segunda-feira, 11 de maio de 2020

CONTO: "POMBA ENAMORADA ou UMA HISTÓRIA DE AMOR" (LYGIA FAGUNDES TELLES)


           Encontrou-o pela primeira vez quando foi coroada princesa no Baile da Primavera e assim que o coração deu aquele tranco e o olho ficou cheio d’água pensou: acho que vou amar ele pra sempre. Ao ser tirada teve uma tontura, enxugou depressa as mãos molhadas de suor no corpete do vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas abriu-lhe os braços e o sorriso. Sorriso meio de lado, para esconder a falha do canino esquerdo que prometeu a si mesma arrumar no dentista do Rôni, o Doutor Élcio, isso se subisse de ajudante para cabeleireira. Ele disse apenas meia dúzia de palavras, tais como, Você é que devia ser a rainha porque a rainha é uma bela bosta, com o perdão da palavra. Ao que ela respondeu que o namorado da rainha tinha comprado todos os votos, infelizmente não tinha namorado e mesmo que tivesse não ia adiantar nada porque só conseguia coisas a custo de muito sacrifício, era do signo de Capricórnio e os desse signo têm que lutar o dobro pra vencer. Não acredito nessas babaquices, ele disse, e pediu licença pra fumar lá fora, já estavam dançando o bis da Valsa dos miosótis e estava quente pra danar. Ela deu a licença. Antes não desse, diria depois à rainha enquanto voltavam pra casa. Isso porque depois dessa licença não conseguiu mais botar os olhos nele, embora o procurasse por todo o salão e com tal empenho que o diretor do clube veio lhe perguntar o que tinha perdido. Meu namorado, ela disse rindo, quando ficava nervosa, ria sem motivo. Mas o Antenor é seu namorado?, estranhou o diretor apertando-a com força enquanto dançavam Nosotros. É que ele saiu logo depois da valsa, todo atracado com uma escurinha de frente única, informou com ar distraído. Um cara legal mas que não esquentava rabo em nenhum emprego, no começo do ano era motorista de ônibus, mês passado era borracheiro numa oficina da Praça Marechal Deodoro mas agora estava numa loja de acessórios na Guaianazes, quase esquina da General Osório, não sabia o número mas era fácil de achar. Não foi fácil assim ela pensou quando o encontrou no fundo da oficina, polindo uma peça. Não a reconheceu, em que podia servi-la? Ela começou a rir, Mas eu sou a princesa do São Paulo Chique, lembra? Ele lembrou enquanto sacudia a cabeça impressionado. Mas ninguém tem este endereço, porra, como é que você conseguiu? E levou-a até a porta: tinha um monte assim de serviço, andava sem tempo pra se coçar mas agradecia a visita, deixasse o telefone, tinha aí um lápis? Não fazia mal, guardava qualquer número, numa hora dessas dava uma ligada, tá? Não deu. Ela foi à Igreja dos Enforcados, acendeu sete velas para as almas mais aflitas e começou a Novena Milagrosa em louvor de Santo Antônio, isso depois de telefonar várias vezes só pra ouvir a voz dele. No primeiro sábado em que o horóscopo anunciou um dia maravilhoso para os nativos de Capricórnio, aproveitando a ausência da dona do salão de beleza que saíra para pentear uma noiva, telefonou de novo e dessa vez falou, mas tão baixinho que ele precisou gritar, Fala mais alto, merda, não estou escutando nada. Ela então se assustou com o grito e colocou o fone no gancho, delicadamente. Só se animou com a dose de vermute que o Rôni foi buscar na esquina, e então tentou novamente justo na hora em que houve uma batida na rua e todo mundo foi espiar na janela. Disse que era a princesa do baile, riu quando negou ter ligado outras vezes e convidou-o pra ver um filme nacional muito interessante que estava passando ali mesmo, perto da oficina dele, na São João. O silêncio do outro lado foi tão profundo que o Rôni deu-lhe depressa uma segunda dose, Beba, meu bem, que você está quase desmaiando. Acho que caiu a linha, ela sussurrou apoiando-se na mesa, meio tonta. Senta, meu bem, deixa eu ligar pra você, ele se ofereceu bebendo o resto do vermute e falando com a boca quase colada ao fone: Aqui é o Rôni, coleguinha da princesa, você sabe, ela não está nada brilhante e por isso eu vim falar no lugar dela, nada de grave, graças a Deus, mas a pobre está tão ansiosa por uma resposta, lógico. Em voz baixa, amarrada (assim do tipo de voz dos mafiosos do cinema, a gente sente uma coisa, diria o Rôni mais tarde, revirando os olhos) ele pediu calmamente que não telefonassem mais pra oficina porque o patrão estava puto da vida e além disso (a voz foi engrossando) não podia namorar com ninguém, estava comprometido, se um dia me der na telha, EU MESMO