segunda-feira, 15 de agosto de 2022

COMO RESPONDER À ALTURA (ou: quem tem medo de neuróticos que têm Marte em Escorpião?)

 


Já aconteceu de você ficar muito alegre com algo, a ponto de externar excessivas euforias, e isso incomodar alguém? Comigo já aconteceu. A pessoa, no auge de seu desconforto, atirou sobre mim o seguinte ditado popular: “Pobre nunca come e, quando come, se lambuza!”

 

Quem me visse naquele momento perceberia meu rosto caindo em nublação. O sol deveria ter mais força do que uma nuvem amarga, mas nem sempre isso acontece. A vida é repleta de nuvens entre permanentes ou passageiras que se comprazem em espalhar obscuridades porque não suportam luzes.

 

Que horror!

 

Hoje, se alguém atirasse contra minha alegria esse maldito ditado popular, eu teria resposta daquelas, bem desaforadas, aí eu queria ver uma nublaçãozinha chinfrim me apagar. Você ficou com curiosidade sobre o que eu diria para me defender?

 

A uma criatura amarga que desejasse botar gosto ruim em minha alegria, eu diria o seguinte:

 

Resposta 01 – Quem ouve você falando assim pode até pensar que você é, foi ou será rico um dia na vida. Agora, como percebi que você gosta da sabedoria popular, devo dizer que: “Quem nasce para burro não pode ser cangalha”. Tem mais: há uma coisa que eu gostaria de saber: quem foi o informante charlatão que disse a você que me interessa ouvir o som de sua voz irritante e insossa?

 

Resposta 02 – Gente, olha a sabedoria popular dessa pessoa como está aflorada! O que foi? Tomou café adoçado com amargura, ou constatou que sua vida insignificante não tem graça e por isso quis tirar minha alegria?

 

Resposta 03 – O que foi? Só porque você tem uma existência vazia e sem graça não suporta ver uma pessoa de bem com a vida? Procura tratamento, cruz pesada! Se não der certo com psicólogos, procura um exorcista, viu?

 

Resposta 04 – Sim, pessoa iludida da nação, pobre se lambuza, sim, faz festa, faz o que quiser, ainda mais quando é uma pessoa tão leve que atrai alegrias para si e para os outros. Posso fazer um tutorial de como ser alegre para você, viu? Isso se um dia você decidir deixar de ser chata e estraga-prazeres.

 

Resposta 05 – Sério mesmo que você (pessoa pobre em nível cinco) se sente no direito de vomitar uma frase dessas contra mim? Quando você não for mais pobre, ou se tornar uma pessoa menos invejosa e infeliz, aí conversamos, viu? Vai pelo sol, hein, quem sabe um dia ele derrete essa nuvem carregada que você tem na cabeça!

 

Coloquei apenas cinco respostas quando, em verdade, teria muitas outras. Quando estou chateado com algo, me torno irônico. Isso massacra algumas pessoas. Um amigo me disse, outro dia, que minhas ironias, ou meu rebuscamento na hora de brigar, não parecem muito eficazes. Nem sempre meus arqui-inimigos (que não tenho) entendem o desaforo que penso atirar contra eles. Talvez esse amigo tenha razão.

 

Um meio que utilizo há séculos, quando não gosto de algo ou de alguém, é demonstrar meu descontentamento com afastamentos, ou mesmo ignorando a presença. Talvez seja um bom caminho. O bom mesmo, em verdade, é jogar contra os vilões um desaforo bem articulado e sair de perto, plenamente, depois de ter dito o que se queria dizer. Mais interessante será, tenho por certo, perceber que o desafeto ficou para trás com cara de mal-estar na tentativa vã de entender o que foi dito.

 

Ah! Quem quiser entender desaforo bem construído que estude.  

 

Émerson Cardoso

15.08.2022

sábado, 23 de julho de 2022

A CONTEMPLAÇÃO DAS COISAS DIVINAS



Na crônica Um dia só para chorar (que consta no livro Anjos, buracos, pedras e moinhos), de Betania Moura, ela trata de uma mulher que decidiu não ir ao trabalho para ter um dia só para dedicar-se à arte de chorar. Eu que não choro há séculos, porque se o faço me sinto vulnerável, tive também o meu dia.

