele, não seria possível pensar a arte que produz sem compreendê-la a partir da apreciação e incentivo oferecidos por esse grande entusiasta das artes do povo. Lendo os textos de João Pedro do Juazeiro (que escreveu sobre seu mestre cordéis, memórias, relatos de experiência etc.), eu acessei a alma desse pesquisador, jornalista, professor, escritor cuja alma transborda em riqueza de caráter e em generosidade.
Hoje, 30 de agosto de 2022, o Professor Gilmar de Carvalho faria aniversário. É triste pensar que ele, um baluarte da Cultura, da Educação e da Ciência desse país, foi embora. Temos por certo que, em sua ausência, permanecerá seu trabalho e seu exemplo. O Ceará, o Nordeste e o Brasil têm, nessa figura de relevo, um guardião da memória e, tenho por certo, a sua ausência física não o impedirá de fazer por nós o que ele sempre fez: abrir portas e acender luzes para quem a ele estende a mão.
Parabéns, Professor Gilmar de Carvalho!
30. 08. 2022
Já aconteceu de você ficar muito alegre
com algo, a ponto de externar excessivas euforias, e isso incomodar alguém? Comigo
já aconteceu. A pessoa, no auge de seu desconforto, atirou sobre mim o seguinte
ditado popular: “Pobre nunca come e, quando come, se lambuza!”
Quem
me visse naquele momento perceberia meu rosto caindo em nublação. O sol deveria
ter mais força do que uma nuvem amarga, mas nem sempre isso acontece. A vida é
repleta de nuvens entre permanentes ou passageiras que se comprazem em espalhar
obscuridades porque não suportam luzes.
Que
horror!
Hoje,
se alguém atirasse contra minha alegria esse maldito ditado popular, eu teria
resposta daquelas, bem desaforadas, aí eu queria ver uma nublaçãozinha chinfrim me apagar. Você ficou com curiosidade sobre o que eu diria para me defender?
A
uma criatura amarga que desejasse botar gosto ruim em minha alegria, eu diria o
seguinte:
Resposta
01 – Quem ouve você falando assim pode até pensar que você é, foi ou será rico
um dia na vida. Agora, como percebi que você gosta da sabedoria popular, devo
dizer que: “Quem nasce para burro não pode ser cangalha”. Tem mais: há uma
coisa que eu gostaria de saber: quem foi o informante charlatão que disse a
você que me interessa ouvir o som de sua voz irritante e insossa?
Resposta
02 – Gente, olha a sabedoria popular dessa pessoa como está aflorada! O que
foi? Tomou café adoçado com amargura, ou constatou que sua vida insignificante
não tem graça e por isso quis tirar minha alegria?
Resposta
03 – O que foi? Só porque você tem uma existência vazia e sem graça não suporta
ver uma pessoa de bem com a vida? Procura tratamento, cruz pesada! Se não der certo
com psicólogos, procura um exorcista, viu?
Resposta
04 – Sim, pessoa iludida da nação, pobre se lambuza, sim, faz festa, faz o que
quiser, ainda mais quando é uma pessoa tão leve que atrai alegrias para si e
para os outros. Posso fazer um tutorial de como ser alegre para você, viu? Isso
se um dia você decidir deixar de ser chata e estraga-prazeres.
Resposta
05 – Sério mesmo que você (pessoa pobre em nível cinco) se sente no direito de
vomitar uma frase dessas contra mim? Quando você não for mais pobre, ou se
tornar uma pessoa menos invejosa e infeliz, aí conversamos, viu? Vai pelo sol,
hein, quem sabe um dia ele derrete essa nuvem carregada que você tem na cabeça!
Coloquei
apenas cinco respostas quando, em verdade, teria muitas outras. Quando estou
chateado com algo, me torno irônico. Isso massacra algumas pessoas. Um amigo me
disse, outro dia, que minhas ironias, ou meu rebuscamento na hora de brigar,
não parecem muito eficazes. Nem sempre meus arqui-inimigos (que não tenho) entendem
o desaforo que penso atirar contra eles. Talvez esse amigo tenha razão.