TELEFONO, certo? Ela que espere, porra. Esperou. Nesses dias de expectativa, escreveu-lhe catorze cartas, nove sob inspiração romântica e as demais calcadas no livro Correspondência erótica, de Glenda Edwin, que o Rôni lhe emprestou com recomendações. Porque agora, querida, a barra é sexo, se ele (que voz maravilhosa!) é Touro, você tem que dar logo, os de Touro falam muito na lua, nos barquinhos, mas gostam mesmo é de trepar. Assinou Pomba Enamorada, mas na hora de mandar as cartas, rasgou as eróticas, foram só as outras. Ainda durante esse período começou pra ele um suéter de tricô verde, linha dupla (o calor do cão, mas nesta cidade, nunca se sabe) e duas vezes pediu que lhe telefonasse disfarçando a voz, como se fosse o locutor do programa Intimidade no Ar, para avisar que em tal e tal horário nobre a Pomba Enamorada tinha lhe dedicado um bolero especial. É muito, muito macho, comentou o Rôni com um sorriso pensativo depois que desligou. E só devido a muita insistência acabou contando que ele bufou de ódio e respondeu que não queria ouvir nenhum bolero do caralho, Diga a ela que viajei, que morri! Na noite em que terminou a novela com o Doutor Amândio felicíssimo ao lado de Laurinha, quando depois de tantas dificuldades venceu o amor verdadeiro, ela enxugou as lágrimas, acabou de fazer a barra do vestido novo e no dia seguinte, alegando cólicas fortíssimas, saiu mais cedo pra cercá-lo na saída do serviço. Chovia tanto que quando chegou já estava esbagaçada e com o cílio postiço só no olho esquerdo, o do direito já tinha se perdido no aguaceiro. Ele a puxou pra debaixo do guarda-chuva, disse que estava putíssimo porque o Corinthians tinha perdido e entredentes lhe perguntou onde era seu ponto de ônibus. Mas a gente podia entrar num cinema, ela convidou, segurando tremente no seu braço, as lágrimas se confundindo com a chuva. Na Conselheiro Crispiniano, se não estava enganada, tinha em cartaz um filme muito interessante, ele não gostaria de esperar a chuva passar num cinema? Nesse momento ele enfiou o pé até o tornozelo numa poça funda, duas vezes repetiu, essa filha-da-puta de chuva e empurrou-a para o ônibus estourando de gente e fumaça. Antes, falou bem dentro do seu ouvido que não o perseguisse mais porque já não estava aguentando, agradecia a camisa, o chaveirinho, os ovos de Páscoa e a caixa de lenços mas não queria namorar com ela porque estava namorando com outra, Me tire da cabeça, pelo amor de Deus, PELO AMOR DE DEUS! Na próxima esquina, ela desceu do ônibus, tomou condução no outro lado da rua, foi até a Igreja dos Enforcados, acendeu mais trezes velas e quando chegou em casa pegou Santo Antônio de gesso, tirou o filhinho dele, escondeu-o na gaveta da cômoda e avisou que enquanto Antenor não a procurasse não o soltava nem lhe devolvia o menino. Dormiu banhada em lágrimas, a meia de lã enrolada no pescoço por causa da dor de garganta, o retratinho de Antenor, três por quatro (que roubou da sua ficha de sócio do São Paulo Chique), com um galhinho de arruda, debaixo do travesseiro. No dia do Baile das Hortênsias, comprou um ingresso para cavalheiro, gratificou o bilheteiro que fazia ponto na Guaianazes pra que levasse o ingresso na oficina e pediu à dona do salão que lhe fizesse o penteado de Catherine Deneuve que foi capa do último número de Vidas Secretas. Passou a noite olhando para a porta de entrada do baile. Na tarde seguinte comprou o disco Ave-Maria dos namorados na liquidação, escreveu no postal a frase que Lucinha diz a Mário na cena da estação, Te amo hoje mais do que ontem e menos do que amanhã, assinou P. E. e depois de emprestar dinheiro do Rôni foi deixar na encruzilhada perto da casa de Alzira o que o Pai Fuzô tinha lhe pedido há duas semanas pra se alegrar e cumprir os destinos: uma garrafa de champanhe e um pacote de cigarro Minister. Se ela quisesse um trabalho mais forte, podia pedir, Alzira ofereceu. Um exemplo? Se cosesse a boca de um sapo, o cara começaria a secar, secar e só parava o definhamento no dia que a procurasse, era tiro e queda. Só de pensar em fazer uma ruindade dessas ela caiu em depressão, imagine, como é que podia desejar uma coisa assim horrível pro homem que amava tanto? A preta respeitou sua vontade mas lhe recomendou usar alho virgem na bolsa, na porta do quarto e reservar um dente pra enfiar lá dentro. Lá dentro?, ela se espantou, e ficou ouvindo outras simpatias só por ouvir, porque essas eram impossíveis para uma moça virgem: como ia pegar um pelo das injúrias dele pra enlear com o seu e