A propósito, no "Provocações", Antônio Abujamra costumava perguntar a alguns entrevistados: "Você chora?" A pergunta enveredava, por vezes, para outra questão: a contemplação do belo comove a ponto de levá-lo às lágrimas?

Eu responderia a Abujamra, se ele me perguntasse, que sim. Sim, porque diante das obras "Os retirantes" e "Criança morta", de Portinari, me veio um choro comovido sem explicação e difícil de refrear.

Imagens vistas e revistas nos livros didáticos estavam diante de mim. Líricas e profundas, elas estavam de tal modo aproximadas que todo o choro guardado (seja por perdas, mortes, frustrações e outras dores) transbordou. 

Tentei não chorar tanto, afinal estava acompanhado. Acho que não derramaria lágrimas perto de pessoas conhecidas, então aproveitei um momento no qual fiquei sozinho. Falando assim até parece que meu choro foi algo planejado, mas não foi.

O ato de chorar me foi impregnado como vulnerabilidade. Procurei a vida inteira conter a emoção diante de tudo. Não gostaria de ser assim, afinal a vida também dispõe de seus momentos de sofreguidão, passionalidade e afeto transbordantes. Por que não? 

Então, sem conseguir segurar o gesto, chorei. Sim, o fiz por amor ao belo presente nas duas obras potentes de Portinari. Pelas tonalidades, pelo expressionismo latente, por ver a temática da seca irromper dessas obras, fui às lágrimas. Com o desejo de ocultar, com medo de que as pessoas vissem, o choro me veio inevitável. Sentimento pode ser represa que explode, como ficou perceptível na ocasião, de forma inevitável. Isso, principalmente, diante do belo. 

Bem, depois de Portinari me emocionar profundamente, precisei me recompor para ver outras obras. Estavam lá pinturas de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Lasar Segal, Van Gogh, Goya, Monet, Rafael, dentre outros grandes nomes da pintura. Em êxtase as vislumbrei. Perplexo as acolhi. Se não caí diante delas, foi porque força sequer tive para a queda. 

Por fim, ao sair do MASP, onde essas obras estão resguardadas, agradeci à existência pelo privilégio de poder ver a arte no que há de forte e belo. Saí renovado, afinal deixei lá todo o peso de chumbo que só o choro consegue arrefecer. Viver tem disso.

Émerson Cardoso

14.07.2022






VIAGEM PARA SÃO PAULO (ou: Pequeno Diário de Bordo)



RELATO DE VOO EM TEMPO REAL

Depois de um frio no estômago muito semelhante ao frio que sentimos naquele brinquedo inventado pelo demo, a que chamam de "Barca", e que está muito presente em parques, chegamos aos ares. 

Esta não foi a minha primeira experiência com aviões. Fui para Recife há algum tempo e dispus meu corpo e alma para essa viagem mais para a loucura do que para a sobriedade. Quem pode considerar lucidez o ato de estar no ar, e por vontade e gosto?

Agora, se me perguntassem o que estou sentindo (escrevo este texto vendo nuvens aos borbotões) durante esse trajeto que a invenção humana me proporcionou, sem que eu pedisse ou estimulasse, porque tenho juízo, eu diria: que absurdo poder voar com máquina tão fácil de cair.

Falar em queda de avião quando se está dentro de um é para os fortes. Sim, porque nada assusta mais um cristão sentado com cintos afivelados (enquanto a vida passa entregue a um piloto e  cortando nuvens em velocidade que não saberia dimensionar) do que a possibilidade de ouvir: "Senhores passageiros, pedimos que façam suas orações nas mais diversas crenças, porque o avião vai se esburrachar no chão!"

