sexta-feira, 14 de junho de 2013

CRÔNICA: "ALUNOS E ALUNAS, EU TAMBÉM SOU ESTUDANTE"

    
Do grego Krónos, que significa “tempo”, a crônica é o registro de acontecimentos num tempo e num espaço determinados. É produzida por poetas e ficcionistas que, embora possam apoiar-se em fatos acontecidos, transformam a realidade do cotidiano pela força criadora da fantasia. Daí decorre que suas crônicas são ou poemas em prosa ou pequenos contos, dependendo do pendor do autor para o gênero lírico ou narrativo.

D’ONOFRIO, Salvatore. Teoria do texto: prolegômenos e teoria da narrativa. 2. ed. São Paulo: Ática, 2001. p. 123.




ALUNOS E ALUNAS, EU TAMBÉM SOU ESTUDANTE

Ao passar de frente a minha antiga escola de Ensino Médio, vejo inúmeros alunos e alunas saindo às pressas após uma manhã inteira de aulas. Alguns sequer refletiram sobre o fato de que estar numa escola faz com que eles se tornem partícipes do clã dos que tiveram o privilégio de poder estudar. Neste país em que para algumas crianças e adolescentes a vida é um tanto trágica, estar numa sala de aula pode ser uma dádiva, cabe a alguns alunos perceberem isso com maior sensibilidade. Nem sempre acontece assim – o que é lamentável.
               Esta crônica foi escrita para “meus” alunos e “minhas” alunas. Não só para os que neste ano estão sob meus cuidados, mas para todos os que, ao menos uma vez na vida, estiveram numa sala de aula sob minha guarda. Quando uso os pronomes possessivos, uso mais com valor afetivo do que de posse - vale salientar.            Não tenho dúvidas de que alguns alunos, os desumanos e cruéis, deveriam nunca ter cruzado o meu caminho, mas não falo por estes. Falo, aqui, por aqueles que, de um modo ou de outro, foram representativos a ponto de ficarem em minha memória afetiva.            
            Houve um período em que eu me questionei se queria ser professor por toda vida. Hoje, sei que ser professor é o modo mais digno que encontrei de contruibuir com a construção do mundo. Assim, não posso deixar para trás o rosto de alguns alunos e alunas com os quais compartilhei bons momentos desse ofício, por vezes conflitante, que é lecionar.
Lembro-me sobremaneira daqueles mais humanos, capazes de elaborar perguntas, de tratar o caderno com o mínimo de organização para fazer a diferença, de entender a necessidade de estudar para melhorar de vida. Lembro-me, principalmente, daqueles capazes de perceber o quanto a educação é importante para suas formações, e dos que souberam olhar, com gratidão, para os meus esforços. Quero me lembrar dos que são capazes do mínimo de dedicação, e dos que traziam no olhar o desejo de conseguir uma vida mais digna. Será gratificante ver suas fotografias, um dia desses, e saber o quanto eles mudaram e cresceram e amadureceram e foram vitoriosos.
          Às vezes, para conseguir o mínimo de estímulo, foi preciso contar com a cumplicidade e humildade daqueles alunos que me olhavam de modo mais compreensivo. Ao professor importa, como se deve perceber, o aluno que vê a aprendizagem como forma de fugir de um mundo cruel e indigno e injusto. Sentir no olhar a bondade de um aluno que estuda porque vê, através deste ato, um modo de tornar sua existência mais significativa, parece ser o melhor resultado para um trabalho realizado no espaço escolar.
            Uma aluna uma vez me disse o seguinte: “O melhor professor é aquele que não esqueceu do tempo em que foi aluno”. Sinto que ela tem razão. Eu também fui aluno e, por lembrar-me disso como se fosse ontem, é que me torno capaz de entender, e até de me comover, com a situação de alguns deles. Outra vez, uma aluna perguntou o que mais me chateava numa sala de aula. Eu respondi, sem demora, que três pontos, especificamente, doíam em mim: 1- alunos (as) que estudam apenas pela mediocridade da obtenção de notas, 2- alunos que não respeitam professores e professoras e 3- alunos (as) incapazes de admitir seus erros por falta de humildade, consciência crítica e bom senso.