Um
meio que utilizo há séculos, quando não gosto de algo ou de alguém, é demonstrar
meu descontentamento com afastamentos, ou mesmo ignorando a presença. Talvez seja
um bom caminho. O bom mesmo, em verdade, é jogar contra os vilões um desaforo
bem articulado e sair de perto, plenamente, depois de ter dito o que se queria
dizer. Mais interessante será, tenho por certo, perceber que o desafeto ficou
para trás com cara de mal-estar na tentativa vã de entender o que foi dito.
Ah!
Quem quiser entender desaforo bem construído que estude.
Émerson Cardoso
15.08.2022
Na crônica Um dia só para chorar (que consta no livro Anjos, buracos, pedras e moinhos), de Betania Moura, ela trata de uma mulher que decidiu não ir ao trabalho para ter um dia só para dedicar-se à arte de chorar. Eu que não choro há séculos, porque se o faço me sinto vulnerável, tive também o meu dia.
A propósito, no "Provocações", Antônio Abujamra costumava perguntar a alguns entrevistados: "Você chora?" A pergunta enveredava, por vezes, para outra questão: a contemplação do belo comove a ponto de levá-lo às lágrimas?
Eu responderia a Abujamra, se ele me perguntasse, que sim. Sim, porque diante das obras "Os retirantes" e "Criança morta", de Portinari, me veio um choro comovido sem explicação e difícil de refrear.
Imagens vistas e revistas nos livros didáticos estavam diante de mim. Líricas e profundas, elas estavam de tal modo aproximadas que todo o choro guardado (seja por perdas, mortes, frustrações e outras dores) transbordou.
Tentei não chorar tanto, afinal estava acompanhado. Acho que não derramaria lágrimas perto de pessoas conhecidas, então aproveitei um momento no qual fiquei sozinho. Falando assim até parece que meu choro foi algo planejado, mas não foi.
O ato de chorar me foi impregnado como vulnerabilidade. Procurei a vida inteira conter a emoção diante de tudo. Não gostaria de ser assim, afinal a vida também dispõe de seus momentos de sofreguidão, passionalidade e afeto transbordantes. Por que não?
Então, sem conseguir segurar o gesto, chorei. Sim, o fiz por amor ao belo presente nas duas obras potentes de Portinari. Pelas tonalidades, pelo expressionismo latente, por ver a temática da seca irromper dessas obras, fui às lágrimas. Com o desejo de ocultar, com medo de que as pessoas vissem, o choro me veio inevitável. Sentimento pode ser represa que explode, como ficou perceptível na ocasião, de forma inevitável. Isso, principalmente, diante do belo.
Bem, depois de Portinari me emocionar profundamente, precisei me recompor para ver outras obras. Estavam lá pinturas de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Lasar Segal, Van Gogh, Goya, Monet, Rafael, dentre outros grandes nomes da pintura. Em êxtase as vislumbrei. Perplexo as acolhi. Se não caí diante delas, foi porque força sequer tive para a queda.
Por fim, ao sair do MASP, onde essas obras estão resguardadas, agradeci à existência pelo privilégio de poder ver a arte no que há de forte e belo. Saí renovado, afinal deixei lá todo o peso de chumbo que só o choro consegue arrefecer. Viver tem disso.
Émerson Cardoso
14.07.2022
RELATO DE VOO EM TEMPO REAL
Depois de um frio no estômago muito semelhante ao frio que sentimos naquele brinquedo inventado pelo demo, a que chamam de "Barca", e que está muito presente em parques, chegamos aos ares.
Esta não foi a minha primeira experiência com aviões. Fui para Recife há algum tempo e dispus meu corpo e alma para essa viagem mais para a loucura do que para a sobriedade. Quem pode considerar lucidez o ato de estar no ar, e por vontade e gosto?
Agora, se me perguntassem o que estou sentindo (escrevo este texto vendo nuvens aos borbotões) durante esse trajeto que a invenção humana me proporcionou, sem que eu pedisse ou estimulasse, porque tenho juízo, eu diria: que absurdo poder voar com máquina tão fácil de cair.
Falar em queda de avião quando se está dentro de um é para os fortes. Sim, porque nada assusta mais um cristão sentado com cintos afivelados (enquanto a vida passa entregue a um piloto e cortando nuvens em velocidade que não saberia dimensionar) do que a possibilidade de ouvir: "Senhores passageiros, pedimos que façam suas orações nas mais diversas crenças, porque o avião vai se esburrachar no chão!"