Estou na poltrona 14 (meu número de sorte). Deveriam estar ao meu lado duas pessoas. Há um rapaz de olhos claros e sapatos marrons, muito do silencioso e disposto a, na janela, ver vídeos da internet  (suponho, pois não sou de bisbilhotar, embora o tenha visto assistir cenas de "Pantanal", tik tok, vídeos do Instagram, facebook  etc). No meio, há o que poderia ter sido e não foi (deve ter desistido, suponho, aliás desiste de avião quem tem bom-senso). Eu estou na poltrona do corredor. De quando em vez, olho de lado, para ver o nada no qual estamos depositados, mas logo me acovardo e volto para meu texto.

Vou confessar um coisa. Acredita que ao entrar no avião implorei por uma água, que me foi dada minutos eternos depois, e coloquei nela (não me julgue!) umas simpáticas gotas de "Rivotril" 2,5 ml. Claro que fiz de tudo para disfarçar, mas quanto mais se esconde algo, mais isso tende a se explicitar. Viram meu copo e o frasco de remédio na minha mão. Não posso fazer nada! O psiquiatra sugeriu que eu o utilizasse  em caso de crise ansiosa. Não vejo ocasião mais propícia para tomá-lo. A primeira gota, tomei "para ter o argumento" (vide "Resposta ao tempo" e entenderá a referência). A segunda, tomei por covardia (achei melhor tomar para não ter crise de falta de ar e dar vexame). A terceira, tomei para conseguir manter os chakras alinhados, porque esses bandidos foram desalinhados ainda no Aeroporto de Juazeiro do Norte, quando uma funcionária da Gol agiu de forma descortês e com pressão psicológica causando desconforto para mim e para outra senhora (ela ouviu algumas respostas coerentes, amáveis e polidas, mas não isentas do meu Marte em Escorpião: uma ferroada só e o problema foi resolvido da melhor forma). Sou tímido e calmo, porém indisposto a faltas de educação. Tive que agir. A quarta, tomei porque a natureza pediu (quando não podemos alterar o rumo das coisas, a existência é assim, recorremos a subterfúgios). A quinta, e última gota (porque com menos do que isso eu não me responsabilizaria por meus atos tresloucados dentro desse presente de grego de asas), tomei porque viver exige coragem, e a minha coragem tem sido roubada de mim desde a infância-angustiante-infância. Assim, o jeito foi arrefecer no orgulho e tomá-lo com resignação. Em verdade, pouco importa o recurso a que acorremos se isso nos leva a algo que nos faria aproveitar melhor as experiências.  Se isso não atenta contra a dignidade de ninguém, nem contra a minha, por que não?

Agora, lá vem um rapaz e uma moça mais brancos do que a asa do avião. Estou em dúvida sobre o que tomarei. Queria mesmo era chá calmante (camomila, cidreira, erva doce, alecrim etc.). Na ausência de chá, porque esse povo não sabe o que é o bom da vida, resignado aceitarei um suco (eles servem sucos industrializados, ó céus!).

Parei o texto para esperá-los. Desisti de esperar, uma vez que nessa espera terminei olhando a janela à direita. Deus do céu! Azul e branco por todos os lados, igual ao manto de Nossa Senhora das Dores, padroeira de Juazeiro do Norte. Confesso que me veio a vontade de pedir para ela amenizar o trauma. 

Chegou o suco. Acabei de tomar o suco. O salgadinho guardei na mochila. Nunca se sabe da urgência de alimento que ele aplacará futuramente. Como tomei o suco muito rápido (a boca seca de nervosismo), a moça, simpática, me ofereceu mais um copo. Não aceitei. Suco industrializado me causa sensação de culpa. Queria mesmo era uns dez salgadinhos iguais aos que ela distribuiu (taurinos tendem à gula, portanto não me condene).

Voltei ao texto para pensar um pouco sobre o caos de estar nos ares. Sim, por Deus, estou sem qualquer chão que me dê ao menos a falsa segurança de ter para onde correr. Sensação de vazio aos pés, de não ter por quem gritar, de estar definitivamente condenado ao desamparo e ao desabrigo. Bem, isso não me é novidade. Apenas acrescentei a essas sensações amplamente vivenciadas um fato escalafobético: não há terra abaixo ou dos lados. Para chegar a ela, teria que aterrissar ou cair. A segunda opção, sinceramente, não é das mais amigáveis.

