Fernanda Montenegro diz: "O que vem, ótimo, o que não vem, deixa pra lá, porque adiante alguma coisa há de chegar". A vida é repleta de coisas que não vêm. Deixar para lá é o caminho comum de muitos de nós, nesta existência desoladora. Agora, o que fazer com o que poderia ter sido e não foi?
terça-feira, 19 de maio de 2026
segunda-feira, 23 de março de 2026
QUEM TEM MEDO DE SÃO PAULO?
Quando a lua crescente deu o ar da graça e a transição do sol entre os signos de Peixes e Áries fizeram-se presentes, estava no último dia de minha excursão pela cidade de São Paulo.
sábado, 31 de janeiro de 2026
BREVES APONTAMENTOS SOBRE A LITERATURA PRODUZIDA NO CARIRI
| Lançamento da antologia: Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024). |
Da criação de textos dramáticos à criação de textos
líricos e narrativos, o Cariri tem se caracterizado como um espaço de ampla
produção literária. A tradição oral em nossa região é de uma riqueza inconteste
(a lapinha, o reisado, a contação de histórias, os benditos, as lendas, dentre
outras manifestações que trazem os valores do povo, comprovam minha assertiva).
Desde que a escrita se manifestou no Cariri, em suas origens, a produção
literária encontrou espaços possíveis de realização. Hoje, ainda temos construtos literários envoltos nas
tradições orais, na tradição da literatura de cordel (ou de folhetos) e nas
experiências literárias que se aprofundam esteticamente por não excluírem os
valores da tradição ao desenvolverem obras modernas (e contemporâneas). Nesse mundo de
potencialidades criativas imensas, existe, sim, uma diversidade de artistas. A
seguir, mencionarei alguns nomes em uma lista, mas o farei certo de que ela não dará conta da vasta quantidade da produção literária caririense:
1. Inventário
de seus abraços, de Jorge Nogueira
2.
Chá da tarde e Valados de Giz, de Anchieta Mendes
3. Matozinho
vai à guerra, de José Flávio Vieira
4.
72, de Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro
5. Auto do Caldeirão, de Mazé Sales
6.
One Love, de Estrela do Sul
7.
Dança das juremas, de Roberto Ferreira
8.
Contra Banzo, de Karla Jaqueline Vieira Alves
9.
Eu tenho medo de Gorki & outros contos, de Ângela Calou
10.
Benjamim e Açucena, de Germá Martins
11.
No mar de silêncio gritei poesia, de Natália Pinheiro
12. Nomes de terra, de Gilles Diniz
13.
Rosário das aves e Conta, cordão e medalha, de Tiago Nascimento
14.
As cartas de Maria, de Zulmira Correia
15.
Memórias de Lince, de Janir Ribeiro
16.
Redemoinho em dia quente, de Jarid Arraes
17.
No útero não existe gravidade e Boca do mundo, de Dia Bárbara Nobre
18.
Flashes e O melhor dos mundos, de Sidney Rocha
19.
O Padre e o Romeiro, de Geraldo Menezes Barbosa
20.
O inferno da guerra étnica de Kosovo, de Wilma Maciel
21.
Extremos, de Maria Ferreira
22.
A Pedra da Batateira e A cidade que veio das águas, de Fátima Teles
23.
Flagrantes do tempo, de Maria Eurenice Coelho
24.
Os interiores, de João Matias
25.
Poemas embriagados, de Lívio Pereira
26.
Canções para Abraxas, de Siddha Abraxas
27.
Nacos d’alma, de Geraldo José de Oliveira
28. Objeto
urgente, de Auricélio Ferreira
29.
Cartas de um demônio, de Adílio Junior de Souza
30.
Minhas 4 futuras ex-namoradas, de Thiago Mariano
31.
Olhos celeiros, de Sheyla Xenofonte
32.
No luar do sertão, de Cícera Mamede
33.
Rastejos, de Weverton da Silva
34.
Mais dia, menos dia, de Jana Cruz
35.
Ruídos de artilharia, de Thiago Carneiro
36.
É domingo, de Emerson Monteiro
37.
Juazeiro anedótico, de Raimundo Araújo
38.
O silêncio laminado no casulo, de Cleilson Pereira Ribeiro
39.
O vento das minhas velas, de Luciana Coelho
40. Fuga pela claraboia, de Francisco de Freitas Leite
41. O martelo mágico e Centelhas de magia, de Newton de Castro
42. O baile das assimetrias e Romanceiros, de Émerson Cardoso
Juazeiro do Norte (que é a maior cidade do Cariri em termos demográficos) e Crato dispõem de editoras (como fiquei sabendo há pouco tempo), porém elas ainda se mostram tímidas (por diversos fatores) com relação à democratização do acesso. Se publicar nessas editoras locais tem sido algo desafiador, imagina nas grandes editoras que, em sua maioria, estão localizadas nas capitais. Essas editoras não se abrem fácil sequer para quem está no eixo Rio/São Paulo, imagina para quem está no extremo Sul do Ceará. Seja porque, na atualidade, têm exigido temáticas específicas para as produções que financiam, seja porque optam por artistas integrantes de alguns nichos em alta no mundo editorial, publicar em grandes editoras é um desafio, embora algumas pessoas consigam furar a bolha (Jarid Arraes, Dia Bárbara Nobre e Sidney Rocha são exemplos de artistas que conseguiram fazê-lo).
A literatura, aqui, tem circulado, felizmente, porque temos instituições e agremiações que fomentam a propagação dessa literatura (Universidade Regional do Cariri, Universidade Federal do Cariri, Centro Cultural Banco do Nordeste-Cariri, Centro Cultural do Cariri, Academias de Cordelistas do Crato e de Barbalha, Lira Nordestina, Academia de Letras Seccional Araripe, Clubes de Leituras, Coletivos etc.). Considero relevante demais que o Cariri produza arte, em todas as áreas, sobretudo a arte literária, mas gostaria de destacar o seguinte: não concordo com a ideia de que o Cariri tem que produzir uma literatura só para o Cariri. Temos que produzir, aqui, literatura para o mundo, sempre mantendo a liberdade de motivos a que acorremos em nossas experiências individuais. Assim, expandir experimentações estéticas, valorizar forma e conteúdo em construções originais e imaginativas, compartilhar experiências pelo uso efetivamente estético da palavra, sempre conscientes de que o nosso lugar de origem é o Cariri (com nossas cidades e seus valores inestimáveis para construção de pertencimento e de identidade), creio que são alguns dos caminhos possíveis. O Cariri está repleto de artistas que abraçam essas buscas e têm, desse modo, produzido obras, em sua maioria, significativas.
