sexta-feira, 23 de março de 2018

RESENHAS CRÍTICAS DA "REVISTA" PRODUZIDA NO CURSO: "CINEMA: UMA EXPERIÊNCIA CULTURAL NO ÂMBITO ESCOLAR"

 

Esta Revista, publicada em agosto de 2017, é resultado do curso Cinema: uma Experiência Cultural no Âmbito Escolar realizado como disciplina eletiva na EEMTI Presidente Geisel. O curso se pautou na realização de um estudo teórico-crítico acerca do cinema e dispôs-se a refletir a arte cinematográfica a partir de seus aspectos históricos, estéticos e socioculturais.

Neste sentido, discorremos sobre o cinema como manifestação artística capaz de possibilitar, no âmbito escolar, a ampliação da aprendizagem do aluno a partir de experiências de fruição artística, incentivo à reflexão e fomento à análise crítica. O curso foi desenvolvido, do ponto de vista metodológico, em duas partes: 1) aulas expositivas através das quais o conteúdo cinematográfico foi apresentado em suas particularidades e 2) realização de atividades que compreenderam: estudo e produção de resenhas críticas, debates e exibição de filmes de longa metragem.             
 (Émerson Cardoso)

 RESENHA CRÍTICA SOBRE O FILME
 LARANJA MECÂNICA, DE STANLEY KUBRICK
  
Alguns meses atrás eu decidi fazer uma maratona de filmes clássicos famosos e, nesta maratona, eu acabei assistindo ao consagrado thriller Laranja Mecânica, do renomado diretor e roteirista Stanley Kubrick, lançado em 1971.
O filme Laranja Mecânica (Clockwork Orange) é baseado no romance escrito em 1962, por Anthony Burgess, obra em que ele retrata um grupo de rua distópico baseado nos Teddy Boys, Mods e Rockers, que lutavam nas praias da Inglaterra no final da década de 1950 e início de 1960. O romance escrito por Burgess trata-se de jovens entre 10 e 23 anos que se entregam aos desejos de sexo, violência, roubo, drogas e outros vícios. O livro foi publicado com notoriedade em 1959, mas durante muito tempo acreditou-se que era impossível filmá-lo.
O enredo do filme coloca Malcom Mcdowell como o delinquente, porém muito inteligente Alex DeLarge, o líder do bando os “Droogs” – formado por Patrick Magee e Warren Clarke que estão sempre vestidos com macacões brancos e usando chapéus-coco pretos. O filme começa com o sorriso malévolo de Alex que, com os “Droogs” bebem moloko, uma bebida que, segundo Alex, te deixaria pronto para a velha “ultraviolência”. Após esse ritual, os mesmos espancam um bêbado, lutam com um bando rival, roubam um carro, conduzem como loucos e, quando chegam a casa futurista do escritor Frank Alexander, Alex o engana dizendo ter sofrido um grave acidente para conseguir entrar na casa, e obriga Frank a olhá-lo enquanto ele viola sua esposa. Além disso, Alex prende Frank e o espanca enquanto canta aos berros a música Singing In The Rain. Nesta cena, em que Kubrick pede a Malcom Mcdowell para que ele improvisasse, o ator canta essa música porque, no momento, foi a única que ele lembrou da letra. É interessante ressaltar que a cena do estupro é bastante sórdida, o que marca um dos grandes pontos do filme, que é chocar o espectador.
Quando Alex volta para casa, escuta a gloriosa Nona Sinfonia de Beethoven enquanto imagina guerras, explosões, vampiros, enforcamentos, morte e destruição. Na noite seguinte, Alex utiliza uma estrutura fálica para matar uma mulher e é abandonado pelos seus “Droogs”, sendo apanhado, em seguida, pela polícia.
Após isso, o filme segue repleto de Plot Twists, o que faz dele um dos marcos do cinema mundial, aclamadíssimo pela crítica e estudado até hoje nas escolas de cinema ao redor do globo. Em contrapartida, esse filme foi um dos mais polêmicos de Kubrick, de modo que foi retirado de circulação no mesmo ano pelo próprio diretor, o que perdurou por quase 30 anos na Inglaterra, por ter sido considerado apologia aos diversos crimes retratados no filme.
Com uma trilha sonora marcante dos renomados Wendy Carlos e Rachel Elkind, e enquadramentos tão perfeitos e diferentes que são características e marcas do diretor de fotografia John Alcott, que utilizou técnicas de fast e slow motion nas cenas de sexo e de violência. Vale dizer, ainda, que o uso apenas de luz natural, que valorizou e trouxe um ar de distopia para as cenas, tornou o filme uma verdadeira obra de arte.
(Gyslaine Costa)

A MENTIRA

Olive é estimulada pela melhor amiga a revelar detalhes de seu fim de semana entediante. Olive, uma adolescente muito certinha, decide apimentar um pouco os detalhes contando uma pequena mentira sobre a perda de sua virgindade. Uma das meninas religiosas do colégio fica em choque com a conversa, ela conta o que ouviu a todo o campus, dando a Olive uma reputação repugnante.
A mentira é mais um dos filmes americanos que trata sobre o colegial e sobre adolescentes, e mostra a hierarquia do Ensino Médio: meninas bonitas, atletas, nerds, meninas promíscuas, feias e entre outras classificações. O filme conta a história de uma garota que acaba, sem querer, criando uma mentira, o que a faz sofrer as consequências do que fala.
A comédia mostra que as pessoas não querem saber se algo que é dito é verdade ou não, só querem fofocar sem sequer se preocupar se o que é dito pode causar danos irreparáveis às pessoas envolvidas. O filme nos faz refletir principalmente sobre o seguinte: é difícil ser julgado sem ser ouvido.
A sequência narrativa apresenta Olive (Emma Stone) fazendo um vlog (vídeos do Youtube tipo o que o autor John Green faz) para explicar qual era realmente a verdade por trás de todas as mentiras. Assim, volta e meia, surge a cena do quarto, em que ela fala diretamente com quem assiste e, em outras partes, surge a cena que conta a história propriamente dita.
            Por fim, Olive explica a todos em seu vlog que tudo não passou de um mal entendido, que ela ainda é virgem. Ela fala, ainda, que a partir daquele momento ninguém deve se importar com a vida de ninguém, que isso não vai levá-los a lugar algum.
(Letícia Guerreiro)