Cruzei as pernas e (que horror!) derrubei o copo com resquícios de suco. Detesto coisa doce nas mãos, mas não há água ao alcance. O jeito é me resignar. O suco ousou sujar minha mochila tão bem lavada. Que tragédia não grega em pleno voo, Senhor! O pior foi o olhar condescedente do rapaz ao lado, o que tem olhos claros e sapatos marrons, que além de me olhar na bagunça de derramar o suco, não aceitou o lanche (para me humilhar, por certo, eu que não resisti ao simplório alimento servido e o aceitei com veemência). O pior foi quando guardei o salgadinho na mochila e nossos olhos se encontraram. Eu o olhei para ver se ele estava olhando o que eu iria fazer. Sim, ele estava olhando e eu o olhei no exato momento em que ele estava me olhando. Encontro de olhares. Vergonha barulhenta de um, julgamento silencioso do outro.  

Lá vem a dupla de loiros novamente. Eles recolheram copos e guarnadapos. Aproveitei para olhar à direita e vi terra. Ainda distante dos meus pés saudosistas, mas a vislumbrei, sim, com frio no estômago e vontade de fechar os olhos.

O rapaz ao lado se remexeu umas três vezes, igual galinha quando quer pôr adjutórios (é assim que eu chamo "ovo"). Ri sozinho dentro da máscara. Máscaras são salvações pluridimensionais. Se ele soubesse do teor desse texto, hein. Eu estaria ferrado.

À frente, esqueci de dizer, há um rapaz que conheço de vista. Ele anda com os cabelos super assanhados e de óculos escuros. Ele tem sido super amigável com a moça ao lado dele, que tem uma criança que odeia silêncio e está no mundo dos jogos virtuais (com barulhos e mais barulhos) desde que o bendito avião achou por bem virar tuiuiú (quem assiste "Pantanal" entenderá a referência).

Comecei a pensar numa coisa: parece que não tenho mais o que escrever. Mal pensei nisso e o avião começou com a famigerada turbulência amedrontadora de almas mais propensas ao grito. Eu, agora sob efeito de "Rivotril", nada senti. Estou anestesiado. Aí, enquanto escrevia, nos bancos de trás surgiu um casal com discurso do tipo: aqui tem mais espaço, aqui é melhor etc. Melhor mesmo, em verdade, seria estar em terra firme, não acha?

Agora, depois de tudo isso, meus dedos enregelados começaram a doer. Vou ter que parar a escrita. Depois, se a minha compulsão de escrever me incitar, retomarei o texto. Se não, vou me despedindo. Em São Paulo voltarei a conversar sobre essa minha viagem que começa agora, mas já me rendeu aventuras incomensuráveis.

13.07.2022

SÃO PAULO: DE AÇÃO E DE CONCRETO

Quando o avião tocou o solo da primeira cidade que pisei fora do Nordeste, "Wave" (seguida de "Garota de Ipanema") tocava em som instrumental. Bossa Nova para comprovar que ainda se está vivo é de uma sofisticação sem precedentes.

Ao chegar, não foi difícil me perceber envolto em atmosfera de expectativas. Queria encontrar gente amiga, porque cidade corresponde ao nicho de amizades construídas em torno dela. 

A alma, ainda confrangida, voltou ao corpo somente quando pisei em terra firme. Tive crise de riso enquanto andava pelos corredores do aeroporto (a máscara me salvou de não parecer lunático?). Insegurança e nervosismo sempre fazem de mim um parque de diversões.

Depois, andei pelas ruas e avenidas, cheguei ao hotel, encontrei a poeta Jovina Benigno (minha conterrânea jovial e espirituosa) e organizei meus pertences no quarto com janela para o cinza de um prédio (cinza é minha cor preferida, hein!).

À noite, com frio agradável, fui ao lançamento do meu livro de contos na "Ria Livraria". Pessoas do mundo virtual se materializaram diante dos olhos.