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| Lançamento do livro de poemas Romanceiros, de Émerson Cardoso (2025). |
Além disso, um fator importante de divulgação dessa produção são os Clubes de leitura. Acontecem em nossa região: o Clube do leitor do CCBNB-Cariri, o Círculo de leitura do Centro Cultural do Cariri, o Clube de leitura do Nordestinados a ler, dentre outros. Nesses espaços, temos a experiência da mediação que é indispensável para desenvolvimento do que Rildo Cosson, em Paradigmas do ensino de literatura, denomina letramento literário. Com eles, as pessoas podem ter acesso a leituras que, por vezes, ficam circunscritas ao espaço escolar ou universitário. Por isso, devem existir, serem propagados e valorizados.
Esses clubes e círculos são iniciativas que incentivam à leitura, certamente, e artistas caririenses também figuram com suas produções nesses espaços. Eu, por exemplo, mediei recentemente um Círculo de leitura proposto pelo Centro Cultural do Cariri (que foi realizado na sala de multimeios da escola em que trabalho). Nesse contexto, autoras do Cariri foram estudadas, dentre elas Neuma Xenofonte e Jarid Arraes. Em um dos encontros, a propósito, recebemos a visita do escritor Sidney Rocha que, na ocasião, visitava a cidade e a escola em decorrência da Balada Literária Cariri. O Círculo de leitura envolveu professores do centro de multimeios, estudantes do curso de Letras da Universidade Regional do Cariri e estudantes da escola. Essa forma de mediação constrói incentivo à leitura e abre espaço para debates plurais, portanto merece toda atenção.
Um exemplo notável de Biblioteca comunitária, dentre as muitas que existem no Cariri, é a Biblioteca Caminho do Conhecimento, localizada no Sítio Latão, em Santana do Cariri. Nesse espaço, impulsionado pela Professora Renata Lino, há o incentivo à leitura e o acesso democrático ao acervo disponível para consulta, pesquisa e leitura ao alcance da comunidade para a qual se destina.
Na região, ainda sentimos falta de prêmios direcionados especialmente para nossas produções. Tínhamos, por aqui, o Prêmio de contos do SESC-Crato, no entanto, ao que parece, ele não tem mais acontecido (não tenho certeza se ele, de fato, foi extinto). Existem prêmios literários no Ceará, porém, que possibilitam o Cariri de apresentar suas obras. Dois deles são: o Prêmio Literário Demócrito (mais democrático e aberto aos valores cearenses) e o Ideal Clube de Literatura (que, embora aceite artistas do Ceará inteiro, realiza a cerimônia em datas inviáveis para quem vive longe da capital). Eu participei do I Prêmio Literário Demócrito Rocha e venci na categoria poesia. Isso foi importante, uma vez que abriu portas, me possibilitou a sonhada publicação em uma editora de renome (como é o caso das Edições Demócrito Rocha) e deu visibilidade ao meu trabalho. Existem outros prêmios, mas não os conheço com profundidade. Existem editais, com propostas de prêmios, que possibilitam a participação do Ceará como um todo, porém não os considero suficientes ou acessíveis, pois ainda são burocratizantes demais.
Existe um histórico de várias produções de antologias em nossa região, porém farei pontuação de algumas realizadas entre os anos de 1988 a 2026. Tenho um projeto de pesquisa que busca catalogar com maior apuro essas produções, mas o projeto ainda está em fase inicial. Sendo assim, apresentarei apenas algumas dessas obras com seus respectivos organizadores:
1988 - Juazeiro Poético (Raimundo Araújo)
2013 - Laboratório do caos (Cláudio Ricardo Reis Eduardo)
2018 - VII Coletânea de Contos (Sesc-Crato)
2018 - Mostra de Poemas Beata Maria de Araújo: Poemas para Maria (Rosana Pereira Marinho, Luciana Dantas e Renato Fernandes Oliveira)
2019 - Antologia Poética: escritores do Cariri (Elizângela Sampaio Leite, Antonio Romero Dodou e Émerson Cardoso)
2021 - Poemates Rosarvm (Adílio Junior de Souza, Sebastiana Micaela e Émerson Cardoso)
2021 - Cordel em homenagem a Gilmar de Carvalho (João Pedro e Rosário Lustosa)
2021/2026 - Coletânea de Textos: Nordestinados a ler (Luciana Bessa)
2012/2025 - Mostra de Poesia: Abril para a Leitura (CCBNB-Cariri)
2024 - Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (Émerson Cardoso)
2025 - Haicai-Cariri: antologia de haicais (Émerson Cardoso)
Para concluir, considero pertinente que tenhamos esse olhar sobre o que nossa região tem produzido, porquanto localizamos uma diversidade de vozes que mostra o quão forte se mantém nossa vocação para a criação de literaturas (e notem que sequer apontamos a vastidão da literatura de cordel, esse gênero poemático ainda vivo e amplamente produzido por aqui).
Émerson Cardoso
sábado, 24 de janeiro de 2026
FOLHEANDO MANUAIS DE LITERATURA
Um panorama da literatura
brinca de passeio em obituários:
nomes, títulos e fotos
sem aprofundamentos biográficos.
Palavras certas de eternidade,
pulando incautas quando escritas,
no hoje são títulos curiosos
que de leitura não têm garantia.
Certo é que o tempo espera
que alguém saia da página do manual,
com esperança de encontro festivo
que não aceita o morrer que se deu.
Quem vivo ou morto redefiniu estilos
paira perdido em papel e tinta,
quando qualquer água que o molhasse
de imediato lhe apagaria.
Um manual de literatura
é túmulo de glória já vivida,
mas ainda sobrevive algum nome
na memória que se pretende amiga.
E não precisa de angústia,
que a nenhum livro salvaria,
pois escrever é processo de vida
que falha se eternidade revindica.
Émerson Cardoso
20/01/2026
13h31
CRÔNICA: UM DOMINGO EM JANEIRO
Nem o caldo quente restituiu-lhe adequadamente as forças. Quem toma todas em véspera de dia de trabalho enfrenta a vida com gosto azedo na boca e a carne trêmula (era o que tinha para o momento).
Ela contou a Inês, Tainá e Micaele que foi beber com uma amiga cuja mãe, com raiva da esbórnea da filha, chamou-a de "rapariga", e, não satisfeita, xingou também as pessoas com as quais a ofendida se confraternizava.
Luciene não engoliu o desaforo: "Eu não sou rapariga, minha filha, eu trabalho e tenho responsabilidade!" Diante da afronta da mulher ranzinza, foi isso o que Luciene pôde dizer. Diria mil coisas, se lhe fosse dado tempo para o confronto, porque taurinos são calmos, mas quando se espalham, viu?
