terça-feira, 23 de julho de 2019

CONTO: "A CARNE"


Ela fechou a porta do quarto. Encostou-se à parede oposta à porta – último apoio na prelibação da queda. Seus olhos eram espessas águas. Relâmpagos fotografavam o silêncio em sua boca. 
Antes...

             – Você me causa nojo! Não presta pra nada! Não vale nada! – Gritou o marido.
           – Eu realmente não valho nada porque sou casada com um verme, um monstro, um cretino da sua igualha! – Respondeu ofendida.

O quarto fechado e a lembrança da pancada no rosto. Quatro paredes azuis que se movimentavam contra seu corpo. Nenhuma janela lhe era possibilidade. O teto parecia perceber o patético da cena e ria sádico. Havia o chão e a sensação de abraçá-lo. Os móveis se deformavam como imagens imersas em profundas águas. Ela também descia às profundezas. Seu vestido estava envergonhado de cobri-la. O tempo exigia um gesto. O quarto enregelou-se. Ela não seria nunca mais ela mesma se...
Antes...

– Repita! – Levantou-se o marido que estava sentado à cabeceira da mesa em que ela e os três filhos jantavam.
– Verme! Monstro! Cre-ti-no! – Explodiu com desafiadores olhos.

A mão que tocou tantas vezes seu corpo... A mão que fez juras de amor... A mão que trazia um símbolo de compromisso firmado... A mão revoou na atmosfera gélida da sala de jantar e, como ave de rapina que em um golpe arrebata a presa, cessou o voo em seu rosto. Ela recebeu calada e esmiuçada e perdida e ferida e destruída a pancada. Os filhos não desviaram o rosto: “Como olhá-los novamente?” E agora que os cacos da família caíram sobre si, faria o quê? Precisava de uma ação. Precisava de forças para a ação, mas... O que fazer quando regida pelos olhos amedrontados dos filhos? O que fazer com a fúria do marido? O que fazer quando treze anos trituram o rosto de uma mulher sozinha?

Ao quarto deslocou-se em contígua embarcação. Tempestade assolou seu sombrio mar. Os raios se repetiam continuamente em seu rosto, que ardia em fogo. Entre afogar-se e permanecer no chão que lhe faltava, havia somente medo de que...
Antes...

– Essa carne é de que múmia? Você não presta nem pra fazer um bife! – Falou o marido de boca cheia.
– Fico impressionada com sua gentileza! – A esposa ofendida.
– Com você a gente esquece qualquer gentileza! – O marido de boca cheia.
– Sugestão, meu amor, não coma da carne que “você” me fez comprar com o pouco dinheiro que restou da farra que você deve ter feito ontem! Quanto às suas gentilezas de búfalo, dispenso todas elas! – A esposa muito ofendida.
– Eu detesto essa ironia sua! Coisa de mulher baixa! Você parece aquelas mulheres que se vendem... – Usou eufemismo preocupado com a presença inestimável das crianças.
– Eu devo parecer, realmente, com esse tipo de mulher... A diferença é que faço o mesmo que elas desde que casei, mas faço isso gratuitamente, por burrice minha! Sou tão baixa que nem pra ser baixa eu prestei! Mas cuidado: as coisas podem mudar!
– Pensando bem, nem pra isso você ia prestar! Você é tão ruim que eu acho que ninguém pagaria por seus serviços que, sinceramente, nunca foram bons! – O marido, com boca cheia, sorriu com escárnio.
– Como eu consigo conviver com uma pessoa como você?! E peço, por favor, que você pare com essa baixaria diante dos “meus” filhos. – Disse com sofreguidão e levantando-se. Seus olhos não escondiam as olheiras da noite mal dormida.

Pancada no rosto na frente dos filhos! Olhou para o espelho sobre a cômoda. Como confrontar a si mesma em um olhar? O marido nunca esteve tão dentro dela como naquela noite. Duas almas em um só corpo, dois corpos em uma só alma e uma só carne. Ela encostou-se na parede e respirou, como se buscasse no mais profundo de si a possibilidade de permanecer viva. A carne. A carne em fragmentos. A carne sobre a mesa esperando putrefação. Os olhos das crianças conduziram-na para a travessia. O mar explodia em seu rosto com relâmpagos e trovoadas. 
Antes...