          Conheci alunas e alunos críticos, tristes, carinhosos, criativos, briguentos, brincalhões, tímidos, alegres, patéticos, iluminadores, líderes, apáticos, barulhentos, inteligentes, sábios, medrosos, caricatos, poéticos, insensíveis, humanos e ‘desumanos’, porém os que mais ficaram em minha memória foram aqueles que, ao entrar na escola, sabiam que estar ali era o único modo de mudar, de construir, de fazer a diferença nesse mundo de conflitos, absurdos e angústias. 
            Não posso desprezar àqueles que souberam ser sensíveis à leitura de um texto que foi selecionado por mim. Sinto que rir com os alunos é também um momento transcendental. Uma roda de alunos no pátio da escola, em momentos adequados, é um reduto de vida. Um trabalho apresentado em sala de aula com empenho é um acontecimento feliz. Sentir que uma aula aconteceu sem que os alunos percebessem o tempo passar é uma alegria materializada.
              Eu sou professor porque, desde a sétima série do Ensino Fundamental, decidi que o seria. O profissional da minha área ainda precisa de auxílios e valorização para estar satisfeito, claro, mas ainda permaneço na profissão porque existem alunos e alunas que merecem minha atenção, dedicação e cumplicidade.
            Quando eu era estudante de Ensino Médio costumava ser muito centrado em meus objetivos. Afligia-me o modo como alguns colegas lidavam com a vida estudantil. Ao reencontrá-los, alguns anos depois, eles não são os mesmos: estão vividos, cansados e dizem, com pesar: “Como eu queria que o tempo voltasse! Se eu pudesse fazer tudo de novo, faria diferente!” É tarde para voltar, realmente. Só não é tarde, creio, para tentar novas possibilidades através do estudo – dádiva inesgotável da condição humana!
            Ao conhecer melhor certos alunos e alunas, é impossível não se colocar no lugar deles e sentir o quanto alguns trazem dores, conflitos, medos e indecisões. Logo no início do livro de Provérbios, ao falar sobre a busca intermitente pela sabedoria e seus derivativos, Salomão diz que “os loucos desprezam a sabedoria e o ensino”. É triste cair na loucura de desprezar o conhecimento e suas possibilidades de libertação! Penso que cabe ao professor a função de ensinar não só conteúdos ao aluno. Deve conduzi-lo para uma nova maneira de olhar a vida e suas peculiaridades, porque, sem olhar a vida por ângulos menos mórbidos, não será possível estar no mundo e participar da coletividade que o compõe.
            O ano letivo passa rápido. Quando menos percebemos, o fim do ano chega e cai, pesadamente, sobre nós. Fica só a saudade de uma turma que nunca mais se reunirá com as mesmas pessoas e com os mesmos anseios. Os professores poderão, por diversos motivos, nunca mais participar das nossas vidas de estudantes e seus estresses diários. Fico pensando nesses meus alunos e alunas e pergunto-me sempre: o que será deles daqui a um ano, ou dois, ou três? Queria vê-los felizes, mas Cecília Meireles lamenta num Epigrama: “És tão precária e veloz, felicidade!” Mesmo assim, sabendo o quanto ser feliz é pouco duradouro, peço a Deus para que todos eles, pelo menos de vez em quando, sejam felizes. E, para terminar, transcrevo uma frase da escritora belga de língua francesa chamada Marguerite Yourcenar: “O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos.”

TEXTO: ÉMERSON CARDOSO

segunda-feira, 3 de junho de 2013

RENASCENTISMO - UM RESUMO (PARTE II): "OS LUSÍADAS"

Luís Vaz de Camões

1 - UM POUCO SOBRE CAMÕES: 

Da vida de Camões pouco se sabe, exceto que foi irregular e cheia de aventuras, bem como de acordo com o temperamento indócil do poeta. Não se sabe ao certo em que data nasceu, pode ter sido 1525, em Coimbra ou Lisboa. Em 1547, Camões embarcou como soldado para a África onde, em combate, perdeu o olho direito. Em 1552, estava de volta a Portugal e, em 1553, foi para as Índias, onde participou de expedições militares. Em 1570, reapareceu em Lisboa, com o manuscrito do poema "Os Lusíadas", que publicou em 1572.

