domingo, 15 de março de 2020

IMPRESSÕES PASSIONAIS SOBRE O ROMANCE "FRANKENSTEIN", DE MARY SHELLEY



Não existem súplicas que o levem a ter um olhar favorável para a sua criatura, Frankenstein: eu era benevolente, minha alma brilhava de humanidade. Veja: eu não estou só, desgraçadamente só? Você, meu criador, me abomina.                        (SHELLEY, 2019, p. 104)


Concluí a leitura do romance "Frankenstein" (1847), de Mary Shelley. Nele, uma narrativa comporta outra narrativa que comporta outra narrativa. As personagens são densas, amplas e instigantes. Talvez tenha sido a maior experiência de solidão que já vi personagens vivenciarem em uma narrativa. Seja a solidão autoimposta de Victor Frankenstein, seja a solidão inevitável do Ser (eu prefiro denominá-lo assim) criado pelo cientista, poucas obras conseguem delinear tão profunda e liricamente esse tema que me é tão caro. 

Vou ser sincero, lamentei pelas perdas vividas por Victor Frankenstein, mas minha comoção foi direcionada profundamente ao Ser, pois ele não pediu para existir e, mal foi colocado no mundo, teve que engolir o abandono e a inaceitação. O vazio foi sua condição existencial por excelência. 

O que poderia ter sido encontro afetivo ou de cumplicidade entre criador e criatura, torna-se, em "Frankenstein", um desencontro catastrófico. Victor Frankenstein não traz para si o compromisso de acolher o Ser que nasce de sua ambição cientificista nada preocupada com a ética e as consequências de sua arrogância e autossuficiência. Essa atitude me faz querer perguntar: se não tinha capacidade de comprometer-se com as consequências de seus atos, por que foi adiante? Por que criar ou dar vida a alguém que não se pode acolher? Se não é capaz de arcar com as responsabilidades de um ato, por que realizar tal ato?

A solidão de Victor, cego pelo poder e pela vaidade de criar algo que ninguém havia criado, de ultrapassar as barreiras da morte e dela tirar a vida, é doentia. A solidão do Ser, que se entrincheira no desejo cego de vingar-se daquele que o engendrou e o desamparou, é doentia. O primeiro vive, como dissemos, a solidão por escolha, isto é, autoimposta. O segundo vive a solidão irremediável, isto é, aquela que é engolida com angústia e com a impotência de não poder revertê-la. Penso, no entanto, que eles se irmanam, de certo modo, no sofrimento que colhem em suas respectivas solidões.

Victor Frankenstein paga um alto preço por sua passionalidade, por sua ambição de querer saber demais. O Ser, por sua vez, perdido, incompreendido e deprezado, encontra uma via tenebrosa como subterfúgio e termina por espargir sobre inocentes o ódio resultante da solidão a que é submetido. Ambos são vítimas, claro, mas Victor Frankenstein é mais monstruoso. Ele não olha com humanidade para sua criatura - só lhe dá espaço para sua narrativa quando se sente acuado e, egoísta que é, só decide dar-lhe uma companheira para poder livrar-se dele. O problema é que, além de egoísta, Victor Frankenstein não tem força moral de cumprir uma promessa. Ele tem um álibi para não cumpri-la, mas ela não me convence: ele pensa que, se criar uma companheira para o Ser, que ele denomina a partir dos piores epítetos, como ter certeza se a humanidade poderia sobreviver a essa dupla? Se pensava tanto na humanidade, e temia que algo desse errado a ponto de comprometê-la em sua integridade, por que não pensou nisso antes, hein, Victor Frankenstein?

O Ser é odiado, menosprezado, visto como algo terrífico e grotesco por seu criador e pelas outras pessoas, como suportar algo assim sem dar respostas? Ele termina por arrefecer sua dor fazendo doer àquele que lhe proporciona uma existência amarga e infeliz. Não penso que o mal que alguém causa ao outro deve ser vingado, sobretudo de modo tão violento, mas o Ser apenas reagiu às ações monstruosas de seu criador e das pessoas do mundo pouco afeitas a aceitar o "outro" em suas singularidades.

Deve haver quem olhe para Victor Frankenstein compassivamente, claro, afinal ele perde os seres que mais ama - muita gente inocente paga por um erro que jamais cometeu. Eu, no entanto, olho para o Ser com maior empatia, pois ele, embora se transforme em um assassino implacável, traz em si tanta dor, sentimento de rejeição, carência afetiva, medo, desespero e, sobretudo, solidão que não tenho como não me solidarizar. Ele poderia ter sido melhor cuidado por aquele que o idealizou, por que isso não aconteceu? O mal nasce, por vezes, como resposta vingativa a uma maldade anteriormente direcionada a alguém.