– Baixaria diante dos “seus” filhos? Olha só quem fala! A pior baixaria é ter que viver com você, sua... – Tentou se conter e partiu mais um pedaço de carne. Engoliu-a.
– Você parece que está com algum problema, não é? Pra jogar em mim suas frustrações como você faz, criatura educada, só estando com problema! Mas o que foi mesmo que aconteceu? O seu patrão percebeu o quanto você é desonesto, ou foi a sua “outra” que decidiu trocar você por um sujeito menos idiota? Será que as pragas da sua mãe começaram a cair sobre você, ou os credores decidiram que você é um irresponsável? Caso tenha um desses problemas, meu amor, desconte neles e não em mim, eu mesma não tenho nada a ver com sua vidinha de adolescente!
– Você dá nojo a qualquer um... Só sabe dizer asneiras... Também, tendo as irmãs e a mãe que tem... Eu poderia esperar o quê? – A carne na mesa para ainda ser comida: uma boa porção.
– Coma mais carne, meu amor, parece que gosta de múmia... Coma e não se esqueça de engasgar e morrer sufocado!
– É lógico que gosto de múmia! Eu casei com você, esqueceu?
– Seu imundo!
– Imunda é você, que me causa nojo só de pra você olhar! Você não presta pra nada! Não vale nada! – Gritou o marido.
– Eu realmente não valho nada porque sou casada com um verme, um monstro, um cretino da sua igualha! – Respondeu ofendida.
– Repita! – Levantou-se o marido que estava sentado à cabeceira da mesa em que ela e os três filhos jantavam.
– Verme! Monstro! Cre-ti-no! – Explodiu com desafiadores olhos.

Ela não escutou mais nada e, no auge da tempestade, houve um raio que a atingiu no rosto. Torre ao chão, engoliu a saliva – saliva transformada em sangue – e arrastou-se para o quarto. No quarto, precisaria agir, mas... Dos olhos jorraram sombras e medos e angústias e treze anos de subserviência. O que fazer? Os olhos dos filhos guiariam por quanto tempo sua embarcação? Foi então que ela... Ela arrastou pelo corredor uma desalinhada mala e, altiva, finalmente, foi embora para nunca mais.


CARDOSO, Cícero Émerson do Nascimento. A carne. InBreve estudo sobre corações endurecidos. Maricá - RJ: Ponto da Cultura Editora, 2011. p. 15 - 18. 

CRÔNICA: ISABEL ALLENDE, POR QUE SOU DESLOCAMENTO?


Como sou viciado em entrevistas, acordei angustiado e procurei alguma que me fizesse ficar mais alegre. Em minha busca, encontrei Isabel Allende sendo entrevistada na década de 1990. Mal concluí o vídeo, em êxtase, devo dizer, e eu me postei a escrever um texto. Há pessoas extraordinárias no mundo – Isabel Allende é uma delas.

Em certo momento da entrevista, Allende falava sobre a sensação de deslocamento que é comum a alguns escritores. Ela se indagava se, em seu caso, teria a ver com o fato de ter sido abandonada pelo pai. Eu não poderia me sentir mais identificado com ela – seja pela sensação de deslocamento no mundo, seja pelo fato de que também vivenciei essa experiência pouco simpática de abandono paterno.

Deslocamento é sensação que me define. Mais intensa ou mais forte em certos momentos, estar deslocado do mundo sempre foi meu modo de percebê-lo. Parece que eu traio a mim mesmo sempre que tento me adequar ao que sugerem ser comum, normal ou típico. O mundo não é meu e eu não sou dele – estamos fadados a uma relação de fracasso desde sempre.

Parece-me que, para fazer parte, para me integrar, para adequar meu olhar estranho ao mundo e seus artifícios, vivo as experiências que os demais exigem de mim. Volto do campo de batalha, no entanto, cada vez mais destruído. Minhas mãos retornam vazias e meu olhar envolto em névoa. As pessoas não sabem, nem sentem, mas vivê-las é caos que meu espírito não comporta.

Exilado no mundo, meu espírito – se existe algum – deseja voltar para casa com a esperança vã de que haja espaço que represente pertencimento. Pessoas, lugares, experiências, tudo é vão para meus pés que não sabem marchar – há tanta luta que não sabe de meu coração medroso!