Assim, com o estômago ressacado e ciente de que o desaforo de ser chamada de "rapariga" foi grande, recorreu ao ditado: "Galinha que acompanha pato, morre afogada". O ditado foi muito bem utilizado por Luciene, que encontrou a expressão adequada à sua realidade de moça que também tem o direito de se divertir, mas que foi xingada, sem merecer, porque foi acompanhar pato beberrão e terminou afogada em xingamentos. Como se não bastasse, ainda tinha que trabalhar em pleno domingo sob o caos da ressaca (ninguém merece)!
Luciene é dessas figuras marcantes (tem presença, apesar da baixa estatura). Ela é intensa no modo de falar, ri de si mesma, enfrenta a vida com determinação, bom humor e tem sonhos. Sim, ela quer ser da área do Direito. O pouco de convívio mostrou que ela seria uma excelente profissional nesse campo de atuação.
Luciene é uma moça cuja vida não foi fácil. Desafios familiares, amores traumatizantes e vinte e poucos anos vividos com intensidade. O que será da vida dela? Ela realizará o sonho de fazer o curso de Direito? Será feliz no amor? Viajará pelo mundo? Se um dia eu reencontrá-la, gostaria muito de saber que ela realizou os sonhos e que era feliz.
Aliás, nunca esquecerei da rodoviária de Russas (espaço no qual existem mulheres dignas que enfrentam as batalhas cotidianas com humor, força e coragem). Em tão pouco tempo de convívio, quanta coisa podemos aprender quando estamos abertos a escutar.
Émerson Cardoso
18.01.2026
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
CARTA DE NATAL PARA JOSÉ ÉRICK
Querido José Érick,
Nesta véspera de Natal, do ano de 2025, quando o mundo,
entre verdades ou hipocrisias, supostamente espera a vinda do Menino Jesus
(este baluarte da cristandade tão esquecido quanto desvalorizado nessas festas
natalinas), nós também esperamos você.
Hoje, seus pais e demais familiares estavam na expectativa de saber se você seria um menino ou menina. Eu, por mim, não considerei tão importante saber disso agora, porque o que mais me importou, desde o início, foi saber de sua existência e confiar na possibilidade de você nascer bem, saudável e com todo acolhimento. Ao saber, porém, que você seria um menino, e já dispunha de nome e segundo nome, fiquei muito entusiasmado. Aliás, ao chamá-lo pelo nome, e ver o primeiro sapato que você ganhou, senti que você já estava, efetivamente, conosco. Assim, agradeci ao Deus que existe pelo privilégio de saber que você virá para perto de nós e pedi a Ele para você vir a esse mundo complexo sem qualquer sorte de desamparos.
Quanto ao mundo, ele realmente anda difícil, tanto que eu costumo refletir sobre o fato de que ter um filho é uma questão filosófica complicada demais a ser resolvida, mas tudo isso caiu por terra quando soubemos que você viria. Sim, porque desde o primeiro momento que soubemos de sua existência já começamos a esperar sua chegada com ansiedade.
Você demorará a chegar um pouquinho, porque talvez só venha quando o Sol estiver entre as constelações de Gêmeos ou de Câncer. Talvez, na época, esteja um tanto frio e a saudade das festas juninas ainda paire sobre o Nordeste. Na ocasião, você certamente chorará muito, porém confesso que seu chorar trará alegria, pois isso mostrará que há vida em você.
Então, venha, sim, e faça de nossas vidas um caminho possível de alegria. Enquanto não vier, vou continuar sugerindo que sua mãe escute música clássica, especialmente a Sinfonia nº 9, de Beethoven, viu? Queremos que você seja uma pessoa inteligente e sensível.
Por fim, neste Natal, em que estamos reunidos em família para homenagear Cristo, também queremos dizer que você já é muito amado por todos. Queremos demais que você seja feliz aqui, pois queremos o seu bem sempre.
Um abraço e até breve!
Do seu Padrinho e Tio.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
TRILOGIA PARA O CARIRI CEARENSE: "TRÊS POEMAS JUAZEIRENSES"
Juazeiro do Norte-CE, cidade mais conhecida como Juazeiro do Padre Cícero, dispõe de valores sócio-históricos, sociopolíticos e socioculturais que são difíceis de mensurar, tendo em vista a complexidade desse universo que costumo chamar de sacroprofano.
Sendo assim, o livro Três poemas juazeirenses apresenta três folhetos publicados há algum tempo (e que eu revisei e reorganizei para republicar, desta feita melhorando-os em conteúdo e em forma). Esses textos dialogam com o universo denso e fascinante que povoa o imaginário dessa cidade que estimo devotadamente. Diante disso, são três os poemas:
A Beata Luzia vai à Guerra
Escrito em 22 de outubro de 2005, mas publicado somente em 05 de outubro de 2011, o folheto A Beata Luzia vai à Guerra evoca uma personagem feminina ficcional que é inserida em contexto histórico real. A Beata Luzia está imersa no conflito que, no início do século XX, envolveu duas forças antagônicas: uma representada pelo salvacionista Marcos Franco Rabelo e outra representada pelo Padre Cícero Romão Batista. Esse conflito ocorrido entre os anos de 1913 e 1914, denominado Sedição de Juazeiro, corresponde a um acontecimento relevante (e não menos intrigante) protagonizado pelo Ceará na história política do Brasil. Agora, vamos entrar na guerra, porque a Beata Luzia já correu para ela. Vamos ver como ela participa dessa batalha do “bem contra o mal” que tem como palco a cidade de Juazeiro do Norte?
A Artesã do Chapéu
(ou pequena biografia de Dona Maria Raquel)
Escrito em 29 de novembro de 2011, e publicado em 15 de abril de 2012, o folheto A artesã do chapéu (ou pequena biografia de Dona Maria Raquel) traz aspectos biográficos da minha bisavó materna, Maria Raquel da Conceição, que produziu, por mais de setenta anos, chapéus e outros artefatos com palha de carnaúba. Nele, apresento fatos de sua vida, como o que lhe aconteceu durante a seca de 1932, ocasião em que sua mãe (Dona Bárbara Raquel), seu irmão mais novo (Cícero Raquel) e ela foram assistidos por três meses e alguns dias pelo Padre Cícero Romão Batista. Além disso, também menciono o racismo que ela sofreu por ter vivido uma história de amor com o galante Joaquim Dourado Cabral, que era um homem branco, enquanto ela era uma mulher negra em contexto de intenso preconceito racial. Minha bisavó, que chamávamos de Mãezinha, e cuja força e sabedoria eram inabaláveis, faleceu dias antes de completar 87 anos, deixando-nos desolados com sua partida.
O livro Três poemas juazeirenses compõe minha Trilogia do Cariri Cearense (constituída por um romance O casarão sem janelas; uma peça teatral A Revolta de Antonina e este livro de poesia Três poemas juazeirenses). Nesse caso, corresponde ao terceiro (e último) livro desse projeto.