 A CULPA É DAS ESTRELAS 

Diagnosticada com câncer de pulmão aos 13 anos, Hazel Grace Lancaster (16 anos) vive graças ao tratamento e, como vive há anos lutando contra o câncer, é obrigada a participar de um grupo de apoio em que conhece Augustus Waters, com que constrói uma relação inicialmente de amizade e, em seguida, afetivo-amorosa.
O filme foi uma adaptação do livro de John Green – eu li o livro e assisti ao filme e, para mim, foi um dos melhores filmes que eu já assisti. Ele discorre sobre um relacionamento intenso e emocionante! No começo do filme, Hazel vai para um grupo de apoio e conhece Augustus ou Gus e, desde a primeira vez em que se viram, trocaram olhares e, daí, ficaram emocionalmente ligados.
Dentre outras peripécias, Hazel consegue uma viagem para Amsterdam, ocasião em que deseja conhecer o autor de seu livro preferido. Lá eles vivem momentos inesquecíveis – em meio ao sonho que vivem, Hazel descobre que falta pouco para ele morrer. Ao voltar para casa, Hazel e o melhor amigo de Augustus vão à igreja e leem cartas de despedida para Gus. Para mim, essa foi a parte mais emocionante do filme! Ao passar alguns dias, Hazel recebe a notícia de que Augustus morreu e o filme termina com a leitura de uma carta que ele escrevera para ela. 
Assim, do meu ponto de vista, penso que o filme nos mostra que temos que aproveitar os momentos como se fossem únicos e que o verdadeiro amor nasce mesmo em tempos difíceis.
(Lívia Maria)

LOGAN

Dirigido por James Mangolg, em 2017, Logan tem no elenco Boyd Holbrook, Dave Davis, Dafne Keen Doris Morgado, Elise Neal, Elizabeth Rodriguez, Eriq La Salle, Hugh Jackman, Jaden Francis, Juan Gaspard, Julia Holt, dentre outros.
O filme se passa em um futuro distante em que Logan (Hugh Jackman) luta pela sobrevivência do seu amigo Charles (Patrick Stewart), que já está bem velho, e de Laura (Dafne Keen), que é uma garota parecida com o Logan, com poderes que ainda estão sendo gerenciados. Ela é uma aprendiz, mas em cena mostra a que veio – são momentos de cair o queixo, literalmente. A garota deve ter dado trabalho para os dublês. Por causa do grande espaço para violência em estado puro (nada estilizado – quase um documento de cenas para revirar o estômago, no bom sentido, se é que existe), e alguns xingamentos mais fortes, a classificação indicativa americana ficou para maior de 18 anos, com razão, pois é um filme de “herói” com crianças, mas não é um filme pra criança.
A interpretação dos atores é impecável – eles são dignos de Óscar. A fotografia do filme é simplesmente perfeita, com o diretor de fotografia que grava cenas muito lindas e emocionantes com cores bem vivas. A trilha sonora é de Marco Beltrami e com a inconfundível voz de Johnny Cash. O filme realmente estava perfeito e, em minha opinião, digno de Óscar em vários aspectos.
(Pedro Guilherme Siqueira)

NO CORAÇÃO DO MAR

O filme nos traz o escritor Herman Melville em busca dos fatos reais do navio Essex para a criação da sua maior obra: Moby Dyck. Para isso, ele entra em contato com um senhor sobrevivente e, a partir da narração dos fatos, temos uma viagem no tempo.
            O que ele descobre é o seguinte: em 1820 um navio baleeiro, liderado pelo capitão George Pollard, parte em uma gananciosa busca de 2000 barris de óleo de baleia. Para isso, o capitão Pollard, que não é nada experiente, conta com a ajuda do seu primeiro oficial Owen Chase que, podemos dizer, é um veterano no assunto e sonha em ser capitão, inclusive deveria ser o capitão de tal missão.
Owen e Pollard não demoram muito para entrar em conflito e, como são obrigados a conviver juntos, a única coisa que podem fazer para se livrarem um do outro é atingir logo a meta a que foram destinados. Com isso, eles navegam até a costa do Sul da América onde as baleias não são escassas e acabam se surpreendendo com uma baleia branca gigante, que irá lutar por sua sobrevivência e acabará atacando o navio deixando os tripulantes largados no mar à própria sorte.
            O filme é uma daquelas produções que deixam a gente com um friozinho na barriga em vários trechos. Ele conta com bons efeitos visuais e cenários incríveis. Isso sem falar no elenco, que traz dois conhecidos da Marvel – Hemsworth e Tom Holland. Eu, particularmente, gostei muito desse filme e, por influência do filme, lerei o livro em breve.
(Fernando Victor Lacerda)

 MARY POPPINS REVISITADA 

Dirigido por Robert Stevenson, em 1964, Mary Poppins é um dos filmes indispensáveis para quem gosta de animação e de musicais.
Um dos filmes mais queridos do público de cinema, Mary Poppins ocupa a sexta colocação na Lista dos 25 maiores musicais americanos de todos os tempos. Esse filme traz roteiro baseado no livro de mesmo nome de P. L. Travers, escritora australiana. Depois de 26 anos de planejamento foi que o filme estreou, porque Walt Disney não conseguiu convencer a autora a vender os direitos de adaptação do livro com facilidade – a autora só concordou em vender os direitos autorais do livro no final da década de 1950.
O filme conta a historia do banqueiro Mr. Banks (David Tomlinson), um homem que trata com rigidez seus dois filhos sapecas: Jane (Karen Dotrice) e Michael (Matthew Gaber). Ele não consegue contratar uma babá, pois elas desistem facilmente do emprego. Numa noite, enquanto ele e sua esposa redigem um anúncio de jornal procurando uma babá, seus filhos aparecem com uma carta mostrando como seria uma babá perfeita. Esta carta acaba chegando nas mãos de Mary Poppins, que é tudo aquilo que está descrito na carta.
Devemos considerar dois fatos interessantes na obra: é atemporal e não é destinada apenas para o público infantil, é um filme para todas as idades. O filme faz os pais refletirem sobre como devem passar mais tempo com seus filhos. Tem uma trilha sonora impecável, com canções lindas.
Assim, esse filme é divertido, muito bem feito e vencedor de vários prêmios, incluindo Óscar e Globo de Ouro. Mary Poppins, que vimos em uma das aulas da disciplina eletiva de Cinema, no primeiro semestre de 2017, nos convida a embarcar em uma fantástica aventura repleta de humor e fantasia.
(Maria Glaucia Araújo e Silva e Maria Eduarda Batista Rolim)