Conversa vai, riso vem, a noite fria de São Paulo se converteu em acolhida e em realização concreta de um desejo que pensei não ter coragem de realizar. 

Estou em São Paulo. Desde que coloquei o pé aqui, Tom Zé canta em meu ouvido "São São Paulo". Na infância, essa cidade era luxo sempre ao alcance dos outros. Na adolescência, era perigo que não me instigava. Hoje, na adultez-não-consolidada, é desafio possível e proposta de alegre fuga.

Impossível não me lembrar de um ponto, ao olhar para São Paulo em sua concretude: acorreram a essa cidade, no passado, tantos conterrâneos meus em busca de melhores dias. A "Nova Califórnia", hoje, mudou de "status". Ela comporta valores, mas já não é riqueza à vista. 

São Paulo, devo confessar, assusta à primeira vista. Apesar do susto, ela amplia nosso mundo com seu movimento que não cessa. Aí me questiono: é bonito tudo isso? A pergunta é retórica, porque, sim, há beleza em tudo, basta olhar nas minúcias. 

                                                               13.07.2022

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA E PINACOTECA

O "Museu da Língua Portuguesa" dispõe de amplo material audiovisual. Gostei de conhecê-lo, mas não posso dizer que ele me deixou a maior das impressões. Impacto mesmo tive ao entrar na "Pinacoteca". 

Após subir degraus, atravessar passadiços e salões, finalmente vivenciei o primeiro impacto da visita: dirigindo-me a uma ponte estava, logo à direita, na parte baixa, a escultura "Musa Impassível", que Brecheret realizou em homenagem a Francisca Júlia. Esta poeta parnasiana, uma das minha preferidas, criou dois sonetos intitulados "Musa Impassível" (este se tornou um epíteto da autora). 

Estava à minha direita, aos meus pés, a escultura que sonhava conhecer. Como estava sozinho, recorri a uma moça que realizou algumas fotografias para mim. Ficaram exatamente como eu as queria. Uma delas me apresenta sentado aos pés da "Musa Impassível": bela, lírica e singular. 

Em seguida, vivenciei outro impacto: numa das salas estava o quadro "Antropofagia", de Tarsila do Amaral. Ver essa obra me causou sensações ainda difíceis de mensurar. Primeiro, fiquei perplexo. Depois, veio-me a incredulidade. Em seguida, alegria mal disfarçada, estupefação e deslumbramento. Vivi minutos de completa imersão. A alma estava em alegria tão ampla que palavras não poderiam expressá-la. 

Após essa experiência, vieram tantas outras. Obras artísticas somente tateadas nas páginas dos livros estavam ao alcance do olhar. Dizer como me senti não constituiria tarefa fácil, pois fiquei arrebatado. 

Além dessa obra de Tarsila do Amaral, outras foram distribuídas nos diversos salões do prédio. Assim, me deparei com obras de: Portinari, Anita Malfatti, Di Cavalcante, Cícero Dias, Sérvulo Esmeraldo, Adriana Varejão (cuja obra estava em exposição das mais lindas), Brecheret, Rodin (sim, Auguste Rodin), além de tantas outras grandezas artísticas, estavam próximas de mim. 

Obras grandiosas do Brasil e do mundo para contemplar em tão pouco tempo, Deus, foi um crime. Eu ficaria um dia inteiro passeando pelos salões e galerias. 

Depois de um dos mais marcantes acontecimentos de minha vida de professor-escritor (cuja alma aprendeu a amar devotadamente a arte), tive que ir embora. 

Agora, exaurido pelas muitas emoções vividas, devo dizer que estou realizado. Há tanto a conhecer ainda em São Paulo, mas ficará para outro dia. Sim, porque irei embora já planejando viagem de retorno. 