Estou na poltrona 14 (meu número de sorte). Deveriam estar ao meu lado duas pessoas. Há um rapaz de olhos claros e sapatos marrons, muito do silencioso e disposto a, na janela, ver vídeos da internet (suponho, pois não sou de bisbilhotar, embora o tenha visto assistir cenas de "Pantanal", tik tok, vídeos do Instagram, facebook etc). No meio, há o que poderia ter sido e não foi (deve ter desistido, suponho, aliás desiste de avião quem tem bom-senso). Eu estou na poltrona do corredor. De quando em vez, olho de lado, para ver o nada no qual estamos depositados, mas logo me acovardo e volto para meu texto.
Vou confessar um coisa. Acredita que ao entrar no avião implorei por uma água, que me foi dada minutos eternos depois, e coloquei nela (não me julgue!) umas simpáticas gotas de "Rivotril" 2,5 ml. Claro que fiz de tudo para disfarçar, mas quanto mais se esconde algo, mais isso tende a se explicitar. Viram meu copo e o frasco de remédio na minha mão. Não posso fazer nada! O psiquiatra sugeriu que eu o utilizasse em caso de crise ansiosa. Não vejo ocasião mais propícia para tomá-lo. A primeira gota, tomei "para ter o argumento" (vide "Resposta ao tempo" e entenderá a referência). A segunda, tomei por covardia (achei melhor tomar para não ter crise de falta de ar e dar vexame). A terceira, tomei para conseguir manter os chakras alinhados, porque esses bandidos foram desalinhados ainda no Aeroporto de Juazeiro do Norte, quando uma funcionária da Gol agiu de forma descortês e com pressão psicológica causando desconforto para mim e para outra senhora (ela ouviu algumas respostas coerentes, amáveis e polidas, mas não isentas do meu Marte em Escorpião: uma ferroada só e o problema foi resolvido da melhor forma). Sou tímido e calmo, porém indisposto a faltas de educação. Tive que agir. A quarta, tomei porque a natureza pediu (quando não podemos alterar o rumo das coisas, a existência é assim, recorremos a subterfúgios). A quinta, e última gota (porque com menos do que isso eu não me responsabilizaria por meus atos tresloucados dentro desse presente de grego de asas), tomei porque viver exige coragem, e a minha coragem tem sido roubada de mim desde a infância-angustiante-infância. Assim, o jeito foi arrefecer no orgulho e tomá-lo com resignação. Em verdade, pouco importa o recurso a que acorremos se isso nos leva a algo que nos faria aproveitar melhor as experiências. Se isso não atenta contra a dignidade de ninguém, nem contra a minha, por que não?
Agora, lá vem um rapaz e uma moça mais brancos do que a asa do avião. Estou em dúvida sobre o que tomarei. Queria mesmo era chá calmante (camomila, cidreira, erva doce, alecrim etc.). Na ausência de chá, porque esse povo não sabe o que é o bom da vida, resignado aceitarei um suco (eles servem sucos industrializados, ó céus!).
Parei o texto para esperá-los. Desisti de esperar, uma vez que nessa espera terminei olhando a janela à direita. Deus do céu! Azul e branco por todos os lados, igual ao manto de Nossa Senhora das Dores, padroeira de Juazeiro do Norte. Confesso que me veio a vontade de pedir para ela amenizar o trauma.
Chegou o suco. Acabei de tomar o suco. O salgadinho guardei na mochila. Nunca se sabe da urgência de alimento que ele aplacará futuramente. Como tomei o suco muito rápido (a boca seca de nervosismo), a moça, simpática, me ofereceu mais um copo. Não aceitei. Suco industrializado me causa sensação de culpa. Queria mesmo era uns dez salgadinhos iguais aos que ela distribuiu (taurinos tendem à gula, portanto não me condene).
Voltei ao texto para pensar um pouco sobre o caos de estar nos ares. Sim, por Deus, estou sem qualquer chão que me dê ao menos a falsa segurança de ter para onde correr. Sensação de vazio aos pés, de não ter por quem gritar, de estar definitivamente condenado ao desamparo e ao desabrigo. Bem, isso não me é novidade. Apenas acrescentei a essas sensações amplamente vivenciadas um fato escalafobético: não há terra abaixo ou dos lados. Para chegar a ela, teria que aterrissar ou cair. A segunda opção, sinceramente, não é das mais amigáveis.