CENTRAL DO BRASIL
  
Centra do Brasil é dirigido por Walter Salles e é considerado uma verdadeira obra-prima do cinema nacional. O sucesso do filme se deu tanto nacional quanto internacionalmente – não podemos esquecer que foi indicado para o Globo de Ouro e para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de receber indicação de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro.
            A história começa na estação de trem do Rio de Janeiro em que Dora (Fernanda Montenegro), professora aposentada, escreve cartas para pessoas não alfabetizadas. Uma das clientes, Ana Fontenele (Soia Lira), que estava ao lado do filho Josué (Vinícius de Oliveira), queria comunicar-se com Jesus, seu ex-marido que morava em Bom Jesus do Norte.
            Quando chegava em casa, Dora e sua vizinha Irene (Marília Pêra) liam as cartas das pessoas e as jogavam fora. Certo dia, Ana reaparece na estação e pede a Dora para rasgar a antiga carta e mandar outra. Na volta para casa, Ana sofre um acidente.
            O enredo se desenrola a partir daí, pois com a morte da mãe, Josué fica abandonado na estação e Dora, comovida com a situação do menino, termina por querer ajudá-lo a encontrar seu pai.
            O drama bem elaborado, com interpretações de um elenco magnífico, traz mais interesse para o espectador, tanto o jovem quanto adulto. As cores em destaque no filme são mortas, apagadas, o que representa uma tentativa de aproximar o visual da crueza do espaço social em que as personagens transitam.
(Maria Eduarda Mendes)

TEORIAS DO AMOR EM
“500 DIAS COM ELA”

“500 days of Summer”, em inglês, é uma comédia romântica/drama dirigido por Marc Webb, em 2009. O enredo desse filme lhe conferiu a 10ª posição entre os melhores filmes do ano pela National Board of Review Awards, além de outras indicações a prêmios importantes, dos quais foi vencedor inclusive na categoria: “Melhor Roteiro Original”, pela Southeastern Film Critics Association.
O filme é construído a partir de uma narrativa não-linear que apresenta, através do ponto de vista de seu protagonista Tom Hansen, interpretado por Joseph Gordon Levitt, os 500 dias de seu relacionamento com Summer (Zooey Deschanel). Seu roteiro criativo e inteligente é,  até hoje, alvo de diferentes interpretações entre fãs, críticos e admiradores da sétima arte.
Tom, protagonista da trama, cresceu acreditando que não seria feliz até que conhecesse “a garota certa’’. Summer, por sua vez, não compartilhava desta crença, afirmando desde o início sua preferência por viver sozinha, e a repulsa pela ideia de pertencer a alguém de alguma forma.
O clímax do filme acontece durante os tristes vislumbres de Tom a respeito da inesperada atitude de Summer de pôr um fim no relacionamento não rotulado que mantinham até então. A realidade com que são retratadas as desilusões na trama e a fuga da romantização, incomum nesse tipo de gênero cinematográfico, podem ser destacadas como pontos positivos desta produção.
O competente trabalho de fotografia, enfatizando as cenas mais dramáticas do filme com cores frias e a iluminação mais baixa, aliado à interpretação entregue de Joseph (Tom) e Zooey (Summer), rendeu o resultado incrível que transporta o espectador para mais próximo das emoções vividas pelos personagens.
Por fim, a trilha sonora produz a harmonia perfeita da narrativa, sendo um importante elemento de composição da trama considerada um dos mais bem sucedidos “hits” do ano em 2009.
(Pietra Pinheiro)

DONNIE DARKO
E O COELHO GIGANTE


Donnie Darko é um filme com roteiro criativo e imprevisível que, apesar de fictício, remete a conceitos da Física e Psicologia. Produzido em 2001, com roteiro e direção de Richard Kelly, e direção de fotografia de Steven Poster, conta com uma incrível trilha sonora composta por clássicos dos anos 80.
A trama se passa nos anos 1980 e acompanha a vida de um garoto esquizofrênico chamado Donnie Darko (Jake Gyllenhaal). Certa noite, Donnie é atraído por um homem que diz se chamar Frank (James Duval) usando uma fantasia de coelho amedrontadora. Frank diz a Donnie que o mundo irá acabar em exatamente 28 dias, 06 horas, 42 minutos e 12 segundos. Após esse encontro, Donnie acorda em meio a um campo de golfe sem saber como foi parar ali (o que é bem comum para o garoto que sofre de sonambulismo). Ao chegar em casa, ele se depara com uma grande movimentação, pois uma turbina de avião caíra em cima do seu quarto – Frank havia salvado sua vida.
A partir daí, a trama ganha fôlego. Frank induz Donnie a cometer alguns crimes, mas não sem razão, todos com relevância e acabam mudando o rumo da história. Isto se dá até que um dia Donnie ganha, de seu professor de Física (Noah Wyle), o livro: “A filosofia da viagem no tempo”, escrito por Roberta Sparrow/Vovó Morte (Patience Cleveland). Donnie começa a questionar-se e estudar sobre esses conceitos, tendo algumas alucinações. Tendo lido esse livro, Donnie se sente que tem algo de grande responsabilidade nas mãos. 
Donnie Darko é um dos primeiros Cult Movies do século XXI. Sem o apoio de grandes estúdios, o filme alcançou sucesso por mérito próprio. Mas, mesmo sendo um filme complexo e difícil de entender, Donnie Darko agrada a maioria de seu público alvo, talvez seja justamente por essa dificuldade em entendê-lo que o filme chama tanta atenção.
(Victória Vieira)
O PEQUENO PRÍNCIPE