Para tentar convívio, para entender o mundo, por medo, faço o que os outros poderiam aceitar como gesto de ajuste, porém meu corpo não suporta a dor de ajustar-se. Vivo minhas causas com tentativa de transgressão, no entanto mal passa o gesto e a vergonha arremessa, com violência, meus olhos contra um espaço que não lhes cabe. 

Nas mãos de quem o parece comportar, meu corpo morre. Não sinto vida quando tateiam do meu corpo a palidez e o desajuste. Quando me permito a isso, estou sem chão, estou sem mim. O mundo não me pertence, nem eu a ele. Estou sozinho em exílio estranho. Preciso de luz nas trevas do que ainda sou, mas não me encontrarei comigo mesmo enquanto eu não conseguir dizer NÃO para o que é o SIM do mundo. Estou cansado de tentar adequações. Será que meu lugar de paz não está exatamente no deslocamento que me define e, sinceramente, me amplia? Será que meu destino não é organizar meu mundo para melhor lidar com o espaço externo a ele tão violento e trágico? O mundo, disso estou certo, não me comporta! 

Émerson Cardoso
23/07/2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

CRÔNICA: "2019 É PARA OS FORTES"


Ao abrir a porta de casa, vi um gato de amarelos olhos que me olhou indiferente e disse: "2019 é para os fortes!" Quem me conhece sabe o sentimento que devoto a gatos - meu corpo responde eriçado quando vejo um. O gato sentou-se à minha frente e passou a ditar o texto que transcrevo abaixo:

"2019 é para os fortes! Sim, a coisa anda séria. Não percebo luz no fim do túnel. Homens e mulheres estão psicologicamente abalados - o índice de suicídios aumentou no país. E você, então, que já nasceu propenso a abalos, está nitidamente uma pilha de nervos, hein! 

2019 é ano do Pendurado - que não me deixe mentir o tarot. Ano ímpar, de aspecto grosseiro, oscilação da harmonia e desengano, 2019 tem rido dos fracos. Por isto, somente os fortes sobreviverão a ele. 12 pendurados em 12 meses em 12 símbolos e 12 quedas...

Eu poderia sugerir que você andasse ao vento, como eu, e eriçasse os pelos com a mesma maestria com que eu o faço. Eu poderia mandar você lamber-se despreocupado, como eu, porque medos e desesperos e angústias durante o ano não passarão rápido. Bem, mas como o brasileiro é dado a subserviência e caos, prefiro dizer outras coisas: tenha brio, erga a cabeça, apoie amigos e amigas e siga em frente! Não há isentos no caminho estreito que o ano nos forçou a caminhar - então, reaja!  

Meus olhos bifurcados veem você com pena. Que vida: presidente medíocre, Brasil dormente! Ignorância explícita, esquizofrenia nacional! Ah! Não tem como não rir quando vislumbro brasileiros em suas janelas sem rua! Que berço é este no qual vocês foram atirados? Tenho vergonha por você, querido! Vergonha por você e de você... 

Há tanta gente doendo, no entanto o silêncio impera. Há tanta gente gritando, todavia não há barulho em espaço algum. Vejo gente paralisada de medo, de aceitação, nadando em rios de dissimulação... Aprenda algo comigo, que sou alma que não mede esforços para o desprezo ao caos e gosta de auto-lambidas reconfortantes: reaja! Espero água e alimento sempre - e tenho pressa! Você, frágil espírito, merece o quê nesta vida em farpas? 

2019 é ano para quem tem músculo, para quem tem sangue, para quem tem coragem! Se você, pobre criatura, conseguir sobreviver a ele, disto estou certo, não haverá no mundo quem o segure! Então, covarde, cuspa quando ouvir nomes de governantes e seus comparsas despreparados - não deixe que eles tornem você um espírito inerte! Pise na cabeça das serpentes eleitas pela gentalha acrítica - a Roda da Fortuna também poderá girar no cenário político! E, mais do que isso, aprenda o que disse Fernanda Montenegro: "Para se superar a gente precisa amar a vida, tem que se querer estar vivo". E tenho dito!"