Cruzei as pernas e (que horror!) derrubei o copo com resquícios de suco. Detesto coisa doce nas mãos, mas não há água ao alcance. O jeito é me resignar. O suco ousou sujar minha mochila tão bem lavada. Que tragédia não grega em pleno voo, Senhor! O pior foi o olhar condescedente do rapaz ao lado, o que tem olhos claros e sapatos marrons, que além de me olhar na bagunça de derramar o suco, não aceitou o lanche (para me humilhar, por certo, eu que não resisti ao simplório alimento servido e o aceitei com veemência). O pior foi quando guardei o salgadinho na mochila e nossos olhos se encontraram. Eu o olhei para ver se ele estava olhando o que eu iria fazer. Sim, ele estava olhando e eu o olhei no exato momento em que ele estava me olhando. Encontro de olhares. Vergonha barulhenta de um, julgamento silencioso do outro.
Lá vem a dupla de loiros novamente. Eles recolheram copos e guarnadapos. Aproveitei para olhar à direita e vi terra. Ainda distante dos meus pés saudosistas, mas a vislumbrei, sim, com frio no estômago e vontade de fechar os olhos.
O rapaz ao lado se remexeu umas três vezes, igual galinha quando quer pôr adjutórios (é assim que eu chamo "ovo"). Ri sozinho dentro da máscara. Máscaras são salvações pluridimensionais. Se ele soubesse do teor desse texto, hein. Eu estaria ferrado.
À frente, esqueci de dizer, há um rapaz que conheço de vista. Ele anda com os cabelos super assanhados e de óculos escuros. Ele tem sido super amigável com a moça ao lado dele, que tem uma criança que odeia silêncio e está no mundo dos jogos virtuais (com barulhos e mais barulhos) desde que o bendito avião achou por bem virar tuiuiú (quem assiste "Pantanal" entenderá a referência).
Comecei a pensar numa coisa: parece que não tenho mais o que escrever. Mal pensei nisso e o avião começou com a famigerada turbulência amedrontadora de almas mais propensas ao grito. Eu, agora sob efeito de "Rivotril", nada senti. Estou anestesiado. Aí, enquanto escrevia, nos bancos de trás surgiu um casal com discurso do tipo: aqui tem mais espaço, aqui é melhor etc. Melhor mesmo, em verdade, seria estar em terra firme, não acha?
Agora, depois de tudo isso, meus dedos enregelados começaram a doer. Vou ter que parar a escrita. Depois, se a minha compulsão de escrever me incitar, retomarei o texto. Se não, vou me despedindo. Em São Paulo voltarei a conversar sobre essa minha viagem que começa agora, mas já me rendeu aventuras incomensuráveis.
13.07.2022
SÃO PAULO: DE AÇÃO E DE CONCRETO
Quando o avião tocou o solo da primeira cidade que pisei fora do Nordeste, "Wave" (seguida de "Garota de Ipanema") tocava em som instrumental. Bossa Nova para comprovar que ainda se está vivo é de uma sofisticação sem precedentes.
Ao chegar, não foi difícil me perceber envolto em atmosfera de expectativas. Queria encontrar gente amiga, porque cidade corresponde ao nicho de amizades construídas em torno dela.
A alma, ainda confrangida, voltou ao corpo somente quando pisei em terra firme. Tive crise de riso enquanto andava pelos corredores do aeroporto (a máscara me salvou de não parecer lunático?). Insegurança e nervosismo sempre fazem de mim um parque de diversões.
Depois, andei pelas ruas e avenidas, cheguei ao hotel, encontrei a poeta Jovina Benigno (minha conterrânea jovial e espirituosa) e organizei meus pertences no quarto com janela para o cinza de um prédio (cinza é minha cor preferida, hein!).
À noite, com frio agradável, fui ao lançamento do meu livro de contos na "Ria Livraria". Pessoas do mundo virtual se materializaram diante dos olhos.
Conversa vai, riso vem, a noite fria de São Paulo se converteu em acolhida e em realização concreta de um desejo que pensei não ter coragem de realizar.
Estou em São Paulo. Desde que coloquei o pé aqui, Tom Zé canta em meu ouvido "São São Paulo". Na infância, essa cidade era luxo sempre ao alcance dos outros. Na adolescência, era perigo que não me instigava. Hoje, na adultez-não-consolidada, é desafio possível e proposta de alegre fuga.