Algumas pessoas têm resistência a filmes musicais – eu não. Eu gosto muito deles. Agora, imaginemos um musical adaptado de uma das mais populares obras literárias do mundo – não tenho como não gostar!
O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, foi adaptado por Stanley Donen em 1974. Com canções entre divertidas e líricas, como It’s a hat, Be happy e A snake in the grass, encontramos nele excelentes canções. Considero que as atuações merecem elogios, assim como alguns cenários e efeitos especiais. A adaptação também tem seus valores.
O Príncipe que veio do asteroide B-612, e encontrou-se no deserto do Saara com um piloto que sofrera um acidente aéreo, foi uma personagem que me marcou profundamente na infância. Eu me perdia em pensamentos, quando criança, na tentativa de entender o porquê de o Príncipe viver no asteroide sozinho, sem pai nem mãe, e andar naquela pequena morada sem, contudo, cair no espaço para sempre – eu não contava com a astúcia da gravidade, claro. Era tudo tão mágico para mim!
Eu assisti a essa versão de um dos livros que mais li na vida quando já era adulto, no entanto foi como se eu voltasse a viver os sentimentos que eu resguardava em mim quando eu era criança. Foi uma experiência triste, porém gratificante.
O Pequeno Príncipe, de Donen, é um clássico. Vale a pena assisti-lo e reassisti-lo, certamente. Claro que é necessário recorrer à sensibilidade que, por vezes, perdemos quando a vida adulta já nos impõe que o que era mágico agora é absurdo, ilógico e impossível. Nesta perspectiva, cabe retomar a já mil vezes citada frase do livro: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.
(Émerson Cardoso)

O MÁGICO DE OZ

Em 1939, Victor Fleming adaptou para o cinema a obra de L. Frank Baum The wizard of Oz (1900) – no Brasil, O mágico de OZ. A protagonista, Dorothy, é levada por um tornado para uma terra mágica e, na tentativa de voltar para seu lar, ela é informada de que precisa encontrar-se com o grande mágico de Oz na Cidade das Esmeraldas, pois somente assim ela poderia realizar seu desejo.   
Em sua jornada, Dorothy encontra-se com personagens que, assim como ela, também têm um desejo a realizar: o espantalho busca um cérebro, o homem de lata busca um coração e o leão covarde busca coragem. Nesta caminhada, somos apresentados à marcante trilha sonora do filme e a acontecimentos que nos instigam a refletir sobre temas diversos e que podem nos comover profundamente. 
Indicado a seis Óscar, esse filme venceu nas categorias Melhor Trilha Sonora e Melhor Canção Original. A canção Over the rainbow é considerada uma das mais belas do cinema, e tem sido amplamente revisitada em gravações as mais diversas. Os muitos problemas de produção não afetaram a qualidade desse filme considerado um dos maiores filmes de todos os tempos. De acordo com a Greatest Movie Musicals, do American Film Institute, que em 2006 apresentou uma lista dos 25 maiores filmes musicais, O mágico de Oz ocupa o terceiro lugar da lista.  
 Esse filme é grandioso esteticamente e, sobretudo, pelas reflexões que suscita. Dentre as frases de efeito marcantes, que localizamos em seus diálogos mais que criativos, destacamos a que é dita pelo mágico de Oz ao homem de lata, por ocasião da entrega do coração que este tanto queria: “Um coração não se julga por quanto você ama, mas por quanto você é amado pelos outros”.
(Émerson Cardoso)
DICAS DE FILME:

O JOGO DA IMITAÇÃO

É um filme de 2014, do gênero drama, dirigido por Morten Tyldum. Conta com um elenco que traz Benedict Cumberbatch, Keira Knigtley, Matthew Goode, Charles Dance, Mark Strong, Matteew Beard, Allen Leech, Rory Kinnear, dentre outros. O filme se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando o matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch) e quatro especialistas foram convocados em uma missão secreta para decifrar o código de comunicação dos alemães: o ‘enigma’. Enquanto isto, Alan tem que esconder sua homossexualidade que, na Inglaterra da época, era um crime.
(Letícia Gonçalves)
MARY E MAX: UMA AMIZADE DIFERENTE

Direção de Adam Elliot. Intérpretes: Toni Collete, Philip Seiymour Hoffman, Eric Bana, Barry Humphries. Austrália: 2009. Gênero: Animação / Drama. Baseada numa história real, essa obra apresenta a história de amizade entre duas pessoas muito diferentes: Mary Daisye Dinkle (voz de Toni Collette), uma menina  solitária de oito anos, que vive nos subúrbios de Melbourne – Austrália – e Max Horowitz (voz de Philip Seymour Hoffman), um homem de 44 anos, que mora em Nova York – Estados Unidos. Alcançando 20 anos, e dois continentes, a amizade de Mary e Max sobrevive muito além dos conflitos da vida e dos limites impostos pela distância.
(Émerson Cardoso)

sexta-feira, 16 de março de 2018

BREVES NOTAS SOBRE A PEÇA TEATRAL "ABRAZO", DO GRUPO CLOWNS DE SHAKESPEARE

Foto: Pablo Pinheiro 

A sensação que tenho, depois de ver as duas apresentações da peça teatral Abrazo, dirigida por Marco França, é de encantamento. Lirismo, irreverência, densidade temática e sutileza são os ingredientes por excelência do texto. Atrelado a isto, a peça conta com um elenco que se reveza ao dar vida, com maestria, a diversas personagens. É um espetáculo digno de nota e reverência!

Nos dias 13 e 14 de março de 2018, no Teatro SESC Patativa do Assaré, de Juazeiro do Norte, um trio do Grupo Clowns de Shakespeare, de Natal – RN, apresentou a segunda parte da trilogia latino-americana Abrazo. Camille Carvalho, Dudu Galvão e Paula Queiroz realizaram proezas cênicas dignas dos maiores elogios. A segurança no revezamento das personagens, o carisma, a preparação corporal, as expressões faciais e a entrega ao universo que tentam expressar com economia de palavras são aspectos que devem ser considerados. O trio consegue uma unidade na construção do ato cênico que salta aos olhos. Tudo é harmônico, bem articulado, construído com minúcias.

Diante disto, não poderia ser diferente: o espetáculo foi um sucesso! Nos dois dias em que foi apresentado, o teatro esteve lotado, o público (constituído de adultos e crianças) aplaudiu de pé com visível entusiasmo. Foi, de fato, uma experiência enriquecedora ter visto, através do SESC, esse Grupo privilegiar o Cariri com seu talento e beleza.

Além da direção e do elenco serem magistrais, devo ressaltar aspectos técnicos que ampliam o encanto do espetáculo: a trilha sonora, o figurino, a cenografia, a cenotecnia e as animações também merecem elogios. A peça conta, ainda, com acessibilidade para pessoas com deficiência visual, uma vez que apresenta audiodescrição. O roteiro e argumento dramatúrgicos são de César Ferrario e o roteiro de audiodescrição é de Karol Nascimento. A produção da peça, no Cariri, ficou por conta da atriz Rita Cidade – uma das mais completas artistas que conheço.

Quanto à história contada, Abrazo é resultado de larga pesquisa histórico-cultural sobre a América Latina e traz reflexões sobre: ditadura, morte, amor, liberdade, desencontro amoroso, dentre outros pontos. Temas densos, como a tortura impetrada pela ditadura, irrompem com sutileza, mas com o grau de profundidade que o tema exige.

Do ponto de vista enredístico, as personagens apresentadas estão inseridas em um espaço em que preponderam, já no início da história, inúmeras proibições. O título evoca uma destas proibições: as pessoas não podem se abraçar. O General – que em determinados momentos termina por demonstrar que vive de reprimir até suas próprias pulsões – parece querer boicotar, com a interdição do abraço, a demonstração de afetividade entre as pessoas. Ele só não conta com o fato de que as pessoas podem se reunir e, desse modo, se fortalecer contra o despotismo de líderes políticos desalmados. Em meio a essa realidade conflitante, surge o amor entre um Rapaz e uma Florista. Eles encontram um no outro ternura e afetividade, mas são impossibilitados de vivenciar tais experiências porque o amor que sentem está perpassado por coerções advindas do cenário político que representa ausência completa de liberdade. Sequer eles podem demonstrar afeto por meio do abraço, pois lhes foi tirado este direito. 

Algumas cenas são emblemáticas, do meu ponto de vista: 1) o General atravessa o palco em marcha puxando um exército de patinhos amarelos (qualquer semelhança com a realidade política brasileira não é mera coincidência!), 2) o General, temporariamente livre de suas autorrepressões, dança com uma rosa na boca e ensaia passos de balé clássico, 3) a Florista e o Rapaz despedem-se na estação sem que possam se abraçar, 4) o General tortura a Florista, 5) o Rapaz procura a Florista e a espera enquanto as estações do ano passam e, ao final, seu coração se parte e ele segue sozinho (um pássaro metaforiza o caminho de solidão que ele percorre) e 6) o Menino e a Vovó abraçam-se após ficarem livres do jugo ditatorial.

Dentre as cenas que menciono, permaneceu com maior ênfase em minha memória a cena em que a Florista contraria o General e, por isto, é presa e torturada. A tortura a que o General a submete é construída por meio da simbologia de uma rosa que ele fustiga e atira numa espécie de varal em que repousam outras rosas que, como fica sugerido, também são vítimas do mesmo tipo de violência.

Essa cena confirma o que já apontei: temas densos são trabalhados em Abrazo com muita sutileza. Isto não quer dizer que a tortura, a morte e a tirania são apresentadas de modo superficial – superficialidade é algo que não ocorre em nenhum momento na peça. Em decorrência do público a que se direciona, se mostrou necessário um tratamento não explícito desses aspectos configuradores de violência e, desse modo, a peça ganhou em originalidade: tudo passa por um crivo da metaforização e exige que a plateia esteja atenta aos seus aspectos polissêmicos.

Em suma, Abrazo, que foi inspirada na obra O livro dos abraços, de Eduardo Galeano, é pertinente porque, além de proporcionar entretenimento de qualidade, nos instiga à reflexão sobre luta em tempos sombrios. E, mais do que isto, proporciona a fruição porque, como arte no melhor sentido do termo, amplia-nos a sensibilidade e abre-nos os olhos para concepções mais críticas acerca da realidade. Abrazo é, portanto, uma peça indispensável para quem pensa o mundo e deseja liberdade. Que privilégio ter visto esse espetáculo! 

Émerson Cardoso

15/03/2018

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

TRECHO DO CONTO: "A LEGENDA DE SÃO JULIÃO, O HOSPITALEIRO", DE GUSTAVE FLAUBERT


Uma mesinha, um banco, uma cama de folhas secas e três copos de barro, eis toda a sua mobília. Dois buracos nas paredes serviam de janelas. De um lado, estendiam-se a se perderem de vista planícies estéreis tendo à superfície pálidos laguinhos por toda parte; e o grande rio, à sua frente, rolava suas ondas esverdeadas. Na primavera, a terra úmida tinha um cheiro pútrido. Depois, um vento desordenado levantava turbilhões de poeira. Entrava em toda a parte, turvava a água, fendia as gengivas. Um pouco mais tarde, eram nuvens de mosquitos, cujo sussurro e as picadas não paravam dia e noite. Em seguida, sobrevinham geadas tão terríveis que davam às coisas a rigidez da pedra, e inspiravam um desejo delirante de comer carne.
Passarem-se meses sem que Julião visse alguém. Por vezes, ele fechava os olhos, tentando, pela memória, voltar à sua juventude; – e o pátio de um castelo aparecia com galgos no patamar, criados na sala de armas, e numa caramanchão de pâmpanos, um adolescente de cabelos louros entre um ancião coberto de peles e uma dama com grande toucado; de repente, os dois [cadáveres] estavam lá. Ele atirava-se de bruços na cama, e repetia chorando:
 – Ah! pobre pai! pobre mãe! pobre mãe!
E caía numa sonolência onde as visões fúnebres prosseguiam.

Uma noite, quando dormia, cuidou de ouvir alguém chamá-lo. Apurou o ouvido e distinguiu apenas o rugido das ondas.
Mas a mesma voz voltou:
– Julião!
A voz vinha da outra margem, o que lhe pareceu extraordinário, dada a largura do rio.
Chamaram uma terceira vez:
– Julião!
E esta voz aguda tinha a entonação de um sino de igreja.
Depois de acender a lanterna, saiu da cabana. Um tufão furioso enchia a noite. As trevas eram profundas, e aqui e ali rasgadas pela brancura das vagas que saltavam.
Após um minuto de hesitação, Julião soltou a amarra. A água, subitamente, ficou tranquila, o barco deslizou nela e tocou a outra margem, onde um homem esperava.
Estava envolto numa túnica em farrapos, o rosto semelhante a uma máscara de gesso e os olhos mais vermelhos do que brasas. Alumiando-o com a lanterna, Julião notou que uma lepra horrenda o cobria completamente; no entanto, havia em sua atitude uma majestade de rei.
Assim que ele entrou no barco, este afundou extraordinariamente, esmagado por seu peso; uma sacudidela o fez subir; e Julião começou a remar.
A cada remada, a ressaca das ondas levantava-o de proa. A água, mais negra do que piche, corria furiosa pelos dois lados da bordagem. Abria precipícios, fazia montanhas, e a chalupa saltava por cima, depois voltava a descer nas profundezas onde redemoinhava, sacudida pelo vento.
Julião debruçava o corpo, esticava os braços, e, retesando-se, fincando os pés, revirava-se com uma flexão do tronco, para ter mais força. O granizo fustigava suas mãos, a chuva escorria pelas suas costas, a violência do ar sufocava-o; ele parou. Então o barco foi á deriva. Mas, compreendendo que se tratava de uma coisa considerável, de uma ordem, à qual não devia desobedecer, retomou os remos; e o ranger [das borlas] cortava o clamor da tempestade.
A pequena lanterna consumia-se à sua frente. Pássaros esvoaçando, escondiam-na a intervalos. Mas continuava reparando nos olhos do leproso que se mantinha de pé, na popa, imóvel como uma coluna.
E isto durou muito tempo, muitíssimo tempo!
Quando chegaram à cabana, Julião fechou a porta; e ele viu-o sentar-se no banco. A espécie de sudário que o cobria tinha-lhe caído até os quadris; e suas costas, seu peito, seus braços magros desapareciam sob as placas de pústulas escamosas. Rugas enormes sulcavam sua fronte. Como um esqueleto, ele tinha um buraco no lugar do nariz; e seus lábios azulados soltavam um bafo espesso como um nevoeiro, e nauseabundo.
– Tenho fome! – disse ele.
Julião deu-lhe tudo o que possuía, um pedaço de toucinho e côdeas de pão escuro.
Depois que devorou tudo, a mesa, o prato e o cabo da faca apresentavam as mesmas manchas de que se viam em seu corpo.
Depois, ele disse:
– Tenho sede!
Julião foi buscar o seu cântaro; e, quando o pegou, ele exalou um aroma que dilatou seu coração e suas narinas. Era vinho; que achado! mas o leproso esticou o braço, e de uma tragada esvaziou todo o cântaro.
Em seguida, disse:
– Tenho frio!
Julião, com sua vela, ateou fogo a um molho de fetos [samambaias], no meio da cabana.
O leproso ali se aqueceu, e, agachado sobre os calcanhares, tremia com todos os seus membros, debilitava-se; seus olhos já não brilhavam, suas chagas escorriam, e, com uma voz quase apagada, murmurou:
– Tua cama!
Julião ajudou-o serenamente a se arrastar até lá, e até estendeu sobre ele, a tela do seu barco.
O leproso gemia. Os cantos de sua boca descobriam seus dentes, um estertor acelerado sacudia-lhe o peito, e o ventre, em cada uma das aspirações, escavava-se até as vértebras.
Depois cerrou as pálpebras.
– É como se tivesse gelo nos ossos! Fica junto de mim!
E Julião, levantando a tela, deitou-se nas folhas secas, junto dele, lado a lado.
O leproso virou a cabeça.
– Tira tua roupa, para eu ter o calor do teu corpo!
Julião despiu-se; depois, nu como no dia do seu nascimento, deitou-se outra vez na cama; e sentia contra a sua coxa a pele do leproso, mais fria que uma serpente e áspera como uma lima.
Julião procurava animá-lo; e o outro respondia, ofegante:
– Ah! eu vou morrer!... Aproxima-te, aquece-me! Não com as mãos! não! com todo o seu corpo.
Julião estendeu-se completamente em cima dele, boca com boca, peito com peito.
Então o leproso estreitou-o; e seus olhos, de repente, tiveram uma claridade de estrelas; seus cabelos alongaram-se como raios de sol; o bafo de suas narinas tinha a suavidade das rosas; uma nuvem de incenso elevou-se da lareira, as ondas cantavam.
No entanto uma abundância de delícias, uma alegria sobre-humana descia como uma inundação na alma de Julião desfalecido; e aquele cujo braço o continuava apertando, crescia, crescia, tocando com a cabeça e os pés, as duas paredes da cabana. O telhado voou, o firmamento se desenrolava; – e Julião subiu nos espaços azuis, face a face com Nosso Senhor Jesus, que o levava para o céu.

E eis a história de São Julião, o Hospitaleiro, tal como mais ou menos a encontramos nos vitrais de uma igreja de minha terra.

(FLAUBERT, 1974, p. 99 – 102)

REFERÊNCIAS:

FLAUBERT, Gustave. Trois contes. Paris: Louis Conard, Librarie-Éditeur, 1910.

__________. Três contos. Tradução de Luís Lima. Rio de Janeiro: Editora Três, 1974.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

MEU "APÓLOGO DA MESA"


Era um dia de festa. As pessoas corriam de um lado para o outro arrumando os últimos detalhes da grandiosa recepção. Em todos os cômodos da mansão havia móveis que, sob vigilância da anfitriã, eram limpos cuidadosamente. Todos foram polidos, enfeitados, mudados de lugar.
Houve, porém, um problema impossível de passar sem dar nas vistas. Enquanto todos os móveis riam no auge da felicidade pela nova roupagem que apresentavam, a mesa, mais reflexiva que o natural, no centro da sala, com olhares de estranhamento e aspecto descontente, permanecia intocada.
Todos os móveis receberam nova coloração, espargiam perfume, alguns receberam toalhas e enfeites novos. Apenas ela, a mesa, permanecia com seu aspecto de sempre: a mesma cor desbotada, desperfumada, sem conserto. O riso e a felicidade dos outros passaram, aos poucos, a incomodá-la. Desse modo, no auge da sensação de inferioridade, no auge da solidão, sentindo-se uma “qualquer”, começou a reclamar-se da vida triste e lamentável a que aqueles seres a submetiam. 
Quem aqueles móveis felizes pensavam que eram? E onde estava a dona da casa que não valorizava a sua presença inestimável? Como poderia ficar calada diante de situação tão adversa a seu ego? Ela tinha direito de reclamar... Ela há anos servia à família que ali residia. Era esse o pagamento recebido por tantos anos de benevolência e solicitude? Imundos todos! Mereciam alimentar-se no chão como animais, e não em sua reconfortante planície. Queria que todos morressem, que um incêndio destruísse a felicidade daqueles móveis exibidos, que uma enchente destruísse os risos daqueles seres frívolos. O ódio invadiu-a e, se ela pudesse, faria de tudo para desfazer aquela alegria insuportável e sem graça. 
Foi neste instante que gritou contra todos os móveis, e seus enfeites, as mais absurdas injúrias. Expôs o defeitos, as fragilidades, os insucessos dos companheiros com a intenção de fazê-los se sentirem por baixo, assim como ela se sentia. “Se eu não mereço ser bem tratada, ninguém mais merece!”, pensou. Disse tudo o que pensava e, sem se importar com a tristeza que poderia causar aos seus, rebaixou-os com os piores xingamentos. 
Não se deu por vencida e passou a lamentar-se das vezes em que foi bondosa. Atirou sobre os que estavam ao seu redor o quanto lhes havia ajudado. Queria fazê-los perceber, com palavras contundentes, o quanto era vítima de injustiça naquele momento. Ódio! Raiva! Rancor! Quanto teria de esperar para morrer e não ver mais tanta maldade e ingratidão?
Depois que cansou de, desequilibrada, criticar a todos, atirando sua raiva contra os mais próximos, aconteceu algo que fez com que ela se calasse. De repente, com muita delicadeza, alguém a limpou, a lustrou e colocou sobre ela uma toalha de rendas. Prepararam-lhe o melhor enfeite. Fizeram dela o centro da festa e todos os convidados, ao longo da recepção, transformaram-na num ponto de referência atrativíssimo – afinal de contas sobre ela estavam as mais perfeitas guloseimas. A mesa, que antes falava com leviandade, ódio, amargor, que havia magoado todos os demais companheiros com seu azedume e despeito, agora estava calada, parecia constrangida pelo mal-estar que havia proporcionado. 
A festa, no entanto, havia acabado para os demais móveis e enfeites da casa. E ela finalmente se deu conta de que fora uma estúpida, invejosa, grosseira e, pedindo desculpas, baixou a vista. Era tarde. Nunca mais conseguiu reconstruir as amizades que, com palavras ferinas e desnecessárias, destruiu.
Um velho relógio, muito sábio, a olhou condescendentemente e disse: “A paciência é uma grande virtude, porém é um dom tão raro! Estar com raiva é possível, mas ninguém tem o direito de atirar contra os outros as suas próprias frustrações”.

REFERÊNCIAS:

CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. Apólogo da mesa. In: Revista de Literatura e Artes Boca Escancarada, n. 5, p. 21 – 22, mai. / ago. de 2014.

RESUMO: "POR QUE (NÃO) ENSINAR GRAMÁTICA NA ESCOLA?" (SÍRIO POSSENTI)


CONSIDERAÇÕES INICIAIS:

Este livro está dividido em duas partes: 1) na primeira parte, o autor elabora dez teses sobre o ensino de gramática e 2) na segunda, estão expostos conceitos de gramática e reflexões que apontam para seu ensino no espaço escolar.

OBJETIVOS DO AUTOR:


  • *   Discorrer sobre um conjunto de princípios destinado a provocar reflexão sobre o ensino de gramática da língua portuguesa;


  • *     Propor teses sobre o ensino da língua materna sem, com isto, cair no plano das experiências que transformam, por vezes, o aluno em objeto de experimentos;


  • *     Refletir sobre a concepção de língua e de ensino de língua na escola.

PRIMEIRA PARTE

“Em que consistiria o domínio do português padrão? Do ponto de vista da escola, trata-se em especial (embora não só) da aquisição de determinado grau de domínio da escrita e da leitura”. (p. 19)

“Uma das medidas para que esse grau de utilização efetiva da língua escrita possa ser atingido é escrever e ler constantemente, inclusive nas próprias aulas de português”. (p. 20)

TESES
TESE 01

O objetivo da escola é ensinar o português padrão, ou, mais exatamente, o de criar condições para que ele seja aprendido.

TESE 02

Damos aula de que a quem? Para que um projeto de ensino de língua seja bem sucedido, uma condição deve necessariamente ser preenchida, e com urgência que haja uma concepção clara do que seja uma língua e do que seja uma criança (na verdade, um ser humano, de maneira geral).

TESE 03

Não há línguas fáceis ou difíceis. Todas as línguas são estruturas de igual complexidade. Não existem línguas simples e línguas complexas, primitivas e desenvolvidas. O que há são línguas diferentes.

TESE 04

Todos os que falam sabem falar. Saber falar uma língua significa saber uma gramática. Saber gramática não significa saber de cor algumas regras que se aprendem na escola, ou saber fazer análises morfológicas e sintáticas. Saber uma gramática é saber dizer e saber entender frases.

TESE 05

Não existem línguas uniformes. Neste sentido: a) todas as línguas variam, isto é, não existe sociedade ou comunidade na qual todos falem da mesma forma; b) a variedade linguística é o reflexo da variedade social e, como em todas as sociedades existe alguma diferença de status ou de papel entre indivíduo ou grupos, estas diferenças se refletem na língua c) os principais fatores de diferenciação são: geográficos, de classe, de idade, de sexo, de etnia, de profissão, etc.

TESE 06

Não existem línguas imutáveis. Nenhuma língua permanece uniforme. 

TESE 07

Falamos mais corretamente do que pensamos. É relativamente pequena a diferença entre o que um aluno (ou outro cidadão qualquer) já sabe de sua língua e o que lhe falta saber para dominar a língua padrão.

TESE 08

Língua não se ensina, aprende-se. Não se sabe muito bem o que se passa na mente humana, o fato observável é que todos falam, e muito, e bem, a partir de três anos de idade. Não se aprende por exercícios, mas por práticas significativas. 

TESE 09

Sabemos o que os alunos ainda não sabem? Os programas anuais poderiam basear-se em levantamento do conhecimento prático de leitura e escrita que os alunos já atingiram e, por comparação com o projeto da escola, uma avaliação do que ainda lhes falta aprender. 

TESE 10

Ensinar língua ou gramática? O domínio efetivo e ativo de uma língua dispensa o domínio de uma metalinguagem técnica. É possível aprender uma língua sem conhecer as regras com as quais ela é analisada. 

SEGUNDA PARTE

ENSINO DE GRAMÁTICA:

Estudo de regras mais ou menos explícitas de construção de estruturas (palavras ou frases). Um exemplo dessa primeira atividade é o estudo das regras ortográficas, regras de concordância e de regência, regras de colocação dos pronomes oblíquos etc.

Análise mais ou menos explícita de determinadas construções. Exemplos são os critérios para a distinção entre vogais e consoantes, critérios de descoberta das partes da palavra (radical, tema, afixos), análise sintática da oração e do período, especialmente se isso se faz com a utilização de metalinguagem.

CONCEITO DE GRAMÁTICA:

A palavra gramática significa “conjunto de regras”:

1) conjunto de regras que devem ser seguidas (normativa ou prescritiva);
2) conjunto de regras que são seguidas (descritiva);
3) conjunto de regras que o falante da língua domina (internalizada).

CONCEPÇÃO DE LÍNGUA:

A cada uma das definições de gramática apresentadas acima corresponde uma concepção diferente e compatível de língua:

1) Para a normativa, a língua corresponde às formas de expressão observadas produzidas por essas pessoas cultas, de prestígio.
2) Para a descritiva, encara a língua falada ou escrita como sendo um dado variável (não uniforme), e seu esforço é o de encontrar as regularidades que condicionam essa variação.
3) Para a internalizada, a língua deve ser compreendida como conhecimento interiorizado.

REFERÊNCIAS:

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1996.




CRÔNICA: O QUE É SER MAU-CARÁTER?


O que uma pessoa quer exprimir quando diz que alguém tem caráter? Creio que se remete à índole, à integridade moral, à retidão, à firmeza e à honradez com que a pessoa age diante das mais diversas situações cotidianas.

Neste sentido, o que seria uma pessoa sem caráter, ou melhor, mau-caráter? Fiz pesquisa e constatei que a lista de sinônimos é longa, exige síntese. O mau-caráter é, portanto, tratante, covarde, mentiroso, desleixado, troçador, infame, desonroso, trapaceador, vigarista, traiçoeiro, fraudulento, velhaco, desleal, falso, utilitarista, improbo, interesseiro, duvidoso, impudico, cínico, sem-vergonha, descarado, cafajeste, calhorda, biltre, mal-educado, desrespeitoso, rude, grosseiro, provocador, violento, estourado e, o que é pior, do meu ponto de vista, vulgar.

Eu não quero ser assim, Deus, não quero. Eu estou ciente de que o ser humano, falível que é, pode trazer em si alguns ou todos esses adjetivos. Mas eu não quero, não aceito, não posso fiar-me na ideia de que também poderia agir assim apenas porque, irremediavelmente, sou humano. Ademais, a história mostra que muitos humanos conseguiram ter caráter irreprochável. Ninguém é perfeito, é certo, por isto é possível que um dia ou outro o espírito desande e aja de acordo com alguma das condutas que, em seu conjunto, formam o mau-caratismo. A imaturidade pode nos levar a isto, mas a imaturidade precisa passar. A proposito, triste do ser humano que não sente a necessidade de mudar, de repensar a conduta, de vislumbrar possibilidades de crescimento.

Dentre os termos que enumerei acima, parece-me que o pior do mau-caráter é ser desleal e, neste caso, acrescento o fato de que todo desleal é ingrato. Ingratidão é um aspecto terrível na conduta de alguém, devo dizer. Além disso, deslealdade, que vem certamente da ingratidão, torna o indivíduo falso porque, para conseguir o que queria de alguém, o desleal deve ser perito em falsidade – e a isto se acresce novo aspecto: visão utilitária das coisas e pessoas. O indivíduo deseja alcançar algo, cria traiçoeiramente uma estratégia, utiliza a falsidade para engabelar o outro e age cínica e sorrateiramente destruindo, sem qualquer reflexão sobre respeito, a vida de alguém. Uma pessoa mau-caráter, ao que parece, é um Atlas – o mundo pesa-lhe nas costas porque ela precisa articular muitas ferramentas para conseguir o que quer.  

Eu não quero ser assim, meu Deus, não quero. E, pensando nisso, dentre os traços que comprometem minha índole, o que é triste demais, a covardia é o mais gritante. Tanto a dizer e realizar, mas o excesso de prudência – não seria melhor dizer medo? – me desencoraja. Tem a ver com a minha infância? Precisei silenciar demais, fugir do enfrentamento, aceitar calado a violência da vida. Eu tinha mãos erguidas pedindo auxílio, porém, como eu não gritava a plenos pulmões, por não saber gritar, ninguém via o vazio nelas renascido. Aprendi a escrever, no entanto, e isto foi um alívio.

Grande alívio este: quem escreve quer ser lido. Os clássicos não são lidos, que espaço terão os amadores? A insegurança também constituiria a índole mau-caráter? Tenho inseguranças demais, devo dizer. Tendência à mágoa também? E orgulho? E omitir, algumas vezes, coisas que desagradariam ao outro? Forçar indiferença pode ser mau-caratismo? E não querer ver para sempre-sem-fim a face de quem se mostrou mau-caráter? Raiva represada, raiva exibida, raiva em tom de voz, raiva no desprezo dispendido, raiva de moer com o olhar, raiva sem precedentes – isto também indica traços de alguém sem caráter?   

Quero tirar o mundo das costas, porque ter caráter pode conduzir o indivíduo à leveza – é a isto que devoto meu pensamento. Preciso de leveza e paz – que ambição hercúlea! Eu posso ter sido falho mil vezes, ou melhor, eu falho milhões de vezes, no entanto estou aqui confessando meus pecados mil vezes mil para, a partir disto, prosseguir e não tornar a pecar. Deus precisa estar comigo, porque, diante da vida e sua imprevisibilidade, a carne tende a ser fraca e, disto estou certo, a gente busca maturidade, caráter digno, gestos fraternos, mas as adversidades e a preservação da vida podem pesar na hora de darmos respostas ao mundo. Eu, assim como Sophie[1], também preciso fazer minhas escolhas – ah, e que eu encontre em mim a leveza que tanto busco.

Émerson Cardoso
10/02/18




[1] Sophie’s choice (1982) é um filme norte-americano de drama dirigido por Alan J. Pakula, que rendeu a Meryl Streep seu primeiro Óscar de Melhor Atriz em 1983.