Além da epopeia "Os Lusíadas", em que Camões realiza a narração da heroica viagem de Vasco da Gama às Índias e a eternização de um dos momentos mais gloriosos de Portugal (a época das grandes navegações), ficou conhecido por sua poesia lírica de influência medieval e clássica, de temática variada e abrangente. Dentre os temas que abordou, podemos destacar os seguintes: mistérios da condição humana, a presença do homem no mundo, os conceitos e contradições do amor, efemeridade da vida, dilemas resultantes dos conflitos vinculados à busca de explicações racionais num mundo que ainda evidenciava valores medievais. Camões compôs tanto vilancetes e cantigas (composições realizadas com redondilha maior: medida velha), como sonetos, elegias e odes (composições surgidas no Classicismo e que colocavam em destaque versos decassílabos: nova medida).  


2 - "OS LUSÍADAS" - UM BREVE COMENTÁRIO:


"As armas e os Barões assinalados
Que, da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram 
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé [e] o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e a arte."
[...]

 Ao escrever "Os Lusíadas", Camões realizou um dos mais significativos poemas épicos da Literatura Portuguesa. Nesta breve análise, faremos considerações sobre essa obra com o intuito de colocar em pauta elementos que confirmam seu valor artístico e histórico. 

A primeira estrofe, acima apresentada, por exemplo, faz alusão ao teor narrativo fortemente encomiástico que busca apresentar as ações militares empreendidas por destemidos navegantes. Os substantivos "armas" e "Barões" aludem, respectivamente, aos combates realizados durante as viagens e aos corajosos navegantes que se arriscavam em suas austeras caravelas. Ao referir-se à "Ocidental praia Lusitana" a voz lírica se remete diretamente a Portugal e, ao dizer que os navegantes portugueses foram "além da Taprobana", aludem ao país insular asiático atualmente chamado de Sri Lanka. Esses versos já prenunciam a rota de viagem do herói Vasco da Gama.

A segunda estrofe se refere aos dois objetivos que moviam os navegantes portugueses: a expansão do império e a propagação da crença católica. Os valores Clássicos que surgem em toda a obra já nos é apresentado nessa estrofe como podemos perceber, por exemplo, quando a voz lírica se remete à ideia de que cantará os valores do povo português se for auxiliado pelo " engenho" e pela "arte".

Os modelos da Antiguidade Clássica voltam a aparecer quando, na estrofe que apresentaremos logo abaixo, a voz lírica enfatiza o quanto o feito dos heróis Ulisses, da "Odisseia", e Eneas, da "Eneida", bem como o poder de Alexandre (o Grande) e de Trajano, devem ser colocados de lado tendo em vista a grandeza dos navegantes portugueses que, além de terem conquistado novas terras enfrentando o furor invencível dos mares, também conquistaram a obediência dos deuses Netuno - deus romano do mar - e Marte - deus romano da guerra - pelo destemor com que se lançavam nas empreitadas marítimas. 

"Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta."
[...]

Além desse comentário inicial, apresentaremos alguns elementos de caráter formal que precisam ser colocados em destaque. Essa obra apresenta dez cantos e cada canto é composto por estrofes de oito versos (dispostos no esquema ABABABCC) com versos decassílabos, com a sexta e a décima sílabas poéticas tônicas (decassílabo heroico) ou, em alguns casos, a quarta, a oitava e a décima (decassílabo sáfico). O poema possui 1.102 estrofes e 8816 versos ao todo e é dividido em cinco partes: 

  • PROPOSIÇÃO: em que é anunciado o assunto a ser desenvolvido;
  • INVOCAÇÃO: em que é feito um apelo às ninfas do Tejo (as Tágides) para que inspirem o poeta;
  • DEDICATÓRIA: oferecimento do poema a D. Sebastião;
  • NARRAÇÃO: corresponde a maior parte do poema em que são narrados os fatos;
  • EPÍLOGO: o desfecho da ação.