Publicar no Brasil não é algo tranquilo, mas nós criamos as estratégias possíveis para fazer nossos trabalhos serem conhecidos, de modo que apresento esse livro, simples e em busca de melhores dias, com o desejo de mostrar um pouco do que temos em valores e construções simbólicas aqui em Juazeiro do Norte, que também clama, em sua jornada complexa, por melhores condições de vida.
Livro disponível para download
GRATUITO:
Livro: Três poemas juazeirenses
quarta-feira, 10 de dezembro de 2025
CARTA (ABERTA) AO POETA DÉRCIO BRAÚNA
Juazeiro do Norte-CE, 10 de dezembro de 2025
Caro Dércio Braúna,
Venho, por meio desta, dizer da emoção que senti ao receber os livros que você me enviou. Eles chegaram hoje: no Dia Internacional dos Direitos Humanos e no dia em que aniversariam duas autoras cujas obras me fascinam: Emily Dickinson e Clarice Lispector. Tenho mais é que comemorar, hein!
Conheci sua obra através do poeta e dramaturgo Mailson Furtado que, generoso como ele é, falou sobre a beleza de sua escrita e instigou-me a ler seus livros. Os primeiros livros de sua autoria que eu li foram: Como cavalos fatigados abrindo um mar (este livro tem título, capa e textos poéticos maravilhosos demais para que eu possa, com simples palavras, definir) e Aridez lavrada pela carne disto (este, igual ao anteriormente citado, dispõe de título, capa e textos poéticos de tal modo incríveis que não sei como demonstrar o que ele me causou). Lembro de tê-los lido com voracidade no mesmo dia em que eles me chegaram às mãos (e os tenho relido com intenções de escrever algo a respeito deles).
Eu tive duas sensações com a leitura desses livros: 1) a primeira sensação foi de satisfação ao constatar que, de fato, eu estava diante de um escritor de talento inconteste e que, portanto, deveria figurar como um dos mais representativos dessa nossa Literatura Brasileira Contemporânea (essa literatura que pisa e repisa solo fértil, mas ainda incerto); e 2) a segunda sensação foi de que estava diante de autor que conseguia conjugar conteúdo e forma com maturidade, de modo que foi intensa a experiência de ver: suas abordagens temáticas e sua articulação, sempre expressiva, da linguagem poética (como foi aprazível observar sua maestria no uso de recursos estéticos de que a poesia se vale para manifestar-se sem amarras e sem cerceamentos).
Agora, estou com os seguintes livros em mãos: Metal sem húmus (2008), Como um cão que sonha a noite só (2010), Escrevivências: livro de vidas imaginografas (em parceria com Joel Neto, 2017), Auto de incineração (2021), Eu talvez desejasse matar poetas: exercícios barrocos (2023) e Três margens para a alquimia dos dias (em parceria com Ícaro Malveira e Kelson Oliveira, 2024). Além desses, recebi, com entusiasmo e alegria, o livro Tentações de sapateiro: o cerco da história na operação ficcional de José Saramago (2023), que é resultado de sua tese de doutorado (produção acadêmica orientada pelo Prof. Dr. Francisco Régis Lopes Ramos).
Por falar em Régis Lopes, este intelectual cujo olhar para o Juazeiro do Norte tem proporcionado obras-primas da pesquisa acadêmica no âmbito da História, recentemente estivemos juntos e ele falou sobre sua tese. Ele, uma pessoa de generosidade notável, foi quem me instigou a realizar a leitura do seu Tentações de sapateiro, que lerei o quanto antes (assim que concluir a leitura dos livros poéticos).
O primeiro que vou ler é o seu Auto de incineração, pois do título à capa, devo enfatizar, ele me convida à realização de leitura profunda e atenta. Lerei, daqui a pouco, ele e, na sequência, todos os outros. Será um prazer poder reencontrá-lo pela leitura de seus livros (eu que já o encontrei pessoalmente em contexto rápido). Sabe o que penso a seu respeito? Sinto orgulho por sabê-lo do nosso Ceará. Sim, é gratificante conhecer escritor como você: criativo, ousado, expressivo, crítico, reflexivo e, sobretudo, talentoso.
Simone Weill escreveu, certa vez, o seguinte: "A atenção é a forma mais rara e pura de generosidade". Ela tem razão. Como mensurar um gesto tão generoso? Como recompensar atitude tão nobre? Ter recebido seus livros, hoje, neste dezembro de sol triste, nesta quarta-feira de esperança precária, foi um oásis, porque seu gesto me lembrou algo indispensável para quem se dispõe a viver a experiência de escrever e de publicar: conhecimentos devem ser compartilhados, arte deve chegar ao coração dos que precisam de bom ânimo e, como diz a canção de Milton Nascimento: "Todo artista tem de ir onde o povo está".
Você veio para mim, hoje, e eu agradeço demais por ter vindo. Acolherei seu trabalho com atenção e com entusiasmo, pois, neste dia de alegria ausente, nesta horda de mediocridade que a vida tem me proporcionado (sou um dos deprimidos da nação, Dércio!), você me alegrou demais, a ponto de me fazer esquecer da angústia cotidiana tão sufocante quanto desenganadora.
Para terminar com um tom mais leve, porque não adianta viver de desesperos, quero dizer o seguinte: venha ao Cariri, rapaz, que será uma alegria reencontrá-lo! Temos muitos assuntos de literatura e de vida para conversar. Mailson, de vez em quando, vem ao Cariri (ele, Yane Cordeiro e o Grupo Criar de Teatro estiveram aqui semana passada para apresentar o maravilhoso Cassacos). Venha com eles, viu?
Abraço fraterno e, mais uma vez (e não o suficiente), muito obrigado!
Émerson Cardoso
P.S.: Eu li (e estou relendo) a obra Papel Passado: cartas entre os devotos e o Padre Cícero, de Régis Lopes, e estou com mil vontades de escrever cartas, por isso envio esta (simples e carecida de ampliação) para você.
terça-feira, 25 de novembro de 2025
ENTREVISTA: JORGE NOGUEIRA, AUTOR DO LIVRO "INVENTÁRIO DOS SEUS ABRAÇOS"
1.
Você poderia me dizer seu nome artístico, onde nasceu e qual sua formação
acadêmica?
Meu nome artístico é Jorge Nogueira. Nasci em Jaguaribe, Ceará. Sou Mestre em Biblioteconomia pela UFCA, Especialista em Pesquisa Científica pela UECE e Graduado em Biblioteconomia pela UFC.
2. Para você, o que é literatura e
qual a importância dela em sua vida?