15.07.2022

Émerson Cardoso

17.07.2022


EXPOSIÇÃO DE VOLPI NO MASP (SANTOS E SANTAS)

 














terça-feira, 31 de maio de 2022

"O ÚLTIMO POEMA", DE MANUEL BANDEIRA, E "A ÚLTIMA CRÔNICA", DE FERNANDO SABINO

 


O ÚLTIMO POEMA

 

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

 

(Manuel Bandeira)[1]

 

A ÚLTIMA CRÔNICA

 

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "Assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(Fernando Sabino)[2]



[1] BANDEIRA, Manuel. O último poema. In: Libertinagem e Estrela da Manhã. 14. ed. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 2000.

[2] SABINO, Fernando. A última crônica. In: Elenco de cronistas modernas. 21. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

RESENHA CRÍTICA DO LIVRO "CRUVIANA", DE JOVINA BENIGNO



BENIGNO, Jovina. Cruviana. Fortaleza: OIA Editora, 2022.

O livro de poemas Cruviana, de Jovina Benigno, apresenta vinte e quatro poemas divididos em duas partes. A primeira parte é intitulada Mergulho insepulto (nela constam treze poemas). A segunda parte é intitulada Memória sepultada (nela constam onze poemas).

 

Na primeira parte, a autora inicia seu versejar com o poema Mergulho. Nele, a voz lírica, autodenominada estrangeira do tempo, se deixa abandonar e encontra na palavra a liberdade de ser e de estar no mundo. Em Erva de São Lourenço, o tom metalinguístico invade a voz lírica em busca de afirmação poética. N’O cheiro dos igarapés, a autoafirmação se configura pela compreensão do ser mulher em todas as suas possibilidades lírico-existenciais. Nele, localizamos versos de uma ousadia poética digna de nota:

 

Homens e mulheres,

beijo suas bocas

lambo seus sexos

sem olhos vendados.

(BENIGNO, 2022, p. 35)

 

Isso também ocorre n’Os alienistas, que apresenta uma voz sem qualquer medo de ser considerada insana ante os julgamentos que a atiraram “em celas / sem capelas”. Em Jacarés chegando, há um tom de observação social que vê a realidade e o não alento para vidas percebidas à margem. Há nele, ainda, a crueza de palavras que leem a existência “na putrescência” do ser. Em Olhos vazados, as palavras também são cruas, mas nesse caso observam outro aspecto da condição humana: o amor que deixa a voz lírica “feito barco naufragando” ante impossibilidades.

 

No poema Rosa, na cabeceira, temos as desventuras de um livro envelhecido e abandonado que exigia de sua leitora um processo de ressurreição. O livro, descobrimos, é de Guimarães Rosa e grita, em sua força expressiva, por um olhar de acolhimento. Em seguida, vem a leveza do Balão fugindo que, em verdade, busca liberdade e cura nas cores de chuva e de sol impregnadas de mar.

 

No poema Salvo, o dia, fragmentos do passado e alusões a Manuel Bandeira dão a tônica. A leveza desse texto contrasta com Foice volátil, que traz como tema a morte e suas reverberações dolorosas. Também a morte está presente na desilusão do primeiro amor configurado pelo preterimento, que surge como tema no Pão bolorento. O preterimento amoroso, experimentado pela voz lírica com amargura, volta a ser tema no Último desejo. O lirismo pungente que constrói a beleza desse texto é uma das melhores realizações do livro.

 

A primeira parte da obra termina com mais um texto alusivo à morte. No caso, o poema Versos mortos, construído com a expressividade de imagens líricas retiradas de “vapores com cheiro de éter”, “presas cheirando a alho” e “baratas em festa”.

 

A segunda parte do livro inicia com o texto que lhe dá título: Cruviana. Nele, novamente nascem rememorações, tempos de chuva “na casa furada”, de “baldes cobrindo o peito”, de “telhas quebradas” e de infâncias que “brincam de roda”.

 

N’A mala, Juazeiro e a poeta, a voz lírica relata uma viagem ao Cariri cearense, mais precisamente uma visita à cidade de Juazeiro do Norte, ocasião em que pode ver, na “sacola perdida”, o peso do “poema de uma vida”.