Rota de Vasco da Gama

3 - RESUMO DOS CANTOS DE "OS LUSÍADAS"



CANTO 1 - Indicações do assunto que vai ser abordado (os feitos heroicos dos portugueses e a glorificação da nação). O poeta invoca as musas (ninfas) do Tejo e dedica o poema a D. Sebastião, exortando-o a tornar-se o terror dos mouros da África. Começa a narrativa descrevendo o concílio dos deuses, expondo o discurso de Júpiter, a oposição de Baco e a defesa que Vênus faz dos navegadores, com o apoio de Marte. Narra, em seguida, a entrada da frota no oceano índico, a ancoragem perto de Moçambique, a partida para Quíloa e a chegada a Mombaça, onde Baco continua tramando contra a frota.

CANTO 2 - Narração da emboscada dos mouros e a intervenção de Vênus. A deusa pede a Júpiter que proteja os portugueses. Vasco da Gama vê em sonhos Mercúrio, que o aconselha a deixar Mombaça e partir para Melinde. Em Melinde, o rei hospeda gentilmente os portugueses, pedindo ao capitão que conte a história de Portugal, especialmente os feitos marítimos.

CANTO 3 - Vasco da Gama fala da história de Portugal, contando os principais fatos dos governos de D. Henrique, D. Afonso Henriques, D. Sancho I, D. Sancho II, D, Afonso III, D. Dinis e D. Afonso IV. Também narra o episódio da morte de Inês de Castro, um dos episódios mais líricos da obra. Em seguida leremos duas estrofes que se remetem a esse fato:

"Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos)
E de[s]pois nos meninos atentando,
Que de tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia
Pera o avó cruel assi[m] dizia:

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha."

CANTO 4 - Vasco da Gama relata os tumultos ocasionados pela morte de D. Fernando. Destaca a figura de D. João I, mestre de Avis. Descreve o assassinato do conde de Andeiro e a intervenção dos reis de Castela. D. João I aconselha-se com os fidalgos, realçando-se a lealdade e o patriotismo de D. Nuno Álvares. Descreve a batalha de Aljubarrota e como D. Nuno foi pelejar no Alentejo e na Andaluzia. Narra o episódio do velho que, na praia do Restelo, critica a cobiça e a sede de conquista dos portugueses.

CANTO 5 - Vasco da Gama narra a partida de sua armada a 08 de julho de 1497. Descreve o avistamento do Cruzeiro do Sul, o fogo de santelmo e uma tromba marítima. Narra o episódio do gigante Adamastor, personificado do cabo das Tormentas. Os tripulantes da armada são acometidos pelo escorbuto. Atingem Moçambique, Mombaça e Melinde.

CANTO 6 - Descrição das festas dadas pelo rei de Melinde aos portugueses. Continuação da viagem para a Índia. Baco procura destruir a frota. Narração do episódio dos Doze de Inglaterra e da tormenta que se abate sobre os navegantes. Vasco da Gama suplica ajuda e Vênus desce em socorro dos lusitanos. A frota aproxima-se de Calicute.

CANTO 7 - O poeta narra a chegada a Calicute e a recepção do rei, que envia um emissário para obter informações dos portugueses.

CANTO 8 - Paulo da Gama conta os feitos dos portugueses. Vasco da Gama é vítima de uma traição, mas consegue livrar-se do perigo.

CANTO 9 - Escapando dos perigos, a armada parte e chega à Ilha dos Amores, local de prazer e descanso que Vênus, auxiliada por Cupido, preparara para os lusitanos, como recompensa de seus padecimentos e trabalhos. Os marinheiros encontram as ninfas. Tétis recebe Vasco da Gama.