A boa literatura é vida pulsante! É
prazeroso, é um aprendizado constante, é o melhor hobby que se pode ter. É
viajar sem sair do lugar, é conhecer lugares, culturas, outros mundos, pessoas
(sim, quando os personagens são bem construídos, são quase como nós, reais) que
jamais teríamos acesso se não fosse pela literatura. A literatura me ajudou a
entender quem sou, a me aceitar enquanto um homem gay, a entender que a vida é
muito mais do que o meu olhar me permite ver. Na adolescência, quando sofria
bullying com frequência, os livros eram meus melhores amigos e sei que sempre
farão parte de minha vida.
3. Como começou seu desejo de
escrever (família, escola ou outros meios)?
Lembro que comecei a escrever como
uma tentativa de entender o que sentia, de expurgar todos aqueles sentimentos
ruins. Eram, em sua maioria, poesias mórbidas, depressivas. Mas nem todas.
Escrevia também como uma forma de entender o mundo ao redor, de captar a beleza
em palavras.
4. Qual a importância de ler em um
país considerado pouco leitor?
Ler nos permite ter uma visão crítica
sobre tudo, nos faz menos dependentes do olhar do outro e capazes de perceber o
quanto estamos constantemente passíveis de manipulação, seja da mídia, de
políticos, religiosos etc. São tantos benefícios! Especificamente sobre a
leitura de ficção, penso que nos permite ter mais empatia pelo outro e por nós
mesmos, entender que somos tão diversos mas ao mesmo tempo tão iguais, no que a
gente sente, sabe? E aquela frase famosa sobre quem lê vive muitas vidas pra
mim é real.
5. Tendo em vista que quem escreve
deve estar sempre em contato com obras literárias, quais são as leituras que
você realiza e quais são seus autores e autoras preferidos?
Leio sempre livros de ficção,
principalmente contos e romances, dos clássicos aos contemporâneos. Também
poesia e crônica. Muita literatura brasileira. Também leio não ficção e livros
de escrita criativa. Com relação aos meus autores favoritos, tenho muitos:
Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov (amo os russos), Saramago, Kafka, Fernando
Pessoa, Elena Ferrante, Haruki Murakami, Guimarães Rosa, Machado de Assis,
Lygia Fagundes Telles e outros.
6. Qual obra literária você considera
indispensável em sua formação de escritor?
Contos de Machado de Assis, Lygia
Fagundes Telles, Clarice Lispector, Caio Fernando Abreu, Moreira Campos,
Antonio Carlos Viana e vários outros.
7. Você poderia contar um pouco sobre
seu processo de escrita?
Escrevo geralmente a partir de um
tema. Em seguida, penso em uma situação que possa trazer o tema para um
contexto real. Materializá-lo. Depois, penso em qual seria o melhor narrador
para a história. Mas nem sempre é assim. Já aconteceu, por exemplo, de surgir
um personagem e a história se desenrolar a partir dele.
8. Este é seu primeiro livro? Como
ele nasceu?
Sim, o primeiro. Ele nasceu a partir
de contos já escritos durante anos e outros que escrevi para que pudesse me
inscrever no Edital de Incentivo às Artes da SECULT–CE. A ideia inicial era de
um livro com temáticas sobre o universo gay e protagonismo de homens gays ou
bissexuais.
9. Pensa em escrever outros livros?
Quais temas poderiam surgir neles?
Sim! Inclusive, estou no processo de
escrita do meu novo livro de contos, intitulado Canção do riso. Diferentemente
de Inventário dos seus abraços, em Canção do riso, amplio os temas abordados.
Ainda com protagonismo gay e bi, trago nas histórias temas universais como a
morte e o amor, a amizade, as novas configurações das relações, o sexo, o
impacto da internet e das Inteligências Artificiais–IAs, entre outros. Pretendo
escrever um romance em seguida.
10. Escrever é desafiador, mas
publicar é muito mais. Quais são, do seu ponto de vista, os desafios de
trabalhar como escritor no Ceará?
Publicar é caro. Fazer com que o
livro chegue a muitos leitores, mais ainda. E tudo exige dinheiro. O maior
desafio para quem não tem dinheiro sobrando (a maioria de nós) é fazer tudo
isso com poucos recursos financeiros. Os editais públicos são um caminho, como
foi o caso da publicação de Inventário dos seus abraços. Com relação a ser
escritor no Ceará, considero que seja mais difícil ainda, pois a maioria dos
grandes eventos literários, onde os autores podem se mostrar e divulgar o seu
trabalho, acontecem no eixo Rio-São Paulo.
11. Você considera pertinente situar sua escrita a alguma denominação literária (Literatura Cearense, Literatura Homoerótica, Literatura LGBTQIAPN+ etc.)?
Sim, considero. Em um mundo ideal, não precisaríamos colocar os livros nessas “caixinhas”, mas penso que hoje ainda é necessário. Eu escrevo histórias com protagonismo LGBT+, então se algum leitor procurar por histórias assim, conseguirá localizar os meus livros mais facilmente. Mas isso não significa que escrevo só para este público. E fico muito feliz quando vejo leitores não LGBT+ lendo e gostando das minhas histórias.
Sobre o autor:
Jorge Nogueira é graduado em Biblioteconomia, pela Universidade Federal do Ceará (UFC), especialista em Pesquisa Científica, pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), e mestre em Biblioteconomia, pela Universidade Federal do Cariri (UFCA). Vencedor do concurso Diversidade e Resistência: Coletânea Literária LGBT do Ceará e do XII Edital de Incentivo às Artes da SECULT Ceará. Participou da antologia: Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: manifesto poético (2024) e Haicai-Cariri: antologia de haicais (2025). No momento, prepara seu segundo livro de contos: Canção do riso.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
CÍRCULO DE LEITURA: "LEITURA DE TEXTOS DE AUTORIA FEMININA EM PROSA E POESIA"
Sinopse
O Círculo de Leitura do Centro Cultural do Cariri propõe, entre agosto e outubro de 2025, na EEM Governador Adauto Bezerra, a atividade: Leitura de textos de autoria feminina em prosa e poesia. Com o objetivo de promover leitura de textos em prosa e poesia de autoras brasileiras diversas, pretendemos realizar apreciação e debate em torno de aspectos formais e conteudísticos presentes em textos que se manifestam em gêneros discursivos variados. Além disso, pretendemos despertar o desejo de ler e de construir, no âmbito escolar, espaços de leitura contínuos.
Classificação indicativa: 12 anos
Público-alvo: Docentes e discentes da EEM Governador Adauto Bezerra
Limite: 20 participantes
12 de agosto
O Círculo de Leitura, intitulado “Leitura de textos de autoria feminina em prosa e poesia”, teve início na data de 12 de agosto de 2025, às 13h30, no Centro de Multimeios da EEM Governador Adauto Bezerra, localizado na cidade de Juazeiro do Norte–CE. Na ocasião, foi apresentada a proposta de leitura dos seis encontros que deveriam ser mediados por mim. Nesse sentido, os encontros foram divididos em três momentos: 1) leitura de texto poético, 2) leitura de texto em prosa e 3) debate teórico-crítico.