enterrar os dois assim enleados em terra de cemitério? No último dia do ano, numa folga que mal deu pra mastigar um sanduíche, Rôni chamou-a de lado, fez um agrado em seus cabelos (Mas que macios, meu bem, foi o banho de óleo, foi?) e depois de lhe tirar da mão a xícara de café contou que Antenor estava de casamento marcado para os primeiros dias de janeiro. Desmaiou ali mesmo, em cima da freguesa que estava no secador. Quando chegou em casa, a vizinha portuguesa lhe fez uma gemada (A menina está que é só osso!) e lhe ensinou um feitiço infalível, por acaso não tinha um retrato do animal? Pois colasse o retrato dele num coração de feltro vermelho e quando desse meio-dia tinha que cravar três vezes a ponta de uma tesoura de aço no peito do ingrato e dizer fulano, fulano, como se chamava ele, Antenor? Pois, na hora dos pontaços, devia dizer com toda fé, Antenor, Antenor, Antenor, não vais comer nem dormir nem descansar enquanto não vieres me falar! Levou ainda um pratinho de doces pra São Cosme e São Damião, deixou o pratinho no mais florido dos jardins que encontrou pelo caminho (tarefa dificílima porque os jardins públicos não tinham flores e os particulares eram fechados com a guarda de cachorros) e foi vê-lo de longe na saída da oficina. Não pôde vê-lo porque (soube através de Gilvan, um chofer de praça muito bonzinho, amigo de Antenor) nessa tarde ele se casava com uma despedida íntima depois do religioso, no São Paulo Chique. Dessa vez não chorou: foi ao crediário Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe todas as felicidades do mundo, pediu ao Gilvan que levasse o presente, escreveu no papel de seda do pacote P. E. bem grande (tinha esquecido de assinar o cartão) e quando chegou em casa bebeu soda cáustica. Saiu do hospital cinco quilos mais magra, amparada por Gilvan de um lado e por Rôni do outro, o táxi de Gilvan cheio de lembrancinhas que o pessoal do salão lhe mandou. Passou, ela disse a Gilvan num fio de voz. Nem penso mais nele, acrescentou, mas prestou bem atenção em Rôni quando ele contou que agora aquele vira-folha era manobrista de um estacionamento da Vila Pompeia, parece que ficava na rua Tito. Escreveu-lhe um bilhete contando que quase tinha morrido mas se arrependia do gesto tresloucado que lhe causara uma queimadura no queixo e outra na perna, que ia se casar com Gilvan que tinha sido muito bom no tempo em que esteve internada e que a perdoasse por tudo o que aconteceu. Seria melhor que ela tivesse morrido porque assim parava de encher o saco, Antenor teria dito quando recebeu o bilhete que picou em mil pedaços, isso diante de um conhecido do Rôni que espalhou a notícia na festa de São João do São Paulo Chique. Gilvan, Gilvan, você foi a minha salvação, ela soluçou na noite de núpcias enquanto fechava os olhos para se lembrar melhor daquela noite em que apertou o braço de Antenor debaixo do guarda-chuva. Quando engravidou, mandou um postal com uma vista do Cristo Redentor (ele morava agora em Piracicaba com a mulher e as gêmeas) comunicando-lhe o quanto estava feliz numa casa modesta mas limpa, com sua televisão a cores, seu canário e seu cachorrinho chamado Perereca. Assinou por puro hábito porque logo em seguida riscou a assinatura, mas levemente, deixando sob tênue rede de risquinhos a Pomba Enamorada e um coração flechado. No dia em que Gilvanzinho fez três anos, de lenço na boca (estava enjoando por demais nessa segunda gravidez) escreveu-lhe uma carta desejando-lhe todas as venturas como chofer de uma empresa de ônibus da linha Piracicaba-São Pedro. Na carta, colou um amor-perfeito seco. No noivado da sua caçula Maria Aparecida, só por brincadeira, pediu que uma cigana muito famosa no bairro deitasse as cartas e lesse seu futuro. A mulher embaralhou as cartas encardidas, espalhou tudo na mesa e avisou que se ela fosse no próximo domingo à estação rodoviária veria chegar um homem que iria mudar por completo sua vida, Olha ali, o Rei de Paus com a Dama de Copas do lado esquerdo. Ele devia chegar num ônibus amarelo e vermelho, podia ver até como era, os cabelos grisalhos, costeleta. O nome começava com A, olha aqui o Ás de Espadas com a primeira letra do seu nome. Ela riu seu risinho torto (a falha do dente já preenchida, mas ficou o jeito) e disse que tudo isso era passado, que já estava ficando velha demais pra pensar nessas bobagens mas no domingo marcado deixou a neta com a comadre, vestiu o vestido azul-turquesa das bodas de prata, deu uma espiada no horóscopo do dia (não podia ser melhor) e foi.  