A verdade exposta pelo gato que me abordou me causou espanto. Gatos sempre mordem minhas mãos e pés em sonhos desde a infância. Agora, pelo que vejo, eles querem roer minha consciência - e isto pode ter uma grande utilidade em mim!

Émerson Cardoso
18/07/2019 

domingo, 16 de junho de 2019

CRÔNICA: QUEM TEM MEDO DE SER HUMANO?


Há uma canção cristã, de autoria do admirável Padre Zezinho, que diz: "Não sou santo, nem sou anjo, nem demônio, eu sou só eu..." Esta letra de canção, intitulada Canção dos imperfeitos, me faz refletir tanto sobre mim, sobre meus arroubos de humanidade empedernida e sobre o quanto sou complexo em minha tentativa estúpida de ser perfeito demais. Constato, a cada ano que passa, que, em decorrência de auto-policiamentos constantes, tenho me tornado vítima de uma estranha necessidade de autorrepressão e, também, de uma sensação de culpa que me atormenta em demasia se não cumpro as regras que eu mesmo estipulei para mim. 

Na busca doentia de não errar, eu termino, muitas vezes, por errar mais e, consequentemente, vivencio uma culpa sem precedentes na história da humanidade. Crio para mim mesmo, por motivos diversos, os mais absurdos meios de auto-punição. Por que trago em mim essa estúpida pretensão de nunca errar? Por criar essa suposta busca pelo não erro, condeno os meus erros e os dos outros - e este último ponto me é mais grave. Com que direito posso apontar os erros dos outros, julgá-los e condená-los? 

A voz lírica da canção mencionada acima diz: "Eu sou contradição, eu sou imperfeição, só Deus é coerente!" Isto me define: quero ser perfeito, mas, paradoxalmente, torno-me mais imperfeito. Incoerente que sou, transformo a consciência do erro em dor e, como forma de amenizar, torno-me severo demais comigo e com o mundo. Não seria mais fácil aceitar que o ser humano, em sua pequenez, é falho? Não seria mais fácil aceitar que, sendo um ser humano, eu também faço parte do clã dos que erram aos arroubos? 

Foi assim que, por não me aceitar em minhas falhas, passei dias e noites perdido em sombras e medos e angústias e dores, quando eu poderia ter sido simplesmente eu mesmo e, com isto, eu poderia ter vivido a leveza em sua mais profunda acepção. 

Na ilusão de ser melhor do que aqueles que não procuram se auto-policiar, como eu fiz a vida inteira, no que me tornei? Eu me tornei, em certos momentos, deprimido, monomaníaco, medroso, perdido e infeliz. Procurei a solidão como subterfúgio e, com isto, tumultuei meu ser com vozes auto-depreciativas e cheias de auto-comiseração. 

Além disso, busquei ser coerente quando, em verdade, criei desculpas para não me aceitar passível de erro. Revesti meu rosto com máscaras que afixei em mim com pregos dilacerantes. Menti para mim mesmo, fingi milhões de telas e palcos, porque o ato de assumir para si mesmo que errar é permitido não é algo que se possa vivenciar sem um script bem delineado. 

A pergunta que me vem à mente após essas reflexões é esta: o que sou senão um ser imperfeito, incompleto, em processo de descoberta e que, inevitavelmente, erra? Eu caio, perco as estribeiras, minto, invejo, ambiciono, desejo, tenho raiva... Eu sou contradição, imperfeição, incapacidade de perdoar... Eu sou um poço de rancor e tenho medos absurdos e incontroláveis!

O que mais faço, e devo repensar isto com urgência, porque não tenho condições morais para fazer isso, é apontar os erros dos outros. Com que direito eu poderia apontar erros quando eu mesmo os tenho aos turbilhões? Acredito que a leveza da vida, em sua forma mais prática e real, é coisa de gente que não se propõe a ser Deus. Com isso, não quero dizer que devo tornar-me um atordoado sem prudência e assimiliar toda leviandade do mundo com a desculpa de que não devo viver de autorrepressões. O que quero dizer, em verdade, é que talvez eu só consiga ser uma pessoa melhor e mais digna quando for capaz de me reconhecer em minhas limitações e, desse modo, quando for capaz de reconhecer o outro em suas limitações e respeitá-lo, aceitá-lo e até amá-lo. 