Enfim, ainda envolto na atmosfera gótica desse romance escrito por uma mulher extraordinária, devo dizer, após esses comentários passionais que constituem um amontoado de impressões sem pretensão de análise, que "Frankenstein", de Mary Shelley, é um dos livros mais profundos, belos e instigantes que eu já li. Poucas vezes a solidão (palavra mais linda da língua portuguesa) conseguiu ser tão bem retratada em uma obra literária. Que privilégio ter existido para ler essa obra!


REFERÊNCIA 

SHELLEY, Mary. Frankenstein. Tradução de Silvio Antunha. Jandira, SP: Principis, 2019. 

Émerson Cardoso
15/03/2020 



domingo, 1 de março de 2020

DIVULGAÇÃO (LIVROS PUBLICADOS EM 2019 / 2020 /2021/2022/2023)













A CRUELDADE COTIDIANA QUE HABITA EM NÓS


Crueldade tem a ver com pessoas que sentem prazer em fazer o mal e são indiferentes ao sofrimento que causam ao outro. Pessoas cruéis realizam atos maldosos e, por motivos diversos, não têm piedade, compaixão, empatia, predisposição a respeitar a dor e a fragilidade do outro. 

O século XX viu a tecnologia, a razão e o conhecimento a serviço da barbárie. Não subestime, no entanto, os séculos anteriores, porque eles viram o homem massacrar, punir, maltratar e subjugar seus iguais em condição humana por motivos torpes - a escravidão existiu e tem suas consequências.

O século XXI, coitado, achava que estaria isento da crueldade humana? Mas que iludido! Não, ele não está isento. Ao contrário, ele se manifesta em sua plenitude e face desoladora. Isso ocorre em espaços variados e em constantes atitudes que as pessoas realizam por hábito. 

Olhe em redor e não vai ser difícil perceber as navalhas discursivas que massacram almas no cotidiano da vida. Há pessoas que não hesitam em humilhar, destruir, fazer sofrer, deturpar a vida dos outros com pensamentos, palavras, atos e não omissões. Sentimento de culpa ou senso crítico não lhes pertencem. Elas querem que as outras explodam. Sim, o objetivo, por vezes, é vê-las explodir moral, física e cognitivamente... 

O que falta para que as pessoas entendam que conviver fraternal e eticamente é o caminho mais viável? As pessoas confundem muito as coisas: não precisamos ter afinidade com todos, ou mesmo corresponder às expectativas deles. O que precisamos, de fato, é respeitar, compreender, ter solidariedade uns com os outros. Cansa lidar com a maldade manifesta em discursos ferinos, em egocentrismos que tornam insustentável a possibilidade de conviver respeitavelmente. 

Não há razão para sermos tão medíocres, mesquinhos e, sobretudo, patéticos em nossas baixezas humanas. Estamos presos a uma concepção tão restritiva da vida, por vezes, que parece inconcebível idealizar um espaço comunitário em que as pessoas possam, ainda que minimamente, conviverem em suas diversidades e subjetivações. 

Por que decidi refletir um pouco sobre crueldade? É que sou professor. Sim, porque sou professor e vejo que a crueldade realiza frequentes bailes na cratera acrítica na qual alguns seres que exercem essa profissão costumam se entrincheirar. Não sou perfeito, é certo, mas por ser imperfeito não vou admitir que serei eternamente falho como uma fatalidade. Estamos no mundo é para nos tornarmos pessoas melhores, ou não? Vamos esperar que a barbárie dance sobre nossos cadáveres egocêntricos? 

Cansei de ser vítima da crueldade dos outros e fingir que está tudo bem. Vou me observar com mais afinco para também não me flagrar em atos de crueldade. Vou gritar canções líricas e poesias de afeto, porque a excelência da alma é o encontro consigo mesma e com o outro - e a arte que quero compartilhar pode nos redimir dos ódios de estimação que se materializam em palavras e gestos de crueldade. Quanto ao mundo, seria tão melhor conservar a generosidade do silêncio quando o que temos a dizer é massacre contra aquele que não está presente para se defender. Sobreviveremos a nós mesmos? Sobreviveremos à crueldade dos outros? 