Impossível não me lembrar de um ponto, ao olhar para São Paulo em sua concretude: acorreram a essa cidade, no passado, tantos conterrâneos meus em busca de melhores dias. A "Nova Califórnia", hoje, mudou de "status". Ela comporta valores, mas já não é riqueza à vista.
São Paulo, devo confessar, assusta à primeira vista. Apesar do susto, ela amplia nosso mundo com seu movimento que não cessa. Aí me questiono: é bonito tudo isso? A pergunta é retórica, porque, sim, há beleza em tudo, basta olhar nas minúcias.
13.07.2022
MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA E PINACOTECA
O "Museu da Língua Portuguesa" dispõe de amplo material audiovisual. Gostei de conhecê-lo, mas não posso dizer que ele me deixou a maior das impressões. Impacto mesmo tive ao entrar na "Pinacoteca".
Após subir degraus, atravessar passadiços e salões, finalmente vivenciei o primeiro impacto da visita: dirigindo-me a uma ponte estava, logo à direita, na parte baixa, a escultura "Musa Impassível", que Brecheret realizou em homenagem a Francisca Júlia. Esta poeta parnasiana, uma das minha preferidas, criou dois sonetos intitulados "Musa Impassível" (este se tornou um epíteto da autora).
Estava à minha direita, aos meus pés, a escultura que sonhava conhecer. Como estava sozinho, recorri a uma moça que realizou algumas fotografias para mim. Ficaram exatamente como eu as queria. Uma delas me apresenta sentado aos pés da "Musa Impassível": bela, lírica e singular.
Em seguida, vivenciei outro impacto: numa das salas estava o quadro "Antropofagia", de Tarsila do Amaral. Ver essa obra me causou sensações ainda difíceis de mensurar. Primeiro, fiquei perplexo. Depois, veio-me a incredulidade. Em seguida, alegria mal disfarçada, estupefação e deslumbramento. Vivi minutos de completa imersão. A alma estava em alegria tão ampla que palavras não poderiam expressá-la.
Após essa experiência, vieram tantas outras. Obras artísticas somente tateadas nas páginas dos livros estavam ao alcance do olhar. Dizer como me senti não constituiria tarefa fácil, pois fiquei arrebatado.
Além dessa obra de Tarsila do Amaral, outras foram distribuídas nos diversos salões do prédio. Assim, me deparei com obras de: Portinari, Anita Malfatti, Di Cavalcante, Cícero Dias, Sérvulo Esmeraldo, Adriana Varejão (cuja obra estava em exposição das mais lindas), Brecheret, Rodin (sim, Auguste Rodin), além de tantas outras grandezas artísticas, estavam próximas de mim.
Obras grandiosas do Brasil e do mundo para contemplar em tão pouco tempo, Deus, foi um crime. Eu ficaria um dia inteiro passeando pelos salões e galerias.
Depois de um dos mais marcantes acontecimentos de minha vida de professor-escritor (cuja alma aprendeu a amar devotadamente a arte), tive que ir embora.
Agora, exaurido pelas muitas emoções vividas, devo dizer que estou realizado. Há tanto a conhecer ainda em São Paulo, mas ficará para outro dia. Sim, porque irei embora já planejando viagem de retorno.
15.07.2022
Émerson Cardoso
17.07.2022
O ÚLTIMO POEMA
Assim eu quereria o meu último
poema
Que fosse terno dizendo as coisas
mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço
sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores
quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem
os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam
sem explicação.
(Manuel Bandeira)[1]
A ÚLTIMA
CRÔNICA
A caminho
de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na
realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta.
Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do
pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher
da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que
a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta
perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de
uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a
noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café,
enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "Assim eu quereria o meu
último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último
olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo
do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de
mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção
de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de
seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se
instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os
olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém,
que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a
observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do
bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão
um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel,
vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve,
concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher
suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua
presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem
atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um
bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha,
contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o
garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai,
mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa
de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma
caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um
animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três
velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do
bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as
velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e
sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito
compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos:
"Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as
velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as
duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com
ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe
cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se
convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a
observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila,
ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num
sorriso.
Assim eu
quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
(Fernando
Sabino)[2]