Assim, no primeiro encontro, foram apresentados, no primeiro momento, um poema de Conceição Evaristo e três poemas de Neuma Xenofonte. No segundo momento, foi lido o conto “O búfalo”, de Clarice Lispector. Para dar suporte à explanação do texto, foi realizada discussão em torno do ensaio: “O amor erótico n’O búfalo, de Clarice Lispector”, de autoria do mediador.
Antes da leitura, que ocorreu de forma interativa, houve breve explanação de notas alusivas às temáticas gerais abordadas pela escritora, também houve menção a componentes estruturantes do gênero narrativo conto: definições, aspectos estruturais, características gerais etc. Dentre as propostas teórico-críticas, foi apresentada a que se encontra em “Formas breves”, de Ricardo Piglia.
Com base no conto lido, a discussão foi direcionada para diversos temas, dentre os quais: amor, ódio, afetividade, solidão, frustrações amorosas etc.
26 de agosto
No segundo encontro, foi apresentado, no primeiro momento, um poema de Conceição Evaristo e, no segundo momento, os contos: “Pomba enamorada ou uma história de amor”, de Lygia Fagundes Telles; “Não pode dar certo” e “O grande e o pequeno”, de Adriana Falcão.
Antes da leitura, houve breve predição acerca da obra e, após a leitura interativa, houve debate alusivo aos temas: encontro amoroso, busca amorosa, a condição da mulher nos séculos XX e XXI etc. Para o debate, recorremos ao conceito de amor conforme o apresenta Zygmunt Bauman no livro: "Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos".
09 de setembro
No terceiro encontro, foram apresentados, no primeiro momento, poemas de Conceição Evaristo e, no segundo momento, foram lidos os contos: “Sacola” e “Gesso”, de Jarid Arraes. Na ocasião, recebemos na escola a visita de um ex-aluno que construiu uma sólida carreira literária, em âmbito nacional, e fez uma fala sobre sua experiência literária: Sidney Rocha.
23 de setembro
No quarto encontro, foram apresentados, no primeiro momento, poemas de Cecília Meireles e, no segundo momento, foram apresentados: o conto “Uma amizade sincera”, de Clarice Lispector, e a crônica “Ah, os amigos”, de Rachel de Queiroz.
Antes da leitura, houve breve predição acerca da obra e, após a leitura interativa, houve debate alusivo ao tema da amizade. Para o debate, recorremos ao texto Da amizade, de Marcus Túlio Cicero.
Na ocasião, realizamos debate em torno das aproximações e diferenciações dos gêneros narrativos conto e crônica.
07 de outubro
No quinto encontro, foram apresentados, no primeiro momento, poemas de Zila Mamede e, no segundo momento, o conto “Olhos d’Água”, de Conceição Evaristo. Para a discussão, foram explanados conteúdos teórico-críticos alusivos à Literatura Afro-brasileira, conforme as abordagens de: Eduardo de Assis Duarte, Conceição Evaristo e Nazareth Fonseca, dentre outros. Nesse sentido, foram abordados os temas: maternidade, memória, afetividade etc.
21 de outubro
No sexto encontro, foram lidos, no primeiro momento, poemas de Jovina Benigno, com ênfase nos livros “Cruviana” e “As linhas apagadas de minhas mãos”. No segundo momento, foi lido o conto “Amor”, de Clarice Lispector. Antes da leitura, houve breve predição acerca da obra e, após a leitura interativa, houve debate alusivo aos temas presentes no conto. Nessa perspectiva, foram explanados os seguintes temas: epifania, a condição da mulher, reflexões em torno da condição social brasileira, relações familiares, maternidade, erotismo etc.
Para o último encontro, os participantes do Círculo de Leitura foram convidados a visitarem o Centro Cultural do Cariri, com transporte disponibilizado pela instituição, e o encontro para leitura se deu na Biblioteca e, depois, no Bosque (espaço no qual foi servido lanche).
O encontro foi concluído com o sorteio, entre os presentes, de diversos livros teórico-críticos e ficcionais. Dentre eles, foram sorteados: “As linhas apagadas de minhas mãos”, de Jovina Benigno, e o livro “Romanceiros”, de autoria do mediador do Círculo de Leitura.
Como resultado das atividades realizadas durante o Círculo de Leitura, o Centro de Multimeios pretende prosseguir com o desenvolvimento de novos encontros para leituras e debates. No geral, a experiência foi maravilhosa, pois tivemos um espaço de construção de saberes plurais sob incentivo do Centro Cultural do Cariri, que tem prestado relevante serviço de propagação das artes no Cariri cearense.
REFERÊNCIAS:
ARRAES, Jarid. Redemoinho em dia quente. Rio de Janeiro: Capital das Letras, 2021.
BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. Trad. de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2016.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. O amor erótico n’O búfalo, de Clarice Lispector. In: GOUVEIA, Arturo (org.). Sátira, amor, pobreza e anatomia da alusão: ensaios de literatura. Cotia: Cajuína, 2022.
CÍCERO, Marco Túlio. Saber envelhecer e A amizade. Tradução de Paulo Neves. Porto Alegre: L&PM, 2013.
DUARTE, Francisco de Assis. Por um conceito de literatura afro-brasileira. In: DUARTE, E. A. e FONSECA, M. N. S. (org.) Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
EVARISTO, Conceição. Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade. In: SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 13, n. 25, p. 17–31, 2º sem. 2009.
________. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
FONSECA, Maria Nazareth Soares. Poesia afro-brasileira: vertentes e feições. 2018. Disponível em: http://www.letras. ufmg.br/literafro/artigos/teoricos/ArtigoNazareth. Acesso em: 24 jan. 2020.
LISPECTOR, Clarice. Todos os contos. Rio de Janeiro: Rocco, 2016.
MAMEDE, Zila. O arado. Natal: EDUFRN, 2023.
MEIRELES, Cecília. Literatura comentada: Cecília Meireles. Seleção de Norma Seltzer Goldstein e Rita de Cássia Barbosa. São Paulo: Abril Educação, 1982.
PLATÃO. O banquete. Trad. de Donaldo Schüler. Porto Alegre: L&PM, 2018.
PIGLIA, Ricardo. Teses sobre o conto. In: Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
QUEIROZ, Rachel de. Ah, os amigos. In: Mapinguari: crônicas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
STRAUZ, Rosa Amanda (org.). Elas por elas: histórias de mulheres contadas por grandes escritoras brasileiras. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.