Espero que sim, ó céus!

Émerson Cardoso
28/02/2020

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

HORA DO SONETO ("O ADORMECIDO DO VALE", DE ARTHUR RIMBAUD)


O ADORMECIDO DO VALE

Era um recanto verde onde um regato canta
Doidamente a enredar nas ervas seus pendões
De prata; e onde o sol, no monte que suplanta,
Brilha: um pequeno vale a espumejar clarões.

Jovem soldado, boca aberta, fronte ao vento,
E a refrescar a nuca entre os agriões azuis,
Dorme; estendido sobre as relvas, ao relento,
Branco em seu leito verde onde chovia luz.

Os pés nos juncos, dorme. E sorri no abandono,
De uma criança que risse, enferma, no seu sono:
Tem frio, Ó Natureza – aquece-o no teu leito.

Os perfumes não mais lhe fremem as narinas;
Dorme ao sol, suas mãos a repousar supinas
Sobre o corpo. E tem dois furos rubros no peito.
(Arthur Rimbaud)

HORA DO SONETO (TRÊS POEMAS DE GREGÓRIO DE MATOS)


A Jesus Cristo crucificado,
estando o poeta para morrer

Meu Deus, que estais pendente de um madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Amoroso, constante, firme e inteiro:

Neste transe, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um pai, manso cordeiro.

Mui grande é o vosso amor, e o meu delito:
Porém, pode ter fim todo o pecar;
Mas não o vosso amor, que é infinito.

Esta razão me obriga a confiar
Que por mais que pequei, neste conflito,
Espero em vosso amor de me salvar.



À instabilidade das cousas do mundo

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém, se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto, da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza;
Na formosura, não se dê constância:
E na alegria, sinta-se tristeza.

Comece o mundo enfim pela ignorância,
Pois tem qualquer dos bens por natureza,
A firmeza somente na inconstância.



Descreve que era Realmente Naquele Tempo a
Cidade da Bahia

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha,
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazendo pelos pés aos homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam, muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

CRÔNICA: "A FESTA"


Pensei numa festa – sem bebida, sem comida, festa só de olhar.
(“O chá”, de Clarice Lispector)

Convidaria para uma festa as minhas professoras do Ensino Fundamental e Médio, que estariam diante de mim com o que consegui resguardar delas. O que diria a elas? Que foram relevantes para minha vida? Que as estimava com devoção?

 

Na surpresa do reencontro, ririam as simpáticas. As mais sérias permaneceriam em silêncio. Eu passearia a vista pelo ambiente e começaria a identificá-las. Não atentaria para a ordem em que elas apareceram em minha vida.

 

Em sobressalto, aquela que apertou minha mão, levando-me aos curativos quando me feri na escola, respondeu: “Não, eu nunca vou te esquecer!” Era o último dia de aula quando a pergunta foi feita. Ela permaneceu comigo, para sempre, através de sua letra que imito até hoje.

 

A primeira que nos impediu de chamá-la de Tia, ensinou à turma duas canções inesquecíveis. A primeira, trilha sonora do filme A noviça rebelde, ensina as notas musicais. A segunda, meu Deus, traz em sua melodia a face inteira dessa professora: “Já podeis da pátria, filhos, ver contente a mãe gentil...” Ela atirou-se da janela de um hospital psiquiátrico. Lecionava em três turnos e era um ser humano com uma vida pessoal. Eu fui para seu velório. Diante dela, eu fiquei em profundo silêncio.

 

Outra, de muitos cabelos e pouca sensibilidade nas palavras, me acusou de rir demais. Talvez ela não tenha entendido que, para não morrer, diante de uma vida indigna, rir era tudo o que eu tinha.

 

Outra professora, muito humana, sorriu com minha promessa: eu disse que um dia, ao reencontrá-la, iria dizer: “Professora, eu também sou Professor!” Ela me deixava ajudá-la com as provas na hora da correção e dizia que já havia conhecido quase todas as capitais do Nordeste. Eu, em minhas viagens para capitais, sempre me lembrei de me perguntar: “Ela já veio aqui?”

 

Uma professora, após a morte do pai, vestida de luto, com muita angústia no fundo dos óculos espessos, entrou na sala, sentou-se à mesa e permaneceu calada, sofrida, estática.  O que nunca saiu de minha mente foi a capacidade que essa professora teve de dizer tanto em silêncio tão cortante.