REFERÊNCIA:

TELLES, Lygia Fagundes. Pomba enamorada ou uma história de amor. In: Meus contos preferidos. Rio de Janeiro: Rocco, 2004. p. 19  25. 

sábado, 25 de abril de 2020

CARTA PARA DEUS EM TEMPOS DE PANDEMIA (ou: livra-me da vaidade e suas malignas sendas)

"O povo", de Eduardo Marinho

Senhor Deus, 

Não permita que eu viva como quem acha que a morte não me chegará um dia. Que a vaidade das vaidades não me inflame a existência. Conhecimento que não humaniza, Senhor, que não me incite em tempo algum. Livra-me dos saberes inúteis, da inteligência acrítica, do conhecimento egoísta que não se abre a compartilhamentos. 

Acontece que sou humano, Senhor, e tenho tendência ao egoísmo, à maldade, à intolerância. Guardo em mim tantos outros defeitos da alma, por isto peço compaixão. Ensina-me a ser mais fraterno, torna-me capaz de amar a humanidade. Aliás, amar a humanidade nem me é tão difícil, pois o que é paisagem sempre anima os olhos. O problema, em verdade, é amar quem está próximo - quando a paisagem convida à aproximação percebemos os monstros que ela comporta em suas sombras. Ensina-me, desse modo, a ser humano o suficiente para amar a quem encontro em meu derredor. O cotidiano tende a nos massacrar demais e, por vezes, terminamos nos rendendo a seu amargor indômito. Torna-me incapaz de ser cruel ou indiferente aos que erguem a mão pedindo auxílio, mas não me permita dizer sim a tudo, como se, com isto, quisesse comprar com o afeto alheio o que me falta em dignidade. 

Há tanto a pedir, Senhor, que não sei até que ponto não incorro em nova falha: quem pede muito o faz por não reconhecer o que já foi dado? Talvez. Então peço desculpas, porque tenho tendência à ingratidão. Por falar nisto, pensando bem, eu reconheço as benesses que me foram dadas, embora ainda sinta falta de me sentir acolhido integralmente nesta vida que me foi, por muito tempo, repleta de dor e sofreguidão. Devo dizer, no entanto, que estou bem melhor hoje. Por isto, estou grato!

A humanidade, porém, como deve ser de seu conhecimento, anda um tanto apreensiva. Uma pandemia tem feito bem a ela tornando-a apta a pensar sobre uma série de fatores - dizem até que o planeta ficou menos poluído depois que um vírus mostrou que precisamos estar mais atentos ao bom-senso e à preservação da vida. Pode até ser, mas há gente morrendo demais, Criador do mundo! Desde a infância tenho visto muitas mortes perto de mim, todavia há tanta gente morrendo em decorrência desse mal que estou com medo. Medo não por mim, claro, mas por aqueles que estão guardados em minha redoma de afetos construída com vidro frágil.

Não sei em relação aos outros, mas eu estou pensativo: quando não conseguimos mais dormir (e a insônia tem me fustigado) resta-nos pensar um pouco sobre a vida e seus percalços. Gostaria de compreender teus planos, no entanto sou tão simplório no entendimento das ações dos homens, imagina se terei condições de entender as ações de um deus!

Ah! Obrigado por ter dado aos homens a capacidade de produzir arte. Sim, que alento para a alma o Senhor nos proporcionou! Sem ela, como sobreviver a pandemias e tantas outras desgraças? Claro, nem todos têm acesso à arte, porque lhes é tirado esse prazer e esse direito. Talvez seja essa a maior falha dos homens que se embriagam de poderes: tirar de seus irmãos o prazer e o direito de vivenciar um alento para a alma através da arte. Há perdão para eles, Deus?

Há três coisas que gostaria de confessar. Não, não vou confessar meus pecados, pois o Senhor está cansado de saber que tenho erros aos arroubos. Vou confessar, narcisista que sou, três qualidades: 1) tenho sensibilidade aguçada, quase vivo de eternas vertigens (normalmente, eu tento disfarçar essa minha característica, contudo, com o que tem acontecido, como ocultá-la?); 2) o silêncio e a solidão me excitam (mas eu não sei ser silêncio em épocas de medo, e a solidão tem me doído tanto, tendo em vista que há sempre alguém que, para o bem ou para o mal, pode me ampliar, em dias comuns, com a percepção de sua presença); 3) eu leio as pessoas a curtas e longas distâncias, o que me dá tempo de preparar algum plano de fuga, pois quase sempre sinto necessidade de máscaras que afixo em mim com pontiagudos pregos (e agora nem isso!). Eu fiz confissão de qualidades ou defeitos? Não sei dizer.