CANTO 10 - Banquete oferecido aos navegantes. A ninfa Tétis conduz Vasco da Gama a um monte, de onde lhe mostra um globo transparente que representa a máquina do mundo. Partida da Ilha dos amores. Depois de descrever a chegada dos portugueses, o poeta queixa-se da decadência em que via sua pátria afundar-se e da indiferença pelas letras. Termina exortando o rei D. Sebastião à prática de ações sublimes e benignas.

4 - PARA QUEM QUISER PROCURAR ALGO SOBRE:

CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. São Paulo: Ática, 2004.

SALGADO JÚNIOR, Antônio (org.). Luís de Camões: obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguiar, 2008.

TELLES, Gilberto Mendonça. Camões e a poesia brasileira. São Paulo: Quíron, 1976.


CONTEXTUALIZANDO: 

Durante quatro anos, os versos abaixo (que se constituem como uma divertida paródia dos primeiros versos do poema épico "Os Lusíadas"), foram publicados como parte de um anúncio de remédio para tosse. Depois de muita controvérsia sobre quem era o autor, finalmente foi descoberto que os versos eram de Filipe Daudt d'Oliveira (1891-1933). Olhe como é interessante:

BROMILÍADAS

"Os homens de pulmões martirizados
Que, de uma simples tosse renitente, 
Por contínuos acessos torturados
Passaram ainda além da febre ardente;
Em perigos de vida atormentados,
Mais de quanto é capaz um pobre doente,
Entre vários remédios encontraram
O Bromil que eles tanto sublimaram.

E também as memórias gloriosas
Dos Doutores que foram receitando,
Com fé no seu império e milagrosas
Curas foram nos clientes operando;
E os que o Bromil por formas misteriosas
Vive da lei da morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte
Se a tanto me ajudar o engenho e a arte."




sábado, 1 de junho de 2013

GRAMATIC (ARTE): TONICIDADE DA SÍLABA



SÍLABA é o fonema ou grupo de fonemas pronunciados numa só emissão de voz. Então, uma palavra tem tantas Sílabas quantos forem os impulsos de voz necessários para pronunciá-la.

1 - Quanto ao número de Sílabas, as palavras são classificadas em:

MONOSSÍLABAS: quando possuem apenas uma Sílaba.

MAR / FLOR / DEUS / PAI / SÓ

DISSÍLABAS: quando possuem duas Sílabas.

BRASIL / PAÍS / MORTO / CASA / BAÚ

TRISSÍLABAS: quando possuem três Sílabas.

PALAVRAS / ESPOSA / CADEIRA / PÊSSEGO 

POLISSÍLABAS: quando possuem mais de três Sílabas. 

PASSAGEIRO / CAMINHONEIRO / EXCEPCIONAL

2 - Quanto à tonicidade, as palavras são classificadas em:

TÔNICAS: quando se dá maior intensidade sonora a uma Sílaba.

APÓS / AVÓS / CANÇÃO / PERDERAM / AUSTERO 

ÁTONAS: quando se dá menor intensidade sonora a uma Sílaba.

AMOR / PLATÃO / BANQUETE / APOLOGIA

3 - Quanto à Sílaba tônica (sua localização na palavra), as palavras são classificadas em: 

OXÍTONAS: quando o som de maior intensidade recai na última Sílaba da palavra.

SABIÁ / PORÉM / ALGUÉM / SACI / CAJU / JAMAIS

PAROXÍTONAS: quando o som de maior intensidade recai na penúltima Sílaba da palavra.

JANELA / MÓVEL / PARTO / PANELA / TÓRAX / LÁPIS

PROPAROXÍTONAS: quando o som de maior intensidade recai na antepenúltima Sílaba da palavra. 