 

Serenata, que vem na sequência, retoma cenas e cenários de uma casa que ainda recebia canções de amor para moças na janela. Ainda no contexto imagético da casa, temos redutos de vida, memórias de cotidianos antigos e profundidade de experiências familiares reconstruídas n’O suor na bacia, que é dos textos mais emocionantes da autora.

 

O tom melancólico, apresentado anteriormente, dá espaço, em Resenha, a lembranças alegres e momentos felizes. A queda da cachoeira traz o tema do amor ausente, mas há nele a capacidade da voz lírica de “amar de novo”. Depois, em O canto do xexéu, temos um olhar novidadeiro sobre o pássaro e, ao mesmo tempo, sobre as claridades e levezas da vida.

 

No meio da sala é doloroso, com imagens de chuva e de morte. Fala-se de perdas na infância e comenta-se sobre “vida após a morte”. Em seguida, Prece aos mortos retoma a compreensão da morte pelo ângulo de visão infantil: curiosidade, medo e constatação da ausência. Nele, localizamos uma das estrofes mais belas do livro:

 

A foice erra o coração

dos fenecidos fornidos de bem

deles me restam

o pesadume da exiguidade

a revelação nas cinzas

a profundidade das covas

o dilacerante amor

sem o consolo do coro dos corações.

(BENIGNO, 2021, p. 117)

 

A morte é retomada em Retrato póstumo. Irrompem desse retrato imagens do pai, da mãe e dos irmãos, ausentes no tempo, mas presentes no tecer dos versos. E o livro termina com Sabores e saberes. O luar é um “magno presente” que observa “a noite e os notívagos”. A voz lírica confessa que não há “arrependimentos sob a luz da lua”. Existem, porém, “carícias orvalhadas” iguais a “um beijo cheio de luar” e, com isso, um universo poético se fecha nas páginas do livro para abrir-se na memória comovida de quem lê.

 

Consciente de seu fazer poético, Jovina Benigno trata, dentre outros temas, do erotismo, da condição da mulher, da praticidade da vida, das alegrias, da morte, das dores da alma e, sobretudo, da humanidade em seu sentido mais profundo. Esse livro é uma porta aberta para a brasilidade, é um encontro festivo com o simbólico, é uma viagem prazerosa (também dolorida) pelas terras áridas ou vívidas que se abrem à poesia do simples e à natureza do belo. Ele é recomendável pelo lirismo, pela profundidade, pela poeticidade e pela beleza. Há muito a ser vivido nessa obra de expressividade inconteste.

 

Jovina Benigno nasceu em Fortaleza–CE. Graduada em Letras e Direito, ela participou em diversas antologias e publicou, em 2020, o livro Versus de uma vida, pela Editora Scortecci. Em 2022, a autora publicou Cruviana, pela OIA Editora.


Onde comprar o livro: 

No instagram: @jovinagb


CARTA A LIDUÍNA BENIGNO XAVIER, AUTORA DO LIVRO "TECLADO DE AREIA"


 Juazeiro do Norte - CE, 31 de maio de 2022

Caríssima Liduína Benigno Xavier, 

Na crônica Sempre Rachel, do seu livro Teclado de areia, publicado em 2022, você comenta que leu Cartas exemplares, de Gustave Flaubert, e alude ao fato de que o gênero epistolar descortina informações sobre os autores nem sempre encontráveis em manuais ou biografias. 

Você diz, ainda, que se sentiu privilegiada por poder entrar no universo de Gustave Flaubert (autor que pesquiso atualmente) através das correspondências dele. Além disso, você criou um parágrafo no qual afirma (XAVIER, 2022, p. 26): "E, sendo pessoa afeita a devaneios, logo me imaginei recebendo cartas de escritores e sendo envolvida na aura de inspiração que sempre exala de figuras modelares". 

Escrever e receber cartas, concordo, é um exercício instigante. Amo esse exercício. Ah! Compartilho de sua tendência a devaneios. Penso que isso nos torna escritor e escritora. Escrever, a propósito, é um ofício árduo, mas ele amplia tanto nossa existência, não acha? Escrever, para mim, é o ar que eu respiro. Sem poder escrever, acho que morreria. 