De qualquer modo, que libertação dizer o que disse! Obrigado por me ouvir, Deus. Posso fazer um aparte? Quando menciono a palavra Deus, preciso enfatizar o seguinte: quem é, onde está, como encontrar o ser que as religiões invocam com a palavra Deus? Parece-me, Senhor, que o encontro muito mais no mistério do que no processo de religação que querem me impor.

Por fim, estou à espera de caminhos que me proporcionem melhores capacidades para o bem. Ainda não consigo me entender completamente, de modo que permanecerei no esforço de atirar no chão a vaidade que me faz ser patético, o orgulho que me torna medíocre, o egoísmo que me apequena. E, se me permite um último pedido: seria possível conscientizar o mundo e, principalmente, meu vilipendiado país, sobre a importância de ser solidário? Comece por mim, por favor, porque tenho meus rompantes de maldade e egocentrismo. Por ter começado falando de vaidade, pronto, lá vem mais um pedido de última hora: Senhor, que minha vaidade não me cegue, dá-me habilidade para usar o pouco que tenho para o melhor do mundo! Liberta-me, liberta-nos, Deus, do mal que é visto como banalidade!

Atenciosamente,

Um espírito inquieto que atravessou o século XX e que gostaria de ver horizontes no século XXI.

Émerson Cardoso
05/05/2020 












segunda-feira, 6 de abril de 2020

NOTAS SOBRE "ENQUANTO AGONIZO", DE WILLIAM FAULKNER (OU A ARTE DE ESCREVER COM PERFEIÇÃO)


Addie e Anse têm cinco filhos: Cash, Darl, Jewel, Dewel Dell e Vardaman. A matriarca da família morre. Cash, seu primogênito, prepara-lhe o caixão  ela ainda o vê prepará-lo através da janela. Jewel, seu terceiro filho, menciona (FAULKNER, 2017, p. 17) a este respeito: "É por isso que ele está la fora, embaixo da janela, martelando e serrando aquele maldito caixão. Onde ela pode vê-lo. Onde todo o ar que ela aspira está impregnado das marteladas e serradas onde ela pode vê-lo dizendo Veja. Veja que beleza o que estou fazendo para a senhora". 

Quando Cash nasceu, Addie fez Anse prometer que, por ocasião da morte dela, ele a sepultaria em Jefferson, sua cidade natal. Após a esposa morrer, Anse decide cumprir sua promessa - isto se torna sua meta existencial por excelência.  

Anse coloca o caixão, onde repousa Addie, sobre a carroça na qual também coloca seus quatro filhos. Jewel, o quinto filho, não sobe com os demais na carroça, acompanha os fúnebres viajantes montado em seu cavalo (que ele comprou com imenso sacrifício). Está criada a caravana cuja meta é sepultar em cidade distante do local em que moram a matriarca da família. 

O resumo que apresento acima não alcança, nem de longe, a perfeição conteudístico-formal desse romance. Trata-se de uma das experiências de leitura das mais fascinantes que já vivenciei. Esse romance foi publicado por William Faulkner, escritor norte-americano, em 1930, com o título As I Lay Dying (Enquanto agonizo, na tradução de Wladir Dupont). A obra explora o fluxo de consciência de suas personagens (muito bem delineadas psicologicamente) através de uma técnica narrativa instigante: o nome das personagens indica o foco narrativo que é adotado para explanação das impressões que cada uma delas tem sobre os acontecimentos que se desenrolam durante o trajeto que a família realiza para sepultar a matriarca. Personagens protagonistas e personagens secundárias ganham voz na narrativa, o que amplia a percepção do leitor sobre a trama complexa que o autor desenvolve nessa aclamada obra do século XX. 

Não vou pormenorizar muito o que ocorre em seu enredo, pois entrar demais nas personagens e suas misérias humanas, aqui, trará à tona seus segredos e isso poderá tirar do leitor o prazer de descobri-los por meio da leitura. Esse romance, sem querer cair em exageros encomiásticos, é um dos mais estruturalmente criativos e bem realizados dentre as narrativas que já li. Pretendo analisá-lo através de algum trabalho acadêmico futuramente, isto talvez me proporcione maior compreensão de sua construção estética, mas devo dizer que minha intenção, com estas notas, é incitar quem as lê a procurar com urgência esse livro. Nele, você poderá encontrar temas como: relações familiares com suas incomunicabilidades e segredos, a condição da mulher diante do construto patriarcal que tenta subjugá-la em vários aspectos, a morte e suas representações simbólicas, o amor e o ódio em coexistência nas diversas relações que se estabelecem na existência humana, a persistência no cumprimento de uma promessa, a cegueira a que alguém pode ser conduzido quando toma decisões que podem afetar os envolvidos nessa decisão, a dualidade humana, a lealdade e a deslealdade, a loucura e o que de fato pode ser entendido como loucura etc. 

Para concluir, devo dizer que Enquanto agonizo é leitura indispensável para quem busca entender, em profundidade, a capacidade artística de um escritor comprometido com a originalidade de uma obra artística; também para quem busca narrativas que podem trazer uma compreensão mais acentuada da condição humana no que ela tem de mais complexo e fascinante. 

REFERÊNCIA

FAULKNER, William. Enquanto agonizo. Tradução de Wladir Dupont. Porto Alegre: L&PM, 2017. 

Émerson Cardoso
06/04/2020


sexta-feira, 3 de abril de 2020

UMA ESPERANÇA, POR CARIDADE! (ou lições da famigerada COVID - 19)


O que está acontecendo com o mundo, com as pessoas do meu derredor e comigo? O que eu vou fazer com a vida que ainda há no mundo, nas pessoas do meu derredor e em mim? Tenho tantas dúvidas, medos e preocupações, neste momento, que me sinto, como diz um trecho da canção de Chico Buarque, "como quem partiu ou morreu".

Quero enumerar algumas sensações que me percorrem, agora, quem sabe assim eu não consiga expurgar um pouco das angústias que me fazem doer corpo e alma!

A primeira sensação que me vem à alma é medo: quem sobreviverá, os meus sobreviverão, eu sobreviverei? Até quando estaremos rendidos, perdidos, desesperados e inseguros? Quem sobreviverá para contar a história? Quem poderá segurar minha mão agora e dizer, me olhando nos olhos, que vai passar, sim, tudo isso vai passar! E como poderei desenvolver em mim essa crença? 

A segunda sensação é de impotência: não tenho muito a fazer a não ser aceitar minhas limitações diante do caos e torcer para que algo externo a mim, um deus ex machina, talvez, salve-nos finalmente. Uma vacina, uma medicação, uma luz no fim do túnel, uma esperança que seja, ó Deus: quem nos protegerá de nós mesmos em meio a tanta impotência? 

A terceira sensação é de surpresa: nunca enfrentei pandemia nesta proporção. Mesmo as barbáries do século XX, como as tão próximas guerras mundiais, que me pareciam as piores experiências em proporção mundial dos últimos tempos, elas me vinham à mente como acontecimentos que foram vencidos, que acabaram e que, portanto, deveriam ficar na lembrança como exemplo do que nunca mais deveria acontecer. Eu me deixei iludir: pensei que nunca aconteceria comigo tragédia tamanha. Entre doenças de larga escala e guerras, sei que aconteceram algumas, desde meu nascimento, mas eu as via com o olhar de lamento distante. Quem me perdoará por me ater apenas ao lirismo dos acontecimentos e não à realidade? 

A quarta sensação é de raiva: como podemos suportar o fato de que temos que lidar com certos governantes incapazes de um mínimo de bom-senso em momento tão funesto? Como podemos aceitar que cientistas estejam perdendo bolsas de incentivo à pesquisa neste momento fulcral para o fomento à ciência? Como podemos entender seres humanos dizendo que outros seres humanos deverão morrer, sim, mas a economia deve prevalecer para que o país não pereça? Burgueses unidos, em seus empreendimentos diversos pautados nos lucros e na exploração de trabalhadores, jamais serão vencidos, é isto? Eu terei que aceitar com amor no coração algo tão descabido e indigno? 

A quinta sensação é de dor: pelos mortos, pelos que sofreram perdas familiares, pelos que não têm como se alimentar, pelos que perderam empregos, pelos que não terão o que fazer para reverter o quadro de dor nas próximas datas, pelos que moram nas ruas, pelos que choram... 

A sexta sensação é de desconfiança: por que eu, que já enfrentei momentos pesados na vida, ando tão fragilizado? Não era para eu ser forte agora, depois de tantos ensaios de sofrimento? Alguém poderia me dar uma dose cavalar de esperança ou força? Por que ainda há tanta ignorância, egoísmo e falta de solidariedade envolvidas nessa guerra contra um vírus monstruoso que nos faz tatear o chão? Se bem que descer ao chão, nele estar caído, é experiência das mais profundas. A vaidade humana precisa do chão, também de algumas quedas, de vez em quando. Deus, podemos conversar sobre o que tenho sentido, ou o Senhor acha melhor que eu me reequilibre primeiro?

A sétima e última sensação é de algo que não sei nomear. Eu não sei nomear porque a trago em mim desde o nascimento. Sabe quando se olha o mundo com saudade de algo que não há ou nunca houve no mundo? Sei que é difícil de entender na mesma proporção que é difícil de explicar. Saudade, talvez, ou mesmo dor de não estar em ou com. Sim, é mais ou menos isso: saudade do que poderia ter sido e não é, não foi e não será. Enquanto tenho que lidar com isso, eternamente enquanto dure, preciso dizer que estou triste pelo mundo, pelas pessoas em meu derredor e por mim mesmo. Autocomiseração, será? Não sei, tem mais a ver com o desejo de sobreviver para prosseguir na marcha que me daria a mim mesmo um ser humano melhor do que sou. Também quero pedir... Não, quero implorar: que me venha uma esperança! Vou erguer a mão e pedir, ainda que permaneça com ela estendida até o fim dos tempos. Quem sabe assim eu não entenda, definitivamente, o que me trouxe aqui neste mundo: a humildade de estender uma mão pedindo algo é o maior reencontro existencial consigo mesmo que a vida pode proporcionar. Então, com mãos estendidas, peço: uma esperança, pelo amor de Deus, uma esperança! 

Émerson Cardoso
03/04/2020

domingo, 15 de março de 2020

IMPRESSÕES PASSIONAIS SOBRE O ROMANCE "FRANKENSTEIN", DE MARY SHELLEY



Não existem súplicas que o levem a ter um olhar favorável para a sua criatura, Frankenstein: eu era benevolente, minha alma brilhava de humanidade. Veja: eu não estou só, desgraçadamente só? Você, meu criador, me abomina.                        (SHELLEY, 2019, p. 104)


Concluí a leitura do romance "Frankenstein" (1847), de Mary Shelley. Nele, uma narrativa comporta outra narrativa que comporta outra narrativa. As personagens são densas, amplas e instigantes. Talvez tenha sido a maior experiência de solidão que já vi personagens vivenciarem em uma narrativa. Seja a solidão autoimposta de Victor Frankenstein, seja a solidão inevitável do Ser (eu prefiro denominá-lo assim) criado pelo cientista, poucas obras conseguem delinear tão profunda e liricamente esse tema que me é tão caro. 

Vou ser sincero, lamentei pelas perdas vividas por Victor Frankenstein, mas minha comoção foi direcionada profundamente ao Ser, pois ele não pediu para existir e, mal foi colocado no mundo, teve que engolir o abandono e a inaceitação. O vazio foi sua condição existencial por excelência. 

O que poderia ter sido encontro afetivo ou de cumplicidade entre criador e criatura, torna-se, em "Frankenstein", um desencontro catastrófico. Victor Frankenstein não traz para si o compromisso de acolher o Ser que nasce de sua ambição cientificista nada preocupada com a ética e as consequências de sua arrogância e autossuficiência. Essa atitude me faz querer perguntar: se não tinha capacidade de comprometer-se com as consequências de seus atos, por que foi adiante? Por que criar ou dar vida a alguém que não se pode acolher? Se não é capaz de arcar com as responsabilidades de um ato, por que realizar tal ato?

A solidão de Victor, cego pelo poder e pela vaidade de criar algo que ninguém havia criado, de ultrapassar as barreiras da morte e dela tirar a vida, é doentia. A solidão do Ser, que se entrincheira no desejo cego de vingar-se daquele que o engendrou e o desamparou, é doentia. O primeiro vive, como dissemos, a solidão por escolha, isto é, autoimposta. O segundo vive a solidão irremediável, isto é, aquela que é engolida com angústia e com a impotência de não poder revertê-la. Penso, no entanto, que eles se irmanam, de certo modo, no sofrimento que colhem em suas respectivas solidões.

Victor Frankenstein paga um alto preço por sua passionalidade, por sua ambição de querer saber demais. O Ser, por sua vez, perdido, incompreendido e deprezado, encontra uma via tenebrosa como subterfúgio e termina por espargir sobre inocentes o ódio resultante da solidão a que é submetido. Ambos são vítimas, claro, mas Victor Frankenstein é mais monstruoso. Ele não olha com humanidade para sua criatura - só lhe dá espaço para sua narrativa quando se sente acuado e, egoísta que é, só decide dar-lhe uma companheira para poder livrar-se dele. O problema é que, além de egoísta, Victor Frankenstein não tem força moral de cumprir uma promessa. Ele tem um álibi para não cumpri-la, mas ela não me convence: ele pensa que, se criar uma companheira para o Ser, que ele denomina a partir dos piores epítetos, como ter certeza se a humanidade poderia sobreviver a essa dupla? Se pensava tanto na humanidade, e temia que algo desse errado a ponto de comprometê-la em sua integridade, por que não pensou nisso antes, hein, Victor Frankenstein?

O Ser é odiado, menosprezado, visto como algo terrífico e grotesco por seu criador e pelas outras pessoas, como suportar algo assim sem dar respostas? Ele termina por arrefecer sua dor fazendo doer àquele que lhe proporciona uma existência amarga e infeliz. Não penso que o mal que alguém causa ao outro deve ser vingado, sobretudo de modo tão violento, mas o Ser apenas reagiu às ações monstruosas de seu criador e das pessoas do mundo pouco afeitas a aceitar o "outro" em suas singularidades.

Deve haver quem olhe para Victor Frankenstein compassivamente, claro, afinal ele perde os seres que mais ama - muita gente inocente paga por um erro que jamais cometeu. Eu, no entanto, olho para o Ser com maior empatia, pois ele, embora se transforme em um assassino implacável, traz em si tanta dor, sentimento de rejeição, carência afetiva, medo, desespero e, sobretudo, solidão que não tenho como não me solidarizar. Ele poderia ter sido melhor cuidado por aquele que o idealizou, por que isso não aconteceu? O mal nasce, por vezes, como resposta vingativa a uma maldade anteriormente direcionada a alguém.

Enfim, ainda envolto na atmosfera gótica desse romance escrito por uma mulher extraordinária, devo dizer, após esses comentários passionais que constituem um amontoado de impressões sem pretensão de análise, que "Frankenstein", de Mary Shelley, é um dos livros mais profundos, belos e instigantes que eu já li. Poucas vezes a solidão (palavra mais linda da língua portuguesa) conseguiu ser tão bem retratada em uma obra literária. Que privilégio ter existido para ler essa obra!


REFERÊNCIA 

SHELLEY, Mary. Frankenstein. Tradução de Silvio Antunha. Jandira, SP: Principis, 2019. 

Émerson Cardoso
15/03/2020 



domingo, 1 de março de 2020

DIVULGAÇÃO (LIVROS PUBLICADOS EM 2019 / 2020 /2021/2022/2023)













A CRUELDADE COTIDIANA QUE HABITA EM NÓS


Crueldade tem a ver com pessoas que sentem prazer em fazer o mal e são indiferentes ao sofrimento que causam ao outro. Pessoas cruéis realizam atos maldosos e, por motivos diversos, não têm piedade, compaixão, empatia, predisposição a respeitar a dor e a fragilidade do outro. 

O século XX viu a tecnologia, a razão e o conhecimento a serviço da barbárie. Não subestime, no entanto, os séculos anteriores, porque eles viram o homem massacrar, punir, maltratar e subjugar seus iguais em condição humana por motivos torpes - a escravidão existiu e tem suas consequências.

O século XXI, coitado, achava que estaria isento da crueldade humana? Mas que iludido! Não, ele não está isento. Ao contrário, ele se manifesta em sua plenitude e face desoladora. Isso ocorre em espaços variados e em constantes atitudes que as pessoas realizam por hábito. 

Olhe em redor e não vai ser difícil perceber as navalhas discursivas que massacram almas no cotidiano da vida. Há pessoas que não hesitam em humilhar, destruir, fazer sofrer, deturpar a vida dos outros com pensamentos, palavras, atos e não omissões. Sentimento de culpa ou senso crítico não lhes pertencem. Elas querem que as outras explodam. Sim, o objetivo, por vezes, é vê-las explodir moral, física e cognitivamente... 

O que falta para que as pessoas entendam que conviver fraternal e eticamente é o caminho mais viável? As pessoas confundem muito as coisas: não precisamos ter afinidade com todos, ou mesmo corresponder às expectativas deles. O que precisamos, de fato, é respeitar, compreender, ter solidariedade uns com os outros. Cansa lidar com a maldade manifesta em discursos ferinos, em egocentrismos que tornam insustentável a possibilidade de conviver respeitavelmente. 

Não há razão para sermos tão medíocres, mesquinhos e, sobretudo, patéticos em nossas baixezas humanas. Estamos presos a uma concepção tão restritiva da vida, por vezes, que parece inconcebível idealizar um espaço comunitário em que as pessoas possam, ainda que minimamente, conviverem em suas diversidades e subjetivações. 

Por que decidi refletir um pouco sobre crueldade? É que sou professor. Sim, porque sou professor e vejo que a crueldade realiza frequentes bailes na cratera acrítica na qual alguns seres que exercem essa profissão costumam se entrincheirar. Não sou perfeito, é certo, mas por ser imperfeito não vou admitir que serei eternamente falho como uma fatalidade. Estamos no mundo é para nos tornarmos pessoas melhores, ou não? Vamos esperar que a barbárie dance sobre nossos cadáveres egocêntricos? 

Cansei de ser vítima da crueldade dos outros e fingir que está tudo bem. Vou me observar com mais afinco para também não me flagrar em atos de crueldade. Vou gritar canções líricas e poesias de afeto, porque a excelência da alma é o encontro consigo mesma e com o outro - e a arte que quero compartilhar pode nos redimir dos ódios de estimação que se materializam em palavras e gestos de crueldade. Quanto ao mundo, seria tão melhor conservar a generosidade do silêncio quando o que temos a dizer é massacre contra aquele que não está presente para se defender. Sobreviveremos a nós mesmos? Sobreviveremos à crueldade dos outros? 

Espero que sim, ó céus!

Émerson Cardoso
28/02/2020