O que devo fazer, então, para reconfigurar minha vida? Como me tornar uma pessoa mais livre de minhas próprias amarras? Bem, vou buscar as respostas enquanto estiver vivo, porque viver é isto: uma busca por melhores condições existenciais para si e para os outros. Quem sabe, assim, eu passe a perdoar o mundo e a mim mesmo por sermos, todos, para o bem ou para o mal, humanos!

Émerson Cardoso
18/06/2019


quarta-feira, 5 de junho de 2019

CRÔNICA: "OS SOLITÁRIOS", DE MARTHA MEDEIROS


Mateus Meira, que disparou contra a plateia de um cinema de São Paulo, em 1999, era um cara sem amigos, não frequentava grupos. Wellington Moreira, que matou alunos de um colégio em Realengo, não tinha namorada e quase nunca saía de casa. Anders Breivik, o norueguês que matou 77 jovens na Ilha de Utoya, só se relacionava com alguns poucos fanáticos como ele, pela internet. James Holmes, que semana passada matou 12 pessoas durante a exibição do novo filme do Batman, nos Estados Unidos, era considerado um sujeito recluso.
Não significa que cada garoto trancado em seu quarto vá amanhã ter seu dia de psicopata, mas coincidência não é. Estudos revelam que grande parte dos que cometem essas atrocidades são depressivos e, por consequência, se isolam da sociedade. Muitos não buscam tratamento, consideram-se apenas “na deles”. E os pais acabam por respeitar seu jeito de ser. E os colegas não os chamam para as festas. E as garotas os rejeitam e namoram meninos mais populares. Apartados de todos, eles vão se confinando num cativeiro mental e social, passando a levar mais em conta a fantasia do que a realidade. Mas sofrem com a exclusão, ou não desenvolveriam uma personalidade tão vingadora.
Não se mata para brincar. Quem atira está atirando em inimigos imaginários, oriundos da conhecida “oficina do diabo”.
São tragédias de exceção, não acontecem todo dia, mas há solitários que, em grau bem menor de maluquice, também se transferem para universos paralelos e alimentam ideias absurdas que, por não serem discutidas com amigos e parentes, acabam fermentando e levando a desastres. No máximo, buscam na internet pessoas tão isoladas quanto eles, que confirmam suas sandices. Se discutissem com quem realmente os conhece, com quem os ama, seriam questionados e viveriam a experiência da troca de ideias e da orientação. Mas sozinhos, entre quatro paredes, correm atrás da veneração garantida de outros outsiders.
Sempre que um filho nosso está com algum problema (ou sofrendo porque uma garota não quis sentar a seu lado na aula, ou com notas baixas, ou com espinhas, vá saber), é preciso se perguntar: ele tem amigos? Ele é convidado para aniversários, viagens, churrascos, jogos esportivos? Ou ele é um esquisitão que não quer saber de ninguém e ninguém dele? Porque se ele tem amigos de fato, os problemas provavelmente são típicos da idade, e não sintomas de uma desadaptação crônica.
Ter um ídolo não é ter um amigo. Conhecidos virtuais tampouco formam uma turma de amigos. Dizer “oi, tudo bom?” é só um cumprimento. Relacionar-se é outra coisa: exige tempo, dedicação e abertura para conviver com pessoas variadas e diversas, o que ajuda a formar uma identidade saudável.
Quem não se relaciona com os outros, pensa que se basta sozinho, mas não se basta: dentro da cabeça, dá trela a seus demônios, os únicos a quem escuta.

MEDEIROS, Martha. A graça da coisa. Porto Alegre: L&PM, 2013. p. 102 - 104.                  

CONTO: "O MARTÍRIO DE EULÁLIA" (PRÊMIO SESC DE CONTOS - 2018)