TELLES, Lygia Fagundes. Literatura comentada: Lygia Fagundes Telles. Organização de Ligia Chiappini Moraes Leite. São Paulo: Abril Educação, 1980.
sábado, 8 de novembro de 2025
ENTREVISTA: "MINHAS QUATRO FUTURAS EX-NAMORADAS", DE THIAGO MARIANO
1. Você poderia me dizer seu nome artístico, onde nasceu e qual sua formação acadêmica?
Meu nome artístico é Thiago Mariano, mas meu nome completo é Francisco Thiago de Sousa Mariano (Thiago com H). Eu nasci em Juazeiro do Norte, em 1993, aqui no interior do Ceará. Minha formação acadêmica começou em 2011, quando eu entrei em Engenharia de Materiais (me formei 5 anos e meio depois). Em 2020, eu recebi o diploma da segunda faculdade: Pedagogia. E agora, em 2025, eu pretendo finalizar o curso de Jornalismo. Estou no último semestre.
2. Para você, o que é literatura e qual a importância dela em sua vida?
A literatura é uma forma de expressar o que eu sinto, as minhas histórias e até os meus traumas. Usei a escrita para transformar em arte muitas das dificuldades que vivi na infância e na adolescência, principalmente por causa do bullying. O meu livro fala muito sobre isso. O protagonista, por exemplo, é apelidado de Filé de Muriçoca, porque é magro e tem a cabeça grande — do mesmo jeito que eu era zoado na escola, pelos mesmos motivos. Então, para mim, a literatura serve tanto para contar histórias, quanto para extravasar as minhas insatisfações, raivas e frustrações, de um jeito que me faz sentir que existe um pouco de justiça no mundo. É complicado, mas gosto de colocar nas histórias o que vivi — só que de uma forma que ninguém perceba exatamente o que aconteceu.
3. Como começou seu desejo de escrever?
No começo, eu não escrevia com palavras, mas com a oralidade. Quando era criança, eu tinha uma coleção de brinquedos e adorava criar histórias complexas para justificar a existência deles. Eu não queria saber se o Goku já tinha a sua história ou se o Superman vinha dos quadrinhos — eu inventava novas versões, histórias próprias, que faziam com que esses personagens existissem no meu quintal. A minha bicicleta, por exemplo, era um demônio supremo que queria destruir o mundo, e um dos meus bonequinhos era o herói que precisava salvar todo mundo. Eu criava tudo isso de cabeça. Com o tempo, lá pelos 9 ou 10 anos, ganhei um caderno de aniversário — o primeiro que não era para fazer tarefa. Ele tinha o Mickey e o Donald na capa, e eu fiquei empolgado. Foi aí que comecei a escrever minhas primeiras histórias, em forma de quadrinhos. Criei um personagem chamado Coelhato, um coelho mutante superforte, com olhos triangulares, que voava, lançava raios laser e tinha um ponto fraco: ele ficava com muita fome e só queria comer bolacha. Fiz várias HQs caseiras e amadoras com ele. Depois, percebi que desenhar dava muito trabalho e comecei a escrever roteiros para animações. Fiz animações em stop motion, com recortes, e até frame a frame, mas também era trabalhoso demais. Então, pensei: seria mais fácil filmar com atores reais. E foi assim que comecei a criar roteiros de cinema — meu sonho, por muito tempo, foi ser cineasta, mas, com o tempo, percebi o quanto é difícil fazer um filme: precisa de equipe, equipamentos, dinheiro… Então, fui adaptando esse sonho e passei a fazer curtas para a internet. Nesse processo, acabei escrevendo centenas de roteiros. Em algum momento, percebi que seria ainda mais interessante transformar essas ideias em histórias longas, no formato de narrativa literária. Foi aí que nasceu o desejo de escrever livros e levá-los até o fim. A experiência com roteiros me ensinou que eu era capaz de me dedicar por anos a uma história — como aconteceu com Minhas 4 Futuras Ex-namoradas, que levei cinco anos para concluir.
4. Qual a importância de ler em um país considerado pouco leitor?
A leitura é importante, porque ajuda a gente a lidar com os problemas ao nosso redor. E eu não falo nem da leitura apenas como forma de se capacitar ou de ficar mais inteligente — mas como uma ferramenta de felicidade. Ler é uma forma de se sentir bem, de passar o tempo de um jeito realmente único. A ideia de escolher ler, não por falta de opção, mas porque ler é mais divertido do que muitas outras coisas é inspiradora. Encontrar um bom livro e sentir vontade de ler, sem preguiça, é uma dádiva. Pena que, no nosso país, as pessoas não são estimuladas quanto a isso. A leitura traz prazer e conforto. Então, para mim, a leitura é importante, porque ela tem o poder de fazer as pessoas mais felizes.
5. O que o levou a querer escrever?
Sempre gostei de criar e contar histórias — desde pequeno. Primeiro, na oralidade, com meus brinquedos. Depois, em histórias em quadrinhos, filminhos de animação, curtas e até vídeos para o YouTube. Sempre me atraíram histórias que misturam humor, cultura nerd, fantasia e romance. Chegou um momento em que percebi que queria escrever algo maior, algo que mostrasse que eu era capaz de construir uma narrativa mais complexa. Eu também entendi que, enquanto continuasse usando ideias de terceiros — tipo The Flash no Brasil, The Walking Dead no Brasil ou Todo Mundo Odeia o Chris no Brasil —, eu nunca teria uma obra que fosse realmente minha. Então, decidi criar algo totalmente original. Passei cinco anos escrevendo uma história só minha, feita com dedicação, no meu próprio universo — e gostei muito do processo. Foi quando percebi que era isso que eu queria fazer.
6. Tendo em vista que quem escreve deve estar sempre em contato com obras literárias, quais são as leituras que você realiza e quais são seus autores e autoras preferidos?
Eu cresci com muita preguiça de ler. Por anos, achei que eu simplesmente não gostava de leitura, porque os livros que chegavam até mim eram os que eu tinha dificuldade de terminar. Eu não me dava o direito de abandonar um livro no meio — achava que isso era errado. Então, eu me forçava a ler, mesmo que fosse devagar, e isso acabava me travando. Eu lia um livro, demorava muito, e não conseguia seguir para outro. Na adolescência, tudo mudou. Quando conheci livros como O Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e alguns de fantasia, como O Senhor dos Anéis e Harry Potter, percebi que eu gostava de ler, sim, eu só não tinha encontrado as histórias certas. A partir daí, comecei a me apaixonar pela leitura e a entender que eu era mais seletivo: precisava de histórias que realmente me prendessem. Com o tempo, fui descobrindo os livros que me cativavam e até desenvolvi o hábito de reler as mesmas histórias várias vezes, porque me conecto mais fácil com o que já me encantou do que com algo novo que demora a me prender. Entre os autores que me influenciaram estão: Tolkien e J.K. Rowling, mas também Thalita Rebouças, que é a principal escritora do gênero em que eu atuo. Quando li Confissões de uma Garota Tímida, Ansiosa e (Ligeiramente) Dramática, em 2018, fiquei apaixonado pela forma leve e próxima do leitor como ela escreve. Foi por causa desse livro que decidi reescrever Minhas 4 Futuras Ex-namoradas — mudei da terceira pessoa para a primeira pessoa, inspirado na narrativa dela. Além da literatura, também fui muito influenciado por animes, como: Attack on Titan, Death Note, Sword Art Online, Boku no Hero e Hunter x Hunter. Essas obras me despertaram o desejo de escrever histórias que misturassem fantasia, romance e comédia, mas trazendo tudo isso para dentro da cultura caririense — que é onde minhas histórias realmente ganham vida.
