quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

"POEMA DO BECO", DE MANUEL BANDEIRA (EXERCÍCIO DE INTERPRETAÇÃO TEXTUAL)



Interpretar um texto consiste, inicialmente, em desenvolver uma leitura atenta observando os elementos que estruturam esse texto a partir de suas características superficiais.

Interpretar um texto consiste em identificar as principais características que um autor apresenta em sua produção textual.

Interpretar um texto é criar uma leitura nova sobre esse texto, atribuindo sentidos e encontrando leituras possíveis a partir dos elementos que o estruturam.


OBSERVE O SEGUINTE TEXTO:

Poema do beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
- O que eu vejo é o beco.                      
                                                                           (Manuel Bandeira)

1-    O que podemos perceber no texto, após uma primeira leitura, é que o autor Manuel Bandeira, um proeminente representante da Primeira Geração do Modernismo, vivencia de modo efetivo o ideal da poesia modernista proposta pela Semana de Arte Moderna de 1922 – ano da comemoração de Independência do Brasil –, ao produzir um texto curto (composto por dois versos) que apresenta uma estrutura simples, fortemente diferenciada das produções literárias tradicionais. O texto apresenta dois versos tendo, no primeiro, uma gradação percebida pelas vírgulas que enumeram os elementos que o compõe, para encerrar com uma interrogação; no segundo verso, por sua vez, há pressuposição de um diálogo evidenciado pelo uso de travessão.

2-    O poema inicia com um advérbio interrogativo “Que” e coloca em pauta o fato de que, enquanto alguns veem elementos evidenciadores de beleza e requinte na produção literária, ele, um partícipe do povo, observa a realidade prática, com certo pessimismo; observa o espaço cotidiano e, desse modo, valoriza a condição humana simples ao perceber na poesia princípios de beleza em imagens corriqueiras.

3- O poema traz, em suas camadas profundas, forte crítica à produção literária antiquada, ultrapassada e que enaltecia apenas imagens belas ricas em plasticidade e cores. Ao valorizar esses elementos de teor, por vezes, artificial, o poeta esquecia a pureza do povo, suas existências, seus conflitos, suas realidades sociais. O poema do beco observa o que é cotidiano, o que se pode tatear, o que é tangível e próximo.

4-    Para o poeta, observar situações distanciadas da sua realidade era absurdo. Por isso, a interrogação evidenciada no texto surge como uma questão filosófica que coloca em pauta a discussão entre o “belo” e o “não-belo”, levando-nos a considerar a proposta heraclítica que se funda na adequação entre o que “é” e o que “não-é”, para se tornar um possível “vir-a-ser”.

5-    O travessão indica o diálogo estabelecido como pressuposto conativo em que o eu poético discute argumentativamente com o leitor:

O homem sofre diversas misérias existenciais;
Observar paisagens não resolveria problemas existenciais do homem;
Logo, por que observar paisagens ricas em bucolismos se a realidade humana
não vai mudar com isso?

6-    A grande discussão evidente no texto corresponde à exposição de uma crítica que pressupõe a premissa acima apresentada: como poderia um poeta ver apenas o que é belo, o que pode atrair pela artificialidade, e desconsiderar a construção de um poema que traduza, efetivamente, a realidade prática com suas precariedades e desdobramentos?

Seria pertinente refletir, a partir do texto: 

1-    O que, na produção literária, deve ser considerada: a exaltação de belezas, por vezes, distantes da vida prática, ou a realidade, mesmo com suas precariedades?


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