A velha Eulália, sentada à porta da frente da pobre habitação, espiava o mundo com olhos conformados. O verde da mata em tempo de chuva eram seus olhos. Se pudesse, para passar o tempo, faria tranças de palha de carnaúba e, com elas, chapéus – aprendera esta arte quando menina.
Na infância, Eulália foi tão maltratada pela mãe que, para livrar-se, assim que se pôs moça, decidiu casar-se com o primeiro que Santo Antônio lhe arrumou. Para o casório, que se deu em mês de maio florido, ela precisou fugir. O noivo, sendo mais velho do que ela sete anos, a levou para morar em terras compradas por ele com suor e sangue. Ele levantou casa, mesmo sem ter móveis para orná-la, no sopé da Chapada do Araripe, nas imediações de um velho tamboril.
Pouco depois de casada, Eulália engravidou. Apenas a terceira criança do casal conseguiu sobreviver. Ela não era feliz com o marido, pois ele era tão trabalhador quanto possessivo e ciumento. Não a deixava sair a não ser para buscar água na cacimba de uns vizinhos. Proibiu-a de fazer trança de chapéu porque ela fez amizade com uma viúva que, uma vez por semana, mandava o filho, já homem feito, ir buscar os chapéus aprontados sem que ele estivesse presente. Diversas vezes imaginou o encorpado rapaz, de rosto grande, com riso de lado e camisa aberta, em sua porta, para com sua mulher prosear. Não sabia como dizer à esposa que imaginar aquele rapaz a conversar com ela em sua ausência era o mesmo que morrer da pior morte.  
            Ele proibiu a mulher de fazer chapéus e esconjurou a amizade dela com a viúva, mas ela não lhe deu ouvidos. Não cuidava de casa? Não dava assistência e educação à menina? Não fazia comida e buscava água todo dia para encher os potes? Água para ele se banhar não era ela quem trazia? Tinha seu direito de espairecer. Ademais, com suas tranças de chapéu, ganhava um tostão que fosse para comprar alguma coisa que ele não podia lhe proporcionar. O marido não gostou de ouvir os argumentos da esposa e disse: “Quem se defende demais malfeito esconde!”
Ao chegar da roça, em fim de tarde fatídico, o marido constatou que a mulher não estava. Gritou seu nome mil vezes, procurou-a nos arredores com desespero. Maldou, de repente, que ela poderia ter ido à casa da viúva. De fato, viu-a já no alpendre da amiga, prestes a sair. Segurava um molho de palha de carnaúba na mão direita e, na esquerda, um corte de pano estampado com flores cinzas que, com o dinheiro dos chapéus, a amiga fizera-lhe o favor de comprar na cidade. O filho da viúva, de riso de lado, preparava-se para acompanhá-la até sua casa, com a menina nos braços. 
            Indignado, o esposo-magoado-esposo correu em direção ao rapaz e tomou nos braços a filha. Eulália, constrangida, despediu-se de todos e o acompanhou. Nada falaram durante o percurso. Em casa, mal ela entrou e o marido a forçou a deitar a menina na rede – ao que ela obedeceu. Ele a arrastou para a cozinha e ordenou-lhe que colocasse as mãos sobre o fogão de barro. Como ela não se mostrou obediente, ele ameaçou: “Ou faz o que digo, ou mato a menina!” Saindo para o terreiro, ele pegou, perto do girau, um machado afiadíssimo. Retornou para a cozinha e a esposa, com olhos em profundas águas, tentou falar algo, mas ele não a quis escutar...
        Sobre o fogão: os braços dispostos, os trêmulos pulsos, os abismados olhos, o apavorado coração a bater, a perplexidade que a impedia de defender-se. Concentrou, o marido, descomunal força nos punhos de ferro e, em golpes certeiros, decepou, amputou, despedaçou, partiu, quebrou, na altura dos pulsos, as polidas-pálidas-pacíficas mãos da esposa. Para golpes certeiros, um grito somente.
No depois: o sangue jorrou em seu rosto, seus olhos verdes avermelharam, embranqueceram seus lábios. Ela sussurrou inaudível nota – o dolente som da não crença no absurdo que a devastava. Sentiu o sangue descer, deslizar, chuva quente, enchente que o chão preenche de dor, enxurrada que o grito não represa, punhos chanfrados que a mágoa não enxuga, ossos achincalhados por másculo metal. Devastada, destruída, ao chão desceu e, na tentativa de apoiar-se, não encontrou as mãos. Quis passear os dedos no rosto: onde as mãos? Quis arrefecer o sangue: onde as mãos? E a voz do marido lhe fustigava: “Pra aprender a não ser desobediente!”
       Os vizinhos, donos da cacimba, levaram-na, de carroça, para a cidade. Os pulsos foram costurados e, por certo, houve milagre – ela sobreviveu. O povo da circunvizinhança inconformado, o povo da cidade comovido. Padre Cícero, recém-falecido, recebeu muita promessa. Quanto ao marido, desapareceu até o dia em que foi encontrado aos pedaços, anos após, em terras paraibanas, porque, como diriam os conhecidos de Eulália: “Quem aqui faz, aqui mesmo tem sua paga!”
A menina, que cresceu com ajuda do povo, não teve infância, nem mocidade, foi sempre adulta para cuidar da mãe. Nunca se soube de familiares cruzando seus batentes, porém a caridade dos vizinhos não as deixou em desamparo. Eulália jamais retomou o assunto, tampouco quis se maldizer da vida. Seus olhos eram profundas águas regidas por singeleza, silêncio e solidão.   
          Foi em tarde fria de maio que se deu. No lugarejo, de repente, apareceu um perfume de rosas tão intenso que o povo se espantou. A menina percebeu, naquele momento, que a velha mãe, que dormitava raramente à tarde, não queria acordar. E seu rosto estava pacificado. O povo foi informado de que a velhinha, da casa sombreada pelo vasto tamboril, havia falecido. Vendo a mãe morta, a menina, abismada, guardou-a no espelho de seus olhos empoeirados e, aturdida, saiu à porta. Deslizava na estrada um tropel de anjos que a convidava a retirar-se pelo mundo – e ela, com a roupa do corpo, enlouquecida, se foi.   