 

Outra, muito loira, vaidosa, esotérica, preocupada em combinar as cores das roupas com as cores dos acessórios, disse em sala de aula que a empregada lhe havia perguntado se dava para fritar ovo em micro-ondas. Ela gargalhou sem refletir que poderia haver alunos ali cujas mães (iguais à minha) também poderiam ser empregadas domésticas.

 

Duas outras professoras eu as quero lembrar a partir da simplicidade e simpatia delas. Uma era baixinha, usava óculos, tinha um cabelo amarrado com rigor e lecionava como se estivesse declamando. Eu amava escutá-la. A outra, também baixinha, fazia a turma se movimentar, pois surgia sempre com um trabalho novo para ser apresentado em sala. Todas as vezes que escuto a palavra Greenwich essa professora me vem inteira.

 

Tive uma professora que me emprestava livros. Lembro que o primeiro livro que ela me emprestou foi Amor de perdição, de Camilo Castelo Branco. Eu lhe perguntei, ainda no Ensino Fundamental: “O que eu devo fazer se eu também quiser ser Professor?” Ela disse: “Faça Letras!” E eu iniciei uma larga marcha, desde esse dia, em busca do curso para o qual nasci. 

 

Por falar em literatura, tive uma professora que era insana na aparência e apaixonada por essa área do conhecimento que tanto amo. Ela portava uma garrafa azul em todas as aulas e os meus colegas de turma, os mais irreverentes, diziam que a garrafa estava cheia de uma “poção mágica” que explicava seu aspecto alucinado. A ela mostrei meus primeiros contos. Recebi dela o melhor em estímulos.

 

Outra professora passou uma produção textual que iniciava: “Naquele dia, eu me sentia diferente, pois...” E eu completei: “...era meu aniversário”. No texto, coloquei as sensibilidades de minha alma confusa de adolescente. A professora escreveu na folha de redação palavras tão humanas, e depois me procurou e ensinou, com um gesto, o que uma professora deve ser e fazer diante da existência anônima de um aluno angustiado.

 

Uma professora de História, em certa aula, para controlar a turma, contou sobre as dificuldades que viveu e as lutas que empreendeu para superar as limitações da vida. Em certo ponto, ela começou a chorar sem controle. A turma silenciou diante de seu testemunho comovido e eu, que não era dado a abraços, me levantei e a abracei.

 

Minhas professoras de Matemática foram poucas. Uma tinha um sotaque carioca irreverente. Com ela aprendi a desenhar formas geométricas. A outra ensinava, com propriedade, os números que eu detestei a vida toda. Seu método tornava a Matemática uma marcha difícil para mim, porém tão aprazível, pois seu tom de voz e pacificidade eram admiráveis.

 

Tive uma professora que ministrava aula olhando só para mim. Havia algo forte que eu admirava nessa professora, mas eu nunca soube dizer exatamente o quê. O que eu admirava nela, Deus, seus olhos verdes e incisivos, ou sua beleza e inteligência tão peculiares?

 

Certa professora, esta muito sóbria, racional e de vasto conhecimento, tinha a melhor das posturas. Era respeitável, competente, exigente e de um tom de voz perfeito. No mundo, uma profissional como ela é uma raridade. Foi essa senhora discreta e fina quem me fez o maior elogio que um dia recebi, e receberei, na vida: “Você é um grande ser humano!” Eu luto todos os dias para estar à altura do elogio. Creio que, em verdade, o grande ser humano nesta história é ela, de voz inconfundível que eu escuto como se tivesse gravado cada sílaba pronunciada.

 

Lembro-me afetuosamente da professora que passou um estudo sobre o poema de Manuel Bandeira: Poema tirado de uma notícia de jornal. Lembro-me de sua voz dizendo: “João Gostoso”. E os seus lábios ficavam excessivamente arredondados. Escrevi um poema, dei-lhe de presente e ela guardou com carinho. Sua serenidade é inesquecível.

 

Ainda hoje reflito sobre o modo de ser de uma professora que eu conheci. Ela mostrava nos olhos uma espécie de fuga. Ela desejava, mas o quê? Demonstrava medo, insatisfação, silêncio, mas às vezes ria com riso discreto. Quem era aquele ser humano fantasiado de professora? Quais eram suas feridas existenciais?

 

Pois bem, antes de parar de falar delas, das professoras da minha vida, devo me lembrar da primeira professora que me ensinou sem estar em sala de aula. Ela morava num cubículo e ministrava aulas para os meninos da vizinhança. Ela era tão triste, sozinha, abandonada...

 

Depois dela, me veio a escola com as duas primeiras professoras oficiais de minha vida. A primeira, que ficou pouco tempo, tinha cabelos curtos, óculos presos por um fio prateado e seriedade extrema. A segunda, que acolheu a turma em seguida, com os cabelos sempre assanhados, trazia revistas em quadrinhos e as espalhava sobre a mesa, para minha felicidade de leitor iniciante.

 

Estive em sala de aula com várias professoras. As tradicionais, carrascas, foram poucas. As marcantes, humanas, foram muitas. Embora eu tenha querido citar todas, talvez tenha me esquecido de alguma, o que não quer dizer que todas não sejam significativas. Agora, por exemplo, me veio a imagem da única professora que me forçou a realizar Educação Física. Eu ia à igreja pela manhã e ela, ao me ver passar com a farda da escola, me raptou e disse: “Primeiro a obrigação, depois a devoção!” Até ela, que só vi uma vez, ficou para sempre em mim através deste lugar-comum. 

 

Queria nessa festa dizer às minhas professoras o quanto a vida foi difícil. Estudar, sem estímulo em casa, e sofrendo toda sorte de bullying, não é coisa tranquila de se vivenciar. No auge das dificuldades, no entanto, sempre houve uma delas que me dizia como superar as limitações. Elas me davam forças até quando silenciavam.  

 

No pátio da memória, vou revendo as faces afixadas nas paredes do que sou. A imagem de cada uma delas compõe a alma que tenho construído. Ficará em mim, enquanto houver memória, a existência profunda dessas mulheres que me ensinaram sobre a vida. Com umas, aprendi como ser um profissional exemplar. Com outras, aprendi como reivindicar meus direitos, como superar os momentos de conflito, como ser gente, como utilizar a palavra para entender e enfrentar o mundo.

 

Por falar em palavras, as que escrevo passam a ter peso de chumbo, porque estão perpassadas por um tempo que não volta. Não sei onde encontrar minhas professoras para uma demonstração de afeto. Não sei se estão bem. Não sei de suas vidas ou mortes. Não sei. Eu as quero felizes sempre.  


                                                                                                   Émerson Cardoso
(04/07/09 - 18/10/19)

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

CRÔNICA: SETEMBRO AMARELO, QUE EM VERDADE FOI CINZA!


Na véspera do meu aniversário, deste fatídico ano de 2019, um colega de trabalho cometeu suicídio. Lembro-me de que nos falamos algumas vezes, durante o tempo em que trabalhamos juntos, mas não o suficiente para que eu percebesse nele algum resquício de angústia que o motivasse a tomar decisão tão drástica. É assim a vida: bastaria um golpe contra ela e, fim, tudo estaria concluído. Se quem está vivo permanece vivo é porque, de algum modo, a vida lhe significa algo. Viver, sinceramente, é desafio dos maiores - aliás, é o único desafio.

Discorrer sobre suicídio em campanha, numa tentativa de combate, será um meio eficaz de reverter esse quadro? Em minha cidade ocorreram, desde o começo deste ano, tantos suicídios que eu não me recordo de ter visto, desde que nasci, tantas notícias sobre o assunto. Talvez a falta de horizontes políticos, os desesperos existenciais movidos pela perda de direitos, as angústias do cotidiano com suas dores inevitáveis tenham vindo com força total neste ano de 2019 que, como tenho mencionado, é um ano funesto.

Depois de ouvirmos notícias diversas sobre o assunto, ao longo do ano, fomos informados a respeito do suicídio de dois adolescentes em uma mesma escola. Morreram de suicídio, neste mês de "setembro amarelo", um rapaz e uma moça com pouco tempo de um para o outro. O rapaz deixou uma carta, que eu li e deixou-me completamente reflexivo. Primeiro, pela sobriedade do texto; segundo, pela sensação de profunda identificação que eu tive com ele. Eu era um adolescente sensível e angustiado, assim como ele, e nunca escrevi carta de despedida, mas escrevi contos cujas personagens sempre cometiam suicídio. A vontade de me livrar da vida, que tanto me ocorria na adolescência, felizmente, foi sublimada.

Eu, assim como ele, também assisti, na escola, ao filme "Sociedade dos poetas mortos". Com este filme, senti o quanto ser eu mesmo poderia causar transtornos para o espaço social em que eu estava inserido. Ao mesmo tempo, esse filme me deu a grande lição de minha vida: é preciso não se deixar aprisionar, é necessário estar aberto ao que é novo, é urgente estar vivo com tudo o que o viver implica. Aprendi, com esse filme, a resistir, a sobreviver, a continuar, a prosseguir, apesar das adversidades. O rapaz que escreveu a carta talvez tenha se fixado demais em uma das personagens - e quem poderá criticá-lo por isto?

Desde sempre, quando vejo notícias de suicídio, paro e fico reflexivo. Os autores que morreram de suicídio sempre me chamam atenção, porque eles não suportaram as dores da vida apesar de tentarem sublimá-las, como eu fiz e continuo a fazer. Para mim, por muito tempo, havia certo lirismo neste tipo de morte. Hoje, quando vejo tantos que se destruíram porque se desiludiram com a vida, eu sinto tristeza e vontade de dizer a eles o quanto as coisas podem mudar, caso a gente tenha um pouco de paciência e teimosia.

No suicídio está implícita uma imensa vontade de viver. O que torna essa vontade de viver um espectro de autodestruição é a impossibilidade de viver aquilo que a alma tanto aspira. Os cerceamentos, os falsos moralismos, os desrespeitos, dentre outros fatores, criam gatilhos que levam o ser humano a querer se matar, porque nem todo mundo tem força, apoio, saúde psicológica, possibilidades de reverter quadros depressivos etc.

Quanto ao tal "setembro amarelo", eu sou totalmente contra. A hipocrisia reina nesse tipo de campanha. Digo isto porque o mesmo ser humano que pode triturar os outros com palavras, ou desrespeitos outros, pode também confeccionar fitinhas amarelas às pampas para distribuir com falsidade. 

Penso que não devemos fazer campanhas contra o ato de tirar a vida, que se mostra uma opção para quem já não suporta os sofrimentos cotidianos e seus correlatos. Devemos fazer campanhas, em verdade, a favor de uma maior humanização em casa, nas escolas, nas ruas, no Brasil e no mundo. Devemos fazer as pessoas considerarem possível estar vivas. Olhá-las, ouvi-las, buscar compreendê-las em suas singularidades. Não digo isto com tendência utópica, porque sei que o convívio humano é complexo e, portanto, doloroso. Olhar com mais sensibilidade para a realidade dos outros, porém, pode ser bem mais útil do que ficar exibindo fitinhas amarelas para mostrar que se importa com o outro. Penso que é desafiador, sim, tentar ser empático, sobretudo em alguns contextos, mas deveríamos ao menos tentar.

Como professor que sou, fico impressionado com o modo como o âmbito escolar tem sido um espaço cada vez mais contraditório. Fala-se em educação para a cidadania, para a vida e coisa e tal, no entanto, o que se faz muito é: amontoar quarenta e tantas vidas em uma mesma sala de aula, incentivar constantemente o estudante à competitividade, exigir em várias instâncias hierárquico-burocráticas resultados e mais resultados, cercear a capacidade criativa e humana e sensível do estudante com pressões psicológicas que atendem a uma matriz curricular (que ainda denominam grade curricular, para fazerem jus ao teor de presídio das escolas), dentre outros pontos.

Se pensarmos a realidade do professor, então, é melhor não entrar em detalhes, porque me estenderei demais e terminarei por expor, ainda que parcialmente, o porquê de meu colega de trabalho ter cometido suicídio quando ele era, pelos discursos contraditórios da educação, o mais apto a lidar com os diversos conflitos que fazem parte do métier da profissão. Há tantos professores e professoras querendo morrer nas salas de aula deste país sem educação, enquanto há tanta gente indiferente preocupada apenas em cumprir ordens que vêm de funcionários que sabem pouco, ou nada, sobre o que é estar em sala de aula! E há tanta gente inapta que odeia professor sem tentar entender suas misérias humanas, seus conflitos, suas dores!

Enfim, o suicídio é algo sério, não tenho como alongar mais o texto na tentativa de explaná-lo, porque falar sobre ele tem me causado uma sensação de angústia sem precedentes. E, para concluir, creio que o suicídio seja a grande problemática da existência, porque, ainda que de forma generalizante, o ser humano tem apenas duas opções neste mundo: 1) querer estar vivo, embora com a consciência de que estar vivo é lidar com as dores e seus universos, ou 2) decidir se quer, definitivamente, morrer. Assim é a vida: tomar decisões e implorar para que essas decisões sejam as mais acertadas.

Émerson Cardoso
29/09/2019