7. Qual obra literária você considera indispensável em sua formação de escritor?
Na minha formação como escritor, existem algumas obras que considero indispensáveis. Eu colocaria 6 obras literárias, já que cada uma impactou em quesitos que compõem a minha linguagem: comédia, romance, fantasia, adolescência e regionalidade. O Auto da Compadecida, por exemplo, foi essencial pela questão do humor e da regionalidade. Harry Potter e O Senhor dos Anéis me marcaram profundamente na fantasia, e eu incluiria também A história sem fim, nesse grupo, porque esse último livro me marcou demais. E, na parte do romance, por mais engraçado que pareça, eu colocaria: Crepúsculo. Essa obra realmente me cativou quando eu era adolescente. Você encontra no meu livro influência do romance sobrenatural entre adolescentes. Quando li os livros e esperava os filmes, entre 2008-2010, eu sentia uma grande vontade de criar uma história que contagiasse as pessoas da mesma maneira que Crepúsculo contagiava aquela geração. Senti vontade de brincar com o amor superestimado adolescente, cheio de intensidade, exagero, mas incluindo ironias, piadas e regionalismo. Já a pegada mais adolescente do livro, na forma de expressar em primeira pessoa, foi inspirada no texto de Thalita Rebouças, com seu livro Confissões de uma Garota Tímida, Ansiosa e (Ligeiramente) Dramática, que foi um divisor de águas durante a minha escrita.
8. Você poderia contar um pouco sobre seu processo de escrita? Este é seu primeiro livro? Como ele nasceu?
Eu comecei a escrever Minhas 4 Futuras Ex-Namoradas em 2018, quando já fazia cerca de um ano que eu havia criado a premissa — com todos os plots e o desfecho planejados. No início, pensei que seriam três livros, e que cada um contaria a história de uma futura ex. Mas, no meio do processo, decidi que seriam quatro. Assim nasceu o título Minhas 4 Futuras Ex-Namoradas. O livro foi crescendo muito com o tempo. Passei cinco anos escrevendo e reescrevendo essa história. A primeira versão tinha mais de 700 páginas. Mesmo depois de revisar e reescrever nove vezes, ele ainda continuava grande, com cerca de 600 a 650 páginas. Percebi, então, que lançar um livro tão longo seria inviável comercialmente — especialmente sendo um autor estreante e independente. Por isso, decidi dividir a obra ao meio e lançar a parte 1, que é essa que está sendo publicada agora. Ela tem 240 páginas, e acredito que cumpre bem o papel de prender o leitor e deixá-lo curioso para a continuação. Apesar de ser o meu primeiro livro impresso, eu já havia escrito outros dois: Guempy – Amor Perfeito (2021) e O Mapa do Guempendoele (2023). Ambos estão disponíveis digitalmente na Amazon Kindle. Essas histórias fazem parte de um mesmo universo literário, o chamado universo onde guempendoele é real. Trata-se de uma mitologia que eu mesmo criei, inspirada na cultura caririense.
9. Pensa em escrever outros livros? Quais temas poderiam surgir neles?
Sim, eu tenho vontade de escrever outros livros — inclusive a continuação de Minhas 4 Futuras Ex-Namoradas já está pronta e deve ser lançada no próximo ano. Atualmente, estou finalizando uma nova obra que segue um caminho diferente: uma paródia de super-heróis ambientada no Cariri, chamada O Traumatizador vs. O Tempero. É uma história que mistura sátira e cultura regional, mostrando heróis e vilões inspirados no nosso jeito de ser, nas nossas expressões e na vida aqui da região. Esse livro vai ser mais curto e voltado para o público infantojuvenil, com ilustrações e capítulos curtos, quase como se fossem contos independentes. No início, parece uma antologia, mas aos poucos as histórias se conectam até chegarem a um desfecho comum. É um projeto que me deixa muito empolgado — e a ideia é lançá-lo no Dia do Super-Herói, 28 de abril de 2026.
10. Escrever é desafiador, mas publicar é muito mais. Quais são, do seu ponto de vista, os desafios de trabalhar como escritor no Ceará?
A maior dificuldade para mim não foi escrever o livro — embora tenha exigido muita disciplina manter um projeto por cinco anos, sem ninguém me cobrando ou acreditando muito que eu realmente fosse concluir. O mais difícil veio depois que terminei: juntar maturidade, conhecimento e recursos financeiros para transformar o livro em realidade. Demorei dois anos só pra escolher a capa certa, levantar o dinheiro para publicar e entender que eu não precisava de uma editora. Percebi que, no meu caso, uma editora encareceria o produto e tiraria parte do controle criativo. Então, comecei a estudar sobre serviços editoriais, revisão, diagramação e tudo que envolve as etapas e elementos pré e pós-textuais. Aprendi que o maior desafio de um escritor independente, além de vender, é entender que ele precisa ser mais do que escritor. Precisa ser também empreendedor, comunicador, blogueiro e, muitas vezes, investir tirando dinheiro do próprio bolso por um sonho às cegas para, só depois, talvez, colher algum retorno.
11. Você conhece o conceito de Literatura Infantil, Literatura Infanto-juvenil e Literatura Juvenil? Você considera que seu livro está vinculado a um desses tipos de Literatura?
Conheço um pouco do conceito, mas não sou especialista. Sou pedagogo e trabalho com crianças há 9 anos. Acredito, no entanto, que o meu livro se encaixa melhor no público juvenil, acima dos 13 anos — talvez a partir dos 11, se houver o consentimento dos pais. Isso porque a história aborda temas como: namoro, romance e paixão, o que não considero adequado para o público infantil. Já os adolescentes e os jovens que estão vivendo essa fase, sim, podem se identificar bastante. O protagonista, por exemplo, tem 15 anos — ele começa a história com 14, mas faz 15 durante a narrativa. Então, é um livro voltado para quem está nessa faixa etária e, claro, para os demais adultos que gostarem de ler.
MARIANO, Thiago. Minhas 4 futuras ex-namoradas. Vol. 1. Juazeiro do Norte: Edição do Autor, 2024.