CARDOSO, Émerson. O martírio de Eulália. In: Coletânea de contos: Volume VII / Serviço Social do Comércio - SESC. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2018. p. 28 - 30. 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

RESUMO DO MEU PRIMEIRO ROMANCE: "O CASARÃO SEM JANELAS"




Um escritor inseguro quanto ao seu ofício depara-se com uma cena: há uma velhinha sentada no alpendre de um casarão construído há anos num sopé da Chapada do Araripe, floresta que corta, dentre outras cidades, Crato – interior do estado do Ceará. A partir desta imagem, o escritor decide contar uma história. Quem construiu o casarão? Por que o construiu sem janelas? Quem era aquela velha solitária cujo olhar comovente parecia perder-se em cenário tão desolador? Na tentativa de desvendar o olhar anônimo dessa personagem, o escritor passa a contar a história do casarão, construído sem janelas, e a história de seus habitantes. Para contar a história, o escritor dá voz a algumas personagens para que elas apresentem suas versões dos fatos. Com uma linguagem que tenta reproduzir as idiossincrasias linguísticas da região em que as personagens estão inseridas, surgem os depoimentos de Augusta (a ex-escravizada cujo comportamento ambíguo movimenta consideravelmente a trama) e das irmãs: Maria dos Anjos (dona do casarão e responsável por sua revitalização), Angelita (que após um casamento conturbado foge do marido e vai buscar abrigo no casarão da irmã) e Lina (a versão jovem da velhinha que, no início do romance, aparece no alpendre e estimula o escritor a desvendar sua história). Outras personagens ganham voz na enredística: uma personagem muda que se chama Maria Tacita (suas intervenções são indicadas por meio de pontilhados), o Tempo (que ao narrar parece primar por intenso lirismo), o Açude (que narra fatos vinculados especificamente à personagem Ana, filha de Angelita), o Silêncio (que, em verdade, é o não-dito da personagem Maria Tacita), a Solidão (que enfatiza a visita de Lina a Juazeiro do Norte, momento em que surge o Padre Cícero – personagem histórica que comporta visões ambivalentes a seu respeito) e, por fim, o Casarão (que, considerado maldito pela circunvizinhança, apresenta uma versão elucidativa acerca de sua construção e das pessoas que nele habitam).  O título da obra metaforiza a condição das personagens femininas que vivem o enredo. A ausência de janelas no casarão representa, nas camadas profundas do texto, a esterilidade a que a visão patriarcal submete a mulher. Vítimas dos mais diversos conflitos existenciais, as personagens desse romance formam uma confraria de sujeitos femininos que tentam, até mesmo contra o tempo e suas devastações, transgredir regras estipuladas socialmente e sobreviver – mesmo quando a morte parece inevitável.

(Émerson Cardoso)