ÚLTIMA / SÚBITO / MÁGICA / TÓRAX / PÚRPURA / EXÉRCITO

 4 - Quanto à Divisão Silábica, devemos considerar algumas regras: 

a - Não se separam as vogais de Ditongos e Tritongos:

PAI-XÃO /  I-GUAIS

b - Separa-se Ditongo de Hiato quando aparecem juntos:

MEI-A / BOI-A / SA-IU

c - Separam-se as vogais dos Hiatos:

MO-Í-DO / BA-Ú / SA-Í-DA

d - Separam-se as consoantes do Dígrafos RR, SS, SC, SÇ, XC:

BAR-RO / PAS-SO / AS-CEN-DER / DES-ÇO / EX-CE-LEN-TE 

e - Não se separam os Dígrafos LH, NH, CH, GU, QU:

GA-LHO / SO-NHO / CHA-PO-LIN / GUER-RA / BOS-QUE

f - Não se separam da Sílaba anterior as consoantes que não forem seguidas de vogais:

AP-TO /  FLEUG-MÁ-TI-CO / AD-MIS-SÃO

g - Não se separam os Encontros Consonantais que iniciam palavras:

GNO-MO / PNEU-MÁ-TI-CO

h - Os prefixos (DES-, IN-, SUB-) desmembram-se para formar outra Sílaba quando seguidos de vogal:

DE-SU-NI-ÃO / I-NE-VI-TÁ-VEL / SUB-EN-TEN-DER


Para ilustrar a nossa discussão, observe a letra das canções abaixo e perceba com que criatividade elas foram produzidas. Em épocas diferentes e estilos específicos, os autores apresentam versos primorosos pela musicalidade e pela recorrência de rimas ricas - essas rimas são denominadas assim por serem formadas por palavras Proparoxítonas (antigamente denominadas palavras Esdrúxulas). Tente identificar, nas canções abaixo, onde se localizam as Sílabas Átonas e Tônicas e onde se encontram as Oxítonas, Paroxítonas e Proparoxítonas.


O DRAMA DE ANGÉLICA
(Alvarenga e Ranchinho)

Ouve meu cântico
quase sem ritmo
Que a voz de um tísico
magro esquelético...
Poesia épica 
em forma esdrúxula
Feita sem métrica
com rima rápida...
Amei Angélica
mulher anêmica
De cores pálidas
e gestos tímidos...
Era maligna
e tinha ímpetos
De fazer cócegas
no meu esôfago...
Em noite frígida
fomos ao Lírico
Ouvir o músico
pianista célebre...
Soprava o zéfiro
ventinho úmido
Então Angélica
ficou asmática...
Fomos ao médico
de muita clínica
Com muita prática
e preço módico...
Depois do inquérito
descobre o clínico
O mal atávico
mal sifilítico...
Mandou-me célere
comprar noz vômica
E ácido cítrico
para o seu fígado...
O farmacêutico 
mocinho estúpido
Errou na fórmula 
fez despropósito...
Não tendo escrúpulo
deu-me sem rótulo
Ácido fênico
e ácido prússico...
Corri mui lépido
mais de um quilômetro
Num bonde elétrico
de força múltipla...
O dia cálido
deixou-me tépido
Achei Angélica
já toda trêmula...
A terapêutica
dose alopática
Lhe dei em xícara
de ferro ágate...
Tomou num fôlego 
triste e bucólica
Esta estrambólica
droga fatídica...
Caiu no esôfago
deixou-a lívida
Dando-lhe cólica
e morte trágica...
O pai de Angélica
chefe do tráfego
Homem carnívoro
ficou perplexo...
Por ser estrábico
usava óculos:
Um vidro côncavo
o outro convexo...
Morreu Angélica
de um modo lúgubre
Moléstia crônica 
levou-a ao túmulo...
Foi feita a autópsia
todos os médicos
Foram unânimes 
no diagnóstico...
Fiz-lhe um sarcófago
assaz artístico
Todo de mármore 
da cor do ébano...
E sobre o túmulo 
uma estatística
Coisa metódica
como Os Lusíadas...
E numa lápide
paralelepípedo
Pus esse dístico 
terno e simbólico:

"Cá jaz Angélica
Moça hiperbólica
Beleza helênica
Morreu de cólica!"













CONSTRUÇÃO
(Chico Buarque)

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado

Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague!

Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague!
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague!