terça-feira, 31 de maio de 2022

"O ÚLTIMO POEMA", DE MANUEL BANDEIRA, E "A ÚLTIMA CRÔNICA", DE FERNANDO SABINO

 


O ÚLTIMO POEMA

 

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

 

(Manuel Bandeira)[1]

 

A ÚLTIMA CRÔNICA

 

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "Assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.

O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

(Fernando Sabino)[2]



[1] BANDEIRA, Manuel. O último poema. In: Libertinagem e Estrela da Manhã. 14. ed. São Paulo: Editora Nova Fronteira, 2000.

[2] SABINO, Fernando. A última crônica. In: Elenco de cronistas modernas. 21. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005.

RESENHA CRÍTICA DO LIVRO "CRUVIANA", DE JOVINA BENIGNO



BENIGNO, Jovina. Cruviana. Fortaleza: OIA Editora, 2022.

O livro de poemas Cruviana, de Jovina Benigno, apresenta vinte e quatro poemas divididos em duas partes. A primeira parte é intitulada Mergulho insepulto (nela constam treze poemas). A segunda parte é intitulada Memória sepultada (nela constam onze poemas).

 

Na primeira parte, a autora inicia seu versejar com o poema Mergulho. Nele, a voz lírica, autodenominada estrangeira do tempo, se deixa abandonar e encontra na palavra a liberdade de ser e de estar no mundo. Em Erva de São Lourenço, o tom metalinguístico invade a voz lírica em busca de afirmação poética. N’O cheiro dos igarapés, a autoafirmação se configura pela compreensão do ser mulher em todas as suas possibilidades lírico-existenciais. Nele, localizamos versos de uma ousadia poética digna de nota:

 

Homens e mulheres,

beijo suas bocas

lambo seus sexos

sem olhos vendados.

(BENIGNO, 2022, p. 35)

 

Isso também ocorre n’Os alienistas, que apresenta uma voz sem qualquer medo de ser considerada insana ante os julgamentos que a atiraram “em celas / sem capelas”. Em Jacarés chegando, há um tom de observação social que vê a realidade e o não alento para vidas percebidas à margem. Há nele, ainda, a crueza de palavras que leem a existência “na putrescência” do ser. Em Olhos vazados, as palavras também são cruas, mas nesse caso observam outro aspecto da condição humana: o amor que deixa a voz lírica “feito barco naufragando” ante impossibilidades.

 

No poema Rosa, na cabeceira, temos as desventuras de um livro envelhecido e abandonado que exigia de sua leitora um processo de ressurreição. O livro, descobrimos, é de Guimarães Rosa e grita, em sua força expressiva, por um olhar de acolhimento. Em seguida, vem a leveza do Balão fugindo que, em verdade, busca liberdade e cura nas cores de chuva e de sol impregnadas de mar.

 

No poema Salvo, o dia, fragmentos do passado e alusões a Manuel Bandeira dão a tônica. A leveza desse texto contrasta com Foice volátil, que traz como tema a morte e suas reverberações dolorosas. Também a morte está presente na desilusão do primeiro amor configurado pelo preterimento, que surge como tema no Pão bolorento. O preterimento amoroso, experimentado pela voz lírica com amargura, volta a ser tema no Último desejo. O lirismo pungente que constrói a beleza desse texto é uma das melhores realizações do livro.

 

A primeira parte da obra termina com mais um texto alusivo à morte. No caso, o poema Versos mortos, construído com a expressividade de imagens líricas retiradas de “vapores com cheiro de éter”, “presas cheirando a alho” e “baratas em festa”.

 

A segunda parte do livro inicia com o texto que lhe dá título: Cruviana. Nele, novamente nascem rememorações, tempos de chuva “na casa furada”, de “baldes cobrindo o peito”, de “telhas quebradas” e de infâncias que “brincam de roda”.

 

N’A mala, Juazeiro e a poeta, a voz lírica relata uma viagem ao Cariri cearense, mais precisamente uma visita à cidade de Juazeiro do Norte, ocasião em que pode ver, na “sacola perdida”, o peso do “poema de uma vida”.

 

Serenata, que vem na sequência, retoma cenas e cenários de uma casa que ainda recebia canções de amor para moças na janela. Ainda no contexto imagético da casa, temos redutos de vida, memórias de cotidianos antigos e profundidade de experiências familiares reconstruídas n’O suor na bacia, que é dos textos mais emocionantes da autora.

 

O tom melancólico, apresentado anteriormente, dá espaço, em Resenha, a lembranças alegres e momentos felizes. A queda da cachoeira traz o tema do amor ausente, mas há nele a capacidade da voz lírica de “amar de novo”. Depois, em O canto do xexéu, temos um olhar novidadeiro sobre o pássaro e, ao mesmo tempo, sobre as claridades e levezas da vida.

 

No meio da sala é doloroso, com imagens de chuva e de morte. Fala-se de perdas na infância e comenta-se sobre “vida após a morte”. Em seguida, Prece aos mortos retoma a compreensão da morte pelo ângulo de visão infantil: curiosidade, medo e constatação da ausência. Nele, localizamos uma das estrofes mais belas do livro:

 

A foice erra o coração

dos fenecidos fornidos de bem

deles me restam

o pesadume da exiguidade

a revelação nas cinzas

a profundidade das covas

o dilacerante amor

sem o consolo do coro dos corações.

(BENIGNO, 2021, p. 117)

 

A morte é retomada em Retrato póstumo. Irrompem desse retrato imagens do pai, da mãe e dos irmãos, ausentes no tempo, mas presentes no tecer dos versos. E o livro termina com Sabores e saberes. O luar é um “magno presente” que observa “a noite e os notívagos”. A voz lírica confessa que não há “arrependimentos sob a luz da lua”. Existem, porém, “carícias orvalhadas” iguais a “um beijo cheio de luar” e, com isso, um universo poético se fecha nas páginas do livro para abrir-se na memória comovida de quem lê.

 

Consciente de seu fazer poético, Jovina Benigno trata, dentre outros temas, do erotismo, da condição da mulher, da praticidade da vida, das alegrias, da morte, das dores da alma e, sobretudo, da humanidade em seu sentido mais profundo. Esse livro é uma porta aberta para a brasilidade, é um encontro festivo com o simbólico, é uma viagem prazerosa (também dolorida) pelas terras áridas ou vívidas que se abrem à poesia do simples e à natureza do belo. Ele é recomendável pelo lirismo, pela profundidade, pela poeticidade e pela beleza. Há muito a ser vivido nessa obra de expressividade inconteste.

 

Jovina Benigno nasceu em Fortaleza–CE. Graduada em Letras e Direito, ela participou em diversas antologias e publicou, em 2020, o livro Versus de uma vida, pela Editora Scortecci. Em 2022, a autora publicou Cruviana, pela OIA Editora.


Onde comprar o livro: 

No instagram: @jovinagb


CARTA A LIDUÍNA BENIGNO XAVIER, AUTORA DO LIVRO "TECLADO DE AREIA"


 Juazeiro do Norte - CE, 31 de maio de 2022

Caríssima Liduína Benigno Xavier, 

Na crônica Sempre Rachel, do seu livro Teclado de areia, publicado em 2022, você comenta que leu Cartas exemplares, de Gustave Flaubert, e alude ao fato de que o gênero epistolar descortina informações sobre os autores nem sempre encontráveis em manuais ou biografias. 

Você diz, ainda, que se sentiu privilegiada por poder entrar no universo de Gustave Flaubert (autor que pesquiso atualmente) através das correspondências dele. Além disso, você criou um parágrafo no qual afirma (XAVIER, 2022, p. 26): "E, sendo pessoa afeita a devaneios, logo me imaginei recebendo cartas de escritores e sendo envolvida na aura de inspiração que sempre exala de figuras modelares". 

Escrever e receber cartas, concordo, é um exercício instigante. Amo esse exercício. Ah! Compartilho de sua tendência a devaneios. Penso que isso nos torna escritor e escritora. Escrever, a propósito, é um ofício árduo, mas ele amplia tanto nossa existência, não acha? Escrever, para mim, é o ar que eu respiro. Sem poder escrever, acho que morreria. 

Por falar em devaneio, você, em seu devaneio-lucidez, imagina a possibilidade de enviar uma carta para algum talento da "constelação literária" que você tanto ama e escolhe a incrível Rachel de Queiroz, autora cuja obra pesquiso desde 2004 e que apresentarei por meio de estudos acadêmicos em livro que está em processo de revisão para ser publicado em breve. Pensei, em verdade, que você fosse escrever essa carta para Rubem Braga. Eu percebi seu amor devotado a ele em Crônica de um amor que nunca houve, O velho Braga, Rubem Braga mora na minha estante, Moqueca de siri e Madeleines e Recado de verão. Ele merece, certamente, esse amor. Que escritor grandioso! 

Ao escolher Rachel de Queiroz para enviar sua carta, essa autora cuja obra amo tanto, você, inteligente que é, inicia uma crônica na qual explana sua experiência de leitura de obras da autora e, desse modo, trata de características dessa obra trazendo, também, breves informações biográficas acerca da escritora cuja obra tem valor literário inconteste. Você é esperta, viu? Enquanto cria expectativas no leitor sobre uma carta que pretende escrever para Rachel de Queiroz, você escreve uma crônica. Sim, uma crônica metalinguística (e seu livro traz exemplos incríveis de textos que exploram a metalinguagem, como é o caso de Ofício de cronista, Uma crônica é uma crônica é uma crônica, Receita de crônica, Ser cronista e Crônica, eu te amo etc.) que é uma louvação a essa mestra fundamental quando o assunto é a história da crônica no Brasil.  

Por falar em seu livro, acredita que o li, de fôlego, no primeiro dia que o recebi? Sou professor de Língua Portuguesa e Literatura, então levei crônicas suas para sala de aula. Eu tinha aulas planejadas sobre o gênero crônica na semana em que recebi seu livro e o incorporei de imediato em minhas aulas. Li em sala de aula: Receita de crônica, Notas de aula no caderno novo e Louvação ao álcool gel (como crônica traduz o cotidiano, esta me foi indispensável para tratar com estudantes sobre essa peculiaridade do gênero). 

Eu teria dificuldade de dizer qual foi a crônica de minha preferência. Em geral, seus textos são maravilhosos. Não entenda esse elogio como algo simplório, hein, porque li e reli seus textos com interesse. Sua prosa é simples, leve, imagética, lírica e tem a peculiaridade de construir uma linguagem acessível sem, contudo, perder em qualidade literária. Agora, a crônica que me deu um nó na garganta foi Precisamos falar dos mortos. A morte é um tema doloroso, mas envolvente. Essa crônica me fez entrar em contato com a tragédia que vivemos recentemente: ainda caminhamos sobre os escombros da pandemia. Perdi pessoas queridas para a Covid-19. Seu texto me foi catártico à medida que me levou a pensar e repensar essas perdas tão dolorosas vividas por mim e pelo mundo. 

Teclado de areia é um livro de metalinguagens e reflexões sobre o ofício de escrever. Não estranhe se alguns textos seus forem retomados em atividades de escrita literária, porque eles seriam exemplos criativos do que é postar-se diante do papel em busca de algo a ser escrito. 

Para concluir, devo dizer: você escolheu Rachel de Queiroz para destinatária de sua carta, e eu escolhi você. Sim, eu escreveria uma carta para você. Eu diria nela o quanto seu texto é criativo, valoroso e repleto de qualidades. Seus textos são um exercício de pensar, de sentir, de ver o mundo com sensibilidade e, sobretudo, de construir novos horizontes quando a ideia é expurgar pela escrita o que a alma resguarda. 

Você precisa escrever uma carta para Rachel de Queiroz, Liduína Benigno Xavier, e eu precisava escrever essa carta para você. Nela, vai o meu abraço comovido. Espero nos encontrarmos para um café literário dia desses, pois quero ouvi-la dizer sobre o processo de escrita desse livro que recebeu prêmio e tudo, merecidamente, viu? 

Cordialmente, 

Émerson Cardoso


sábado, 26 de fevereiro de 2022

CRÔNICA: "FAZENDO AS PAZES COM A ACADEMIA"


Eu sempre considerei as academias (de ginástica, de musculação etc.) espaços inabitáveis. Acontece que o mundo gira e nossas percepções a respeito de certas práticas podem mudar. Foi assim comigo em relação a esses espaços que eu denominava templos da superficialidade e da falta-do-que-fazer. 

Não deixo de observar o quanto, para algumas pessoas, realmente a academia pode ser um templo não só da superficialidade, mas da vaidade exacerbada e do culto à aparência aos moldes do padrão construído e propagado contemporaneamente. Nesse sentido, é engraçado observar alguns seres caricatos e, por vezes, patéticos na constante tentativa de se sentirem bem diante dos espelhos que lhes fustigam o ser-estar-no-mundo. Minha visão sobre as academias, no entanto, saiu desse olhar preconceituoso e passou a enxergar outras possibilidades.

A academia pode ser um espaço extremamente agradável ao proporcionar descobertas. A primeira descoberta, creio, é sobre o corpo. A musculação e as demais atividades criam uma percepção mais aguçada do corpo e, com isso, reduz a ansiedade, melhora o humor, restitui a saúde, produz melhores condições de sono, proporciona a organização do pensamento, ajusta a postura, promove sociabilidade e minimiza a depressão. 

Enumerei esses itens porque falo de minha experiência, mas é provável que existam outras benesses para quem se dispõe a enfrentar o cotidiano das academias. Eu costumo brincar dizendo que os aparelhos são instrumentos de tortura medieval (alguns realmente parecem), no entanto é divertido descobrir meus limites na possibilidade de uso desses objetos capazes de moldar os corpos não só esteticamente, mas no que há de saudável e lúdico da fisiologia e da psicologia do ser humano. 

Eu, que antes criticava, descobri o quanto pode ser saudável realizar exercícios físicos em espaço construído para essa finalidade. A sensação que tenho, quando estou lá, é a de que não preciso me preocupar se pareço ou não ridículo quando realizo os exercícios. Quem está naquele ambiente vê com naturalidade o que é realizado e, consequentemente, se compreende parte de um todo em busca da vida pelo corpo em movimento.  

Quanto à minha experiência, existe uma indumentária criada para o evento. Existe uma ritualística engraçada no processo de ir, chegar, entrar, permanecer e sair. A ida é um desafio. O retorno é a sensação de missão cumprida. O movimento durante o ato parece exacerbar em alegria estranha. Tudo se torna caminho de endorfina e serotonina revisitadas. 

Eu gosto mais de exercícios aeróbicos, porém não me fecho às demais possibilidades. Tenho gostado da experiência e quero construir a disciplina necessária para prosseguir nessa prática recém-descoberta por mim com estranhamento. Cada pessoa deve encontrar um prazer particular na academia. Eu encontrei bicicleta, esteira, corda e dança. Sim, para minha surpresa, também se aprende a dançar na academia. Incrível como tenho me desconstruído com essa experiência.  

Na luta para viver, para se manter de pé no caos, para construir espaços de existência em plenitude, creio que a academia (e tantas outras formas de exercitar a mente e o corpo) pode ser muito útil. Eu, por mim, estou rendido. Os instrumentos de tortura medieval contemporâneos são mais atrativos do que eu poderia imaginar. Vivendo e mudando a visão sobre as coisas... Por que não? 

Émerson Cardoso

26/02/2022

RESENHA CRÍTICA: "ENQUANTO A CHUVA CAÍA E OUTRAS HISTÓRIAS", DE JEAN PAULINO


SOUZA, Francisco Jean Paulino de. Enquanto a chuva caía e outras histórias. São Paulo: All Print Editora, 2021. 

O livro "Enquanto a chuva caía e outras histórias" apresenta dezesseis contos e cinco microcontos. Entre enredos românticos e cômicos, temos nesse livro uma passarela de personagens invariavelmente bem construídas.

No primeiro conto, Jeremias (em verdade, Jairo Messias cujo nome prenuncia o tom paródico que se desenvolve em torno do atual presidente do Brasil) aproveita-se de certa posição de privilégio e arquiteta uma realidade mentirosa para a população de uma cidade. O contexto é de pandemia. A gripe espanhola, que assolava a Europa no início do século XX, se aproxima do Rio de Janeiro e da cidade interiorana na qual Jeremias é carteiro. Ele se esforça para criar uma atmosfera de aparente tranquilidade ante a notícia alarmante de um vírus mortal que, na concepção negacionista dele, não passa de uma "gripezinha". Assim, de carteiro a pastor, de pastor a prefeito, ele alcança status e credibilidade, mas termina por ser vítima da gripe espanhola que ele tanto quis esconder e negar. O texto lembra, em vários aspectos, o universo de Lima Barreto, seja no trato irônico que configura as personagens, seja no tom de parábola satírica que configura o enredo. 

Da pertinente crítica social, o autor vai para o romance rasgado. No conto O caso da moça da fotografia, o protagonista se apaixona por uma moça encontrada numa foto, em um cemitério, e fica obcecado por ela. Depois, ele morre. Um desencontro de almas gêmeas se dá, porque uma jornalista (com as características da moça da foto), anos após a morte do rapaz, também se apaixona pela foto dele. Temos nesse texto uma atmosfera novelesca, melodramática e gótico-romântica. 

Um romance também configura o conto Lembranças da Lene. Neste caso, um rapaz inconformado com a perda de seu grande amor não suporta qualquer alusão a ela, o que o torna uma personagem patética em sua busca desenfreada para fugir daquilo que tanto o massacra afetivamente. O humor caracteriza esse texto de perda e desilusão, sobretudo porque na tentativa de fugir de sua amada ele está cada vez mais preso a ela. Além disso, o rapaz não contava com a capacidade de vingança do primo Juca, personagem que é responsável pelo desfecho cômico do texto que tem perspectivas de anedota. O desfecho inusitado que conduz ao riso confirma essa possibilidade de diálogo com o gênero anedota. 

Em seguida, o texto Deixa eu ir "no" banheiro confirma a inclinação do autor para a comicidade. O ambiente é a sala de aula e o contexto é um diálogo entre professor e estudantes durante uma sôfrega aula de Gramática da Língua Portuguesa. O alheamento dos estudantes só não é maior do que a paciência (com momentos de extrema impaciência) do professor na tentativa de obter da turma o conceito de verbo. Esse texto é dinâmico e, por meio do humor, recria o universo de caos ou alegrias que pode ser a sala de aula. Com esse conto percebemos que o autor é um fidelíssimo pupilo de Luís Fernando Veríssimo.

No texto A rosa, o muro e a flor o autor cria uma espécie de apólogo que, através das personagens evocadas no título, apresenta a seguinte moral: é preciso valorizar o que se tem, é pertinente observar o entorno com gratidão (enquanto se tem possibilidades para isso), é preciso não permitir a construção de muros que possam representar distanciamentos e separações. O autor também é pupilo de Rubem Alves!

O presente de Lurdinha segura a atenção do leitor em torno de um presente dado, por engano, para uma moça insegura e ingênua cuja grande angústia é ter que conviver com suas parentas amargas e escarnecedoras. O texto poderia retomar a comicidade que tem sido a tônica de alguns contos, mas termina por optar pelo teor folhetinesco ao criar no desencontro o encontro de almas afinadas. 

CONTINUA...



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

RETRATO DE MINHA AVÓ


Da beleza que era dela, 

meu Senhor, o que sobrou?

Só despedida tristonha,

porque a morte veio cedo. 


O domingo no vestido, 

meu Senhor, se acabou.

Tempo é festa de não-mais

engolindo mãos e dedos.


Onde o riso de batom,

Deus do Céu, onde o olhar?

Traz rosário no pescoço, 

ou colar de sonho aflito? 


Os cabelos são tão presos,

Deus do Céu, querem voar?

Na voz longe da memória 

vem silêncio em quantos gritos? 


Preto e branco, vento e força,

meu Senhor, é sagitário?

Sobrancelhas comportadas

em lunar revelação. 


Moça altiva sempre intensa,

Deus do Céu, belo retrato:

que me invade matriarca

com vestido e solidão.


Émerson Cardoso

Novembro de 2021

sábado, 29 de janeiro de 2022

CONTO: "UMA AMIZADE SINCERA", DE CLARICE LISPECTOR

 


Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.

Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sabíamos que já estávamos adulterando o núcleo da amizade. Tentar falar sobre nossas mútuas namoradas também estava fora de cogitação, pois um homem não falava de seu amores. Experimentávamos ficar calados – mas tornávamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.

Minha solidão, na volta de tais encontros, era grande e árida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera queria a sinceridade mais pura. À procura desta, eu começava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes.

Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Também ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.

Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuliço de alma. Radiantes, arrumávamos nossos livros e discos, preparávamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto – eis-nos dentro de casa, de braços abanando, mudos, cheios apenas de amizade.

Queríamos tanto salvar o outro. Amizade é matéria de salvação.

Mas todos os problemas já tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. Tínhamos apenas essa coisa que havíamos procurado sedentos até então e enfim encontrado: uma amizade sincera. Único modo, sabíamos, e com que amargor sabíamos, de sair da solidão que um espírito tem no corpo.

Mas como se nos revelava sintética a amizade. Como se quiséssemos espalhar em longo discurso um truísmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era tão insolúvel como a soma de dois números: inútil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e três são cinco. Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas não só os vizinhos reclamaram como não adiantou.

Se ao menos pudéssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acreditávamos em provas de uma amizade que delas não precisava. O mais que podíamos fazer era o que fazíamos: saber que éramos amigos. O que não bastava para encher os dias, sobretudo as longas férias.

Data dessas férias o começo da verdadeira aflição.

Ele, a quem eu nada podia dar senão minha sinceridade, ele passou a ser uma acusação de minha pobreza. Além do mais, a solidão de um ao lado do outro, ouvindo música ou lendo, era muito maior do que quando estávamos sozinhos. E, mais que maior, incômoda. Não havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com alívio nem nos olhávamos.

É verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma trégua que nos deu mais esperanças do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura. Não é que fosse grave, mas nós a tornamos para melhor usá-la. Porque então já tínhamos caído na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escritórios de conhecidos de minha família, arranjando pistolões para meu amigo. E quando começou a fase de selar papéis, corri por toda a cidade – posso dizer em consciência que não houve firma que se reconhecesse sem ser através de minha mão.

Nessa época encontrávamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: contávamos as façanhas do dia, planejávamos os ataques seguintes. Não aprofundávamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz questão de dar conforto à esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a mãe exagera nos cuidados ao filho. Foi, aliás, nesse período que, com algum sacrifício, dei um pequeno broche de ouro àquela que é hoje minha mulher. Só muito depois eu ia compreender que estar também é dar.

Encerrada a questão com a Prefeitura – seja dito de passagem, com vitória nossa – continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.

Afinal o que queríamos? Nada. Estávamos fatigados, desiludidos.

A pretexto de férias com minha família, separamo-nos. Aliás ele também ia ao Piauí. Um aperto de mão comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sabíamos que não nos veríamos mais, senão por acaso. Mais que isso: que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.

(Clarice Lispector)[1]



[1] LISPECTOR, Clarice. Uma amizade sincera. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.