Por falar em devaneio, você, em seu devaneio-lucidez, imagina a possibilidade de enviar uma carta para algum talento da "constelação literária" que você tanto ama e escolhe a incrível Rachel de Queiroz, autora cuja obra pesquiso desde 2004 e que apresentarei por meio de estudos acadêmicos em livro que está em processo de revisão para ser publicado em breve. Pensei, em verdade, que você fosse escrever essa carta para Rubem Braga. Eu percebi seu amor devotado a ele em Crônica de um amor que nunca houve, O velho Braga, Rubem Braga mora na minha estante, Moqueca de siri e Madeleines e Recado de verão. Ele merece, certamente, esse amor. Que escritor grandioso! 

Ao escolher Rachel de Queiroz para enviar sua carta, essa autora cuja obra amo tanto, você, inteligente que é, inicia uma crônica na qual explana sua experiência de leitura de obras da autora e, desse modo, trata de características dessa obra trazendo, também, breves informações biográficas acerca da escritora cuja obra tem valor literário inconteste. Você é esperta, viu? Enquanto cria expectativas no leitor sobre uma carta que pretende escrever para Rachel de Queiroz, você escreve uma crônica. Sim, uma crônica metalinguística (e seu livro traz exemplos incríveis de textos que exploram a metalinguagem, como é o caso de Ofício de cronista, Uma crônica é uma crônica é uma crônica, Receita de crônica, Ser cronista e Crônica, eu te amo etc.) que é uma louvação a essa mestra fundamental quando o assunto é a história da crônica no Brasil.  

Por falar em seu livro, acredita que o li, de fôlego, no primeiro dia que o recebi? Sou professor de Língua Portuguesa e Literatura, então levei crônicas suas para sala de aula. Eu tinha aulas planejadas sobre o gênero crônica na semana em que recebi seu livro e o incorporei de imediato em minhas aulas. Li em sala de aula: Receita de crônica, Notas de aula no caderno novo e Louvação ao álcool gel (como crônica traduz o cotidiano, esta me foi indispensável para tratar com estudantes sobre essa peculiaridade do gênero). 

Eu teria dificuldade de dizer qual foi a crônica de minha preferência. Em geral, seus textos são maravilhosos. Não entenda esse elogio como algo simplório, hein, porque li e reli seus textos com interesse. Sua prosa é simples, leve, imagética, lírica e tem a peculiaridade de construir uma linguagem acessível sem, contudo, perder em qualidade literária. Agora, a crônica que me deu um nó na garganta foi Precisamos falar dos mortos. A morte é um tema doloroso, mas envolvente. Essa crônica me fez entrar em contato com a tragédia que vivemos recentemente: ainda caminhamos sobre os escombros da pandemia. Perdi pessoas queridas para a Covid-19. Seu texto me foi catártico à medida que me levou a pensar e repensar essas perdas tão dolorosas vividas por mim e pelo mundo. 

Teclado de areia é um livro de metalinguagens e reflexões sobre o ofício de escrever. Não estranhe se alguns textos seus forem retomados em atividades de escrita literária, porque eles seriam exemplos criativos do que é postar-se diante do papel em busca de algo a ser escrito. 

Para concluir, devo dizer: você escolheu Rachel de Queiroz para destinatária de sua carta, e eu escolhi você. Sim, eu escreveria uma carta para você. Eu diria nela o quanto seu texto é criativo, valoroso e repleto de qualidades. Seus textos são um exercício de pensar, de sentir, de ver o mundo com sensibilidade e, sobretudo, de construir novos horizontes quando a ideia é expurgar pela escrita o que a alma resguarda. 

Você precisa escrever uma carta para Rachel de Queiroz, Liduína Benigno Xavier, e eu precisava escrever essa carta para você. Nela, vai o meu abraço comovido. Espero nos encontrarmos para um café literário dia desses, pois quero ouvi-la dizer sobre o processo de escrita desse livro que recebeu prêmio e tudo, merecidamente, viu? 

Cordialmente, 

Émerson Cardoso